Capítulo 26 — Facções
Aconteceu um dia após o aniversário de Eriel. Toda a facção estava em completo caos devido a uma mudança repentina de planos. Os líderes de todas as facções, que só deveriam chegar dali a alguns dias, chegaram ao planeta por conta de um contratempo inesperado.
Indivíduos que se autoproclamavam membros da Aliança estavam em um planeta fora do sistema solar e, de forma audaciosa, declararam sua intenção de conquistar a Terra.
A Aliança era um grupo rebelde conhecido por sua campanha implacável de conquistas. Décadas atrás, seu líder original havia sido derrotado, o que fragmentou o grupo e destruiu sua força. No entanto, recentemente, um novo líder havia emergido, unindo novamente diversas raças sob uma bandeira comum. Agora, com um poder militar muito maior do que antes, a ameaça que representava era ainda mais significativa.
Para muitas facções, especialmente para os humanos, enfrentar os membros da Aliança era praticamente impossível. Por essa razão, a ajuda dos líderes e seus representantes era crucial.
O almoço, que deveria ser um momento mais tranquilo, durou um pouco. A notícia da crise havia espalhado uma urgência quase palpável, e todos os presentes passaram a se deslocar para suas respectivas áreas de trabalho. Eriel, que deveria sair para uma missão a pedido da Primeira Líder da facção, viu seus planos serem cancelados devido aos novos acontecimentos.
Enquanto caminhava por um corredor, ela viu que a recepção, normalmente movimentada e barulhenta, estava estranhamente deserta. Isso fez com que ela finalmente se desse conta da gravidade da situação.
“Temos que agir rápido?”
Eriel ouviu uma voz familiar. Curiosa, olhou em direção ao som e viu dois rostos conhecidos. Ethan, seu irmão mais velho, estava conversando em um tom baixo com Charlotte, vice-capitã do esquadrão. Eles estavam na área reservada para consumidores de recepção, um local discreto, mas não exatamente privado.
“Certamente. Se tivermos que adiantar o encontro com os líderes, teremos que adiantar os planos também”, respondeu Ethan, cruzando os braços e soltando um suspiro pesado. Ele parecia preocupado, e seu olhar pairava sobre Charlotte. “Seria ideal que o encontro ocorresse quando o selo fosse rompido, mas não será esse o caso. Ainda demorará para destruí-lo completamente. Contudo, podemos enfraquecê-lo.”
Eriel ficou onde estava, escondido, tentando ouvir a conversa. “Selo? Que selo?”, perguntou, franzindo o cenho.
“Vamos continuar com o plano. Ele já está a caminho”, disse Charlotte, com um aceno firme, a expressão dela tão séria quanto a de Ethan.
“Sim”, respondeu Ethan. “Confio essa tarefa para você.”
Charlotte se virou para sair, mas parou ao notar algo.
“Ethan… temos companhia.”
Ethan apenas suspirou e olhou na direção de Eriel, que, percebendo ter sido descoberta, saiu do esconderijo com uma expressão sem graça.
“Sabe, Eriel, é rude escutar a conversa dos outros”, comentou Ethan, com um leve sorriso, embora o tom de sua voz carreguesse uma repreensão sutil.
“Me desculpe… eu não queria bisbilhotar”, disse Eriel, desviando o olhar.
“Notei sua presença no momento em que chegou ao corredor. Sua aura é forte demais para ser ignorada”, respondeu ele, cruzando os braços. “Mas não se preocupe. Se fosse algo confidencial, não estaríamos discutindo em um público local.”
Charlotte apenas observou, sem dizer nada, antes de se despedir.
“Irei para a caverna verificar o inibidor. Assim que concluir, envio o relatório.”
“Faça isso. Conto com você”, respondeu Ethan.
Após Charlotte partir, Ethan voltou a atenção para Eriel.
“Em uma hora, os líderes das facções chegarão. Depois que todos estiverem acomodados, quero que vá até o quarto reservado ao Rei Demônio e ao Monarca dos Vampiros. E não se esqueça de ocultar sua aura desta vez.”
Eriel assentiu, sentindo o peso de suas palavras. Sem dizer mais nada, ela se virou e foi para o quarto se preparar. Um banho parecia necessário para aliviar a tensão daquele dia, e seu uniforme já estava pronto para ser usado.
Enquanto se preparava, Eriel não conseguia afastar as palavras que ouviu. Selo? Inibidor? O que está escondendo de mim? pensou, sentindo um misto de inquietação e curiosidade. Ela sabia que algo grande estava por vir, e a sensação de estar à margem da situação a incomodava profundamente.
