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    Perspectiva de Lysanthir — Leitura do Livro de Julia Silvit

    Voz de Julia Silvit:

    “Eu nasci em um lugar onde justiça era um conceito inexistente…”

    Um mundo dividido em camadas. Um sistema tão antigo e cruel que sequer nos permitia sonhar com igualdade.

    Minha tribo era conhecida por seus cabelos negros como a noite e olhos roxos como améthystas. Vivíamos em uma região esquecida chamada Piso do Paraíso — um nome poético demais para um lugar tão próximo do abismo. As bordas da camada levavam ao fim do mundo conhecido… e mesmo havendo camadas acima, nenhum humano que nasceu entre nós jamais chegou lá.

    No centro da camada, como uma provocação divina, erguia-se uma torre de pedra branca. Diziam que aqueles com coragem suficiente podiam escalá-la, mas poucos tentaram… e menos ainda voltaram.

    Todo ser humano nascia com um número. Um Rank. Gravado em seus corpos aos dez anos de idade, esse número ditava sua vida, seu valor, sua dignidade.

    Aqueles que nos marcavam eram chamados de Rankeadores — figuras misteriosas de olhos dourados, com pupilas em forma de estrelas de sete pontas. Eles desciam em silêncio, sempre no mesmo dia do ano. Não conversavam. Não sorriam. Apenas cumpriam seu papel, como deuses frios seguindo uma lei inevitável.

    Naquela época, o menor número já registrado era 275. Quem possuía números altos era visto como lixo. Quem possuía números baixos era reverenciado. Não por inteligência, bondade ou justiça. Apenas por força.

    Força bruta. Instinto. Sobrevivência.

    O poder nascia com alguns — habilidades conhecidas como Códigos Genéticos. E aqueles que as despertavam, mesmo com poderes fracos, eram tratados como reis se seu Rank estivesse entre os mil primeiros.

    Então… chegou meu dia.

    Eu tinha completado dez anos.

    Lembro do céu nublado, das pedras molhadas sob meus pés descalços. As pessoas da vila estavam reunidas, murmurando orações para que suas crianças recebessem um bom número.

    Enquanto caminhava em direção ao altar de marcação, tropecei — e sem querer, esbarrei em um homem enorme, com o Rank tatuado no pescoço: 67.000.

    Ele me olhou com desprezo, como se eu fosse um inseto.

    — O que uma pirralha fedorenta está fazendo aqui…? — sua voz foi como veneno. — E ainda é da tribo dos olhos roxos… Que nojo…

    Sem hesitar, ele me deu um soco no rosto. O impacto me jogou ao chão. Senti o gosto de sangue na boca.

    Ele cuspiu em mim.

    Eu não chorei. Não reclamei. Apenas levantei, com o rosto sujo e as pernas trêmulas, e caminhei até o Rankeador.

    O ser dourado segurou meu pulso. Seus dedos eram finos, frios. Um brilho percorreu minha pele — e naquele instante, algo mudou.

    O número apareceu.

    1.

    Silêncio.

    O Rankeador tremeu. O símbolo dourado em seus olhos oscilou por um instante.

    As pessoas ao redor arregalaram os olhos. Algumas deixaram cair o que seguravam. Outras cobriram a boca em choque. Havia incredulidade. Medo. Veneração.

    Eu não entendi o que estava acontecendo. Mas algo era claro…

    A partir daquele momento, minha vida mudou.

    Minha tribo, antes considerada escória, passou a ser vista com respeito. Recebemos alimento. Roupas. Ajuda. Os nobres começaram a se interessar por nossa cultura. E tudo… tudo isso por causa de um simples número gravado no meu pulso.

    “Por que a vida muda tanto por causa de um número…? Por que só quando você vale algo para os outros é que eles te olham diferente?”

    “Naquele dia, nasceu a Rank 1.”

    “Naquele dia… eu deixei de ser apenas Julia.”

    “O Grande Torre Central”

    Quando completei dezesseis anos, descobri um segredo enterrado sob camadas de ignorância: uma antiga linhagem, perdida no tempo, detinha o poder de manipular a luz. E com esse dom… era possível ativar uma escada — não uma comum — mas uma estrutura viva, feita de pura luz, que levava às camadas superiores.

