Capítulo 270: Camadas de Ilusões
Dat dat dat, o som dos cascos dos cavalos cavalgando pela estrada de lama ecoava, lembrando o som de um carro correndo pela estrada.
Assolado por uma dor opressiva, Gu Jun sentiu como se estivesse subindo em um abismo escuro. Ele estava flutuando, a escuridão ao redor foi substituída por ilusões, como se estivesse entrando em um abismo.
Estou morto…? Fui consumido pelo Filho do Infortúnio…?
Gu Jun não podia dizer, ele havia conseguido suprimir a evocação da energia negra dentro dele? Ele estava apenas vendo ilusões ou indo para algum lugar? Ele não tinha certeza.
Aos poucos, ele pôde ver mais claramente.
O céu estava sombrio e o ar estava impregnado de mau cheiro. Uma carroça de transporte de madeira, puxada por dois grandes cavalos de alto porte, avançava pela estrada lamacenta com suas quatro rodas rangendo. No banco da frente estava um cocheiro que conduzia, enquanto a carroça estava carregada com corpos, esta era uma carroça de cadáveres.
Tanto o cocheiro quanto os corpos na carroça, a estilística de suas roupas claramente revelava sua identidade, a civilização estrangeira.
Isso é uma ilusão do mundo estrangeiro… ou é uma memória de Landon?
Gu Jun, em um estado de torpor, parecia ver outra cena diferente. Era um ônibus amarelo. Olhando de fora através das janelas, viu que o motorista era alguém vestindo um traje de proteção de grau 3, e dentro do ônibus havia uma pilha de corpos sentados e deitados.
Os corpos estavam vestidos como pessoas comuns, alguns já em estado de decomposição, outros ainda tossindo sangue… Eles não eram cadáveres, mas pessoas à beira da morte…
Isso é… uma imagem tirada da Terra? Mas de que linha do tempo ela é?
Ele se lembrou de não ter visto esse tipo de cena enquanto caminhava pela cidade de Jiangxing, em Shanhai. Estaria isso acontecendo no futuro? Ou é o presente?
De qualquer forma, parecia que ainda haviam pessoas lidando com os moribundos e os mortos para que eles não apodrecessem nas ruas… Isso significava que o mundo ainda não havia sido completamente arruinado.
De repente, o ônibus se transformou novamente em uma carroça e a autoestrada voltou a ser uma estrada lamacenta. Ele pôde ouvir uma voz humilde dizer:
“Senhor, não sou de forma alguma um homem corajoso. Na verdade, eu estava com medo também, estava terrivelmente com medo até alguns dias atrás. Mas, em apenas alguns dias, minha esposa morreu, meus três filhos também morreram, e eu, por alguma razão, ainda estou vivo, mas não acho que vá durar muito mais. Quando penso que também vou morrer tossindo sangue, que todos vão morrer tossindo sangue, então não temo mais nada.”
O cocheiro falou ao parar a carroça de cadáveres na estrada.
“Depois que perdi o medo, pensei em fazer algo, mas sou apenas um fazendeiro. Além de lidar com a terra, não sei fazer mais nada.”
O cocheiro falava com um sorriso autodepreciativo, mas logo as lágrimas começaram a escorrer enquanto ele olhava para os corpos na carroça. “Mas agora só resta eu. Eu conheço cada uma dessas pessoas na carroça, todos nós morávamos na mesma rua. Não posso deixá-las apodrecer lá, se tornarem alimento para cães ou monstros. Tenho que… tenho que enterrá-las, mesmo que seja em uma cova simples e rudimentar.”
“Ainda vou orar por eles, não importa se a Deusa da Vida existe ou não, não importa se ela se importa conosco ou não… Se eu começar a me preocupar com isso, com certeza vou enlouquecer, e nem mesmo conseguirei enterrá-los decentemente.”
O cocheiro soluçou entre suas palavras, enxugando as lágrimas. “Senhor, não se culpe. Muitas pessoas estão culpando vocês, dizendo que os médicos Carlot decepcionaram a todos. Mas, na minha opinião, os médicos tratam algumas doenças, mas não podem tratar todas. Quem pode curar todas as doenças e salvar todas as pessoas é um deus. Eu já vi médicos, mas nunca vi um deus.”
