Índice de Capítulo

    Faz quase três meses que entrei na Academia Fjorheim.
    Três meses. Noventa dias.
    Parece uma vida inteira.

    Até hoje, nunca imaginei que sentiria tanta falta dela… Katarina.
    A mulher que me criou com gritos de ordem e abraços de urso.

    Sonhei com ela essa noite. Foi um sonho simples: ela estava na cozinha da cabana, o cheiro de guisado no ar, rindo de alguma piada ruim do Fernandes.
    Mas, quando acordei, o quarto estava frio. Aqueles sonhos… são os piores. São os que te deixam com o coração apertado, uma âncora enferrujada no peito.
    Saudade não é uma coisa que você percebe de imediato, no calor da batalha. Ela é traiçoeira. Ela só bate de verdade quando a rotina muda, quando o silêncio cai e, do nada, o mundo parece grande e vazio demais.

    Mas hoje… hoje o foco tinha que ser outro.
    Era a última semana antes do Exame de Reclassificação. A semana do tudo ou nada.
    Nada de aulas teóricas, nada de folgas. Apenas preparação bruta.

    E como a Rina tinha me intimado (porque ela não pede, ela intima) para treinar, acordei antes do sol.
    O Levi, meu colega de quarto obcecado por beleza, já não estava lá.
    Deixou apenas um copo térmico com café quente no meu criado-mudo e um bilhete com a caligrafia perfeita dele: “Hidrate-se, Garoto Orquídea. A pele seca é o inimigo.”
    Provavelmente saiu para correr ou meditar diante do espelho. Fazia sentido, com aquele corpo esculpido em disciplina narcisista.

    Tomei o café, troquei de roupa e saí do dormitório. O ar da manhã estava fresco, com cheiro de orvalho e promessa de dor.

    Atravessei o campus da academia. Mesmo cedo, o lugar estava vivo. Alunos por todos os lados — alguns praticavam katas de artes marciais com movimentos afiados, outros liam manuais debaixo das árvores, alguns apenas observavam o horizonte com ansiedade. Era uma mistura de mundos, raças e medos em um só lugar.

    Meu destino era o Prédio Vermelho.
    O mais distante, isolado e imponente da área comum.
    Era o território dos veteranos de elite. Só de me aproximar, senti a pressão atmosférica mudar. O ar ali parecia mais denso, carregado de mana residual. Os alunos que entravam e saíam exalavam outra presença, como se já tivessem cruzado uma linha invisível entre “estudante” e “arma viva”.

    Foi aí que percebi… a lente de contato que o Marion me deu realmente funcionava.
    Passei por um grupo de veteranos discutindo táticas. Eles olharam na minha direção, mas seus olhos deslizaram por mim como se eu fosse fumaça. Ninguém parou, ninguém questionou o calouro. Eu era uma sombra no canto da visão deles.
    Invisibilidade social. Útil.

    Entrei no prédio. Os corredores eram altos, largos, feitos de pedra vermelha polida. O eco dos meus passos se misturava com sons abafados de metal colidindo e explosões de energia vindas das salas de treino.
    Caminhei até o fundo, seguindo as instruções de Rina, até a Quadra Subterrânea.

    A porta dupla de ferro estava entreaberta. Respirei fundo, o gosto metálico na boca.

    “Que tipo de inferno será que a sobrinha do meu mestre preparou?” pensei, lembrando das sessões insanas com o Levi. Os dois claramente tinham filosofias diferentes… mas nenhum deles sabia o significado de “pegar leve”.

    Desci a escadaria em espiral. O som das minhas botas ecoava como contagem regressiva.
    Quando cheguei ao nível da quadra, um espaço amplo e iluminado por cristais brancos, ela estava lá.

    Rina Ebony.

    Como sempre, com aquela expressão séria de quem carrega o peso do mundo e acha que o mundo está mal equilibrado. Braços cruzados, postura rígida.

    — Fico feliz que tenha vindo. — disse ela, a voz ecoando no espaço vazio. — E que não tenha fugido com medo do que rolou ontem com o Marion.

    Não, eu não estava com medo. Confuso? Com certeza. Tanta coisa aconteceu nos últimos dias… a revelação sobre meu olho, a conversa com Marion, o incidente com a Mina… minha cabeça estava um liquidificador.

    Mas mesmo assim, soltei um sorriso torto e respondi:

    — Eu não podia faltar a um treino preparado pela minha veterana favorita, né?

