Índice de Capítulo

    Em outro ponto dessa história, enquanto eu lidava com duelos e rivalidades escolares, o destino de duas pessoas que eu nem sabia que existiam — e que jamais imaginaria que moldariam meu futuro — estava sendo traçado.

    Longe dos olhos do topo do mundo. Bem abaixo da Décima Camada…
    Nas profundezas esquecidas.

    Camada -21.

    Uma floresta imensa se erguia como uma muralha viva e alienígena. Seus troncos eram grossos, retorcidos como músculos tensionados, estendendo-se até uma escuridão que parecia não ter teto.

    Apesar de ser uma Camada Negativa, o breu não era absoluto. A escuridão aqui era suavizada — ou talvez, infectada — por cristais luminescentes encravados na casca das árvores e no solo esponjoso. Eles emitiam uma luz suave, leitosa e pulsante, como se a própria floresta estivesse respirando. O ar era denso, úmido e pesado… carregado com uma estática que fazia os pelos do braço se arrepiarem.

    E em meio ao brilho silencioso e fantasmagórico daquela floresta, duas figuras avançavam.

    A primeira caminhava com uma aura inquestionavelmente autoritária.
    Era um homem de aparência tão refinada que parecia uma afronta àquele lugar sujo.
    Cabelos prateados curtos, penteados com uma perfeição quase cruel, sem um fio fora do lugar. Olhos azul-gelo, frios e semicerrados, que pareciam julgar o mundo e achá-lo insuficiente.

    Seu traje era uma fusão perturbadora de opostos: a parte superior era branca e radiante, bordada com fios de ouro que remetiam à pureza do Clã da Luz; a parte inferior, no entanto, era escura, discreta, calças de um tecido que absorvia a claridade, envoltas em padrões geométricos sombrios, típicos do Clã da Escuridão.
    Era um paradoxo ambulante. Como se carregasse duas heranças conflitantes no próprio corpo… e odiasse ambas.

    As luvas pretas que usava pareciam moldadas não em couro, mas em luz sólida corrompida. Seus passos sequer emitiam som ao tocar as folhas secas. Ele andava como quem jamais permitiria uma fraqueza — rígido, preciso, letal.

    Ele parou subitamente, olhando por cima do ombro com um desdém mal disfarçado.

    — Anda logo, Cedric. Suas pernas curtas estão me irritando… Nesse ritmo de tartaruga, nunca vamos chegar à Camada -51.

    A resposta veio rápida, acompanhada de uma careta impaciente e passos apressados tropeçando entre as raízes.

    — Quem você chamou de “pernas curtas”, hein?! Tá pedindo pra morrer, seu bastardo metido a príncipe?! — rebateu Cedric.

    Ele ajustou o chapéu largo, decorado com penas brancas exuberantes — um truque barato, mas estiloso, para ganhar alguns centímetros de altura.
    Mesmo emburrado e xingando, Cedric mantinha a elegância peculiar de um espadachim de elite. Seus cabelos loiro-claros balançavam com o movimento, e a franja escondia parcialmente os olhos azuis que viviam numa eterna disputa entre tédio, sarcasmo e uma vontade latente de esfaquear alguém.

    Seu traje era uma combinação ousada de verde-esmeralda e prata polida, com o brasão do Palácio Esmeralda bordado discretamente na capa curta.
    Na cintura, repousava sua rapieira. A guarda da espada era uma obra de arte: uma rosa metálica prateada, cujas pétalas pareciam afiadas. A arma balançava a cada passo leve, como se ele estivesse dançando com o terreno irregular.

    — Enfim… onde a gente tá agora? Isso ainda é a maldita Camada -21, certo?

    Lysanthir suspirou, o som escapando como vapor no ar frio. Estava cansado da missão, do lugar e, principalmente, da companhia.

    — Sim, Cedric. Falta pouco. O ponto de descida, o Vórtice, está logo ali à frente… só mais alguns minutos, pequenino.

    — Pequenino é o caramba! — resmungou o loiro, bufando e chutando um cogumelo brilhante. — Eu tava super de boa lá em cima, tomando um chá decente… Por que justo eu fui escolhido pra vir contigo até o inferno, hein? Que merda…

    Lysanthir sequer se dignou a olhar para trás enquanto voltava a andar.

    — Porque você foi selecionado pelo Palácio. Isso significa que confiam em você. Ou… — a voz dele destilou um veneno sutil — …ao menos querem testar se você é descartável.

    — Tsk… ótimo. Que motivacional. — Cedric revirou os olhos. — Já faz uma semana que a gente tá descendo. Era pra gente ter chegado na Camada -51 há dias. Se aquele maldito atalho da Camada -13 não tivesse colapsado…

    Lysanthir parou de andar novamente. Dessa vez, ele virou o rosto completamente. A frieza nos olhos dele endureceu.

