Índice de Capítulo

    Enquanto cruzávamos os campos silenciosos da academia, o sol se punha, tingindo o mundo de um laranja sangrento que aos poucos cedia lugar ao azul profundo da noite.

    Rina caminhava à minha frente, os passos firmes e rítmicos, falando casualmente sem sequer se dar ao trabalho de olhar para trás:

    — Você já reparou como essa academia é desnecessariamente grande? — comentou ela, a voz arrastada pelo tédio. — Demorei um tempo considerável para te achar, mesmo sabendo que você era um dos calouros do Bloco C. Quando finalmente te vi… bem, decidi esperar o momento certo. Não queria interromper seu “trabalho braçal” com o velho Elref.

    Eu ouvia, respondendo com grunhidos monossilábicos, mas minha mente estava em outro lugar. Eu analisava cada detalhe dela.
    As memórias da minha infância eram fragmentadas, como vidro quebrado, mas de uma coisa eu tinha certeza: a garotinha que acompanhava meu mestre na neve tinha olhos roxos. Um roxo escuro, típico do Clã da Escuridão.

    Mas agora…
    Os olhos dela eram cinzas.
    Não um cinza nublado, mas cinza como aço polido ou cinzas de uma fogueira extinta. Eram intensos. Afiados. Frios.
    Não era só a cor. Era o olhar. Havia uma dureza ali que não existia antes. Era como se a menina que eu conhecia tivesse morrido, e essa Rina fosse o que sobrou depois do enterro.

    Depois de uma longa caminhada, a sombra de um edifício colossal nos cobriu.

    O Prédio Azul.
    O dormitório da elite. O lar dos veteranos do Quarto Ano.

    Esse prédio… era diferente dos outros. Não tinha a bagunça da Mansão Roxa ou a energia caótica da Laranja. Tinha um ar maduro, sério, quase eclesiástico. Só de pisar nos degraus da entrada, senti meus ombros ficarem tensos. O silêncio ali não era paz; era disciplina.

    Passamos por corredores acarpetados, iluminados por cristais azuis que emitiam uma luz fria e clínica. Não havia alunos correndo ou rindo. Apenas portas fechadas e o som dos nossos passos.

    Rina parou diante de uma porta de madeira escura e reforçada, no final do corredor do último andar. Não havia número na porta. Apenas um símbolo entalhado que eu não reconheci.

    Ela não bateu.
    Girou a maçaneta e abriu.

    Entramos.
    O quarto era amplo, cheirando a pergaminho velho, tinta e ozônio — o cheiro de tempestade.

    E lá dentro… havia apenas um homem.

    Ele estava de costas para nós, de pé diante de uma estante de madeira maciça abarrotada de livros antigos e frascos com líquidos que brilhavam no escuro. Ele parecia estar lendo algo, a postura relaxada, mas alerta.

    Quando a porta se fechou atrás de nós com um clique suave, ele se virou.
    Devagar.

    A atmosfera do quarto mudou instantaneamente.
    O ar ficou pesado, eletrificado, como se a gravidade tivesse dobrado apenas naquele cômodo.

    A presença dele era como a de um furacão contido numa garrafa: silenciosa, mas você sabia que, se a tampa abrisse, seria o fim.

    A primeira coisa que me atingiu foram os olhos.
    Ciano.
    Um azul-piscina elétrico, brilhante, quase neon. Eram intensos, analíticos, pareciam decifrar minha estrutura molecular apenas com um relance.
    Ciano… A mesma cor que a reação química do meu olho rosa gerou na oficina de Maria.

    A pele dele, pálida, era marcada com padrões negros complexos. Tatuagens? Não… pareciam selos. Linhas geométricas e tribais que subiam pelo pescoço e desapareciam sob a gola da camisa, pulsando levemente como se estivessem vivas, contendo algo dentro dele.

    Seus cabelos eram negros, lisos, impecavelmente divididos ao meio e caindo sobre os ombros com uma simetria perfeita.
    Sua postura era reta. Refinada. Não era a postura de um estudante. Era a postura de um Lorde — ou de um guerreiro que já matou tanto que esqueceu o peso da espada.

    Eu engoli em seco, o som parecendo alto demais no silêncio do quarto.

    Eu não sabia quem ele era. Nunca o tinha visto nos registros, nem nos corredores.
    Mas meu instinto, aquele mesmo que me fez sobreviver aos treinos na neve, gritou.

    Aquele encontro…
    Aqueles olhos ciano encarando meu olho rosa…

    Eu sabia.
    Isso ia mudar tudo.