    Rina ergueu uma sobrancelha, visivelmente incomodada. O canto da boca dela tremeu num tique nervoso.

    — Nunca mais diga isso. É… vergonhoso demais. — bufou ela, virando o rosto para esconder algo. — Enfim. Deixe de gracinha. Quero te apresentar suas parceiras de dança.

    Foi aí que percebi.
    Saindo das sombras no fundo da quadra, duas figuras caminhavam em nossa direção.
    Passos calmos, mas com presenças tão distintas e poderosas que o ar entre elas parecia vibrar com estática.

    Rina apontou para a da direita.

    — Essa é a Nevara Lyeis.

    Ela vinha com uma leveza estranha, quase etérea, como se a gravidade fosse uma sugestão e não uma lei.
    Pele morena profunda, um contraste lindo e chocante com os cabelos extremamente claros, quase prateados, longos e desalinhados como uma tempestade de neve selvagem.
    Os olhos… verde-claros. Serenos… e frios. Como lagos congelados que escondem monstros em suas profundezas. O olhar dela não era distante — era profundo demais.
    Vestia um quimono azul-acinzentado, curto para combate, bordado com padrões que lembravam flocos de neve geométricos. A faixa vermelha escura na cintura parecia conter algo — talvez energia, talvez a própria temperatura dela.
    No rosto, duas manchas de tinta ritualística branca adornavam as bochechas. Símbolos antigos, sem tradução aparente.

    Ela parou e se curvou levemente. A voz era neutra, suave, como o som de gelo estalando.

    — Estou feliz em poder te quebrar… digo, treinar.

    Antes que eu pudesse processar o ato falho, a outra deu um passo à frente, batendo no próprio peito com o polegar.

    — Meu nome é Sevira Lunhall.

    A voz dela era firme e ao mesmo tempo preguiçosa, carregada de um tédio repleto de poder latente. Ela não esperava ser notada — ela sabia que seria.

    Sevira era o oposto visual de Nevara.
    Um corpo atlético, definido, desenhado por batalhas reais e suor, não por academia. A pele bronzeada era marcada com tatuagens tribais arcanas, linhas negras que se moviam sutilmente sob a pele como circuitos vivos ou parasitas mágicos.
    Os cabelos negros e longos caíam em mechas livres e selvagens, com uma única trança verde-musgo, grossa, cruzando o lado direito.
    Os olhos dourados dela eram intensos — não investigavam, selecionavam a presa.
    Vestia roupas táticas leves em preto e tons terrosos. Calças largas, sandálias de combate reforçadas, um top justo. Nada nela era ornamental. Tudo era letal.

    Apenas a presença das duas já deixava claro: esse treino ia ser um massacre.

    Quando olhei de novo para Rina, vi algo que eu jurei que nunca veria na face de pedra dela.

    A expressão dela — aquela garota que sempre parecia pronta para congelar o inferno — estava… irritada. E surpresa.
    Tipo, um misto de “isso não estava no roteiro” com “ela não acabou de roubar a minha cena, né?”.
    Rina parecia o tipo de pessoa que resolvia tudo com silêncio e olhares mortais. Mas ali, a sobrancelha dela tremeu. Quase imperceptível… mas suficiente para eu saber que ela estava possessa.

    Antes que eu pudesse dizer algo, Nevara se aproximou.
    Invadiu meu espaço pessoal.
    Ela parou na minha frente com aquele olhar calmo de iceberg.

    — Ele é do Clã da Escuridão, assim como você, Rina — disse ela, ignorando a tensão. — Vocês são parentes?

    Rina não respondeu. Só me olhou. Fria. Silenciosa. Como se dissesse “se você abrir a boca sobre o Don, eu te mato aqui mesmo.”

    Nevara, ainda sem mudar a expressão, encostou a mão na minha cabeça. O toque era leve, gelado.

    — Você será nosso irmãozinho mais novo. — afirmou ela.
    Não foi uma pergunta. Foi um fato. Do mesmo jeito que alguém diz “o céu é azul” ou “a água molha”.

    Eu congelei.
    Meu rosto permaneceu impassível por fora (espero). Mas por dentro? Eu estava vermelho até a alma. Irmãozinho?

    Antes que eu pudesse reagir, Sevira cruzou os braços musculosos, sorrindo de canto.

