Capítulo 2 - Abaixo da Lua de Sangue
O que vem após a morte?
A lua respondeu, conforme o tom materno e etéreo…
Do homem que nunca chorou, agora escapam berros; como uma criança, reclamando de dores no corpo, pois havia acabado de nascer.
O brilho de uma lua de sangue escapou pelas brechas da janela, reluzindo na pele pálida do recém-nascido. Envolvido por um toque quase divino, cujos fios loiros voaram pela visão turva, nada entendeu.
Há poucos segundos, Liam Mason Le Fay estava no campo de guerra; jogado, lançado a uma pedra que esbanjava teu sangue viscoso.
O carmesim, além de romper seus órgãos, também iluminou os olhos: a lua estava naquela cor. Como um ritual da vida, correndo contra a morte.
Queria pensar, mas chorou no lugar.
Os berros de uma criança, que poucos cabelos ainda tinha, correram pela sala de parto. Fazendo a enfermeira correr para limpar um pano sujo de sangue enquanto a própria mãe soava ofegante.
Tentou abrir os olhos, mas a luz de lanternas de fogo invadiram a retina com explosões. Então, fechou os olhos rapidamente e retornou a chorar.
— Leve isto lá para baixo! — ordenou Emilia, a parteira, que soava de nervosismo. Entregando um pano branco à sua auxiliar, Ellen, que portanto correu um lance de escadas após sair pela porta.
Passando a mão na testa, Emilia suspirou forte e jogou uma carga de suor no chão.
— Lady, isso foi dramático! — disse assustada.
Embora robusta, enrugada e, aparentemente, mal-humorada, Emília tremia constantemente com o coração pulsando na garganta.
Há pouco, aquela criança pálida, cujos fios amarelos formavam-se no couro-cabeludo, não apresentava vida.
O coração da jovem Lady Camille, a duquesa de Lawrence, acalmou-se com o tempo. Ela chorou: tanto quanto jamais chorou, afinal, parecia ter perdido um filho.
Então, poucos minutos após “nascer morto” ele berrou. A criança que não carregou vontade a princípio, apenas confusão.
Tanto para ele, quanto para aqueles ao redor.
Camille sorriu contente, mas desajeitada.
— Qual será o nome desse dito cujo? — indagou Emilia, com certa intimidade.
Ela olhou e analisou, mas, junto de seu marido — ausente naquela ocasião — já havia um nome decidido.
— Theo… Este será seu nome. Theo… — disse com amor, assim como cochichando ao recém-nascido.
Este, então, reagiu agarrando o dedo de sua mãe; pela primeira vez, ele se acalmou.
***
Sem ao menos entender, ele sonhou naquele noite.
Havia um campo de areia abaixo dos pés; assim era Liam Mason. Um homem alto, cabelos loiros e olhos azuis, casualmente estava vestindo com uma farda militar esverdeada próxima do preto.
Carregava cortes profundos pelo rosto, assim como um desespero sincero.
‘O que fazes aqui, se não viesse ao Pai?’ questionou, uma voz rumo ao vento.
O céu azul-turquesa, com poucas nuvens, logo se tornou uma tempestade ao horizonte.
‘Ele morreu, Senhor do Julgamento’ veio uma voz ao seu lado.
Diante Liam, um trono majestoso e astronômico cobria o céu. Uma criatura, cujo semblante distorcia o espaço, não permitiu que fosse interpretada por uma simples mente humana.
— Morri? — suspirou incrédulo, olhando para o céu em confusão. — Esse… É o pós-morte?
A criatura se mexeu, como se repousasse o braço em suas pernas.
‘Este é o deserto de Yeshua. Onde o julgamento do Pai atinge tua alma, ser pecador. Abaixo de ti está o pó dos condenados ao inferno, proibidos de adentrar aos campos dos jardins eternos’ disse em tom firme, mas logo sobreposto.
‘Não o conte baboseiras’ era uma mulher ao seu lado, ao menos a voz e o semblante distorcidos que lhe passavam essa impressão.
— Você é o julgador, e ela te dá as leis? É uma secretária divina? — disse Liam, cruzando os braços na cintura.
