Capítulo 114: O Conto de Fadas (6/6)
Depois de ler a cena da morte de Hamel, Eugene teve certeza: quem escrevera aquele conto de fadas foi Anise.
“Diziam que, até sair em peregrinação, ela passava os dias no Império Sagrado sendo chamada de santa. Parece que essa vida entediante foi o suficiente pra deixar Anise louca.”
Só isso já explicava por que ela teria escrito algo tão absurdo. Com a personalidade de Anise, era bem provável que se descrevesse como gentil e encantadora. Quanto ao motivo de ter enchido os adjetivos de Sienna de elogios exagerados…
“Ela devia estar querendo zoar a Sienna.”
— Sienna. Sempre gostei de você.
“E, de quebra, eu também fui zoado. Aquela desgraçada.”
Eugene cerrou os punhos, tomado por uma onda de frustração.
Apesar de ter lido na esperança de encontrar algo diferente, nem mesmo nesse conto de fadas havia um relato real de como terminou a batalha final contra o Rei Demônio do Encarceramento. Nesse aspecto, ele era igual às versões revisadas. Um juramento fora feito, e com essa nova paz forjada, os membros do grupo haviam deixado Helmuth e retornado a seus respectivos lares. E assim viveram felizes para sempre.
Felizes, dizia.
Eugene estalou a língua e fechou o livro. Seu humor piorou ainda mais ao dar de cara com o retrato de Sienna sorrindo de um jeito que não combinava nada com ela.
— Vai tentar de novo? — perguntou Mer.
Eugene grunhiu em confirmação:
— Hm.
— Não acho ruim tentar mais uma vez, mas parece um pouco arrogante da sua parte, Sir Eugene, tentar isso no seu nível atual — Mer observou.
Ele já tinha ouvido algo parecido da parte dela outras vezes. Eugene deu um sorriso de canto e foi até a Feitiçaria.
— O desafio precisa ser difícil para valer a pena — disse Eugene.
— Você vive falhando, então que valor isso tem? — Mer bufou.
Apesar disso, Mer não tentou impedi-lo. Secretamente, estava interessada no que Eugene estava tentando fazer.
Dez dias após a partida dos Cavaleiros do Leão Negro, Eugene passara a maior parte do tempo acordado em Akron.
Nos primeiros dias, seguiu o conselho de Mer e estudou a magia dos andares inferiores. A magia de combate do décimo primeiro andar, a magia de fogo do nono andar, a magia de campo de batalha do sétimo andar e a magia espacial do sexto andar.
Eugene havia se interessado especialmente pela magia espacial do sexto andar. Não era por causa do Piscar, que ele ainda não conseguia usar, mas sim para estudar como utilizar corretamente o Manto das Sombras. Esse manto havia sido encantado com magia espacial de altíssimo nível e, por si só, já era uma peça de armadura incrível, mas podia ser usado de diversas outras formas, dependendo da habilidade de quem o manipulasse.
Desde o início, era fácil usar o subespaço selado dentro do manto. Bastava pegar um objeto e colocá-lo dentro do manto. Para tirar, também era simples: era só enfiar a mão no manto e puxar o que queria.
No entanto, para usar o manto para redirecionar um ataque, era preciso calcular separadamente as coordenadas espaciais. Em outras palavras, era necessário identificar rapidamente as coordenadas de onde o ataque seria recebido e, então, designar as coordenadas para onde o ataque deveria ser devolvido. Só a busca por essas coordenadas já exigia magia de nível elevado.
Mesmo tendo grande interesse nisso, Eugene foi forçado a deixar de lado… por ora.
Eugene voltou mais uma vez ao décimo segundo andar. O Buraco Eterno que ele vira em Feitiçaria não saía de sua mente.
Então, mais uma vez, ele voltou para Feitiçaria, viu o conteúdo… e desmaiou.
A partir da terceira tentativa, ele parou de desmaiar. Sua consciência se acostumou aos movimentos absurdos da mana. Mas isso, por si só, não bastava. Só observar não levava a nada. Se queria realmente conquistar algo com aquilo, precisava ao menos compreender parte do que via.