    — É justamente por isso que estamos fazendo o caminho longo, Cedric. Para entender o que está acontecendo. Gente demais entrou naquele atalho da -13… e ninguém voltou. Nem sinal, nem corpo, nem alma.

    Cedric parou também. A brincadeira sumiu do rosto dele. Ele encarou o caminho à frente, a floresta brilhando com sua luz doentia.
    Ela não parecia viva.
    Parecia faminta.

    — Que merda tá acontecendo lá embaixo, afinal? — murmurou o loiro, sentindo um calafrio percorrer a espinha, a mão instintivamente indo para o cabo da rapieira.

    Lysanthir ajeitou a luva negra.

    — É o que vamos descobrir… Se sobrevivermos até lá.

    Eles caminharam por mais alguns minutos em silêncio, o único som sendo o zumbido baixo dos cristais.
    De repente, Lysanthir parou.

    Cedric, distraído com uma sombra que parecia se mover no canto do olho, quase trombou nas costas rígidas do companheiro.

    — Ei, o que foi agora? Parou por quê? Esqueceu o pente? — perguntou Cedric, franzindo a testa.

    Lysanthir manteve os olhos fixos à frente, semicerrados, e respondeu com uma calma gélida:

    — Um demônio.

    Quase no mesmo instante, a floresta respondeu.
    As árvores à frente tremeram. Um som grave, gutural, ecoou — como pedras sendo moídas umas contra as outras —, seguido pelo estalo violento de troncos grossos sendo partidos como gravetos.

    De dentro da vegetação densa, a criatura emergiu.

    Era colossal.
    Seu corpo lembrava o de um gorila deformado, mas coberto por uma carapaça espessa e rachada, feita de rocha vulcânica viva. Chifres retorcidos e assimétricos brotavam dos ombros e da testa, e veias de lava pulsavam sob a pele cinzenta.
    Os olhos da besta queimavam em um vermelho profundo, insano.

    A criatura abriu a boca cheia de dentes irregulares e soltou um rugido que fez o chão tremer e os cristais ao redor piscarem.

    Cedric já estava em posição. Num borrão, a rapieira saiu da bainha, a lâmina fina brilhando com uma aura verde-esmeralda.

    — Que bicho feio da porra… — comentou Cedric, sorrindo de canto.

    Lysanthir sequer piscou. Ele não sacou nenhuma arma. Apenas ergueu a mão enluvada, e a luz ao redor dele começou a distorcer.

    — Vamos eliminar isso rápido — disse Lysanthir, a voz monótona. — Não precisamos perder tempo com lixo.

    Mas antes que a última sílaba saísse dos lábios de Lysanthir, Cedric desapareceu.

    Não foi um movimento de corrida. Foi um borrão.
    Num piscar de olhos, o loiro já estava dentro da guarda do monstro. A rapieira em sua mão não parecia metal; parecia um feixe de luz esmeralda riscando o ar úmido.

    Vush.

    Com um único golpe ascendente, cirúrgico, o braço esquerdo da criatura foi decepado. O membro de pedra e carne caiu no chão com um baque pesado, e o demônio rugiu, um som de agonia pura.
    Mas Cedric não parou para admirar a obra.

    Usando a força explosiva das pernas, ele saltou. O chapéu de penas brancas tremulou no ar, desafiando a gravidade. No ponto mais alto do salto, ele girou.

    Shhhk.

    Um corte limpo, horizontal, na garganta da besta.
    O sangue negro e viscoso mal teve tempo de espirrar antes que Cedric iniciasse a finalização.

    Ainda no ar, ele girou o corpo com uma graça violenta. A rapieira brilhou intensamente, zumbindo com energia contida. Foi uma tempestade de estocadas e cortes em fração de segundos.
    Quando Cedric tocou o solo, pousando sem fazer um único ruído, atrás dele, o colosso de pedra desmoronou.

    O corpo do demônio não caiu inteiro. Ele se desfez em dezenas de pedaços, deslizando uns sobre os outros como uma pilha de pedras esmagadas, desintegrando-se em partículas escuras.

    Cedric girou a lâmina uma última vez para limpar o éter negro e embainhou a arma com um clique satisfatório.

    — Hmph. Lixo.

    Lysanthir, imóvel como uma estátua de gelo, observou em silêncio. Seus olhos azul-gelo brilharam brevemente com algo que ficava entre a aprovação técnica e o orgulho relutante.

    — Ele é mesmo do exército de elite do Palácio Esmeralda… — murmurou para si mesmo. — A técnica é refinada. Era de se esperar.

    Cedric respirou fundo, ajeitando o chapéu, e passou a mão pelo rosto suado, como se tentasse limpar não só o cansaço, mas alguma lembrança amarga que o gosto da batalha trouxe à tona.