    — Enfim… deixa o garoto respirar, Nevara. Diga logo para ele, Rina. A parte divertida.

    Rina deu um passo à frente, firme, retomando o controle da situação.

    — Esse treino foi preparado por mim. — disse ela, seca. — Ontem eu falei que foi ideia do seu antigo mestre, o Don. Mas foi só a base filosófica. A execução… é minha.

    Ela respirou fundo e colocou a mão sobre o peito, com uma expressão estranhamente orgulhosa e sádica.

    — Como ele dizia: “Para evoluir de verdade em força, pare de bater em sacos de areia e lute contra quem pode te matar.”
    — Ela sorriu. — Então, durante os próximos sete dias, você vai lutar contra nós três.

    Eu pisquei.
    — Certo. Revezamento?

    — Não. — O sorriso de Rina se alargou. — Ao mesmo tempo.

    O silêncio caiu na quadra.
    Três contra um.
    Três veteranas de elite contra um calouro.

    Uma parte de mim — a parte racional — gritou “isso é suicídio”.
    Mas a outra parte… a parte que foi criada na neve, a parte que sobreviveu a Rico Zyx… sorriu por dentro.
    O sangue começou a ferver.

    Rina continuou, o tom agora carregado de ironia.

    — E, nas palavras exatas do Don: “Para manter um homem focado e motivado no inferno, nada melhor do que apanhar de três mulheres lindas.”

    Ela piscou.

    — Então se sinta… privilegiado, Ken Orquídea.

    Engoli em seco.
    Então esse era o tal Don Verk Nosfea?
    Um mestre lendário? Um pervertido? Ou um gênio do caos motivacional?

    Olhei para as três. Rina, a estrategista fria. Nevara, o iceberg impenetrável. Sevira, a predadora selvagem.

    Apertei os punhos.
    — Quando começamos?

    De todo jeito… isso ia ser interessante.

    Comecei a ajeitar a postura, tentando entrar no clima, mas nem tive tempo de respirar.
    Do nada, dedos firmes seguraram meu queixo e levantaram meu rosto com delicadeza forçada.

    Meus olhos encontraram os dela.

    Sayra K’alani.

    Ela sorria.
    Aquele sorriso travesso de quem sabe todos os segredos da festa.

    — Espera aí, calouro. Cheguei agora, me esperem um pouquinho, ok? A plateia precisa se acomodar.

    Era impossível ignorá-la. Ela era dourada. Radiante. Como um raio de sol que decidiu tomar forma humana e usar roupas exóticas. A pele bronzeada dela parecia ter luz própria, e os olhos dourados eram tão vivos que davam a sensação de que ela estava sempre a um milésimo de segundo de rir na cara do perigo ou derrubar uma montanha só por diversão.

    Sayra não andava — ela fluía.
    Ela soltou meu queixo e fez um mortal perfeito, sem impulso, passando por cima de mim. Aterrissou suavemente entre as três garotas, as argolas de sua saia tilintando como música.

    — Rinazinha! — cantou ela. — Você finalmente conseguiu minha atenção. Como me pediu com tanto jeitinho algumas semanas atrás, aqui estou.

    Ela apontou para si mesma com o polegar, piscando um olho.

    — Serei sua Observadora Particular durante essa semana infernal.

    Observadora de Luta. Claro.
    Como fui esquecer? O uso de Códigos Genéticos ofensivos é proibido sem supervisão de um Rankeado autorizado. Se algo der errado — se alguém perder um braço ou a vida —, eles intervêm. A lenda dizia que havia quatro Observadores na academia. Eu só tinha visto três até agora: Sayra, Natan’Zar e Cael.
    O quarto continuava um fantasma.

    Sayra bateu palmas, o som ecoando na quadra subterrânea.

    — Enfim, só vou ficar olhando vocês e comendo pipoca mental. Espero que deem um show digno, viu?

    Ela se virou para mim novamente, com aquele olhar penetrante de águia.

    — Hmm? — Ela inclinou a cabeça. — Você não tinha um olho rosa? Eu lembro do dia da cerimônia no campo. Era impossível esquecer algo tão… icônico.

    Antes que eu pudesse inventar uma mentira sobre infecção ou magia, ela já cortava, rindo:

    — Ah, decidiu esconder, né? Lentes de contato de camuflagem. Que pena… eu gostava daquele brilho estranho.

