Capítulo 66 — Mil dias
Ao sair da vila em direção ao leste, percebi que a presença das pessoas ia diminuindo. Enquanto observava Luna guiando o caminho, o vento frio da noite fazia meu corpo vacilar algumas vezes.
O corpo de Eriel não parecia preparado para a temperatura noturna do planeta. Eu podia até ver minha própria respiração no ar gelado.
“Para onde exatamente estamos indo?”, perguntei, curioso.
“Estamos indo para o local onde a flor está… Eu preferiria vir amanhã, quando o ambiente estaria menos rigoroso, mas como estamos sem tempo, teremos que seguir pelo caminho mais perigoso”, explicou Luna.
Ela me contou que a flor que estávamos buscando era a Flor dos Mil Dias. Uma flor rara com propriedades curativas e a habilidade de extrair a mana do ambiente, tornando-a mais forte e resistente.
“Pensava que a Flor dos Mil Dias fosse apenas uma lenda”, comentei.
“Eu mesma a encontrei alguns dias atrás, mas ainda não havia concluído o processo. Por isso precisei esperar. Pelos meus cálculos, ela deve ter alcançado a perfeição esta manhã.”
O caminho ficou ainda mais difícil à medida que adentrávamos na densa floresta.
“Azrael, fico feliz que você tenha aparecido. As armadilhas naturais seriam realmente difíceis de superar sem você”, disse Luna, com gratidão em sua voz.
À medida que adentrávamos a densa floresta, os desafios surgiam diante de nós. O caminho íngreme e sinuoso testava nossa resistência física, enquanto as raízes entrelaçadas no chão nos faziam tropeçar. O som dos animais noturnos ecoava ao nosso redor, criando uma atmosfera de suspense.
Luna liderava o caminho com determinação, usando sua magia para afastar plantas espinhosas e abrir trilhas por entre a vegetação densa. Eu a seguia de perto, concentrado em controlar os poderes de Eriel para protegê-la dos perigos iminentes.
À medida que avançávamos, a floresta começava a se transformar. As árvores altas e frondosas davam lugar a uma paisagem mais árida, com rochas e falésias imponentes. O terreno acidentado dificultava nossa caminhada, exigindo equilíbrio e cautela a cada passo.
Enfrentamos desafios naturais, como riachos furiosos que tínhamos que atravessar com cuidado, saltando de pedra em pedra para evitar sermos arrastados pela correnteza. A noite escura e a neblina que cobria a região tornavam a jornada ainda mais desafiadora, limitando nossa visibilidade.
Em determinado momento, fomos surpreendidos por uma tempestade repentina. A chuva intensa caía sobre nós, transformando o terreno já escorregadio em um verdadeiro desafio. Buscamos abrigo em uma pequena caverna, onde nos protegemos da tempestade e recuperamos as energias.
Apesar dos obstáculos e das dificuldades, não desistimos. A determinação de Luna e a minha própria persistência nos impulsionavam adiante. A cada passo, nos aproximávamos do local certo onde a Flor dos Mil Dias florescia.
Finalmente, após superar uma última colina íngreme, vislumbramos um cenário deslumbrante à nossa frente. Um vale mágico se estendia diante de nós, repleto de flores coloridas e uma aura de energia vibrante.
No centro desse vale, erguia-se majestosa a Flor dos Mil Dias. Suas pétalas brilhavam com um tom radiante, emanando uma aura curativa e poderosa. Era um vislumbre de beleza que valia a árdua jornada.
Luna e eu nos aproximamos da flor com reverência, maravilhados com sua grandiosidade. Cuidadosamente, Luna colheu a magnífica flor, sentindo a energia pulsante em suas mãos.
“Não foi tão difícil…”, comentei, um pouco surpreso. Na verdade, eu tinha algumas expectativas em relação à dificuldade.
“A parte fácil era chegar até aqui… “, respondeu Luna, olhando na direção da saída da clareira. “Agora eles estão vindo.”