“O Buraco Eterno.”
A realização suprema da magia de Círculo.
“A Fórmula da Chama Branca.”
As escrituras de treinamento de mana do clã Lionheart.
“Eu já estou familiarizado com controle de mana, e também com a Fórmula da Chama Branca.”
Pensou em tentar combinar os dois por meio da aplicação prática.
Era impossível para o Eugene atual reproduzir o Buraco Eterno por completo. Seria necessário alcançar pelo menos o Nono Círculo para isso.
O Buraco Eterno. Simplificando, tratava-se de manter uma quantidade infinita de Círculos multiplicando-se dentro de um único Círculo imenso. Reproduzindo, entrelaçando e colapsando os Círculos criados, ele amplificava qualquer mana que fosse inserida nele.
Eugene não usava Círculos para lançar magia. Ele os substituía por seus Núcleos, as Estrelas da Fórmula da Chama Branca. Ao girar suas três Estrelas, ele formava um Círculo.
Mas… e se ele conseguisse gerar múltiplos Círculos dentro do Círculo que havia formado por meio desse método?
Eugene sorriu para si mesmo diante de Feitiçaria.
Em sua vida passada, Hamel não aprendera a Fórmula da Chama Branca. Como também não estudara magia, não possuía Círculos.
O que Hamel aprendera era uma escritura de treinamento de mana barata, amplamente difundida entre mercenários. Hamel adicionara seu próprio conhecimento e aprimoramentos àquilo. Mais tarde, Sienna chegou a revisar o conteúdo e fazer correções.
Não tinha um nome pomposo. Hamel não tinha intenção de escrever nada para deixar para gerações futuras, e também não teve discípulos nem descendentes para quem pudesse transmitir esse conhecimento. No fim… o único no mundo que aprendeu aquela escritura de treinamento de mana foi Hamel.
Primeiro, formava-se o núcleo. Depois, explodia-se a mana contida nesse núcleo em uma cadeia de explosões. A mana, propulsionada por essas explosões internas, se espalhava rapidamente pelo corpo. A mana explodida não era liberada para fora. Ao explodir toda a sua mana, Hamel conseguia liberar sua força máxima por um único segundo.
E só com isso, Hamel foi capaz de decepar os membros de Kamash.
— Você nasceu com um instinto para a batalha.
Isso foi algo que Vermouth lhe dissera uma vez.
— Você realmente pagou por uma escritura de mana dessas?
Foi o que Sienna comentara.
— Eu simplesmente não entendo. Com esse tipo de… lixo… você foi capaz de atingir o nível de força que tem agora, praticando essa escritura de treinamento de mana?
Ele conseguiria.
Eugene não duvidava de si mesmo. Via que sua ideia tinha alguma possibilidade de sucesso. E, se esse fosse o caso, com certeza ele conseguiria. Não precisava necessariamente reproduzir o Buraco Eterno perfeitamente. Com sua Terceira Estrela da Fórmula da Chama Branca e o Círculo criado a partir delas, ele explodiria a mana gerada dentro do Círculo. Não seria uma explosão comum, mas uma cadeia contínua de explosões. Se conseguisse fazer isso com a mesma naturalidade de respirar…
— Já que você me permitiu ver tudo assim…
Dentro de sua consciência, Eugene viu o mar infinito de mana sendo usado para desenhar um Círculo. Aquilo era o Buraco Eterno, o ápice final da magia de Círculo criada por Sienna. Transmitia uma sensação de reverência, mesmo já tendo sido visto por ele inúmeras vezes.
A essa altura, ele já não corria mais o risco de desmaiar. Imerso em sua própria consciência, Eugene observava o fluxo da mana. Uma série infinita de Círculos era gerada, todos contidos dentro de um único Círculo gigantesco. Ao focar sua atenção nesse fluxo, a mana de Eugene, que parecia um grão de poeira dentro daquele vasto mar, começou a reagir.
E assim…
Dois anos se passaram.

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