Índice de Capítulo

    O sol de Okinawa ardia alto no céu, despejando calor sobre a ilha como um castigo constante. O ar era pesado, carregado de sal vindo do mar próximo, misturado ao cheiro de terra batida e suor antigo. Não havia luxo naquele lugar. Apenas um campo amplo, cercado por rochas e árvores retorcidas pelo vento, marcado por rachaduras no chão — cicatrizes deixadas por décadas de treinos brutais.

    Ali, Hayato mal conseguia se manter em pé.

    Seus joelhos tremiam, os braços estavam dormentes e sua respiração saía em puxões irregulares, como se o próprio ar tivesse se tornado um inimigo. O corpo inteiro parecia gritar para que ele parasse. Mas o treino ainda não havia acabado.

    — De novo.

    A voz de Aiko Yamamoto cortou o ambiente como um trovão seco.

    Ela estava parada a poucos metros dele, braços cruzados, postura impecável. Seu corpo não era grande, tampouco exageradamente musculoso, mas havia nela algo que esmagava qualquer tentativa de subestimá-la. Os olhos afiados observavam cada detalhe de Hayato — cada erro, cada hesitação, cada fração de segundo em que sua vontade vacilava.

    A criadora do Thunder Boxing.

    A Rainha absoluta de Okinawa.

    Aiko Yamamoto.

    Hayato cerrou os dentes.

    — Já… já foi a décima sequência… — murmurou, quase sem voz.

    — Décima terceira — corrigiu ela, sem alterar o tom. — E no Thunder Boxing, o corpo só começa a aprender quando acredita que não pode mais.

    Hayato soltou um riso fraco, quase delirante.

    — Você… é completamente insana…

    Aiko ergueu uma sobrancelha.

    — E mesmo assim você continua aqui.

    Ela avançou em um piscar de olhos. Antes que Hayato pudesse reagir, um golpe seco atingiu seu abdômen, arrancando o ar de seus pulmões. Ele foi lançado para trás e rolou pelo chão, parando de joelhos, tossindo violentamente.

    — Levante — ordenou ela. — Enquanto você ainda consegue.

    Cada palavra carregava peso. Não havia crueldade gratuita ali, mas também não havia misericórdia. Para Aiko Yamamoto, treinar alguém era esculpir uma arma viva — e armas não podiam ser frágeis.

    Hayato apoiou uma mão no chão rachado. Seus dedos tremiam.

    “Resistência…”

    “Se eu cair agora… nunca vou alcançar isso…”

    Com esforço brutal, ele se colocou de pé novamente, o corpo balançando, mas os olhos firmes.

    Aiko o observou por alguns segundos. Pela primeira vez desde o início do treino, um leve sinal de aprovação cruzou seu rosto.

    — Ainda está aqui. — Ela assentiu de leve. — Então pergunte.

    Hayato piscou, confuso.

    — Pergunte o quê?

    — Você está com isso preso na garganta desde ontem — respondeu ela. — Fale logo.

    Hayato respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.

    — Os reis… — começou. — Existe algum tipo de ranking entre vocês? Tipo… quem é o mais forte, o mais fraco?

    Aiko ficou em silêncio por alguns segundos. O vento soprou forte, fazendo seus cabelos se moverem suavemente. Ela caminhou até a sombra de uma árvore e se sentou sobre uma rocha, gesticulando para que Hayato fizesse o mesmo. Ele caiu sentado, exausto.

    — Não — respondeu ela, finalmente. — Não existe ranking.

    Hayato franziu o cenho.

    — Mas… vocês não se comparam?

    Aiko soltou um suspiro curto, quase impaciente.

    — Comparar força é coisa de quem não entende poder. — Ela o encarou. — Cada rei domina uma região. Cada um construiu sua força em contextos diferentes, contra inimigos diferentes, com ideais diferentes. Tentar colocar isso em números seria… infantil.

    Ela cruzou as pernas.

    — Além disso, os reis nunca se deram bem entre si. — Um leve sorriso irônico surgiu. — Óbvio. Todos somos líderes. Todos somos orgulho. Todos somos monstros criados por este país quebrado.

    Hayato ouviu atentamente.

    — Então vocês nunca lutaram juntos?

    A expressão de Aiko mudou.

    O sorriso desapareceu. Seus olhos ficaram mais pesados, mais distantes.

