Capítulo 29: Pre véspera
Depois daquela surra… digo, daquela “sessão de reajuste físico”, a dinâmica mudou. Elas pararam de me bater apenas por esporte e começaram a esculpir.
Os conselhos vinham misturados com hematomas.
Detalhes sobre a minha base instável, o controle de impulso no teleporte, a movimentação desleixada com a espada de madeira — tudo apontado com a precisão cirúrgica de quem enxerga através da carne.
Rina era direta, quase militar.
— Levante o cotovelo. Endireite a coluna. Você parece um saco de batatas tentando lutar.
Sevira falava com aquele tom brincalhão e preguiçoso, mas escondia críticas letais no meio dos sorrisos.
— Ei, gracinha, se você deixar esse flanco aberto de novo, eu vou arrancar seu fígado. Com carinho, claro.
Já Nevara… bom, ela era a mais assustadora. Ela não falava. Ela apenas me encarava com aqueles olhos de lago congelado, e de alguma forma, aquele silêncio neutro gritava mais alto que qualquer xingamento. Eu me sentia julgado até a alma.
Passei o dia inteiro assim.
Apanhando. Caindo. Levantando. Aprendendo. Apanhando de novo.
Consegui conectar alguns golpes aqui e ali — nada que fosse derrubar uma veterana, mas o suficiente para ver a surpresa nos olhos delas e inflar meu ego antes de ser arremessado contra a parede novamente.
Foi nesse caos, entre um gosto de sangue e outro, que percebi algo… peculiar.
Sevira.
A forma como ela reagia.
Não era apenas velocidade ou instinto. Era… espelhamento.
Sempre que eu tentava um movimento novo ou complexo, ela respondia com uma variação idêntica, porém melhorada, do meu próprio ataque. A fluidez com que ela se adaptava ao meu ritmo não era natural.
Talvez… pensei, limpando o suor dos olhos. Só talvez, o Código Genético dela seja de Mimetismo. Copiar o último ataque recebido ou visto.
Era apenas uma teoria de um calouro dolorido, mas não parecia longe da verdade.
No fim do dia, quando o céu já tinha sido engolido por aquele negro sem fim, cravejado de diamantes frios, saí da arena subterrânea.
Eu estava destruído.
Cada músculo doía. Até fibras que eu nem sabia que existiam estavam gritando por misericórdia. Meus ossos pareciam feitos de vidro trincado.
Mas, no meio da dor… algo dentro de mim estava aceso.
Uma chama dourada, quente, que não apagava com dor, suor ou cansaço. Eu estava evoluindo.
No portão do Prédio Vermelho, as três se despediram.
Sevira me deu um tchau animado, acenando e sorrindo com os caninos à mostra, como se o massacre tivesse sido um piquenique no parque.
Rina sorriu de canto. Foi um milímetro de movimento labial, quase imperceptível, mas suficiente para eu saber que, de algum modo distorcido, ela aprovava minha teimosia.
E Nevara… apenas piscou. Lentamente.
Essas pessoas que não têm expressão são as que mais me assustam… Você nunca sabe se elas querem te abraçar ou te esfaquear.
Caminhei em direção ao dormitório, os passos pesados arrastando no cascalho, mas o coração leve.
Parei e olhei para cima.
A situação era ridícula. Apanhando o dia todo, rodeado por três veteranas de elite lindas e perigosas que decidiram me adotar como “irmãozinho”.
— Pareço protagonista daquelas Light Novels baratas que o Shin lê escondido… — murmurei, rindo da minha própria desgraça. — Que ironia.
Mas, mesmo com esse pensamento idiota tentando me distrair, algo martelava no fundo da minha mente. Uma âncora que me puxava para a realidade.
Mina.
O que será que ela estava fazendo? O que estava pensando? Será que ainda estava furiosa? Ou apenas… triste?
Mansão Roxa – Escritório da Administradora.