***
Os capitães estavam todos reunidos, cada um aguardando em seus postos enquanto os membros das facções aliadas começavam a chegar para a conferência. O ambiente estava tenso, e Eriel sabia que as próximas horas seriam desafiadoras. Após a primeira reunião, cada capitão seria designado a uma sala para auxiliar os líderes.
Eriel foi escolhido para acompanhar o Rei Demônio e a Monarca dos Vampiros, uma dupla conhecida por sua animosidade. Imagino que verei o conflito dos dois em breve, pensou, sentindo a antecipação crescer.
O primeiro a chegar foi o líder dos anões. Ele era um homem de aparência envelhecida, com cabelos castanhos e uma longa barba que denotava sua sabedoria. Seus olhos cansados observavam tudo ao redor com uma calma ponderada, mas havia algo em sua presença que impunha respeito absoluto. Mesmo com sua aura, Eriel conseguia sentir que seu poder era imensurável, provavelmente maior que o de vários capitães juntos.
Ao seu lado, trés pessoas com trajes de batalha, todos com expressões sérias. O que mais se destacava era um homem de físico robusto e postura altiva, que parecia estar na casa dos 30 anos. Se parece tanto com Cledberk. Deve ser o pai dele, pensou Eriel. O grupo caminhou em direção à sala de reunião, suas botas pesadas ecoando no salão.
Logo em seguida, Eriel avistou o rei dos elfos. Ele era um homem de beleza impressionante, com longos cabelos verdes que brilhavam sob a luz e olhos esmeralda que penetravam qualquer alma. Acompanhado apenas de sua rainha, sua postura elegante e serena exalava uma autoridade natural. Eles parecem tanto com Seghav. Se eu não soubesse que são os pais dele, diria que poderiam ser seus irmãos, pensou. Assim como os anões, os elfos seguiram para a sala sem demora.
O próximo a aparecer foi a monarca dos vampiros. Diferente dos outros líderes, ele não fazia questão de conter seu poder. Sua aura transbordava de maneira descontrolada, impregnando o ambiente com uma pressão quase sufocante. Muitos humanos ao redor recuaram instintivamente, incapazes de suportar tanta energia.
Eriel observou com atenção enquanto ele assistia. Seus cabelos negros e olhos amarelados eram inconfundíveis, e sua beleza era hipnotizante, mas havia algo profundamente inquietante em sua presença. Suas roupas negras acentuavam o ar sombrio e arrogante que ele possuía. Ele caminhou sem se incomodar em ocultar sua presença para os humanos ao seu redor, como se fossem invisíveis. Que presença sinistra. Ele é tão diferente do que imaginei, especialmente em comparação com a filha dele, refletiu Eriel, ainda tentando se recompor dos calafrios que sentiu.
Por fim, o último grupo chegou. Quatro figuras misteriosas atravessaram a entrada, todas encapuzadas e usando máscaras. Não havia como discernir suas identidades, e suas auras estavam completamente ocultas. Cada um usava um sobretudo de cor distinta: vermelho, amarelo, branco e preto. Um deles deve ser o Rei Demônio, mas como saber qual? Questionou, intrigada.
Antes que ela pudesse continuar refletindo, Eriel notou Ethan se aproximando. Ele tinha um sorriso preocupado, mas seus olhos eram firmes.
“Eriel, você poderia me acompanhar? Escolhi você como meu representante. Por ser a próxima líder”, disse ele calmamente, mas o peso de suas palavras era evidente.
Eriel sentiu uma onda de nervosismo. Não esperava estar em um evento tão importante, especialmente porque a decisão de permitir apenas líderes e seus representantes fora da tomada de última hora. Os outros capitães não vão gostar disso, pensou, ciente das possíveis repercussões.
“Entendi”, respondeu, tentando manter a compostura.
Ela sabia que não poderia recusar o pedido de Ethan na frente de tantas pessoas, e ele sabia disso também. Enquanto os dois caminhavam em direção à sala de conferência, Eriel não conseguia afastar a sensação de que estava sendo empurrado para algo muito maior do que imaginava.
“Se imagine como meu amuleto da sorte.”
Eriel ouviu a sinceridade por trás das palavras de Ethan, embora saiba que ele provavelmente estava brincando.
“Mais uma coisa, você deve ocultar sua aura e não deixar seu poder aparecer. Confie em mim e faça o que eu falo.”
