Índice de Capítulo

    Já fazia um mês — talvez um pouco mais — que eu tinha começado minha vida na Academia de Fjorheim.

    Pode parecer pouco tempo para quem vê de fora, mas aqui dentro… a percepção temporal é distorcida. Um mês em Fjorheim vale por um ano no mundo lá fora. Cada dia era uma enxurrada violenta de informações, treinos exaustivos, desafios políticos e, claro, gente estranha.

    E quando digo estranha, digo no melhor (e pior) sentido.

    Minha “equipe” improvisada era um exemplo disso.
    Descobri que o Shin, além de ser aquele cara todo certinho e nobre, era absurdamente — e irritantemente — dedicado. Um verdadeiro prodígio. O cara acordava antes do sol, o uniforme dele nunca tinha um amassado e ele parecia absorver conteúdo por osmose. Às vezes, a perfeição dele dava nos nervos.

    A Holi… bem, a Holi era o oposto caótico. Ela era a definição de “desastre ambulante”. Vivia tropeçando nas próprias palavras (e nos próprios pés), derrubando livros e corando por tudo. Mas, se você prestasse atenção, percebia que por trás daquele jeito estabanado havia uma mente afiada. Ela era brilhante nas teorias, só precisava de um pouco mais de… coordenação motora e confiança.

    Agora, a Mina Mei? Ah, essa era um caso clínico à parte.
    A “rival/amiga/chefe” (na cabeça dela) tinha um nível de ingenuidade sobre a vida comum que chegava a ser cômico. Sério, parecia que ela tinha acabado de nascer ontem e estava tentando entender como a plebe funcionava.
    Lembro de um dia em que ela perguntou, com a seriedade de quem discute táticas de guerra, como se descascava uma laranja sem usar uma faca de energia espiritual. Eu tive que segurar o riso para não ofender a honra do Clã Misticia.


    Falando em aulas, a rotina acadêmica não parava.
    Certa tarde, tivemos uma aula de Geografia das Camadas com um professor novo.

    O nome dele era Geovan.

    Geovan era… diferente, para dizer o mínimo.
    Sua voz, apesar de claramente masculina, carregava uma suavidade estranha, quase melódica, como se estivesse presa entre dois tons musicais. Mas o que realmente chamava a atenção era o visual. Ele usava o cabelo enrolado em dreads longos e grossos. E nas pontas de cada dread… havia pequenas lâminas metálicas penduradas.
    Sim, lâminas. Afiadas. Elas balançavam a cada passo, criando um som de “clink-clink” suave e perigoso.

    Naquela aula específica, ele falava enquanto andava em círculos pelo anfiteatro, quase como se estivesse dançando uma valsa solitária com seus próprios pensamentos.

    — Como eu ia dizendo… — ele começou, girando devagar, fazendo as lâminas cantarem. — A Camada 7, Nidavellir, é o coração da mão de obra do nosso mundo. Tudo o que é fabricado lá vem das matérias-primas brutas extraídas das perigosas Camadas Negativas. Ah, e por ser uma camada cortada por milhares de rios, a energia hidrelétrica lá é barata e abundante.

    Os alunos assistiam, hipnotizados pelo movimento dos cabelos dele.

    Geovan parou de repente no centro da sala. As lâminas cintilaram sob a luz artificial.

    — Agora — disse ele, abrindo um sorriso largo e curioso. — Aposto que alguns de vocês, mentes brilhantes, já se perguntaram… para onde vai a água desses rios infinitos?

    Ele abriu os braços.

    — Como sabem, cada camada é como uma ilha continental flutuando num eixo colossal. E nas bordas… existem abismos sem fim. Vocês já viram em fotos ou pessoalmente: as cachoeiras que caem desses abismos. Mas, curiosamente… se você estiver na camada de baixo, não vê uma chuva eterna de água caindo sobre sua cabeça. Alguém tem uma teoria do porquê?

    O salão ficou em silêncio. O único som era o ar condicionado e o tilintar sutil de um dos dreads de Geovan.

    Meu lado curioso, aquele que a Katarina sempre dizia que ia me matar, tomou conta. Levantei a mão, meio hesitante, esperando que alguém mais rápido respondesse.