A janela alta do escritório de Maria Donroxye oferecia uma vista privilegiada do campus.
E ali, meio escondida pela sombra da cortina de veludo, Mina Mei observava.
O olhar dela estava baixo, fixo na figura solitária que atravessava o pátio lá embaixo. A expressão no rosto dela era indecifrável — uma mistura de saudade e orgulho ferido.
Maria estava na mesa, cantarolando baixinho. Ela organizava pilhas de livros com uma leveza que desafiava a bagunça ao redor. Com cuidado, ela pegou uma flor de uma jarra.
Não era uma flor qualquer. Era azul intensa. Quase Ciano.
Ela a colocou num vaso sobre a madeira, e o aroma doce e exótico tomou o ambiente.
— Você deveria ir falar com ele. — disse Maria, sem levantar os olhos da flor. A voz era calma, gentil, mas cheia de certeza.
Mina franziu a testa, incomodada por ter sido pega no flagra. Ela soltou a cortina e desviou o olhar para a estante.
— Ele tem que pedir desculpas. — resmungou, cruzando os braços. — Ele foi o bruto.
— Para com isso, Mina. Orgulho não aquece ninguém à noite. — Maria suspirou, ajeitando os óculos. — Além disso… os boatos correm rápido na Mansão Roxa. Fiquei sabendo que ele está treinando intensivamente no Prédio Vermelho… com três veteranas do quarto ano. E dizem que elas são lindas.
A reação foi imediata. E visceral.
Mina se encolheu. O rosto dela se contorceu de leve, os olhos estreitando-se.
Aquilo foi como um soco. Um ciúme agudo, verde e mal disfarçado.
— Eu… Não me importo. — mentiu ela, a voz falhando. — Ele… ele errou. Ele me humilhou na praça. Ele é quem devia vir até mim rastejando.
Maria parou o que estava fazendo. Ela sorriu, um sorriso quase de pena, mas cheio de carinho.
Ela contornou a mesa e se aproximou da garota.
Com delicadeza, Maria estendeu a mão e tocou o cabelo de Mina. Seus dedos encontraram a presilha barata que destoava de todo o luxo do Clã Misticia.
Ela a retirou com cuidado.
— Você me disse que foi ele quem colocou isso em você, não foi? — perguntou Maria, girando a presilha na luz.
Mina corou. O vermelho subiu pelo pescoço, tingindo as orelhas.
Ela não disse nada. Apenas olhou para o objeto como se fosse uma joia sagrada.
— Toda vez que vocês vinham aqui, eu notava, Mina. — continuou Maria, a voz suave. — Você sempre olhava para ele… não como uma aliada ou uma rival. Mas com um brilho diferente. Um brilho que eu conheço bem.
Sem conseguir falar, Mina apenas concordou com a cabeça, tímida, encabulada, derrotada pela verdade.
Maria fechou um pouco os olhos, com aquele tom maternal e excêntrico que só ela tinha. Ela recolocou a presilha nos cabelos negros da menina, ajustando uma mecha solta.
— Você gosta dele porque ele foi o primeiro que te tratou como igual, não é? O primeiro que não viu a “Filha da Rank 4”, mas apenas a Mina. — Maria soltou uma risadinha leve. — Você me contou, com os olhos brilhando, sobre aquele soco que ele te deu na cara. Quem se apaixona por um soco, garota?
Mina, agora vermelha como uma cereja madura prestes a explodir, baixou a cabeça.
— É normal se irritar quando gostamos de alguém e sentimos que essa pessoa se afasta… — Maria continuou, colocando as mãos nos ombros dela. — Mesmo que a culpa técnica tenha sido dele por aquele desastre na praça… homens são lerdos, Mina. Ele deve achar que você o odeia mortalmente por estar evitando-o. Ele não sabe que é só birra de coração partido.
Silêncio no escritório. O aroma da flor ciano parecia mais forte.
Até que Mina, quase num sussurro estrangulado, murmurou:
— …Eu gosto dele.
