Bruno travou depois de ouvir a declaração de Íris. Não sabia o que sentir com aquilo que acabara de ouvir. Envergonhado, ergueu o olhar para os olhos dela, e por um instante pareceu que ela esperava alguma resposta — mas ele simplesmente não tinha palavras. Qualquer coisa que dissesse soaria idiota até para ele mesmo.

    Foi então que, quase como uma fuga, seu olhar se desviou para frente. O portão da escola se erguia logo à frente, trancado, as grades enferrujadas refletindo a luz pálida do fim de tarde. Ele fixou os olhos ali, aproveitando a distração como uma saída.

    — Olha ali. — apontou com o dedo, a voz levemente apressada. No corredor lateral do primeiro andar, uma silhueta surgiu andando devagar, carregando alguma coisa nas mãos. — Aquela é a Letícia? Se for… faz um bom tempo que não vejo ela.

    Forçou um sorriso, sem graça, quase automático — apenas uma tentativa de mascarar o que não tinha coragem de dizer. Íris percebeu, é claro. Mas não insistiu. Para ela, não era necessária uma resposta. O simples fato de Bruno estar mais solto ao lado dela, mais à vontade, já era suficiente. Além disso, notava bem como ele não perdia a oportunidade de deixar os olhos correrem pelo corpo dela, em cada detalhe, de todos os ângulos possíveis, sempre que tinha chance.

    — Bom… lá já tem gente e me parece que é ela mesma, então não acho que teremos problemas pra entrar — disse Íris, mas ainda manteve o olhar firme nele, esperando pra ver se Bruno ia dizer alguma coisa ou continuar fugindo.

    — Eu não sabia que você conhecia a Letícia. Como se conheceram? — ele perguntou, fingindo interesse, só pra desviar. A verdade é que nunca tinha se preocupado em saber muito da vida dela, nem de seus conhecidos.

    Íris suspirou, desapontada por perceber a enrolação. — Ela é melhor amiga da minha prima. Foi na casa dela que eu conheci a Letícia. — Baixou a cabeça, refletindo em silêncio. Talvez eu tenha falado cedo demais… ou talvez ele só tenha medo, algum trauma, sei lá.

    As pedras irregulares da rua ecoavam sob os passos deles, cada batida quase mais alta que o silêncio constrangedor que se formou. As casas em volta estavam quebradas, com janelas pendendo das dobradiças e sombras dançando nas paredes, como se a própria cidade estivesse ouvindo aquela conversa.

    — Nós estamos chegando no portão — disse Bruno de repente, o tom mais firme, mas a respiração denunciando a tensão. — Então, antes de chamar ela, ou melhor, anunciar a nossa presença… tem uma coisa que eu preciso deixar clara.

    Ele parou, coçou a nuca, evitando encarar Íris. — Eu não sei mais me declarar, nem me expressar desse jeito. Não sei falar o que você quer ouvir… — engoliu seco, o rosto meio vermelho, mas continuou — mas o lance é o seguinte: se você realmente sente que gosta de mim, do jeito que eu entendi, então se certifique de que vai ser só minha. Em troca, eu faço o mesmo. E qualquer macho filho da puta que vier com ideia errada, mesmo você evitando o cara… eu juro que eu acabo com a vida do desgraçado.

    Terminou rápido, quase atropelando as palavras. Tapou a boca com a mão, tentando esconder o biquinho involuntário que fazia quando ficava envergonhado.

    Puta que pariu… mas que declaração merda foi essa? — pensou, se auto-repreendendo mentalmente. Eu não sabia que seria tão difícil me abrir de novo desse jeito…

    — Até que, pra um cara cheio de pose e segurança, você é bem fofo quando tenta se abrir — disse Íris, com um sorriso provocativo, mas com um certo ar de ternura.

    — Eu não costumo ser assim… e também não pretendo dizer que gosto de você até ter certeza de que não vou me arrepender. — A voz dele engrossou, pesada. — Nessa mesma escola eu já tive uma paixão de infância… uma vadia branca que só fazia me humilhar e esculachar na frente de todo mundo. Eu corria atrás dela como um idiota, e ela ria, ria alto, como se eu fosse só um palhaço. Desde então eu não gosto de dar liberdade pra mulher nenhuma, muito menos me declarar.

    O olhar dele queimava de ódio, como se aquele passado ainda estivesse vivo. Íris não gostou nada da expressão, era denso demais. Então, de repente, imagens estouraram na mente dela: risadas afiadas, o pátio cheio, Bruno parado com os punhos cerrados, alguém o chamando de “fedido, imundo e nojento”, a sensação de ser pisoteado em público. Os flashes sumiram rápido, mas deixaram o peito dela apertado.

    Bruno desviou o rosto, inquieto. Olhou pros dois lados, largou o violão encostado na parede e rosnou: — Quer saber? Eu não vou ficar gritando na esperança de que abram esse portão.

    Ele tomou distância, correu e se pendurou no ferro, escalando o portão aos trancos. O metal gemeu alto, batendo contra as grades, rangendo como se fosse despencar.