    O homem me olhou com uma intensidade que fez um calafrio subir pela minha espinha, como se uma corrente elétrica tivesse percorrido meus nervos. Seus olhos ciano brilhavam na penumbra da sala, fosforescentes, e naquele momento eu soube: ele sabia mais sobre a minha vida do que eu mesmo.

    Rina se afastou em silêncio, caminhando até a janela. Ela cruzou os braços, deixando a luz fraca do entardecer recortar sua silhueta magra e letal contra o vidro.

    O homem, Marion, aproximou-se.
    Seus passos eram calmos, abafados pelo tapete caro. Ele tirou uma pequena caixa de madeira escura do bolso do colete. Antes que eu pudesse sequer reagir ou perguntar o que era, ele invadiu meu espaço pessoal.

    Sem pedir permissão, ele segurou meu rosto com uma mão firme. Seus dedos eram frios, cirúrgicos, apoiando-se suavemente sob meu queixo, erguendo meu rosto para a luz. Ele observou meu olho direito — o rosa — com um fascínio quase científico.

    — Impressionante… — murmurou ele, a voz baixa e arrastada, saboreando cada sílaba. — De fato… é exatamente como Ele descreveu. A Ausência que se fez cor. Tão diferente… e tão tolo da sua parte deixá-lo à mostra assim, como um farol para tubarões.

    Antes que eu pudesse abrir a boca para protestar, ele abriu a caixa com a mão livre.
    Havia uma lente ali. Fina, gelatinosa, com um brilho translúcido.
    Com uma precisão milimétrica, ele a posicionou sobre meu olho direito.

    Pisquei, reflexo puro.
    Não senti incômodo. A lente se ajustou instantaneamente, como se fosse parte do meu corpo.

    Marion recuou um passo e me entregou um espelho de mão que estava sobre a mesa.
    Olhei.
    Meu olho rosa havia sumido.
    No lugar dele, uma íris roxa, profunda e idêntica à esquerda, me encarava de volta.

    — Agora sim. — disse ele, satisfeito. — Dois olhos roxos. A camuflagem perfeita para um membro do Clã da Escuridão.

    Ele cruzou os braços, a postura relaxada de quem detém todo o controle.

    Marion Luipin. — apresentou-se com uma leve reverência zombeteira. — Sou o Administrador do Prédio Azul. Já ouvi falar bastante de você, Ken Orquídea. Especialmente através dos relatórios de Don Verk. E agora que o vejo pessoalmente… devo dizer que a realidade supera a expectativa.

    Minha mente girava. Don Verk… meu mestre falava de mim para esse cara?

    Antes que eu pudesse assimilar tudo, Rina se virou da janela. O perfil dela estava mergulhado em sombras.

    — Esse não é o único motivo pelo qual te trouxe aqui, Ken. — A voz dela cortou o ar como uma lâmina fria. — O Exame é em uma semana. É pouco tempo. Mas… eu quero te treinar. E usarei os métodos que o nosso tio usava.

    Nosso tio?
    Aquilo me pegou desprevenido. Ela se referia ao mestre como “tio” com uma familiaridade que doía. Mas não perguntei. Eu ainda estava tentando juntar os cacos da conversa com Marion.

    Marion caminhou até a estante, pegando um frasco de vidro com um líquido escuro e viscoso dentro. Ele o girou na luz, hipnotizado.

    — Ken Orquídea… quero te dar um conselho, não um aviso. — Ele não olhou para mim. — O exame que se aproxima não é apenas um teste escolar. É um divisor de águas. É onde as crianças são separadas das armas.
    — Ele fez uma pausa. — Ouvi dizer que você lutou contra Rico Zyx. Um Rank A. E sobreviveu. Isso é… significativo. Mas peço que guarde a verdadeira natureza dessa luta em silêncio. A partir desse exame, as regras do jogo vão mudar.

    Ele se virou, o frasco negro na mão.

    — Você enfrentará desafios que não seguirão a lógica acadêmica. Dificuldades que nenhum outro aluno enfrentará, porque nenhum outro aluno é você. Você trilhará um caminho… solitário.

    Houve uma pausa tensa. O olhar ciano dele pesou sobre mim como uma sentença de prisão perpétua.

    — Ah, e sobre a lente. — Ele sorriu de canto. — Além de esconder seu olho rosa, ela cria uma barreira de percepção. Ela torna você “invisível” para certas presenças. Digamos… entidades que não deveriam te encontrar. Ainda.

    Eu não sabia o que pensar. As palavras dele soavam como pedaços de um quebra-cabeça cujas bordas estavam queimadas. Era como ouvir o meio de uma história de terror sem saber o começo.
    Entidades? Invisível?

    Decidi fingir que estava entendendo. Talvez fosse mais seguro assim do que admitir minha ignorância completa.