O Julgador ficou incrédulo.
— Esse lugar não me dá pavor, como pensei que daria… Esperava ao menos um anjo, ou um demônio, para me receberem aqui…
‘Criança etérea, tu não tens medo?’ perguntou ela, encarando Liam aos olhos profundos.
— Medo do quê? — respondeu insatisfeito. — Se já estou morto desde o nascimento, e, após ouvir aquele relinchar… Não há motivos para ter medo.
Os olhos julgadores se estreitaram.
‘A inveja… Este é o pecado capital marcado em tua carne…’ cochichou pensativo; todavia, qualquer sussurro daquela criatura era como um berro da tempestade.
— Ótimo… Devo ir ao inferno por isso? Se bem que nessa provação eu já passei… Pode me dar um ticket dourado e me enviar direto ao descanso eterno?
“A intimidade que este homem se refere é de me deixar encabulado…” pensou, quase rangendo os dentes. “Embora seja sincero, pois não vejo o medo no olhar…”
Retornando à sua postura, o Julgador analisou as memórias, os fatos de quem julgava.
‘Eu adoraria lhe dar uma sentença nas entranhas de Baalzeth, e fazê-lo praticar nas chamas das almas rumo à eternidade, mas, minha secretária revelou-me algo interessante…’
Jogando-se na areia limpa e fina, Liam olhou para um par de olhos na distorção do espaço. Pareciam vazios pelo mundo, mas eternos pelo universo.
‘Acredita em deuses, criança?’
— Se estou aqui é por que deve haver algum… — respondeu olhando para o deserto infinito. — Mas, se perguntas enquanto estive vivo… A resposta é não.
‘Claro, claro…’ riu cruelmente. ‘Criança que logo será esquecida, aquele que trilhou o caminho da destruição e morte, que não teve culpa da própria dor… Infelizmente, o destino não gosta que eu o contrarie, portanto…’
A mão de Liam afundou na areia, grão a grão.
Como se outras mãos estivessem puxando-o para baixo…
Naquele instante, então, se assustou.
‘A lua decidiu por nós, e a você deu a sentença pior que a morte… Vejo que nunca acreditou no céu ou inferno, criança perdida. Faça questão de pensar sobre isso novamente.’
— Quê? — Liam resmungou, tendo o corpo sendo arrastado e consumido pela areia dos mortos.
Arranhado, por garras necrosadas, foi afundado como em areia movediça: até que nada mais escutasse, o semblante de um sorriso sádico do Julgador ruiu aos montes.
Por instantes, o relinchar de um cavalo tomou os ouvidos…
Sufocado pelo próprio desespero, ele saltou acordando assustado. Abrindo os olhos limitados, sentiu a luz explodir novamente dentro da retina; o pequeno e frágil coração acelerou drasticamente.
Preso no corpo de um recém-nascido, chorou novamente.
Berros altos ecoaram pela casa; naquele momento, Camille estava tomando banho e as enfermeiras ocupadas noutros cômodos.
Porém, os berros não foram escutados…
Estavam limitados.
‘Pequeno filho… Finalmente pude vê-lo’ disse uma voz, tão feminina quanto etérea.
Um toque limpo e suave acalmou o bebê, que soluçou por um instante.
Ele não enxergou, mas havia uma bela mulher de rosto redondo e olhos prateados; vestia branco, assim como a pele era pálida reluzente à lua.
Os cabelos negros despencaram como um véu, enquanto os olhos brilhavam de orgulho.
‘Você se prendeu num lugar que jamais pensaria estar… Então, não havia o que fazer além disso. Peço-lhe perdão…’ sussurrou aproximando o rosto, envolvida por uma linda aura púrpura.
Aproximando-se, deu um beijo suave na bochecha do pequeno que, novamente, se acalmou.
‘Estarei te esperando logo, logo. Ouça o conselho da coruja, que te guiará. Venha até mim, meu filho.’
Com os olhos preenchidos por lágrimas, ela fungou.
‘Bem-vindo ao mundo, meu pequeno filho renascido… Minha criança de ouro… Theo Augustus De Lawrence.’

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