Ela assentiu em concordância, sem dizer mais nada, acompanhando Ethan até a sala designada para o encontro.
Os governantes já estavam sentados em cadeiras designadas, com seus aliados de pé ao lado, formando um cenário imponente. Como instruído, Eriel ocultou completamente sua aura. Era essencial que ninguém soubesse que ela era usuária da habilidade primordial do tempo, pois sua mana tinha uma característica inconfundível.
Ethan ocupou a última cadeira disponível e iniciou a reunião.
“Agradeço a todos por comparecerem. Sei que foi um pedido repentino.”
“Ouvi que os vermes da Aliança estão por perto. Posso matá-los com minhas próprias mãos. Não existe prazer maior”, comentou o rei anão com um tom feroz.
“Digamos que eles são loucos. Tentar invadir um planeta aliado das outras facções é algo sem sentido”, murmurou a Monarca dos Vampiros, com uma calma que contrastava com o poder avassalador que ele emanava.
Apesar de suas palavras tranquilas, todos na sala sabiam que os humanos sozinhos não poderiam resistir a um ataque da Aliança. Porém, com aliados tão poderosos, a situação mudou completamente.
“Rei humano, me parece que está tudo sob controle. Quando exatamente partiremos para encontrar os infelizes?”
O rei anão estava impaciente, deixando claro seu ódio pela Aliança, um sentimento compartilhado pelos demais.
“Em algumas horas, a Aliança estará em um planeta próximo. Como não podemos arriscar os planetas do nosso sistema, decidimos levar a batalha para uma área segura”, respondeu Ethan com calma.
“Certamente, o planeta pode ser destruído. Temos aqui a Monarca dos Vampiros e o atual Rei dos Demônios. Foi inteligente escolher um planeta fora do seu sistema”, comentou o rei dos elfos, com um leve sorriso.
“Não fale dessa forma, rei elfo. Falando assim, parece que não consigo controlar meu poder. Não me compare ao rei dos demônios”, rebateu o Senhor dos Vampiros com um tom irônico.
Eriel observou atentamente o ser de sobretudo negro e máscara. Tudo indicava que ele era o Rei dos Demônios. Sua postura silenciosa e aura confirmando sua identidade.
“Me desculpe por ofender”, brincou o Monarca, virando-se para o Rei dos Demônios. “Por falar em poder… Azrael, como está sua irmã? Soube que ela continua dormindo. Pobre garota, nunca acorda… como era o nome dela mesmo? Ma–”
Antes que ele pudesse terminar a frase, um papel com as anotações do plano foi lançado em sua direção com uma velocidade incrível, passando rente ao pescoço do Monarca e se cravando na parede atrás dele. Um pequeno corte ficou visível em sua pele pálida.
O Monarca apenas sorriu, mas o Rei dos Demônios finalmente cortou seu silêncio.
“Não coloque o nome de Mana em sua boca suja. Um verme sanguessuga como você não deveria pronunciar o nome de minha irmã”, disse o Rei em um tom glacial.
A temperatura na sala caiu drasticamente, e Eriel percebeu que sua respiração estava visível no ar.
“Ah, parece que o atual rei não tem modos. Azrael, me questionou quanto tempo você demoraria até eu destruir todo o seu ser? Hahaha… deixemos a brincadeira para mais tarde”, respondeu o Monarca com sarcasmo.
“Naara”, disse Azrael calmamente.
Ao ouvir o nome, a temperatura voltou ao normal como se nada tivesse acontecido.
“Como a brincadeira acabou, peço que olhem os papéis que preparam em suas mesas. Neles estão descritas as configurações que adotaremos ao lidar com a Aliança”, disse Ethan, retomando o controle da reunião.
Ethan desenhou um leve sorriso antes de se dirigir ao Rei dos Demônios.
“Como você está sem uma de suas folhas, aceite as minhas”, disse, entregando as anotações ao rei.
Azrael pegou os papéis em silêncio, e a reunião seguiu enquanto Ethan apresentava os detalhes do plano.
“Estaremos lutando lado a lado, mas os humanos são extremamente sensíveis ao poder de cada membro aqui presente. Por isso, apenas os líderes das facções e seus representantes são permitidos no campo de batalha. Inicialmente, cogitamos enviar todos os capitães humanos, mas, contra inimigos capazes de destruir mundos, é mais seguro mantê-los na Terra.”
Ethan mal havia terminado quando o Monarca dos Vampiros, com seu ar provocador, cortesmente o clima formal.