    Geovan girou nos calcanhares e apontou para mim, animado, fazendo as lâminas chacoalharem.

    — Você! Ken Orquídea! O garoto que sobreviveu ao Rico. Pode falar!

    Eu pigarreei, sentindo o peso de quarenta pares de olhos nas minhas costas. Tentei esconder o nervosismo.

    — Eu… acredito que seja pela evaporação massiva da água — comecei, a voz ganhando um pouco de firmeza. — Tipo, a distância entre uma camada e outra é gigantesca. Além disso, existem correntes de ar e pressão atmosférica diferentes no Vazio entre elas. Então, quando a água cai no abismo, ela provavelmente se fragmenta e evapora antes de atingir a atmosfera da camada inferior, formando aquelas névoas densas que a gente vê rodeando as bordas de cada mundo.

    Falei rápido demais. Quase tropecei nas palavras no final.
    Por um momento, houve silêncio absoluto.

    Então, Geovan soltou um suspiro exagerado e teatral. Ele cruzou os braços e deu uma risadinha anasalada, balançando a cabeça.

    — Ora, ora… que interessante… — Ele bateu uma palma. — Você está certíssimo! Hahahaha!

    Shin me olhou com uma expressão de surpresa genuína, sobrancelha arqueada, como se não esperasse que eu soubesse de climatologia atmosférica. Até a Holi parou de rabiscar distraída no caderno para me encarar, impressionada, com a boca levemente aberta.

    Senti meu rosto ferver na mesma hora. Sem pensar duas vezes, afundei na cadeira, tentando ficar invisível.

    Geovan ainda ria, voltando a girar.
    — Muito bom, Ken! Quem diria, hein? Observação e lógica! Hahahaha!

    O som metálico das lâminas ecoou mais uma vez, marcando o ritmo da minha vergonha.


    Ao sair da sala, o corredor estava cheio. Os alunos passavam por mim, alguns ainda cochichando sobre a aula.
    Shin parou ao meu lado, ajeitando a mochila com sua elegância habitual.

    — Vamos ao refeitório? A Holi disse que o cardápio hoje é bom.

    Suspirei, ajeitando minha própria mochila.
    — Não posso. Tenho algumas coisas para fazer… A professora Helena pediu ajuda de novo.

    Por algum motivo, a excêntrica professora de Biologia tinha “adotado” a mim como seu assistente não oficial. Ela dizia que eu tinha “olhos de quem presta atenção nos detalhes”.

    Shin soltou um riso curto, sarcástico.
    — Você é tipo o escravo particular dela, né?

    Eu apenas sorri de canto.
    — Digamos que é uma troca de favores. Ela me ensina coisas que não estão nos livros.

    Era uma meia verdade, mas servia.

    Despedi-me dele e fui mais a fundo no complexo, em direção à Mansão Laranja.
    Atravessei os corredores até chegar aos jardins dos fundos. Era um lugar bonito, tranquilo. Todas as árvores e flores ali tinham tons variados de laranja e âmbar, criando uma atmosfera de outono eterno. O cheiro de terra úmida e flores cítricas era relaxante.

    Alguns alunos estavam sentados na grama, conversando baixo, aproveitando o intervalo.

    Eu seguia tranquilamente pela trilha de pedras, a mente divagando sobre a evaporação das camadas, até que… parei.

    Meus olhos captaram algo que destoava de todo o laranja ao redor.

    Sentada na grama, perto de um arbusto denso, estava uma garotinha.
    Ela era pequena, parecia jovem demais até para ser uma caloura prodígio. Usava o uniforme da academia, mas ele parecia um pouco grande nela.

    Seus cabelos eram brancos. Não grisalhos, não platinados. Eram brancos, imaculados como a neve virgem de Jotunheim, longos e espalhados pela grama ao redor dela como um véu.
    A pele dela era de uma palidez doentia, quase translúcida, contrastando violentamente com as cores vivas do jardim.
    Ela estava sentada, abraçando os joelhos, com a cabeça apoiada nas pernas dobradas. Parecia estar dormindo.

