Capítulo 183 — Tumbas de Kiescrone
— A emissão ficou mais forte… — disse Bastien, carregando um receptor em sua mão.
Um pequeno artefato de alumínio, com um pequeno espelho acoplado no centro, refletiu a mana que buscavam.
O espelho no receptor era responsável por absorver a mana de uma certa localização e representar sua densidade através do reflexo: caso o espelho fique levemente manchado, significa que aquele é um lugar natural, já que refletiu apenas a mana do ambiente.
Caso o espelho apresente ondulações, como as frequências de medidor cardíaco, significa que há uma certa influência artificial, ou seja, envolvimento desviante.
No último caso, onde o espelho se torna absolutamente verde, significa algo além da compreensão. Este é um método similar ao utilizado para descobrir o núcleo de energia de um desviante; entretanto, ao contrário do conduíte cristalizado, que necessita do toque e interação do desviante para determinar sua energia, aquele receptor precisava apenas estar no ambiente quando a onda de mana acontecesse.
E foi isso que aconteceu…
Enquanto Zemynder e Moris estavam pondo suas novas táticas no segundo dia de treinamento, a Quinta Legião recebeu um pedido da princesa Jeanne e seu General Malcolm.
Apenas dois dias antes dos treinamentos começarem, os receptores sensitivos das Tumbas de Kiescrone ativaram o alarme interno, onde dados de uma enorme onda de mana se alastrou intensamente. Dado o apurado pelos receptores, nem mesmo os desenvolvedores daquela tecnologia conseguiram determinar do que se tratava.
Foi onde Bastien entrou na missão.
Ao lado de Malcolm e Carl, o Arauto de Hades foi enviado para uma expedição nas Tumbas subterrâneas de Kiescrone — utilizados para locomoção, abrigo de civis ou até mesmo para se livrar dos corpos de pessoas poderosas nas guerras.
Enquanto caminhavam pelos corredores escuros e úmidos, Bastien olhava o receptor atentamente.
O brilho da mana estava tão forte que parecia estar pintado por tinta.
— Isso deveria ser possível? — murmurou olhando para o receptor.
— Não deveria — respondeu Carl — Mas, é o que está acontecendo. Ei, Malcolm… Há quanto tempo estamos aqui dentro?
— Não sei.
Malcolm respondeu bisbilhotando um corredor à direita, iluminando com uma lanterna forte. Porém, ele não encontrou nada além de mais túneis.
— Deviam ter enviado um nativo de Kiescrone conosco… Desvendar esse labirinto é um saco — reclamou Malcolm.
Pondo a mão entre os fios de cabelo, Carl gabou-se:
— Eu sou um nativo de Kiescrone!
Bastien e Malcolm o olharam com uma expressão crítica.
— E serve à Alsuhindr?
— É, né. Uma estrela sempre irá brilhar forte!
Malcolm deu um passo para trás e empurrou seu companheiro para a frente.
— Então ilumine nosso caminho, estrela.
Abrindo uma garrafa d’água, o General percebeu que já estava secando. Era o esperado, tendo em vista o tempo caminhado…
Ele vasculhou os outros frascos, mas estavam com quase ou nenhuma água.
— Estamos ficando sem suprimentos…
— É disso que eu estava falando… — disse Carl, os guiando pelo corredor. — Já estamos ficando sem suprimentos… Mas, a boa notícia é que estamos perto de um retiro militar.
— O quê? Aqui? — perguntou Bastien, surpreso.
— Sim e não. Se formos analisar, não estamos tão fundo assim… As Tumbas tem cerca de cinquenta níveis, e estamos apenas no quinto, talvez. Mais a frente devemos encontrar uma escada que nos dá acesso aos andares superiores e, o mais importante: uma base militar. Podemos pegar suprimentos lá após explicar nossa situação…
— O nativo de Kiescrone que irá — afirmou Malcolm, evitando olhar para Carl.
Descontente, no entanto, restou-lhe a obedecer.
— Tá. Eu subo lá para conversar com eles.
— Mas… Como você sabe que estamos próximos? — inquiriu Bastien.
Carl apontou sua lanterna para uma parede mais adiante.
— Outro receptor, está vendo? Há um receptor posicionado a cada quinhentos metros. A cada cinco receptores existe uma saída militar, que nos leva até uma base militar regional. A cada quilômetro existe uma saída de emergência, que nos bota no meio de Kiescrone caso algo dê errado. Se a escada não tiver no próximo receptor, então teremos que andar mais um pouco…
— Ou voltar…
— É, mas não é tão inteligente.
Caminhando a distância necessária, o grupo parou em frente ao receptor.