“Agora que parei para pensar, todos aqui trouxeram seus representantes, mas eu não trouxe ninguém… Que tal você ceder um dos seus, Azrael? Pode me emprestar a geladinha? Garanto que consigo mantê-la entretida.”
Azrael levantou os olhos e respondeu friamente: “Só em seus sonhos.”
“Devemos ouvir a opinião dela, não?”, provocou o Monarca, lançando um olhar para o grupo de representantes demoníacos.
Os olhares se voltaram para o ser de sobretudo amarelo, que deu um passo à frente, ficando ao lado de Azrael.
“Vai se fuder!”, disse a voz feminina da representante, mostrando o dedo do meio em um gesto desafiador. Sua postura agressiva e palavras afiadas quebraram qualquer formalidade restante na sala.
A atitude poderia ser facilmente vista como um desacato a um governante, levando possivelmente a conflitos entre as facções. No entanto, a Monarca dos Vampiros apenas riu.
“Haha, fria como sempre. Bom, eu poderia te esquentar durante a noite, se me escolher ao invés do Azrael, mas cada um tem o seu gosto. Não vou te julgar.”
O tom debochado arrancou olhares de desgosto, mas ninguém ousou intervir.
Ethan, sempre centrado, interrompeu: “Peço desculpas por cortar o assunto, mas devemos continuar. Nosso tempo é curto.”
Ele retomou o controle da reunião. “Os inimigos já estão em um planeta próximo e devem estar formando estratégias contra nós. Mesmo fora do sistema solar, a distância até a Terra é curta para eles.”
A reunião contínua sem mais intermediários. Assim que terminou, os líderes e representantes conseguiram deixar a sala, cada um voltando ao seu posto para se preparar para o debate.
Quando Eriel estava prestes a sair, foi parado por Ethan.
“Você está indo para a sala onde os líderes das facções dos demônios e dos vampiros estão?”
“Sim.”
“Ótimo. Vá até lá e prepare tudo o que precisarem. Eles chegarão em dez minutos. Isso deve ser tempo o suficiente.”
“Entendido”, respondeu ela com determinação.
Ela sabia que, estando na mesma sala que dois líderes tão poderosos e conflitantes, sua tarefa seria delicada. Mas não havia espaço para dúvidas agora.
Eriel estava inquieto. A ausência de movimento no corredor reforçava o silêncio incômodo, enquanto ela se apressava para a sala designada. Eles ainda não chegaram, pensei que seria diferente. Melhor adiantar as coisas.
Ao chegar, parou diante da porta por um momento, avaliando a situação. Não faz sentido bater se não há ninguém lá dentro, penseu, decidindo entrar sem cerimônia. Porém, ao abrir a porta, Eriel se surpreendeu com o que viu.
Do outro lado, um par de olhos vermelhos a encarava, surpresos. Os cabelos brancos do estranho escaparam por baixo do capuz, tornando sua figura enigmática. Ele parecia ser um pouco mais jovem que ela, mas havia algo na postura que o faria parecer fora do lugar, como se estivesse estudando o ambiente. No entanto, ele foi rápido e preciso. Em um instante, pegou a máscara que estava sobre a mesa e colocou com um gesto fluido.
“Me desculpe por entrar sem bater,” Eriel começou, tentando quebrar o clima constrangedor. “Fui informada que–”
“Não se preocupe com isso… Posso entender,” interrompeu o homem, sua voz transmitindo uma desaprovação velada. Era o Rei Demônio.
Eriel sentiu o peso da situação. Ethan, o líder da facção, garantiu que a sala estaria vazia, mas claramente ele estava errado. Talvez ele tenha decidido chegar mais cedo?, refletiu, tentando encontrar lógica no desconforto crescente.
“Você é o responsável por cuidar desta sala?” o Rei Demônio disse, sua voz cortando o silêncio.
“Sim”, respondeu ela com firmeza. “Ethan me designou para essa função.”
“Ele te explicou mais alguma coisa?”
“Não. Apenas que a sala estaria vazia. Imagine que tenha cometido um engano.”
“Certamente houve,” o Rei respondeu, seco.
Eriel se esforçou para processar a situação. Estar diante do Rei Demônio não era algo que acontecia todos os dias – e ainda assim, ela o havia visto sem máscara. Sabia que ele escondia seu rosto por um motivo, e agora temia as consequências de sua indiscrição.
“Você vai ficar aí em pé?” Disse o Rei, quebrando o silêncio com um tom levemente irritado. “Acredito que seja mais confortável esperar sentada.”
