Índice de Capítulo

    O som suave das folhas balançando do lado de fora foi interrompido pelo eco dos passos dentro do salão.

    Duas figuras adentraram o recinto com uma presença que imediatamente silenciou qualquer cochicho entre os conselheiros. A primeira era Zeyra-Kaê.

    Zeyra caminhava com uma graça quase sobrenatural. Seus cabelos longos, de um branco prateado, desciam lisos como véus d’água, escorrendo até quase tocar o chão de pedra polida. A pele bronzeada, marcada com manchas ritualísticas em vermelho ao redor dos olhos e bochechas, irradiava solenidade. Eram símbolos sagrados do Sol Vermelho, pintados com a tintura extraída da flor Kurahá — uma flor viva, rara, que ardia em calor como um fragmento do próprio astro.

    Seu traje cerimonial era uma obra de arte por si só. Padrões florais intricados e listras verticais em vermelho, preto e branco se entrelaçavam em um tecido leve, quase translúcido sob a luz. Quando ela andava, não fazia som. Parecia flutuar.

    Zeyra não disse uma única palavra. Apenas parou ao lado da cadeira principal da mesa do conselho. Todos os presentes — inclusive os mais ríspidos anciões — se empertigaram, o olhar sério voltado para a frente.

    E então, Aruan apareceu.

    O chefe da tribo Kura’ru entrou como uma onda de maré alta — impossível de ignorar. Seu rosto maduro trazia cicatrizes profundas que cruzavam a pele morena como relâmpagos silenciados pela história. Mas nenhuma daquelas marcas tirava sua presença, apenas a intensificava.

    Mesmo sem a armadura cerimonial, era evidente sua força. Os ombros largos, os braços torneados, a postura ereta — tudo nele exalava liderança. Seus cabelos em dreads estavam presos para trás, e o semblante grave trazia o peso de décadas de responsabilidade.

    Ele caminhou até a cabeceira da mesa, se sentou e ergueu uma mão. O gesto era simples, mas bastou para calar todos os murmúrios.

    Eu e Cedric começamos a nos mover, prestes a sair do salão. Mas então a voz de Aruan nos cortou como um raio firme:

    — Por favor, Lysanthir e Cedric… não precisam sair daqui. — disse ele, com um tom que era mais ordem do que convite. — Creio que a presença de vocês será bastante necessária.

    Um dos anciões se mexeu na cadeira, visivelmente incomodado.

    — Mas Aruan… eles são forasteiros. Não devemos…

    — Por favor. — Aruan o cortou, olhando de soslaio com uma firmeza que fez o ancião engolir seco. — Eles se mostraram capazes de ouvir com respeito. E aprender. Além do mais… será benéfico a eles compreenderem o que está em jogo.

    Ele então se voltou para Mirassol, com um leve aceno.

    — Por favor, prossiga.

    Mirassol assentiu com gentileza e fez um gesto para um de seus guardas. O soldado se aproximou com passos ritmados e colocou um grande tubo de couro sobre a mesa. Ela desenrolou o mapa com cuidado, revelando as regiões de Marezza e Kura’ru em detalhes impressionantes: rios, florestas, rotas comerciais, áreas de cultivo, linhas fronteiriças e zonas neutras.

    — Senhores, — começou ela, com a voz firme e clara — o tratado de dez anos garantiu paz, mas não estabilidade. Marezza cresceu… e Kura’ru também. Mas estamos alcançando o limite do que esse tratado nos permite.

    Os conselheiros se remexeram. Alguns cruzaram os braços. Outros se inclinaram para frente.

    Mirassol continuou:

    — A fronteira do norte, próxima ao rio Gallen, tem sofrido com secas. Os fluxos que antes alimentavam as aldeias de Marezza estão sendo desviados para sustentar novas plantações ao sul de Kura’ru.

    — Nossas plantações só existem porque nossos jovens construíram canais com as próprias mãos! — retrucou um dos anciões, com o punho cerrado.

    — E nossos jovens estão morrendo de fome para que esses canais existam, — replicou Mirassol, sem elevar a voz. — Não estou aqui para acusar. Estou aqui para propor uma solução.

