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    — A emissão ficou mais forte… — disse Bastien, carregando um receptor em sua mão.

    Um pequeno artefato de alumínio, com um pequeno espelho acoplado no centro, refletiu a mana que buscavam.

    O espelho no receptor era responsável por absorver a mana de uma certa localização e representar sua densidade através do reflexo: caso o espelho fique levemente manchado, significa que aquele é um lugar natural, já que refletiu apenas a mana do ambiente.

    Caso o espelho apresente ondulações, como as frequências de medidor cardíaco, significa que há uma certa influência artificial, ou seja, envolvimento desviante.

    No último caso, onde o espelho se torna absolutamente verde, significa algo além da compreensão. Este é um método similar ao utilizado para descobrir o núcleo de energia de um desviante; entretanto, ao contrário do conduíte cristalizado, que necessita do toque e interação do desviante para determinar sua energia, aquele receptor precisava apenas estar no ambiente quando a onda de mana acontecesse.

    E foi isso que aconteceu…

    Enquanto Zemynder e Moris estavam pondo suas novas táticas no segundo dia de treinamento, a Quinta Legião recebeu um pedido da princesa Jeanne e seu General Malcolm.

    Apenas dois dias antes dos treinamentos começarem, os receptores sensitivos das Tumbas de Kiescrone ativaram o alarme interno, onde dados de uma enorme onda de mana se alastrou intensamente. Dado o apurado pelos receptores, nem mesmo os desenvolvedores daquela tecnologia conseguiram determinar do que se tratava.

    Foi onde Bastien entrou na missão.

    Ao lado de Malcolm e Carl, o Arauto de Hades foi enviado para uma expedição nas Tumbas subterrâneas de Kiescrone — utilizados para locomoção, abrigo de civis ou até mesmo para se livrar dos corpos de pessoas poderosas nas guerras.

    Enquanto caminhavam pelos corredores escuros e úmidos, Bastien olhava o receptor atentamente.

    O brilho da mana estava tão forte que parecia estar pintado por tinta.

    — Isso deveria ser possível? — murmurou olhando para o receptor.

    — Não deveria — respondeu Carl — Mas, é o que está acontecendo. Ei, Malcolm… Há quanto tempo estamos aqui dentro?

    — Não sei.

    Malcolm respondeu bisbilhotando um corredor à direita, iluminando com uma lanterna forte. Porém, ele não encontrou nada além de mais túneis.

    — Deviam ter enviado um nativo de Kiescrone conosco… Desvendar esse labirinto é um saco — reclamou Malcolm.

    Pondo a mão entre os fios de cabelo, Carl gabou-se:

    — Eu sou um nativo de Kiescrone!

    Bastien e Malcolm o olharam com uma expressão crítica.

    — E serve à Alsuhindr?

    — É, né. Uma estrela sempre irá brilhar forte!

    Malcolm deu um passo para trás e empurrou seu companheiro para a frente.

    — Então ilumine nosso caminho, estrela.

    Abrindo uma garrafa d’água, o General percebeu que já estava secando. Era o esperado, tendo em vista o tempo caminhado…

    Ele vasculhou os outros frascos, mas estavam com quase ou nenhuma água.

    — Estamos ficando sem suprimentos…

    — É disso que eu estava falando… — disse Carl, os guiando pelo corredor. — Já estamos ficando sem suprimentos… Mas, a boa notícia é que estamos perto de um retiro militar.

    — O quê? Aqui? — perguntou Bastien, surpreso.

    — Sim e não. Se formos analisar, não estamos tão fundo assim… As Tumbas tem cerca de cinquenta níveis, e estamos apenas no quinto, talvez. Mais a frente devemos encontrar uma escada que nos dá acesso aos andares superiores e, o mais importante: uma base militar. Podemos pegar suprimentos lá após explicar nossa situação…

    — O nativo de Kiescrone que irá — afirmou Malcolm, evitando olhar para Carl.

    Descontente, no entanto, restou-lhe a obedecer.

    — Tá. Eu subo lá para conversar com eles.

    — Mas… Como você sabe que estamos próximos? — inquiriu Bastien.

    Carl apontou sua lanterna para uma parede mais adiante.

    — Outro receptor, está vendo? Há um receptor posicionado a cada quinhentos metros. A cada cinco receptores existe uma saída militar, que nos leva até uma base militar regional. A cada quilômetro existe uma saída de emergência, que nos bota no meio de Kiescrone caso algo dê errado. Se a escada não tiver no próximo receptor, então teremos que andar mais um pouco…

    — Ou voltar…

    — É, mas não é tão inteligente.

    Caminhando a distância necessária, o grupo parou em frente ao receptor.