Eriel hesitou, mas acabou obedecendo. Sentou-se em uma cadeira próxima, enquanto ele permanece imóvel, sem lhe lançar um único olhar. Provavelmente, um humano não desperta nenhum interesse nele. Sua mente vagava. Demônios estão habituados a lidar com outras raças; talvez eu seja insignificante para ele.
Ela o observou de perto. Ele é diferente do que imaginei… Sempre pensei no Rei Demônio como alguém aterrorizante. Havia algo quase reconfortante em sua presença, um contraste que a deixava desconfortável.
Dez minutos se passaram em silêncio até que batidas firmes ecoaram pela porta.
“Entre,” disse o Rei Demônio, sua voz grave preenchendo a sala.
Um novo indivíduo entrou, com passos decididos e olhar atento, o Monarca dos vampiros, Vlad. Sua presença parecia transformar o ambiente, trazendo uma energia distinta. Ele varreu a sala com os olhos até se deter em Eriel, analisando-a por um momento antes de sorrir.
“Oh? Vejo que chegou mais cedo”, comentou Vlad, dirigindo-se ao Rei Demônio.
“Não importa”, respondeu ele, com uma indiferença controlada. “Na verdade, a espera foi a parte chata.”
O Monarca riu brevemente antes de se voltar novamente para Eriel.
“Já nos conhecemos?” Perguntou, com uma curiosidade óbvia.
Eriel concordou com educação. “Sim, estávamos na reunião mais cedo.”
“Não, não,” ele insistiu, estreitando os olhos como se tentasse se lembrar de algo distante. “Estou falando de antes da reunião. Tenho a impressão do que já te vi em algum lugar.”
O comentário do Monarca pairou no ar, trazendo uma nova camada de tensão ao encontro. Eriel, surpresa pela observação, tentava encontrar uma resposta, mas o olhar intenso do Monarca parecia penetrar além de suas palavras.
O Monarca inclinou suavemente a cabeça, como se tentasse resgatar algo das memórias. Eriel permaneceu firme, sem demonstrar desconforto, embora a súbita atenção a intrigasse.
Não me lembro de ter encontrado o Monarca antes. Nosso único encontro foi na reunião… Deve estar me confundindo, concluiu.
“Deve estar me confundindo. Não há registro de termos nos encontrados em outra ocasião”, respondeu Eriel com uma leve orientação de cabeça, educada, mas direta.
Vlad a observou por um momento, antes de assentir. “Talvez seja isso, então. Você se parece com alguém que conheci no passado”, comentou, desviando o olhar para o Rei Demônio. “Você não acha que ela lembra sua esposa falecida?”
O Rei permaneceu em silêncio, a máscara ocultando qualquer expressão.
“Ah, me ignorando novamente? Que crueldade”, brincou o Monarca com um sorriso irônico, embora sem obter resposta.
O clima na sala havia mudado. Não foi mais a tensão hostil que Eriel testemunhou na reunião anterior. Agora, o Monarca parecia provocador, mas o Rei Demônio não reagia, limitando-se a uma indiferença impenetrável.
“Se está tão calmo, isso significa que ela é confiável, certo?” Disse o Monarca, quebrando o silêncio.
“Sim”, respondeu o Rei, sua voz carregando uma certeza inabalável. “Ethan não colocaria alguém sem confiança nesta sala.” Ele fez uma pausa, como se para enfatizar suas palavras. “Então, não precisa agir de forma arrogante.”
O Monarca suspirou, erguendo as mãos em falso desânimo. “Sempre tão sério. Mas é estranho você ainda usar essa máscara. Achei que fosse desnecessário na presença de um amigo.”
Amigo? Pensou Eriel, surpresa com a escolha de palavras.
“… Você está certo,” admitiu o Rei, com uma hesitação óbvia. “Mas não podemos ignorar as possíveis habilidades dos inimigos.”
“Não se faça de bobo”, retrucou o Monarca com ironia. “Você é mais do que capaz de notar se estivéssemos sendo espionados.”
“Talvez,” disse o Rei calmamente. “Mas, alguns minutos atrás, eu não percebi a presença da humana ao entrar nesta sala.”
O Monarca arqueou uma sobrancelha, intrigada. “Interessante… Eu também não percebi até a ver com meus próprios olhos.”
Ele voltou para Eriel, um sorriso curioso dançando em seus lábios. “Você é habilidosa. Conseguir ocultar sua mana e sua aura com tamanha maestria está muito além das capacidades humanas comuns. Imagine que o líder da facção humana deve estar bastante satisfeito por ter alguém tão impressionante ao seu lado.”
