Índice de Capítulo

    O vento do norte consumiu as quatro direções, balançando os trigos para um único sentido. Após horas meditando em segredo, Theo finalmente abriu seus olhos.

    Quando caiu do quinto andar, Theo estava tão cansado que sua mente entrou em colapso. Pelas dores em sua alma, que se compartilhou com o corpo físico, o General optou por continuar descansando no chão até que seus movimentos retornassem.

    Ao abrir os olhos, notou a dor em seu braço direito. Mas, quando correu a retina para ver o braço dilacerado por Khun, não encontrou os machucados de antes.

    Estava praticamente ileso.

    Ele se sentou no chão apoiando o braço em seu joelho, encarando a base da torre com temor. Olhando os tijolos e a força que emanava, se lembrou com detalhes da luta contra Khun.

    Lembrando-se claramente da feição do tigre, Theo olhou rapidamente para o lado onde Khun deveria estar caído. Mas seu corpo não estava lá… Embora a cratera ainda estivesse aberta no quinto andar.

    “Estranho…”

    Levantando-se dolorosamente, Theo olhou para a torre novamente e procurou sua entrada. Ele estava perdido… Sem saber exatamente o que havia acontecido. Porém, seu objetivo ali dentro não havia mudado.

    Entrando novamente pela porta da frente, ainda confuso e com uma náusea incomum, Theo passou pela porta arqueada. Quando estava disposto a subir os degraus novamente, ele notou uma mudança repentina do primeiro andar.

    O andar,  que antes era iluminado somente pela luz que adentrava as janelas em forma de arcos, estava, naquele momento, totalmente diferente; pilares coríntios criavam uma separação simétrica, com pedestais no meio de cada pilar, onde a maioria estava vazio… Menos um.

    Ao todo, eram vinte pedestais. Apenas o primeiro à esquerda estava preenchido: com um orbe verde-esmeralda flutuando e carregando, em seu eixo, um vazio que formava o semblante de três garras.

    Levado pela curiosidade, Theo tocou no orbe sem hesitação.

    A fina camada de energia, uma membrana verde-esmeralda, se transformou numa gosma e cobriu a mão de Theo com atributo elemental. Intuitivamente, ele fechou o punho… Porém, as três garras se mostraram reais.

    A sensação de ter a mão perfurada, a pele rasgada e os ossos fraturados, alfinetou Theo. Sem conseguir reagir, ele agarrou o próprio antebraço e berrou de dor, agonizando com os olhos tomados pela esclera branca. 

    Por um momento, ele sentiu sua mão sendo amputada.

    ‘Que dramático…’ comentou uma voz, surgindo como um assobio do vento.

    Ajoelhado em prantos, Theo rangeu os dentes para minimizar a dor que, gradualmente, desapareceu.

    ‘Você não está preparado para os demais guardiões…’

    Shaytan al-Riyah, o djinn do vendaval, surgiu acima de Theo. A cintura de sua aparência humanoide desaparecera, dando lugar para um tufão que funcionava eternamente. De braços cruzados, o djinn encarou Theo de cima.

    — Resolveu aparecer, maldito? — Theo olhou de canto para Shaytan, ofegando e com o coração acelerado pelo susto do momento.

    ‘Do que está falando? Você quem não me deu oportunidades para entrar em contato. Passou esse tempo todo se alimentando da minha memória e conhecimento… Inseto.’

    — Vamos, diga o que foi isso — ordenou Theo, massageando sua mão esquerda.

    Entediado com a pressa de Theo, o djinn dos vendavais soltou os braços e apontou para a mão esquerda de Theo.

    ‘Olhe para sua mão, primeiramente…’

    Theo desconfiou por um momento, mas estava curioso demais para deixar suas incertezas com o djinn vencerem. Até há alguns momentos, parecia que sua mão havia sido rasgada brutalmente.

    Quando ele virou, se deparou com uma atualização em sua ressonância: agora, além da antiga seta verde, a silhueta de cinco garras surgiu na base de cada dedo.

    Os olhos do general arregalaram-se.

    ‘Isto é um presente daquele velho esquecido…’ afirmou Shaytan, aproximando-se de Theo e pegando sua mão esquerda. ‘Pelo visto, ele projetou essa torre para você se aproximar dele, assim como dos espíritos do vento.’

    — O que você quer dizer?

    ‘Já não percebeu? Essa torre existe com o único objetivo de te premiar com a evolução da ressonância, garoto. Veja bem; garras não te lembra alguém?’

    A mente de Theo explodiu, não literalmente. O choque de memórias surgiu mostrando a feição e os ataques de um ser que ele custou a vencer…

    — Khun! — exclamou.

    ‘Justamente.’

    Shaytan, tocando a ressonância de Theo, leu o significado de cada runa extra como se estivesse traduzindo uma única palavra.

    ‘Oh… Então é isso que fazem?’

    Theo manteve-se atento.

    Após concluir a leitura, Shaytan cruzou os braços e flutuou para cima novamente, sem falar uma palavra para Theo.

    — Ei! Não vai me contar?

    ‘Não devo isso a ti.’

    — Filho duma puta… — Theo xingou cochichando.

    ‘Não tive uma mãe…’

    — Foda-se! Me responda: o que essas coisas fazem?

    ‘Como já falei, não devo essa resposta a ti.’

    Theo estalou a língua.