O som das árvores se chocando violentamente ecoou, revelando a magnitude do problema. As imensas árvores que antes estavam em nossa visão foram ao chão enquanto uma sombra negra com mais de dez metros se aproximava.
“Ele chegou. Prepare-se!”, gritou Luna, concentrando sua magia de suporte.
“Faremos como nos velhos tempos”, respondi com entusiasmo.
“Mas este é o corpo de… “, Luna começou a dizer, preocupada.
“Não se preocupe. Conheço bem as habilidades de Eriel”, interrompi, confiante.
Mesmo no corpo de Eriel, eu era capaz de usar meu conhecimento e experiência.
Canalizando a mana através dos brincos em forma de ampulheta, um espaço dimensional se formou, permitindo-me retirar uma magnífica espada branca.
Senti a magia de Luna fortalecendo meu corpo, tornando-me mais forte e rápido.
{Lorde do Tempo}
Círculos mágicos surgiram diante de mim. Cada círculo tinha a forma de um relógio e girava em sentidos diferentes. Minha percepção do tempo mudou enquanto observava o mundo ao meu redor se movendo mais devagar.
Embora a verdadeira magia do ‘Tempo’ não exigisse uma grande quantidade de energia, eu sabia que não poderia utilizá-la de forma leviana. Era necessário agir com cautela e sabedoria ao manipular esse poder tão delicado.
“Luna, vamos enfrentá-los juntos”, disse, olhando para ela com determinação.
Ela assentiu confiantemente. “Estou pronta, Azrael. Vamos mostrar a eles do que somos capazes.”
Foi nesse momento que a figura de uma mulher com heterocromia surgiu em meu campo de visão.
“Vocês são lentos”, sua voz suave fez um sorriso se formar em meus lábios enquanto ela preparava sua mana.
Leviatã, assim se chamava, emanava um magnetismo irresistível. Seus olhos, um carmesim profundo e um azul enigmático, pareciam hipnotizar todos ao seu redor. Seu cabelo, uma cascata de fios brancos com pontas negras, fluía livremente até atingir sua cintura, conferindo-lhe um ar de mistério e sedução.
Com um gesto grácil, Leviatã começou a manipular a realidade, desafiando as leis da gravidade. O ser colossal, com mais de 10 metros de altura, foi comprimido em um espaço minúsculo, transformando-se em uma grotesca plataforma de carne coberta de sangue.
“Assim fica mais fácil”, proferiu Leviatã, satisfeita com sua demonstração de poder.
Eu pretendia treinar um pouco mais para me adaptar ao corpo de Eriel, mas parecia que Leviatã havia roubado minha presa.
“Vamos nos divertir pelo caminho de volta para casa!” ela exclamou, convidando-nos a seguir seu rastro de destruição.
Leviatã era uma força da natureza, uma criatura fascinante que despertava curiosidade e admiração por sua beleza e habilidades impressionantes. Seu domínio sobre a realidade e sua capacidade de desafiar as leis da física a tornavam uma presença imponente e temida.
Sem ao menos esperar nosso consentimento, Leviatã saiu do local sem se dar ao trabalho de observar se estávamos a seguindo.
“Quem é? Um mostro, deus, anjo, demônio? Não consigo identificar.”, falou Luna boquiaberta com a presença de Leviatã.
“A primeira e única rainha Leviatã.”
“Oh? Leviatã… LEVIATÃ?”
A rainha dos demônios era conhecida por suas histórias fantásticas.
“Explico quando voltarmos.”
“Sim.”
Quando estava prestes a sair do local, notei o calor que bateu forte em meu rosto enquanto o local se iluminou com um leve brilho vermelho.
“Que porra é essa?”, gritou Luna em choque.
Mesmo vendo Luna chocada com o que estava em seu campo de visão, um largo sorriso aparece em meu rosto.
“Então era isso que ela queria dizer sobre ‘divertir pelo caminho de volta para casa’… Essa garota.” Liberando minha mana, olhei para cima, contemplando a figura sorridente que me observava com seus lindos olhos de duas cores.

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