    — Por quê? Hein… — A voz dele perdeu a arrogância por um segundo, soando genuinamente frustrada. — Por que eu tô aqui? Eu lutei tanto… fui rejeitado por três academias de elite antes de conseguir algo. Nasci na maldita Camada Oito, no meio da sujeira, sobrevivi a tudo… só pra acabar aqui? Nesse inferno sem fim?

    Lysanthir finalmente caminhou, parando ao lado dele. O olhar de desprezo suavizou-se minimamente num sorriso quase invisível.

    — Reclama menos, garoto. A vida vira mesmo. — Ele olhou para as árvores brilhantes. — Eu era professor titular da Academia Oriniel, ensinando teoria para filhos de nobres. E agora? Sou Tenente da Tropa de Investigação das Camadas Negativas, babá de espadachins emburrados. O destino tem um senso de humor cruel.

    Cedric soltou um riso fraco, meio irônico, chutando um pedaço do demônio que virava fumaça.

    — Entendi… professor, é? Mas não vou mentir… essas camadas negativas são bem diferentes do que eu imaginava. Achei que fosse só fogo e enxofre.

    Lysanthir assentiu levemente, voltando a andar entre as raízes gigantescas com uma naturalidade irritante.

    — As Camadas Negativas são instáveis. Caóticas. — Ele gesticulou para a floresta. — Algumas se autodestroem, outras colapsam sobre si mesmas… Cerca de 75% delas mimetizam a geografia das camadas superiores, como um reflexo distorcido. Mas o restante…

    A voz dele ficou mais grave.

    — …são como você espera que sejam: escuras, podres, claustrofóbicas. Pesadelos abstratos onde a física não funciona. Um passo em falso ali, e é morte instantânea. Ou pior.

    Cedric o seguiu, a mão sempre perto da espada, os olhos varrendo as sombras.

    — E por que é tão estranho descer ou subir aqui? — perguntou o loiro. — Tipo… lá em cima, tudo é conectado pelo Eixo da Torre de Luz. É linear. Aqui parece um labirinto de degraus tortos e quebrados.

    — Ninguém sabe ao certo. Teorias dizem que o “Deus Irregular” quebrou a estrutura daqui — respondeu Lysanthir, didático como nos tempos de professor. — Mas, diferente das camadas superiores, aqui você é obrigado a atravessar o território. Cada camada negativa é como um mundo fechado, uma ilha isolada no caos. O espaço não obedece regras. Algumas camadas são minúsculas, corredores de pedra. Outras… como a -11, levaram um dia e meio só para cruzarmos a fronteira.

    — Um inferno total… — murmurou Cedric, coçando a cabeça sob o chapéu. — Mas tá. Qual é o próximo destino mesmo? Onde esse “atalho” vai dar?

    — Na Camada -44. — Lysanthir respondeu sem olhar para trás. — Vamos encontrar o acampamento base de uma das tropas de investigação de elite que foi enviada para lá há semanas. Nossa missão é nos unir a eles e entregar os relatórios.

    — Espera… você disse “uma das tropas de elite”? — Cedric ergueu uma sobrancelha, parando de andar. — Quem tá comandando?

    — Sim. E nessa tropa específica… está ela. Acara.

    Cedric quase tropeçou no próprio pé. Ele congelou, os olhos azuis arregalados como pratos.

    — Tá falando da senhora Acara?! — A voz dele subiu duas oitavas. — A chefe do Clã da Escuridão? A “Lâmina da Noite”? Ela mesma? Aqui embaixo?

    — Uhum — respondeu Lysanthir, com um desinteresse proposital, continuando a andar.

    Cedric ficou em silêncio por um segundo… processando a informação.
    E então, a postura dele mudou completamente. O cansaço sumiu. A reclamação evaporou.
    O rosto dele se transformou, iluminado por uma excitação quase infantil. Ele abriu um sorriso largo, os olhos brilhando de fanatismo.

    — Tá esperando o quê, então, seu velho lerdo?! Vamos logo!

    Antes mesmo que Lysanthir pudesse reagir, Cedric disparou na frente.
    Ele saltava por entre as raízes com uma energia renovada, como se tivesse acabado de tomar um elixir de vida eterna.

    — ACARA! EU TÔ INDO! — gritou ele para a floresta, esquecendo completamente os demônios.

    Lysanthir parou, observando o rastro de poeira que o garoto deixava para trás. Ele balançou levemente a cabeça, um suspiro longo escapando.

    — Incrível… — murmurou o ex-professor. — Como a motivação de um idiota muda tão rápido.

    E então, ele ajeitou as luvas e continuou atrás dele, com seus passos silenciosos, enquanto a floresta viva sussurrava e pulsava ao redor, observando os invasores descerem cada vez mais fundo no abismo.

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