    O silêncio se abateu novamente.

    Ela é boa nisso, pensei, observando o modo como ela se posicionava. Elegante, confiante, sem jamais parecer agressiva. Mirassol negocia como se estivesse dançando numa ponte feita de vidro. E nunca tropeça.

    — Marezza está disposta a ceder rotas comerciais exclusivas para Kura’ru em troca de um novo acordo sobre os direitos do rio Gallen, — ela prosseguiu, desenrolando um segundo pedaço do mapa, menor, com marcas vermelhas. — Essas rotas incluem três entrepostos de especiarias e acesso privilegiado às caravanas das tribos do Leste.

    Um murmúrio atravessou os conselheiros.

    — E em relação ao comércio marítimo? — perguntou um conselheiro de cabelos prateados, a voz grave. — Marezza expandiu seus portos recentemente. Há rumores de que firmaram acordos com os mercadores da Névoa Negra.

    Mirassol sorriu com polidez.

    — Sim. E parte desses lucros pode beneficiar Kura’ru. — Ela girou o mapa e apontou para um ponto costeiro. — Podemos estabelecer um armazém conjunto. Sem taxas, sem espionagem, com um conselho misto de supervisão.

    — E o que impedirá Marezza de quebrar o acordo como no passado? — questionou uma conselheira idosa, os olhos semicerrados como se tentassem desvendar a alma de Mirassol.

    — Nada, exceto o que estamos fazendo agora: sentando à mesa como iguais. — disse Mirassol. — A história pesa, mas o futuro exige novas estruturas. Queremos dividir a responsabilidade. Não carregar o controle.

    Uma pausa longa.

    É como se cada palavra fosse uma gota de óleo jogada em um mar inflamável, pensei, sentindo o olhar de Cedric ao meu lado. Ele não dizia nada, mas seus olhos estavam atentos. Talvez mais do que nunca.

    Zeyra-Kaê, até então silenciosa, abriu os olhos lentamente. A cor âmbar deles parecia brilhar com um calor contido.

    — O que vocês propõem… é ousado. — disse ela, suavemente. — Mas… necessário.

    — E quanto à tribo do Sol Branco? — perguntou um dos anciões de repente, quebrando o ritmo da conversa. — Eles continuam no silêncio. Sabemos que estão se armando.

    Todos se entreolharam.

    Aruan entrelaçou os dedos e os levou ao queixo, pensativo.

    Mirassol apenas sorriu de canto.

    — Justamente por isso… precisamos estar preparados.

    Mirassol então se levantou, com a mesma elegância natural que exalava desde que entrou no salão. Ela sorriu com brilho nos olhos e declarou com firmeza:

    — Pois… Quero formar um grupo de expedição para ir até a vila do Sol Branco… Já se passaram mais de trezentos anos desde a última vez que alguém ousou pisar naquele solo.

    Um silêncio pesado caiu sobre a sala.

    Uma das anciãs, sentada ao lado esquerdo da mesa, franziu o cenho com força e rebateu quase de imediato, a voz carregada por um tom seco de advertência:

    — O motivo disso é mais do que claro, garota. Há mais de trezentos anos, a guerra pelo corpo da divindade caída naquela região nos deixou cicatrizes que ainda não se fecharam. Por causa disso, além de nós e vocês, as outras duas grandes tribos também têm esse território como proibido. Não se trata apenas de tabu — é uma ferida que jamais cicatrizou.

    Mirassol, ao invés de se abalar, pareceu ainda mais animada. Seus olhos brilharam de forma quase travessa, como se estivesse prestes a revelar um trunfo escondido.

    — Mas isso foi no passado, senhora anciã. — Ela virou-se e apontou com a mão elegante para o homem ao seu lado. — Porque, graças ao meu irmão, que por acaso acabou conhecendo alguém muito especial… uma principal do Palácio Selenita.

    O salão inteiro prendeu o ar.

    Todos arregalaram os olhos em choque — todos, menos eu e Cedric. O nome daquela tribo não nos dizia absolutamente nada. Palácio Selenita? Tribo do Sol Branco? Para nós, eram como páginas arrancadas de uma história que nunca lemos.