    Hesitei.
    Havia algo estranho nela. Uma quietude que não era natural.

    Quando me aproximei para passar por ela, tentando não fazer barulho…

    Ela se moveu.
    A cabeça levantou devagar.

    Ela abriu os olhos.

    Eu travei o passo.

    Os olhos dela tinham a cor de bege. Um creme suave, leitoso, incrivelmente inocente e, ao mesmo tempo, vazio de humanidade comum.
    Ela olhou diretamente para mim. Não para o meu rosto, mas para dentro de mim.

    Naquele instante, com a luz do sol filtrada pelas folhas laranja iluminando aquele cabelo branco e aquela pele pálida…
    Ela não parecia uma aluna.
    Ela parecia um anjo que tinha acabado de cair do céu e ainda não sabia se deveria nos salvar ou nos destruir.

    O tempo pareceu desacelerar.

    A garotinha pálida de cabelos brancos, que até um segundo atrás parecia uma estátua adormecida no jardim, moveu-se. Ela engatinhou pela grama com a leveza de um felino e se levantou.
    Seus olhos de cor bege — leitosos, quase como mármore líquido — continuavam fixos nos meus. Não piscavam.

    Então, ela falou.
    A voz dela era doce e melosa, como açúcar queimado, grudando nos ouvidos.

    — Você é… o Ken Orquídea.

    Não era uma pergunta. Era uma afirmação deliciada.
    Ela sorriu. Um sorriso animado, estranhamente infantil, mas que fazia meu instinto de alerta disparar no fundo da mente.

    Ela se aproximou de mim. Era pequena, o topo da cabeça mal batendo no meu peito. Sem pedir licença, sem qualquer hesitação social, ela esticou a mão pálida e tocou meu rosto.
    Os dedos frios e macios deslizaram pela pele ao redor do meu olho direito — o olho rosa.

    — É lindo como falam… — sussurrou ela, maravilhada.

    Fiquei paralisado, surpreso demais para reagir. Aquele toque não era natural. Era invasivo, mas… estranhamente confortante, como o toque de algo que não pertence a este mundo.

    Ela recuou um passo, satisfeita. Com as duas mãos, segurou as pontas da saia do uniforme e fez uma reverência elegante, quase teatral.

    — Meu nome é Ellume Willians.

    Willians.

    O nome caiu como uma bigorna na minha mente.
    Era uma das famílias mais poderosas das Camadas e da indústria pesada. Eram eles que mantinham a Camada 7 funcionando. Graças à tecnologia e dinheiro dos Willians, Nidavellir tinha uma qualidade de vida superior a muitas camadas acima dela.
    Em resumo: ela era uma nobre de altíssimo escalão.

    Eu a olhava com estranheza, tentando processar a informação e a aura bizarra dela.
    Percebendo meu olhar, ela corou e desviou os olhos, subitamente tímida.

    — Me desculpa… — murmurou, brincando com uma mecha do cabelo branco. — Acho que deve ser estranho para você, já que eu tenho o mesmo primeiro nome da Rank 5… Ellune Vörhaz.

    Sinceramente? Eu nem tinha pensado nisso. O nome da Rank 5 era algo distante demais da minha realidade. O que me incomodava era o jeito dela. A dissonância entre a aparência frágil e a presença pesada.

    Antes que eu pudesse responder, senti algo apertar meu pulso com força.

    — Você está aqui! — A voz veio ofegante e um pouco estridente.

    Virei o rosto. Era a Professora Helena.

    — Eu estava te procurando por toda parte, Ken! Tenho uma coisa urgente para você fazer. URGENTE! — Ela falava rápido, o jaleco bagunçado como sempre, mas a força com que segurava meu braço era surpreendente. Quase dolorosa.

    Ela me puxou antes que eu conseguisse me despedir de Ellume. Apenas segui a professora, tropeçando nos meus próprios pés.

    Olhei para trás uma última vez.
    Ellume ainda estava lá, parada no meio do jardim laranja.
    Ela sorria. Daquele jeito meigo e angelical, acenando com a mãozinha pálida.

    A forma como Helena me arrastou foi estranha, quase desesperada, mas na hora não suspeitei. Era Helena, afinal. O caos era a natureza dela.