    Ela riu e passou a mão pelos cabelos azul-claros, que caíam como um rio liso até a cintura.

    — Treinem com moderação. Ou não. Sangue é divertido.

    E saiu saltitando, quase dançando, até as cadeiras de metal dobradas num canto da quadra, onde se jogou com a elegância de um gato preguiçoso.

    Fiquei parado por um segundo, absorvendo a energia caótica dela. E então respirei fundo. O cheiro de ozônio da sala de treino voltou.

    — Certo… agora é sério.

    Virei para encarar as três. Rina, Sevira, Nevara.
    Mas mal terminei de falar…

    Sevira já estava em cima de mim.

    Não houve aviso. Não houve grito de guerra.
    Os punhos dela vieram como trovões silenciosos.
    Reagi por instinto puro, a memória muscular gritando. Desviei para o lado, recuando. O ar assobiou onde minha cabeça estava um segundo antes.

    E, mesmo assim…
    Shhht.

    Um corte fino, ardente, surgiu na minha bochecha direita.
    Eu nem vi a lâmina. Ela estava de mãos vazias.

    Sevira parou a três metros de distância. Ela lambeu os próprios dentes caninos e deixou escapar um sorriso curto, selvagem.

    — Reflexos bons… — murmurou ela, a voz rouca. — Acho que vou gostar muito de te quebrar.

    Eu já sabia que esse treino ia ser intenso… mas isso? Isso era assassinato recreativo.

    Limpei o sangue da bochecha.
    Não esperei. Mal tinha me reposicionado e já fui para cima de Sevira.
    Girei o punho, fechei a mão, tentei achar um ponto de abertura na guarda dela — mas, antes mesmo de preparar o golpe…

    POW.

    Outro soco veio direto no meu rosto.
    Do nada. Sem barulho. Sem preparação muscular visível. Só veio.
    O impacto foi leve, quase uma brincadeira… mas a surpresa doeu mais que o soco. Como se o punho dela tivesse se teletransportado.

    Sevira soltou um sorriso afiado, quase debochado.
    — O que foi? Vai cair sozinho agora?

    Bufei. A raiva subiu.
    Sem perder tempo, abri meu portal dimensional ao meu lado. Estava pronto para puxar minha adaga, a Lâmina Voraz, e acabar com a brincadeira.

    Mas então…
    Uma mão fria tocou meu braço.

    Eu nem senti ela se aproximar.
    Quando olhei para o lado, Rina já estava lá. Do meu lado. Como se tivesse se materializado da sombra do meu próprio corpo.

    A mulher que raramente se movia, agora segurava uma espada de madeira de treino — um bokken — com naturalidade, como se fosse uma extensão do braço.

    — Espere. — disse ela, séria. — Você vai usar isso.

    Ela empurrou o bokken contra o meu peito.

    — Esse treino também serve para te forçar a se adaptar a outros tipos de armas. A sua adaga é poderosa, mas ela é uma muleta. Se você a perder, você morre. Não se acomode.

    Olhei para Nevara, a terceira. Ela permanecia parada no fundo. Inexpressiva. Nem uma piscada. Uma estátua de gelo.

    Peguei a espada de madeira com um aceno breve. O peso era diferente, o equilíbrio era estranho.
    Me posicionei. Rina recuou, cruzou os braços e assentiu.

    — Pode começar. Sobreviva.

    Sem hesitar, disparei para cima de Nevara.
    Ela parecia a mais frágil. A mais estática. Sua aparência dava pistas: tema de gelo, talvez? uma suporte? A lógica era simples — eliminar o elo mais fraco ou previsível primeiro.

    Cheguei perto.
    Ativei o portal.
    Mergulhei na escuridão e saí nas costas dela.
    Te peguei.

    A lâmina de madeira desceu num arco perfeito.
    Mas, no impacto…

    CRASH.

    Ela se quebrou.
    Não a espada.
    Nevara.

    O corpo dela estilhaçou como um espelho de vidro caindo no chão.
    O som foi seco, agudo. Uma explosão de fragmentos gélidos e reflexos que voaram para todos os lados.
    Meu cérebro travou.
    O quê?
    Eu matei ela?
    Não… não havia sangue. Apenas cacos de luz.

    Antes que eu pudesse reagir à ilusão, Sevira já estava em cima de mim de novo.