Ele marcava com a mesma intensidade dos demais receptores. Entretanto, ao lado deste, havia uma escada que levava diretamente a um ponto inalcançável com os olhos.
Bastien parou para notar que ele ignorou todas as escadas anteriores.
Iluminando o corredor com sua lanterna, Carl percebeu ser a saída militar, algo que o acalmou pois não precisam caminhar mais. Ao menos, Malcolm e Bastien que ficariam sentados esperando…
— É militar?
— Sim. Tá vendo aquela luz vermelha? Então, ela mostra que é militar.
Uma pequena lâmpada vermelha, quase apagada, brilhava fracamente no topo.
— Bom, eu vou lá em cima. Me esperem aqui, devo demorar meia hora… — disse Carl, repensando sobre sua afirmação de tempo.
Talvez demorasse mais.
— Cuidado com as bestas de mana! — Ele disse subindo os degraus.
— Nós quem falamos isso, vai estar sozinho — retrucou Bastien, escorado na parede.
Como resposta, Carl apenas retirou sua espada fina da bainha, deixando um zunido fugir pelo corredor.
Sorrindo com a arrogância de Carl e deslizando pela parede, Bastien se sentou na porta, de costas para a direção que eles deveriam seguir em breve.
Malcolm, entretanto, ficou de pé com os braços cruzados e escorado na parede.
Desabotoando a bainha de sua lâmina do cinto, Bastien segurou o cabo como se fosse retirar a espada, mas desistiu completamente. Ele a apoiou no primeiro degrau, querendo manter distância.
Posteriormente, vasculhou sua mochila.
Apenas observando o comportamento de Bastien em silêncio, Malcolm soltou um sorriso abafado.
Comendo uma barra de cereal, Bastien o olhou e esperou por algum comentário.
— Um homem que tem vergonha de tua espada, não merece empunhá-la… — comentou Malcolm.
Mas… era justamente isso que Bastien desejava.
— Leve-a contigo. Se não enlouquecer com o sofrimento das almas que arranquei o direito de pisar nos Campos Elisios, ficarei feliz em te nomear como o novo rei de submundo — retrucou Bastien, olhando para sua mochila, ainda com uma parte do cereal na boca.
— Eu já sofro com isso — disse Malcolm, dobrando o joelho esquerdo e se apoiando mais ainda na parede. — Muitos acham que meu poder é um dom, mas não estavam lá quando matei todo o meu esquadrão sem a mínima intenção…
Bastien olhou para Malcolm e prestou atenção em suas palavras.
— A eletricidade é algo que, com um único deslize, não há como reverter o estrago. Eu tenho que lutar sozinho, isso foi o que aprendi há cinco anos. Carl e Art podem fazer parte da minha Legião, mas nunca treinamos juntos. Quando lutei ao lado do seu general, eu fiquei genuinamente com medo de matá-lo sem intenção…
— Ele não morreria assim — afirmou Bastien.
— Todos morrem de formas inusitadas…
— O Theo? Morrer por negligência? Acha que ele não teria algo em mente antes de te pedir algo daquele nível?
— E eu vou saber o que se passa na cabeça de um gênio maluco? — disse rindo — Sinceramente… Não vejo motivos para isso.
Bastien inclinou o rosto e atentou-se ainda mais no General de Jeanne.
— Nós, os homens fortes, estamos sempre achando métodos para não utilizarmos nossos poderes. Principalmente quando se trata de machucar outras pessoas…
Quebrando uma segunda barra de cereal, Bastien ofereceu para Malcolm.
— Se chama ética, e essa é nossa maior fraqueza. Veja Javier… Ele é o mais forte entre nós, justamente por não se importar com nada além dele próprio.
Malcolm aceitou o pedaço do cereal.
— Então, a meta é tacar o foda-se.
— É tipo isso.
O general de Jeanne gargalhou de boca cheia.
— Vocês são engraçados…
Bastien sorriu com aquele comentário. De fato, eles eram desajeitados.
— Aliás, todos esses nomes são de mentira, não? Qual seu verdadeiro nome? — perguntou Malcolm.
Curioso pela pergunta repentina, Bastien logo se lembrou de um comentário feito por Theo a respeito do povo de Malcolm: eles prezavam pelo nome verdadeiro, principalmente o segundo nome. Era o maior sinal de respeito que aquele povo podia oferecer.
Sentindo-se grato pela confiança, Bastien não hesitou antes de responder:
— Bastien é meu segundo nome… Mas, meu nome completo é Emillie Bastien, prazer.
— Prazer, Emillie. Malcolm Lilzing.
Como um gesto para selar a confiança, eles sorriam juntos até Carl regressar.

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