    Mas, se eu tivesse sido um pouco mais atento… se tivesse olhado para o rosto da professora naquele momento… teria visto.
    Helena olhava para a garotinha de relance.
    E nos olhos da professora, não havia pressa ou excentricidade.
    Havia medo. E raiva.

    E também… havia mais alguém observando.
    Longe, na sombra de um dos corredores superiores da Mansão Laranja, Lyshera assistia à cena em silêncio, seus olhos de dragão fixos na garota de cabelos brancos.


    Os dias se passaram, e uma sensação incômoda começou a me seguir.
    Eu reparava.
    Aquela garota, Ellume, me observava.
    Era sutil, mas constante. Nos meus treinos, no refeitório, nos intervalos entre as aulas. Onde quer que eu fosse, se eu olhasse rápido o suficiente para um canto, via o cabelo branco ou o brilho bege dos olhos dela.
    Sempre sorrindo. Sempre longe.

    Numa tarde, após as aulas, eu vagava sem rumo pela área externa.
    Em frente à saída da Mansão Laranja, uma apresentação especial roubava a atenção de quase todos os alunos.

    Garotas do Clã Misticia dançavam sob o céu aberto.
    Era hipnotizante.
    Vestiam quimonos floridos de cores vibrantes que contrastavam com a pedra cinza do pátio. Cada movimento parecia ensaiado há séculos, com os tecidos ondulando como ondas coloridas no ar. As garotas eram etéreas — cabelos negros presos em penteados complexos, adornados com flores brilhantes.
    O Clã Misticia… não tinha como negar, eles eram o sinônimo vivo de “beleza” no nosso mundo.

    Fiquei ali parado por alguns minutos, absorvendo a cena, mas logo o tédio da solidão bateu. Decidi ir para as oficinas da Mansão Roxa.

    Assim que passei pelas portas pesadas, o ambiente mudou drasticamente.
    Enquanto a fachada roxa parecia imponente e séria, o interior era o caos puro.
    Corredores iluminados com luz branca forte, cheiro de óleo, metal e ozônio. Portas abertas revelavam salas cheias de ferramentas, pedaços de armaduras, armas inacabadas e projetos holográficos. Parecia mais uma fábrica steampunk do que uma escola.

    Caminhei devagar, subindo uma escada estreita de madeira que rangia, indo em direção à biblioteca técnica.

    E foi ali que a cena inesperada aconteceu.

    Vi Mina Mei parada em frente a um armário metálico alto. Ela estava na ponta dos pés, super concentrada, tentando alcançar algo na prateleira de cima.

    Antes que eu pudesse chamá-la, ela me notou. Virou-se rápido demais, assustada… e o cotovelo dela bateu com força na lateral do armário.
    A vibração fez um objeto pesado em forma de cone despencar da prateleira.

    POC.

    Caiu direto no topo da cabeça dela.

    Mina soltou um gemido abafado e levou as mãos à cabeça, encolhendo-se.
    Eu me segurei para não rir. Muito.

    Ela esfregou o local da pancada com um biquinho irritado e me lançou um olhar mortal, como se dissesse: “Se você rir, você morre.”

    Disfarçando a vontade de gargalhar com uma tosse, perguntei:
    — O que você está fazendo aqui, Mina?

    Mina ajeitou o cabelo, as bochechas vermelhas de vergonha.
    — Bem… estou procurando leques novos para usar. Minhas subordinadas vão demorar para enviar o carregamento oficial, e eu preciso de algo provisório…

    Ah.
    A culpa me atingiu.
    Foi o leque dela que eu cortei na nossa luta?
    Senti um aperto no peito.

    Antes que eu pudesse pedir desculpas de novo, ela devolveu a pergunta, defensiva:
    — E você? O que veio fazer aqui? Me espionar?

    — Só dando uma olhada — respondi, dando de ombros. — Estava sem nada para fazer.

    Olhei pela janela atrás dela. Lá embaixo, no pátio, as garotas do Clã Misticia continuavam sua dança perfeita.
    Sem pensar muito, a pergunta escapou:

    — Por que você não está lá com elas?