    Golpes. Muitos.
    Os punhos dela vinham como uma metralhadora. E eu? Tive que me virar com a espada de madeira — desviando, defendendo, aparando.
    Cada impacto fazia meus braços latejarem até o ombro. A força dela era absurda.

    Ela tentou um chute giratório visando meu estômago.
    Ativei o portal.
    Vup.
    Apareci atrás dela.
    Minha vez.

    Mas ela não estava mais lá.
    Virei o rosto em pânico.

    Ela estava atrás de mim.
    Mais rápida que o meu teleporte.

    — Lento. — sussurrou ela.

    CRACK.

    O chute dela conectou com a minha espada levantada em defesa.
    A madeira nobre rachou no meio.

    Sevira sorriu, os olhos dourados brilhando, as tatuagens tribais em sua pele pulsando com uma luz rítmica.
    Não era só força física… ela estava usando um Código de Aceleração ou Reforço Corporal.

    Me afastei cambaleando, jogando o cabo quebrado fora.
    Como ela se moveu tão rápido?

    Mas aí…
    Uma picada aguda no meu braço esquerdo.
    Olhei.
    Havia uma agulha fina, prateada, fincada no meu tríceps. Havia um fio quase invisível ligado a ela.

    Levantei o olhar.
    Lá estava Rina.
    Calma. Imóvel.
    Com um emaranhado de fios e agulhas brilhantes dançando entre os dedos pálidos. Manipulando o campo de batalha como uma marionetista cruel.

    Até aquele momento, eu ainda não tinha visto a verdadeira Nevara.
    Mas então, senti um arrepio na nuca.
    Pelo canto dos olhos, percebi um brilho no chão.

    Ela estava ao meu lado.
    Sem som. Sem calor. Apenas um reflexo distorcido no piso polido que se levantava para me atacar.

    Estava cercado.
    Sevira na frente. Rina à distância. Nevara nos reflexos.

    Mas nervoso?
    Com medo?

    Nem ferrando.
    Um sorriso involuntário rasgou meu rosto.
    Eu estava sentindo um prazer imenso.
    O corpo formigava de empolgação. Era aquela sensação elétrica de estar vivo, de estar no limite.

    Sevira avançou.
    A sequência de golpes recomeçou. Eu esquivava, observando. Estudando.
    Quando ela girou para um chute alto…
    Agora.
    Me abaixei.
    Num movimento fluido, uma rasteira. Acertei o pé de apoio dela.

    Sevira escorregou. Os olhos dela se arregalaram por uma fração de segundo.
    Brecha.

    Não hesitei.
    Girei, mirando em Nevara (ou no que eu achava ser ela).
    Dessa vez, fui de frente. Nada de truques. Queria confirmar minha teoria.

    Olhei para a quadra… agora eu via. Havia pontos brilhantes espalhados no chão. Como cacos de vidro. Espelhos.
    Não gelo.
    Nevara não controlava o frio.
    Ela manipulava Reflexos e Luz.

    Era inútil atacá-la diretamente. Ela podia estar em qualquer lugar onde houvesse brilho.

    Então, sem perder tempo, abri um novo portal.
    Apareci na direção da Rina.
    A ideia era simples: ela parecia a mais estática — a controladora. Se eu derrubasse a titereira, os fios cairiam.

    Corri com tudo, punhos fechados, convicção nos olhos.
    Vou te pegar.

    Mas então…

    — Idiota. — murmurou Sevira, lá atrás, já de pé.

    Um zumbido cortou o ar.
    ZUN.

    Uma agulha veio como um raio.
    E entrou direto no nervo do meu ombro direito.

    CHZZZT!

    Um choque elétrico subiu pelo meu braço e explodiu na minha espinha.
    O braço caiu morto ao lado do corpo. Paralisado. Inútil.

    Foi nesse instante de falha que Rina se moveu.
    Ela não usou fios.
    Ela girou o corpo com uma elegância letal.

    BAM.

    Um chute direto, com a sola da bota tática, no meio do meu rosto.

    A visão virou um borrão de cores. O mundo girou. O teto virou chão.
    E então… o impacto frio da quadra nas minhas costas.

    Fiquei ali, deitado, encarando as luzes brancas do teto, o gosto de sangue na boca.
    Derrotado.
    Cercado. Superado em velocidade, técnica e número.
    Sem chance real de vencer.

    Mas por dentro?
    Eu estava rindo.

    — …Do cacete. — sussurrei, sorrindo para o teto.

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