    Íris ficou boquiaberta. — Seu louco! Você não usa a cabeça, não? Olha a barulheira que tá fazendo!

    Bruno ignorou o aviso de Íris e saltou para o lado de dentro. A queda foi seca, mas ele aterrissou agachado, cabeça baixa, sombra cobrindo o rosto — o suficiente pra que, por alguns segundos, ninguém o reconhecesse.

    — Há, há… Ficaram com medo? — a provocação escorreu da boca dele como se fosse veneno.

    Antes que a resposta viesse, Giovanne e Katriel avançaram com as facas em punho, prontos pra matá-lo sob a ideia de proteger o lugar. Katriel foi o primeiro a chegar: o chute acertou em cheio, esmagando as costas de Bruno contra a parede de pedra. O impacto ecoou pelo pátio, fazendo Íris prender a respiração do outro lado.

    Seu coração disparou, a adrenalina queimando como pólvora. O sangue acelerou nas veias e seus olhos mudaram de cor, um brilho feroz surgindo. Já estava pronta pra arrebentar o portão num chute só e entrar na briga, mas, no instante em que se preparava, ouviu a risada abafada dele.

    — Caralho, cuzão… pra que toda essa agressividade? — a voz de Bruno saiu carregada de ironia, como se estivesse trocando piada de boteco com os atacantes, e não acabando de levar uma porrada.

    O ar ficou suspenso até que Giovanne arregalou os olhos. Um sorriso escancarado surgiu em seu rosto, quase sem acreditar:
    — Caraí, Mohammad… é ocê! Não tô acreditando… tá vivo!

    Katriel também ficou emocionado ao revê-lo. Os olhos marejaram, mas, ao invés de falar, deixou o olhar deslizar pelo corpo de Bruno, observando cada detalhe. As roupas estavam encharcadas de sangue, manchadas como se ele tivesse rastejado por um campo de batalha.

    Bruno ergueu a cabeça e lançou uma risada curta.
    — Ae, gordinho… em vez de ficar me encarando de cima a baixo, por que não abre logo o portão pra minha parceira poder entrar? — falou, guardando a faca na mochila com calma irritante, como se nada tivesse acontecido.

    Nesse momento, Letícia se aproximou. A expressão dela era dura, quase impassível, mas os olhos percorriam Bruno com atenção, detendo-se nas manchas escarlates que cobriam sua roupa.

    — E aí, Mohammad… todo esse sangue na sua roupa é de infectado? — a pergunta saiu seca, com um olhar sério que cortava como lâmina. Ela cruzou os braços, impondo uma distância fria entre os dois.

    Bruno arqueou a sobrancelha, surpreso com a mudança dela desde a última vez que se viram. Não era a mesma garota de antes — agora ela exalava autoridade.

    O portão rangeu e começou a se abrir. Foi nesse instante que Letícia reconheceu Íris. Seu corpo enrijeceu no mesmo segundo, os olhos afiados como os de um predador. O sangue fresco que manchava a roupa da recém-chegada só aumentou o alerta, mas, mesmo assim, ela se conteve. Não se aproximou.

    — Primeiro, levantem as mãos, vocês dois. — A ordem saiu firme, sem espaço pra discussão.

    Bruno e Íris se entreolharam, confusos.

    — Katriel, verifica os corpos deles e também os olhos. — Letícia não piscava, mantendo o tom impiedoso. — Eles podem até não ter mordidas… mas eu quero ter certeza que não tem ninguém aqui com olhos brilhando e comportamento selvagem.

    Ao ouvir as palavras de Letícia, Íris sentiu um frio percorrer o estômago. Ela sabia, de forma inquietante, que tanto ela quanto Bruno já não eram mais humanos. Mas Bruno permanecia estranho, quase indiferente; sempre que seus olhos mudavam de cor, ele achava que era seu alter ego ou apenas uma alucinação passageira.

    — Precisamos conversar. — A voz ecoou, idêntica à de Bruno, firme e ameaçadora.

    O tempo pareceu congelar. O ar ficou denso, pesado, e todos ao redor pararam como estátuas, imóveis, sem respirar.

    Atrás de Bruno, uma réplica dele surgiu das sombras, avançando lentamente até se colocar frente a frente com ele. Não era uma cópia perfeita. O cabelo estava impecável, as roupas escuras e alinhadas, exalando um estilo sombrio. Os olhos vermelhos brilhavam com intensidade, o olhar frio e imponente, transmitindo uma presença quase palpável, carregada de poder.

    — Algo pior que o Alfa Branco está por vir… — disse a voz, grave e ameaçadora. — Vai ser perda de tempo continuar com esse cabo de guerra. Duas monstruosidades são ameaça não só pra você… mas pra mim também. Então, como se surgisse da própria mente de Bruno, uma silhueta colossal tomou forma. Era envolta em sombras densas, quase palpável, e seus olhos vermelhos queimavam como brasas. O corpo não tinha forma definida, mas emanava uma força brutal, esmagadora, uma presença monstruosa que fazia o chão e o ar parecerem menores diante dela. Apenas a sensação de estar diante de algo tão grande e poderoso era suficiente para gelar o sangue de qualquer um.

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