    Dei meia volta para sair. Minha mão tocou a maçaneta fria.
    Rina falou uma última vez:

    — Amanhã. Sala de treino subterrânea do Salão Azul. Antes do sol nascer. Venha me encontrar. Se atrasar, eu quebro suas pernas.

    Assenti com a cabeça e saí.
    O corredor estava vazio. Minha mente fervia.
    Tudo parecia tão fora do lugar… como se o mundo ao meu redor estivesse começando a desmoronar, lentamente, rachadura por rachadura, sem aviso prévio.

    Mas o que eu não sabia…
    Era que, naquele exato momento, a quilômetros de distância e camadas abaixo, a destruição não estava começando.
    Ela já tinha chegado.


    Camada 5 – Jotunheim.
    Terras Distantes da Capital.

    O sol já havia se escondido completamente, engolido pelas montanhas de gelo.
    O campo aberto em frente à casa da minha infância estava quieto. A neve caía, abafando o som do mundo, criando um silêncio branco e sereno.

    Fernandes, meu pai adotivo, respirou fundo. O ar frio condensou em uma nuvem branca diante de seu rosto barbudo.
    Ele ergueu o machado para o último golpe do dia.

    — “Cortar lenha é terapêutico”, dizia ela… — resmungou ele, sorrindo sozinho, limpando o suor da testa com a manga grossa. — Terapêutico é ficar sentado na frente da lareira…

    Foi então que ele ouviu.
    Ou melhor, sentiu.
    O estalo de um galho seco sendo pisado. Não por um animal. Por um passo humano.

    Ele se virou, o sorriso amistoso já nos lábios, esperando ver um vizinho ou um viajante perdido.
    Uma figura encapuzada surgiu na trilha, vinda da escuridão profunda da floresta de pinheiros. Ela caminhava em silêncio absoluto, os passos suaves demais para afundarem na neve.

    — Ei! — chamou Fernandes, baixando o machado. — Posso ajudar…

    A frase morreu.
    Não houve diálogo. Não houve aviso.

    Em um piscar de olhos, o vulto estava na frente dele.
    Um som úmido e cortante rasgou o silêncio da noite.
    SHHHHK.

    O machado caiu da mão de Fernandes, batendo surdo na neve.
    Ele olhou para baixo, confuso.
    Um corte profundo, cirúrgico, atravessava seu abdômen de lado a lado. O sangue quente jorrou, manchando a neve imaculada de vermelho vivo.

    — Ka… — tentou dizer.

    As pernas dele cederam. Ele caiu de joelhos, e então de cara na neve, as mãos tentando inutilmente segurar a vida que escapava por entre os dedos.
    A consciência se apagou antes que ele sentisse a dor.

    A mulher nem olhou para o corpo.
    Ela passou por cima dele, caminhando em direção à luz amarela e acolhedora que vinha da janela da cabana.

    Lá dentro, o cheiro de guisado quente preenchia o ar.
    Katarina estava no fogão, mexendo a panela de ferro, cantarolando uma canção antiga e fora de tom.
    Ela ouviu a batida na porta. Três toques lentos.

    Sorriu, balançando a cabeça.
    — Fernandes? Por que está batendo na própria casa, seu velho bobo? Esqueceu a chave de novo? Pode entrar, a porta tá aberta…

    Ela limpou as mãos no avental e foi até a porta, ainda rindo.
    Girou a maçaneta. Abriu.

    — Sabe, você precisa parar de…

    A voz dela travou na garganta. O sorriso congelou e morreu.

    A mulher do lado de fora havia tirado o capuz.
    A luz da lareira iluminou seu rosto pálido e perfeito.
    Cabelos negros, longos e lisos, como a escuridão líquida. Pele translúcida.
    E os olhos…
    Um roxo profundo, abissal. E no centro, uma fenda vertical rosa, brilhando com uma luz que não era deste mundo.

    Havia algo naquela presença que rasgava a realidade. Uma pressão gravitacional que fazia o ar da casa ficar pesado e frio. Ela carregava o peso de séculos de pecados nas costas retas.

    Katarina recuou um passo, tropeçando no tapete. O rosto dela, sempre corado e vivo, ficou cinza.
    Ela conhecia aquele rosto. Ela temia aquele rosto há dezesseis anos.

    — Eu vim buscar meu filho. — disse a mulher. A voz era calma, melodiosa… e gélida como o inferno de Jotunheim. — Ele está aqui?

    Katarina engoliu em seco, o terror paralisando seus pulmões.

    Vena…?

    A mulher sorriu. Não havia calor no sorriso.

    E aquele… foi o último momento de paz naquela casa.
    E o último dia que alguém viu Katarina.

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