    Concentrando energia na ressonância, ele tentou conjurar algum feitiço único que aquelas novas runas poderiam lhe fornecer. Entretanto, nada, além das informações sobre a Flecha de Ártemis, apareceram na mente de Theo.

    Lembrando que os benefícios dos encantamentos geralmente se armazenavam na mente do desviante, Theo buscou encontrar aquelas informações. Mas, após algum tempo, não obteve êxito.

    Shaytan estava flutuando pelo ambiente, com os braços nas costas, e analisando a estrutura do primeiro andar.

    Jogando-se no chão e sentando de pernas cruzadas, Theo suspirou e ordenou:

    — Pacto vinculativo.

    O djinn franziu o cenho.

    ‘Como?’

    — Eu te capturei… Então, tenho direito a três desejos, não é? — Um sorriso aproveitador surgiu na feição do general.

    Enquanto isso, uma gota de suor escorreu no rosto do djinn.

    Ele sacudiu os braços para Theo.

    ‘N-não! Você me capturou na base da força! Eu me nego…’

    — Obedeça — ordenou Theo, imbuindo seu chakra Vishuddha com éter.

    “Estou ficando bom nisso…” Theo pensou ao ver que a [Imponência] estava começando a ser uma de suas cartas na manga.

    Os olhos de Shaytan ficaram transparentes em comparação ao resto do corpo. Com braços soltos, ele flutuou até o general e ficou a depender das escolhas.

    ‘Você terá apenas três desejos a serem concebidos…’

    — Ótimo. Meu primeiro desejo é ter mais cinco desejos.

    Embora tivesse em mente que poderia ser um fracasso, isso era algo que Theo sempre quis testar.

    ‘Desejo impossível de ser concebido.’

    — E por quê?

    ‘Deseja utilizar um dos desejos com isso?’

    — Não. Meu desejo é que você me obedeça fielmente. Isso significa que você deverá compartilhar seu conhecimento e responder tudo o que eu questionar.

    ‘Claro.’ Shaytan estava inconsciente; naquele estado, os djinn passavam a obedecer e só retornavam ao seu estado original após a negociação.

    — Ótimo. Agora, por que você não pode conceder meu primeiro desejo? Pode sair da negociação…

    Shaytan balançou o rosto.

    ‘Desagradável…’ o djinn range os dentes.

    De braços cruzados, Theo sorriu sarcasticamente e inclinou o rosto.

    ‘Bom… Não podemos conceder mais de três pedidos. É a maior regra na negociação entre djins… Não importa se temos poder para realizar quinhentos desejos, estamos limitados a conceber apenas três por negociação.’

    — Então, se eu iniciar outra negociação agora, posso fazer três desejos novamente?

    ‘Não.’

    — Precisarei lhe capturar novamente para isso?

    ‘Somente após você fazer os três desejos eu poderei retornar ao meu território. Se você me capturar novamente após seis meses, poderei realizar mais desejos para você.’

    — Hum…

    Theo começou a viajar em planos.

    Se ele utilizar os três desejos e libertar o djinn agora, em seis meses poderá fazer mais pedidos… O que Theo desejava era apenas uma coisa: desbloquear o potencial do elemento vento.

    Naquele momento não seria necessário, pois ele não estava estagnado na evolução elemental. Porém, quando esse momento chegar, ele usará o segundo desejo.

    — Posso fazer o mesmo desejo duas vezes numa mesma negociação?

    ‘Não…’

    Ele já esperava aquela resposta.

    Então, só lhe restava treinar durante seis meses e, quando estagnar, iria atrás do djinn novamente para pedir o desbloqueio.

    Entretanto, enquanto Shaytan al-Riyah estivesse em sua posse, ele iria usufruir de todos os benefícios de ser um mestre djinn absoluto.

    — Agora, me responda: o que essas runas representam?

    Theo mostrou a palma esquerda aberta.

    ‘Destreza elemental, velocidade de conjuração, proficiência, afinidade com a ressonância e…’

    — E?

    ‘Você não está pronto para isso’ afirmou o djinn.

    — Não me importo. Fala logo!

    ‘É melhor você chegar a esse patamar e descobrir por conta própria…’

    Theo estalou a língua novamente.

    — Tá… Espero que valha a pena. Você… Pode lutar por mim?

    Ele entendia as limitações do seu desejo, mas era tarde para reconsiderar.

    ‘Esse é seu segundo desejo? O primeiro foi para eu te obedecer… Mas você se limitou a parte verbal e mental, não apresentou nada sobre utilizar minha força.’

    “Droga… Gênio maldito…” Theo reclamou mentalmente.

    — Nah… Deixa assim mesmo. Só quero que compartilhe feitiços avançados.

    ‘Você não quer evoluir sozinho? Achei que fosse desse tipo arrogante…’

    — Eu já sofri para um caralho para chegar até aqui. Se eu tenho a oportunidade para trapacear, por que eu não faria?

    ‘Por que os fortes dependem de si…’

    Theo ficou surpreso com a inocência do djinn… Talvez, como um ser sobrenatural em sua essência, ele não precisou pensar nisso antes, mas…

    — As pessoas fortes são aquelas que trapaceiam antes da vitória adversária. Seja testando a paciência de seu inimigo ou apenas usando forças externas, a única vitória é a sobrevivência no final do dia…

    Caminhando para a escada que o levaria aos próximos andares, Theo não olhou para trás.

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