    O sorriso desafiador de Mina vacilou. Ela desviou o olhar para o chão sujo da oficina. A postura dela encolheu, ficando mais tímida, quase vulnerável.

    — Eu… não me dou muito bem com as outras do Clã Misticia — murmurou, a voz baixa. — Por causa do meu sobrenome… e de quem dizem que eu sou.

    Fiquei em silêncio.
    Desde que viramos “amigos”, eu sempre evitei tocar nesse assunto, mesmo morrendo de curiosidade sobre a tal Una Mei.

    Olhei para Mina de novo.
    Apesar da beleza inegável e da aura de nobreza, naquele momento, ela parecia apenas uma garota solitária fugindo das expectativas. Havia um brilho de força silenciosa escondido sob aquela timidez e aquele biquinho emburrado.
    E, de algum jeito, isso a tornava muito mais interessante do que qualquer dançarina perfeita lá fora.

    Percebendo que o clima tinha pesado, agi por impulso.
    Estendi minha mão para ela.

    Mina olhou para minha mão aberta, surpresa. As bochechas coraram num rosa suave.
    — O que…?

    Ela tentou puxar a mão de volta, confusa e irritada, mas acabou deixando eu segurá-la.

    — P-pra onde está me levando, hein?! — perguntou, tentando soar autoritária, mas a voz tremida a entregava.

    — Você já veio nesta parte do prédio antes? — perguntei, olhando-a de lado.

    Mina balançou a cabeça negativamente, ainda emburrada.

    — Então vamos explorar juntos. — Sorri de canto. — É melhor do que ficar levando pancada de armários.

    Curiosamente, não senti vergonha nenhuma. Parecia certo. Eu queria animá-la, e arrastá-la para uma aventura idiota parecia o melhor jeito.
    Seguimos pelos corredores bagunçados de mãos dadas. Eu sentia a tensão nos dedos dela, o suor frio, mas ela não soltou. Era quase engraçado.

    Depois de alguns minutos andando sem rumo, algo chamou minha atenção.
    Uma porta pesada de ferro estava entreaberta. De dentro, vazava uma luz forte e estranha — meio dourada, meio prateada, pulsando.

    Como um bom idiota curioso, não resisti.

    — Vamos ver o que tem aí — sussurrei, puxando Mina.

    Entramos. Soltei a mão dela para empurrar a porta.
    Pelo canto do olho, vi Mina franzir a testa e olhar para a própria mão vazia, irritada, mas ela ficou calada.

    O lugar era completamente diferente do resto da oficina.
    O ar tinha um cheiro forte, quase enjoativo, de flores exóticas e metal quente. Uma neblina baixa, branca, cobria o chão até os tornozelos. A iluminação vinha de orbes flutuantes, criando um efeito mágico e suspeito.

    De repente, um som quebrou o silêncio místico.
    Um gemido abafado. Um fungado úmido. Choro.

    Arregalei os olhos, procurando a origem.
    Quando vi, fiquei boquiaberto.
    Mina, ao meu lado, apenas revirou os olhos e cruzou os braços, como se já esperasse algo assim.

    Havia uma mulher no chão, ajoelhada no meio da neblina.
    Ela segurava o dedo indicador de uma mão com a outra, soprando e choramingando baixinho. O rosto estava molhado de lágrimas, e — sendo bem gráfico — havia ranho escorrendo do nariz dela.
    Uma cena triste, mas pateticamente cômica.

    Ela tinha cabelos roxos claros, num tom pastel, que caíam desarrumados e volumosos pelos ombros. Os olhos verdes brilhavam, marejados. A pele era tão pálida que parecia porcelana prestes a quebrar.
    Aparentava ser jovem, talvez uns vinte e poucos anos, mas definitivamente não era uma aluna. Vestia um vestido longo de tecido pesado e escuro, cheio de babados e rendas, que tentava dar um ar formal e gótico… mas a postura de criança chorona estragava tudo.

    Ela levantou os olhos molhados para nós e fungou barulhento.

    — D-doi… — choramingou ela, estendendo o dedo machucado na nossa direção como uma criança pedindo colo.

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