“Eu não entendo sobre deuses, mas sei que o médicos Carlot são bons… Meu filho mais velho tinha potencial como você, mas agora todos se foram, todos se foram…”
Dat dat dat, o chicote estalou, os cascos dos cavalos bateram no chão e as rodas da carroça lançaram lama ao ar enquanto a carroça de cadáveres continuava sua jornada.
Sim, tudo se foi. Mais lembranças desse incidente vieram à mente de Gu Jun.
A rua inteira, não, a cidade inteira foi destruída pela hemoptise, todos estavam mortos.
Os remanescentes que sobreviveram ficaram loucos, vivendo uma vida pior que a morte. Ainda havia algumas pessoas com a sanidade intacta, como o cocheiro, não eram muitas, mas… ainda havia, ainda havia…
A peste não trazia apenas a morte, mas também um medo extremo. Viver nesse mundo cheio de medo naturalmente levava as pessoas a agirem de maneira estranha, mesmo em lugares que ainda não haviam sucumbido à peste, as pessoas eram dominadas por esse sentimento.
Gu Jun, em um estado de transe mental, viu algumas imagens de cidades modernas.
Na rua outrora movimentada, um punhado de pedestres caminhava pela rua usando máscaras grossas. Seus olhos olhavam em volta freneticamente e seus passos se moviam apressadamente…
“Ah!” De repente, ouviu-se um grito. Foi porque alguém viu uma pessoa vestindo uma camisa branca que lembrava um jaleco de médico. O grito fez com que as pessoas na rua se dispersassem em pânico, como se estivessem expostas a um gás venenoso. Um médico! Onde houver um médico, haverá uma epidemia!
Sua dor de cabeça se intensificou. Mas era uma dor de cabeça… ou sua consciência se dissipando…
A cena mudou novamente, desta vez para uma estrada de terra em uma terra desolada, com outra carruagem, desta vez transportando vários médicos da peste vestindo chapéus e roupas pretas.
Isso é uma ilusão da Europa da Idade Média?
“Ellie, rápido, precisamos nos apressar!” A mulher de vestido de algodão pediu em pânico. Quando a carruagem entrou na cidade, os moradores da pequena cidade ficaram apavorados, pois somente a peste seguiria esses horríveis e amaldiçoados médicos da peste.
Alguns dos moradores gritavam enquanto corriam pela rua: “Não, não…”
“Oh deus, misericordioso deus, salve-nos!” Alguns aldeões caíram de joelhos no chão de barro, erguendo as mãos para o céu em oração, chorando e implorando a Deus que perdoasse seus pecados e os da aldeia. “Todos somos teus filhos, sobrevivemos até agora por tua graça, por favor, continua a ter misericórdia!”
Esses tipos de aldeões não eram uma minoria, uma grande maioria deles se ajoelhou desta forma.
Gu Jun tinha dificuldade em dizer se todos os aldeões tinham perdido a cabeça.
Mas também havia claramente pessoas loucas andando de um lado para o outro. Algumas rasgavam suas roupas, outras sujavam seus rostos com lama, e algumas se chicoteavam, gritando freneticamente: “Chegou! O julgamento chegou! Ninguém será poupado!”
Esses pobres miseráveis, humildes e loucos seres humanos. A peste negra mostrou suas verdadeiras faces, eles possuem nada além de vontades deploráveis e diversas formas de feiura…
É realmente assim? Gu Jun atingiu seu limiar de dor. Todos são mesmo essas vilezas repugnantes?
De repente, ele se lembrou daquele cocheiro de carroça estrangeiro… Quando sua família ainda estava viva e ele se escondia com medo, o cocheiro também era um dos que se ajoelhava no barro, suplicando misericórdia aos deuses.
Mas, quando foi preciso, ele se levantou para assumir sua responsabilidade. Entre as vítimas da peste negra e entre as vítimas da legionelose, a esperança brilhava ainda mais nessas almas.
“Ellie, rápido, seja rápida!” A mulher com traje de algodão gritava desesperada, enquanto seu corpo era puxado pela corda lançada pelo médico da peste.
A garotinha de maria-chiquinhas chamada Ellie continuou a correr pela terra desolada. Ela ofegava com fome de ar, parecendo correr em direção aos braços abertos da morte.
Gu Jun se sentiu seguindo atrás da frágil garotinha. Ele não podia deixá-la morrer, de jeito algum…

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