    — Apenas uma vez.

    O ar pareceu esfriar.

    — Na primeira grande batalha em Ōtsu — continuou ela. — Contra a Kira.

    O coração de Hayato acelerou ao ouvir aquele nome.

    — Foi a única vez que os reis se reuniram. Não por aliança… mas por necessidade. — Ela fechou os punhos. — E foi lá que perdemos alguém insubstituível.

    Hayato sentiu um arrepio percorrer a espinha.

    — Quem? — Hayato perguntou a ela com um olhar de dúvida

    Aiko ergueu o olhar para o horizonte, como se enxergasse algo que não estava mais ali.

    — O Rei de Ōtsu. — Sua voz ficou baixa. — O mais experiente entre nós. O mais respeitado. O mais perigoso.

    Ela fez uma breve pausa.

    — O único homem que realmente podia enfrentar a Kira… e fazê-la sangrar.

    O silêncio se instalou novamente.

    — Ele morreu — disse ela, por fim. — Não naquela batalha diretamente… mas depois. Em um parque. Sozinho.

    Hayato sentiu o peso daquelas palavras esmagarem seu peito.

    — Aquele homem… — Aiko cerrou os dentes. — Era chamado de Raiga Kurohane.

    Hayato arregalou levemente os olhos.

    — Raiga… Kurohane?

    — O Rei dos Reis — completou ela. — Um título que ninguém mais ousou usar desde então.

    — Ele era tão poderoso assim? Como alguém como ele conseguiu morrer tão “facilmente” assim? — o Hayato perguntou em dúvida, ela deu uma risada de leve, e respirou profundamente e disse;

    — Ele era um bom rapaz, de coração valente, um exímio herói, eu o odiava por agir assim, mas o respeitava pela força que conseguiu, o mesmo, odiava ser chamado de rei de Ōtsu, ele só era um camponês que viveu ali naquela área, ele conquistou uma força absurda quando foi treinado por membros da geração zero, e mesmo sendo considerado ordinário, continuou, e só depois, ascendeu como um rei.

    Hayato ficou ali, pensando como era aquele homem que a sua mestra descrevia para si, ele deu uma risada e apertou os seus punhos, sentindo um calor intenso no seu coração e uma vontade extrema de luta e superação

    O vento soprava suave no parque.

    As árvores balançavam lentamente, espalhando sombras irregulares pelo chão. Crianças costumavam brincar ali. Casais costumavam caminhar ali. Mas naquele fim de tarde, o lugar estava vazio.

    Vini Jin estava sentado em um dos bancos, sozinho.

    Usava seus óculos escuros habituais, mesmo com o sol já começando a se pôr. Seu corpo estava relaxado, mas sua mente… não.

    Ele ergueu a mão direita diante do rosto.

    No dorso, uma cicatriz antiga atravessava a pele — irregular, profunda. Uma marca que nunca desapareceria.

    Seus dedos se fecharam lentamente.

    A imagem voltou com força.

    Raiga Kurohane em pé diante dele.

    A postura imponente.

    A voz grave.

    O olhar que parecia enxergar tudo.

    “Um rei não governa porque é o mais forte”, dizia ele.

    “Ele governa porque carrega a vontade de todos que não puderam chegar até ali.”

    Vini apertou os dentes.

    — Mestre… — murmurou.

    O parque parecia distante agora. Ele já não via as árvores, nem o céu alaranjado. Via apenas aquele homem caminhando à sua frente… e depois, caindo.

    Sozinho.

    Traído por um sistema podre.

    Esmagado por forças que se escondiam nas sombras.

    Vini ergueu o rosto lentamente para o céu. As nuvens se moviam devagar, indiferentes à dor humana.

    — Eu vou te vingar — disse, com voz firme, carregada de um ódio silencioso. — O Charles vai pagar por tudo, mestre.

    O vento soprou mais forte naquele instante, balançando as folhas ao redor, como se o mundo tivesse ouvido.

    Vini permaneceu ali por mais alguns segundos, imóvel.

    Então se levantou.

    A cicatriz em sua mão ardia levemente.

    Não de dor.

    Mas de promessa.

    Enquanto isso, em Okinawa, Hayato cerrava os punhos novamente, sentindo algo diferente pulsar dentro do peito.

    A vontade não morria.

    Ela apenas esperava alguém forte o bastante para herdá-la.

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