    Em apenas dois anos, com a ajuda daqueles que herdavam essa linhagem, a grande Torre de Luz foi erguida bem no coração das camadas conhecidas. Um farol que rasgava o céu das estruturas flutuantes, brilhando como uma promessa.

    Com o tempo, mais e mais camadas foram reveladas — tanto acima quanto abaixo. Povos inteiros, civilizações com regras, idiomas e tradições próprias, surgiram diante de nossos olhos.

    Foi durante essas expedições que conheci os detentores dos ranks 2, 3… e tantos outros. Mas algo me marcaria ainda mais profundamente.

    Cristais.
    Humanos presos neles, congelados no tempo, como se tivessem sido selados em uma prisão feita de pura essência.

    Passei décadas estudando-os, anotando cada mudança, cada vibração estranha ao redor deles. A cada descoberta, o mundo se tornava mais vasto — mais misterioso. A torre de pedra original terminava em uma camada banhada por um sol abrasador. E, ao contrário, no extremo oposto… havia uma camada mergulhada em sombras eternas, onde o sol mal ousava tocar.


    — “Vovó… você ainda está estudando sobre os humanos nos cristais? Já chega, né?” — disse uma voz doce, me puxando de volta ao presente.

    Vovó.
    Eu não fui mãe de sangue.
    Mas ao longo da vida… adotei crianças que, como eu, haviam sofrido.

    E com o passar do tempo, elas me chamavam de mãe. Agora, avó.
    Foi aí que percebi…

    Eu não envelhecia.


    “Descoberta e Verdade”

    — “Senhora Silvit!” — um dos estudiosos correu até mim, os olhos arregalados. — “Descobrimos algo inacreditável na camada da superfície…”

    O que ele trouxe mudou tudo.

    No limite da décima camada, descobrimos que o mundo não terminava ali.

    Havia mais. Muito mais.

    Mas diferente das outras, essas camadas inferiores… eram sombrias, distorcidas. Habitadas por criaturas que não se pareciam com humanos — seres que nomeei de demônios, baseando-me em antigos livros sagrados que citavam monstros com esse nome.


    “Páginas Finais”

    — “Adeus.”

    Foi a última palavra que lhe disse.
    O primeiro humano cristalizado que estudei… despertou. Uma criança.
    Naquela época, a humanidade já havia explorado até a camada -58. E eu…
    Havia vivido mais de setecentos anos.

    Sete crianças passaram por meus braços, tratadas como filhas. E, para protegê-las, criei sete armas: as Lâminas Gêmeas de Silvit, fragmentos de mim mesma, deixadas como legado.

    Então, parti.
    Sozinha.
    Para o fundo das camadas negativas.


    “Camadas Profundas”

    Após atravessar a camada -143, descobri algo incomum.
    Ela só podia ser acessada ao cair — literalmente — do céu.
    Era diferente.
    Ali, conheci os Kura’ru, uma tribo isolada e silenciosa. Mas eles me contaram sobre outra… uma tribo lendária: a Tribo do Sol Branco.

    Eles também tinham uma torre. De pedra.
    Mas ela não subia…
    Ela descia.


    “Última Página do Diário”

    Fiquei aqui…
    Cem anos.
    Neste lugar que parece existir fora do tempo.

    E só agora… só agora percebo.
    Estou envelhecendo.

    Minha pele, antes firme, começa a ceder. Meus dedos, antes precisos, tremem um pouco.
    Vivi mais de oitocentos anos.

    E, apesar da vontade, não desejo mais continuar descendo.
    Talvez… tenha coisas demais lá embaixo.
    Talvez… já tenha cumprido meu papel.


    Esse é o único diário que escrevi em vida.
    Se um dia alguém da superfície das camadas neutras chegar até aqui, o mundo como conhecemos irá mudar.

    Mas agora…

    Só me resta desejar que todos estejam bem.

    Ymir, meu único filho…
    Espero que tenha se tornado um Rank 1 digno.
    Não por poder. Mas por compaixão.

    Meu nome é Julia Silvit.
    E eu nunca desejei estar no topo.

    Tudo que eu quis… foi continuar sendo eu mesma.

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