    Ele marcava com a mesma intensidade dos demais receptores. Entretanto, ao lado deste, havia uma escada que levava diretamente a um ponto inalcançável com os olhos.

    Bastien parou para notar que ele ignorou todas as escadas anteriores.

    Iluminando o corredor com sua lanterna, Carl percebeu ser a saída militar, algo que o acalmou pois não precisam caminhar mais. Ao menos, Malcolm e Bastien que ficariam sentados esperando…

    — É militar?

    — Sim. Tá vendo aquela luz vermelha? Então, ela mostra que é militar.

    Uma pequena lâmpada vermelha, quase apagada, brilhava fracamente no topo.

    — Bom, eu vou lá em cima. Me esperem aqui, devo demorar meia hora… — disse Carl, repensando sobre sua afirmação de tempo. 

    Talvez demorasse mais.

    — Cuidado com as bestas de mana! — Ele disse subindo os degraus.

    — Nós quem falamos isso, vai estar sozinho — retrucou Bastien, escorado na parede.

    Como resposta, Carl apenas retirou sua espada fina da bainha, deixando um zunido fugir pelo corredor.

    Sorrindo com a arrogância de Carl e deslizando pela parede, Bastien se sentou na porta, de costas para a direção que eles deveriam seguir em breve.

    Malcolm, entretanto, ficou de pé com os braços cruzados e escorado na parede.

    Desabotoando a bainha de sua lâmina do cinto, Bastien segurou o cabo como se fosse retirar a espada, mas desistiu completamente. Ele a apoiou no primeiro degrau, querendo manter distância.

    Posteriormente, vasculhou sua mochila.

    Apenas observando o comportamento de Bastien em silêncio, Malcolm soltou um sorriso abafado.

    Comendo uma barra de cereal, Bastien o olhou e esperou por algum comentário.

    — Um homem que tem vergonha de tua espada, não merece empunhá-la… — comentou Malcolm.

    Mas… era justamente isso que Bastien desejava.

    — Leve-a contigo. Se não enlouquecer com o sofrimento das almas que arranquei o direito de pisar nos Campos Elisios, ficarei feliz em te nomear como o novo rei de submundo — retrucou Bastien, olhando para sua mochila, ainda com uma parte do cereal na boca.

    — Eu já sofro com isso — disse Malcolm, dobrando o joelho esquerdo e se apoiando mais ainda na parede. — Muitos acham que meu poder é um dom, mas não estavam lá quando matei todo o meu esquadrão sem a mínima intenção…

    Bastien olhou para Malcolm e prestou atenção em suas palavras.

    — A eletricidade é algo que, com um único deslize, não há como reverter o estrago. Eu tenho que lutar sozinho, isso foi o que aprendi há cinco anos. Carl e Art podem fazer parte da minha Legião, mas nunca treinamos juntos. Quando lutei ao lado do seu general, eu fiquei genuinamente com medo de matá-lo sem intenção…

    — Ele não morreria assim — afirmou Bastien.

    — Todos morrem de formas inusitadas…

    — O Theo? Morrer por negligência? Acha que ele não teria algo em mente antes de te pedir algo daquele nível?

    — E eu vou saber o que se passa na cabeça de um gênio maluco? — disse rindo — Sinceramente… Não vejo motivos para isso.

    Bastien inclinou o rosto e atentou-se ainda mais no General de Jeanne.

    — Nós, os homens fortes, estamos sempre achando métodos para não utilizarmos nossos poderes. Principalmente quando se trata de machucar outras pessoas…

    Quebrando uma segunda barra de cereal, Bastien ofereceu para Malcolm.

    — Se chama ética, e essa é nossa maior fraqueza. Veja Javier… Ele é o mais forte entre nós, justamente por não se importar com nada além dele próprio.

    Malcolm aceitou o pedaço do cereal.

    — Então, a meta é tacar o foda-se.

    — É tipo isso.

    O general de Jeanne gargalhou de boca cheia.

    — Vocês são engraçados…

    Bastien sorriu com aquele comentário. De fato, eles eram desajeitados.

    — Aliás, todos esses nomes são de mentira, não? Qual seu verdadeiro nome? — perguntou Malcolm.

    Curioso pela pergunta repentina, Bastien logo se lembrou de um comentário feito por Theo a respeito do povo de Malcolm: eles prezavam pelo nome verdadeiro, principalmente o segundo nome. Era o maior sinal de respeito que aquele povo podia oferecer.

    Sentindo-se grato pela confiança, Bastien não hesitou antes de responder:

    — Bastien é meu segundo nome… Mas, meu nome completo é Emillie Bastien, prazer.

    — Prazer, Emillie. Malcolm Lilzing.

    Como um gesto para selar a confiança, eles sorriam juntos até Carl regressar.

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