Eriel não respondeu de imediato, tentando compreender o alcance das palavras do Monarca. Ser reconhecido pela Monarca… Isso é algo digno de orgulho, mas, ao mesmo tempo, inquietante.
“Você está pensando em outro casamento, Vlad?” questionou o Rei, em tom desinteressado.
“Ela é irmã do líder da facção. Isso facilitaria muito as negociações”, respondeu ele com um tom quase casual.
“!!?”
A surpresa de Eriel foi imediata, o que fez o Monarca rir com verdadeira animação.
“Fufu, hahahaha! Criança, você nunca pensou em se casar? Posso até imaginar as crianças que viriam de uma união assim!”
“Não é por isso que estou surpresa”, murmurou Eriel, tentando recuperar a compostura. “Como você sabe que sou irmã de Ethan?”
Mesmo com a máscara, ela teve a impressão de que o Rei Demônio estava sorrindo.
“Você realmente acha que é fácil ocultar seu poder?” começou ele, levantando o dedo indicador, como se para dar uma lição. “Na verdade, não. Primeiro, você reduz sua capacidade de mana ao mínimo absoluto. Depois, utiliza uma habilidade para congelar completamente qualquer variação de poder. É engenhoso… mas não infalível.”
Eriel permanece em silêncio, absorvendo cada palavra.
“Com essa técnica, você faz parecer que não possui mana, pois o que é produzido é imediatamente consumido”, continuou o Rei. “Mas o poder de um usuário de habilidade primordial é diferente. Mesmo para alguém que continua aprendendo a controlar suas capacidades, é impossível ocultar completamente a aura.”
Ele conseguiu perceber tudo isso apenas observando…
“Não dá para esconder algo dos olhos de Azrael”, comentou o Monarca com um sorriso refinado. “Mas, como eu disse, não estávamos falando sobre seu poder. Eu estava mencionando o casamento.”
O tom brincalhão do Monarca contrastava com a gravidade do tema. “Uma união entre o Rei Demônio e o próximo líder da facção humana seria vantajosa para ambos os lados. Afinal, os recursos do planeta são a verdadeira razão para esta aliança.”
Eriel encarou os dois, processando as palavras cuidadosamente. Embora o objetivo por trás da conversa fosse claro, o desconforto em ser envolvido como peça de um jogo político era significativo.
“Você me pediu para casar com sua filha, e agora está falando sobre outro casamento?” Disse o Rei, o tom levemente irritado.
“Não é incomum para os demônios terem várias esposas, certo?” retrucou Vlad com um sorriso provocador.
“Sim, mas—”
“É perfeitamente normal”, interrompeu o Monarca, gesticulando despreocupadamente. “Veja seu avô, por exemplo.”
“Esse foi um caso à parte,” rebateu o Rei com firmeza. Ele levou a mão até o rosto, apontando para os os próprios olhos. “Veja meus olhos.”
Os olhos vermelhos intensos eram um traço singular na linhagem demoníaca. Apenas os descendentes diretos da primeira rainha, Lilith, carregavam essa característica.
“Ah, vamos, um casamento a mais só traria benefícios”, insistiu o Monarca, num tom quase casual.
“Não penso em me casar até que tudo tenha terminado”, respondeu o Rei, desviando o olhar na direção de Eriel. “Imagino que Eriel também não tenha intenção de se casar.”
Eriel permaneceu em silêncio por um momento, avaliando o comentário. Me casar não está nos meus planos. Quero viver minha vida e, talvez, se encontrar alguém interessante no futuro, posso considerar… Mas isso está bem distante agora.
Como ele sabe meu nome?
Ela franziu levemente a testa, mas manteve uma postura impassível.
O Monarca, por sua vez, não parecia satisfeito. Ele cruzou os braços, observando-os com um ar divertido, mas relutante em relação à insistência. Talvez percebeu que insistir no mesmo assunto seria inútil.
“Então, vamos ao assunto principal,” disse ele, mudando abruptamente o tom para algo mais sério. “Existe mesmo um traidor entre nós?”
“Sim”, confirmou o Rei, com uma gravidade que fez o ar na sala parecer mais denso. “Ele estava na reunião.”
!?
Eriel arregalou levemente os olhos, surpresa pela declaração direta. Na reunião? Alguém que esteve no mesmo espaço conosco… é um traidor?

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