Maria arregalou os olhos. Um sorriso maroto, de quem acabou de ganhar na loteria da fofoca, se abriu no rosto dela.
— Ora, ora… — Ela se inclinou para frente. — Gosta como? Da forma romântica?
Mina levantou a cabeça num estalo. Os olhos arregalados em pânico.
A vergonha explodiu no rosto dela como uma bomba nuclear.
A realidade do que ela tinha acabado de admitir em voz alta a atingiu.
— AAAAAH! — Ela soltou um gritinho abafado.
Sem responder, ela girou nos calcanhares. O quimono rodopiou.
Ela saiu correndo da sala, tropeçando nas próprias emoções e quase derrubando uma pilha de livros na saída.
BAM. A porta bateu.
Maria ficou ali, sozinha no escritório bagunçado, rindo baixinho.
— Ora, ora… Eu sabia. — Ela voltou para a janela, observando a figura pequena de Ken caminhando lá embaixo. — Jovens… tão complicados. Tão vivos.
Lá embaixo, no pátio frio.
Eu parei de andar.
Olhei para o céu.
Os pontinhos brancos das estrelas brilhavam como cicatrizes antigas no tecido da noite. Respirei fundo o ar gelado.
Não sabia o porquê, mas… de repente, o coração parecia um pouco mais leve.
Segui andando, sem saber que, lá no alto, uma flor ciano desabrochava em segredo.
E assim foi a minha semana.
Um borrão de dor e evolução.
Acordando antes que o sol tivesse coragem de esticar os braços no horizonte, caminhando sonolento pelos corredores ainda frios e úmidos da academia, e voltando para o dormitório apenas quando a noite já tinha engolido o mundo.
Foi puxado. Massacrante.
Meus músculos pareciam estar em chamas constantes, e minha reserva de energia espiritual vivia no vermelho.
Mas, de algum jeito distorcido… também foi incrível.
Aprendi mais em poucos dias apanhando daquelas três do que em toda a minha vida lendo manuais. Meu corpo não reagia mais com pensamento; reagia com instinto.
E com isso, chegou o último dia.
A véspera do Exame de Reclassificação.
Eu pensei, ingenuamente, que teria um descanso. Talvez um pouco de paz para meditar.
Ledo engano.
— Hoje a gente termina antes das três da tarde. — disse Rina, com um sorriso que não chegava aos olhos cinzentos. — Aí você pode descansar até amanhã cedo. Somos benevolentes.
Mentira.
Meia verdade, no máximo.
Porque, até as três da tarde, eu fui desmontado e remontado.
Apanhei? Sim. Menos que nos outros dias? Talvez. Mas ainda o suficiente para meus braços tremerem ao segurar a espada de madeira e para o suor escorrer frio pelas costas.
Só que… naquele dia, algo mudou.
Havia uma eletricidade estática no ar. Um peso que não vinha dos golpes de Sevira.
Começou com um burburinho. Um sussurro correndo pelos corredores do Prédio Vermelho como vento em frestas.
E então… as pessoas começaram a aparecer.
Primeiro, alguns curiosos espiando pela porta. Depois, grupos de alunos. Veteranos. Observadores de outros anos.
A notícia tinha se espalhado: “O calouro do Clã da Escuridão está sobrevivendo ao treino das Três Glaciais.”
Aparentemente, ver alguém apanhar da elite e continuar levantando era o entretenimento do momento.
E então… o ar foi sugado da sala.
Ela apareceu.
Solara Whitmore.
A Presidente do Conselho Estudantil. A lenda viva que caminhava entre nós.
Ela entrou com aquele andar calmo e confiante, como se o chão de concreto fosse feito de tapete vermelho apenas para ela pisar. O sol da tarde batia de lado, atravessando os vidros altos da arena subterrânea e refletindo no cabelo dourado dela como se fosse uma chama viva, coroando-a.