    Aruan se inclinou um pouco na cadeira, cruzando os dedos sobre a mesa e encarando a irmã.

    — Isso é… impressionante. Então quer dizer que, mesmo que por acaso, conseguimos uma conexão? Uma chance, mesmo que frágil, de retomar o contato com a Tribo do Sol Branco?

    Outro ancião, mais velho, com o rosto marcado por tatuagens tribais desbotadas, murmurou, incrédulo:

    — A última vez que um ser do Sol Branco apareceu foi no tratado de paz, há dez anos… Nem mesmo ouvimos suas vozes desde então. Isso… Isso é incrível.

    Mirassol assentiu, com o mesmo sorriso gentil e confiante de sempre.

    — Por sorte, meu irmão acabou se apaixonando por uma das princesas do Sol Branco. E, graças a essa união, surgiu uma janela de esperança. É claro que há riscos, mas também é uma oportunidade. Então, Aruan-Kaê… — ela virou-se para ele com respeito, mas também firmeza. — O que acha? Podemos prosseguir com essa missão?

    Aruan fechou os olhos por alguns segundos, ponderando. Então, com um leve sorriso no canto dos lábios, virou o olhar diretamente para mim e para Cedric.

    — Vocês dois irão com ela. Poderiam fazer esse favor?

    Cedric olhou para mim, claramente confuso, como se tentasse entender se aquilo era uma ordem ou uma cortesia. Eu, por outro lado, senti algo diferente — algo mais profundo. Um chamado.

    Mas antes que qualquer um de nós respondesse, Aruan levantou ligeiramente a mão, interrompendo-nos.

    — Desde que chegaram aqui, eu estive escondendo algo de vocês.

    Meus olhos se arregalaram. Dei um passo à frente, tenso. O tom da voz dele carregava algo que não era apenas peso… era reverência.

    Os anciãos se entreolharam em silêncio. Sabiam exatamente o que ele prestes a revelar.

    Aruan se levantou, caminhou calmamente até um antigo armário de madeira no canto da sala. A madeira rangeu levemente quando ele o abriu, revelando uma pequena pilha de livros cobertos de poeira e símbolos tribais. Ele retirou um deles com muito cuidado, como se estivesse tocando uma relíquia sagrada.

    Voltando ao centro, ele se sentou e pousou o livro à sua frente.

    — Este livro… — começou ele, com voz grave — contém uma lenda de trezentos anos. Fala sobre uma mulher que caiu do céu. Seu nome era… Julia Silvit.

    O nome caiu como um trovão em minha mente.

    Julia Silvit. Como eu poderia não saber?

    Ela era uma lenda — a antiga Rank 1, uma humana que misteriosamente viveu por setecentos anos. Criadora das Sete Lâminas Gêmeas de Silvit, fundadora do Grande Elevador das Camadas Neutras. A mulher que levou paz e prosperidade para uma terra devastada pela guerra. Para nós, ela era mais que uma heroína… era um símbolo. Uma divindade viva.

    Aruan percebeu minha reação e assentiu.

    — Quando ela caiu neste lugar, permaneceu aqui por cem anos… — ele empurrou o livro em minha direção. — E registrou tudo o que viveu nesse período. Inclusive, pistas de como subir desse mundo, dessas camadas.

    Me aproximei e peguei o livro. Suas páginas estavam gastas, mas ainda legíveis. O toque da capa transmitia uma estranha energia, como se estivesse viva.

    Aruan me observava atentamente, e então concluiu:

    — Acredito que você a conheça, pelo modo como reagiu. Então… quando estiver pronto, leia o livro. E depois, vá nessa expedição. Confio em vocês dois.

    Cedric parecia ainda mais perdido, mas eu… eu não tinha palavras. Apenas um frio estranho subia pela minha espinha, misturado com uma sensação agridoce.

    Até aquele dia…
    Eu achava que sabia alguma coisa sobre o meu mundo.
    Mas a verdade é que eu não sabia absolutamente nada.

    E agora, estava prestes a pisar em uma terra esquecida pela história…
    Onde um novo destino — talvez o meu verdadeiro — me esperava.

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