Ao lado dela, caminhava uma sombra.
Um garoto que eu nunca tinha visto antes, mas que exalava perigo. Cabelos arrumados demais, um olhar afiado e cínico, e um sorriso torto colado no rosto, como se soubesse o segredo sujo de todo mundo ali.
Mas o que chamava a atenção era o olho esquerdo dele.
Dentro da íris, havia um símbolo brilhante: um floco de neve perfeitamente desenhado, complexo e geométrico, como se tivesse sido esculpido em gelo eterno.
Eles conversavam baixo. Cochichavam. O garoto ria, olhando na minha direção com desdém divertido. Provavelmente era o Vice-Presidente, mas seu nome… era um mistério para mim.
As “Três Glaciais” — como descobri que Rina, Sevira e Nevara eram chamadas — notaram na hora.
Rina levantou os olhos, interrompendo uma sequência de ataques.
Sevira parou de rir.
Nevara virou a cabeça lentamente.
— Hmm… — Rina estreitou os olhos cinzentos, olhando de canto para os novos espectadores VIP. — Acho melhor terminarmos por aqui, Ken. A plateia está ficando grande demais. E barulhenta demais.
Sevira deu um suspiro longo e dramático, colocando as mãos na cintura definida.
— Que saco… Estava ficando bom. — Ela me lançou um sorriso selvagem. — Foi divertido, Ken. Essa semana foi bem… ingressante.
“Ingressante”? Eu nem sabia se ela quis dizer “engraçada”, “interessante” ou se tinha inventado uma palavra nova para “dolorosa”.
E então, Nevara se aproximou.
Como sempre, sem expressão. Uma boneca de porcelana fria. O rosto neutro, os olhos de lago congelado.
Ela estendeu a mão. Eu recuei por reflexo, esperando um golpe.
Mas ela apenas pousou a mão no topo da minha cabeça e esfregou meu cabelo com um gesto inesperadamente gentil — e desajeitado.
— Muito bem. — disse ela, no mesmo tom monocórdico de sempre. — Evoluiu bastante. Vai conseguir enfrentar muita gente forte agora. Não morra.
Ela levantou os braços num gesto rígido que… eu acho que era para ser uma comemoração? Mas o rosto dela continuava uma parede de gelo.
Foi então que a gravidade da quadra mudou.
Solara desceu os degraus e entrou na área de combate.
O ar vibrou. Não era metáfora. O chão tremeu levemente com a pressão espiritual dela.
Sayra, que estava sentada numa cadeira afastada, comendo uma maçã, levantou-se num pulo. Os olhos dourados da Observadora brilharam de empolgação pura, como se o prato principal tivesse acabado de chegar.
Solara caminhou até o centro. O som de seus passos era o único ruído no local.
Ela parou a poucos metros de mim.
O silêncio era absoluto. Todos os olhares — das Glaciais, dos curiosos, do Vice-Presidente — estavam nela.
Ela me olhou.
Direto. Intenso.
As Três Estrelas Negras em seu olho esquerdo giravam lentamente, hipnóticas e aterrorizantes.
— Estou interessada em participar desse treinamento. — disse ela. A voz era clara, firme e melódica, mas carregava o peso de uma ordem imperial.
Ela não olhou para Rina. Olhou para mim.
— Quero lutar contra o garoto do Clã da Escuridão. Agora.
Minha espinha gelou. O sangue drenou do meu rosto.
Ela estava falando de mim.
Eu… nunca tinha trocado uma palavra direta com a Solara, exceto ouvir o discurso dela no palco. Ela era uma entidade inalcançável, o sol no topo da montanha.
E agora, ela estava ali. Na minha frente. Me desafiando.
A pressão era absurda.
Minha lente de contato ocultava meu olho rosa, mas eu sentia que aquelas estrelas negras estavam vendo através de tudo.
Engoli em seco.
Era o fim do treino… ou o começo do meu fim?

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