Capítulo 51: A Rank 1
“O poder não desaparece; ele apenas muda de mãos. E eu fiz questão de que essas mãos fossem muitas.”
Com o passar dos anos, desmontei a hegemonia.
Fiz com que os três “Grandes Clãs” deixassem de ser as únicas potências que sufocavam o mundo. Quebrei o monopólio. Assim, surgiram as ramificações, novas cores no espectro do poder.
O Clã da Flor floresceu, dividindo-se em dezenas de casas nobres, cada uma carregando o nome de sua essência: a elegância da Casa Rosa, a altivez da Casa Girassol e a misteriosa e reclusa Casa Orquídea.
O Clã do Fogo isolou-se em sua obsessão por pureza, mantendo uma linhagem “limpa” através de casamentos entre irmãos, gerando pessoas poderosas, mas mentes instáveis.
E, por fim, o Clã dos Dragões.
Eles eram os senhores do céu. Tinham o dom único de domar as bestas aladas, e usavam isso como moeda de troca, presenteando outras famílias com dragões para permitir a viagem entre as camadas. Eles controlavam o transporte. Controlavam o fluxo.
Mas eu havia percebido algo. Uma falha no mapa.
Nesta camada, em Asgard, onde esses três clãs viviam como deuses, eles mal tinham explorado além das muralhas da Cidade de Ouro.
A cerca de um dia de viagem do Palácio de Jade, no extremo leste de Asgard, havia uma fronteira que ninguém cruzava.
Uma Floresta Dourada.
Quando entrei lá pela primeira vez, liderando uma expedição do meu próprio círculo, o mundo parou.
As árvores não eram de madeira; eram de metal orgânico dourado. O chão não tinha grama; tinha pó de estrela.
E, entre os troncos, vimos o impossível.
O Jardim dos Adormecidos.
Humanos.
Centenas deles. Presos dentro de cristais brutos, congelados no tempo, selados em prisões feitas de pura essência concentrada.
Havia cristais de todas as cores do espectro: azul-profundo, rosa-choque, branco-leitoso, pérola…
Eles pareciam dormir. Pareciam perfeitos.
Mas eram frágeis.
Sempre que tentávamos quebrar o cristal para libertá-los… o humano dentro virava pó. Morria instantaneamente ao contato com o ar de Asgard.
Passei décadas estudando-os. Anotando cada vibração, cada batimento cardíaco suspenso. A cada cristal que eu falhava em abrir, o mundo se tornava mais vasto e mais triste.
E, enquanto eu estudava… o tempo passava.
As pessoas à minha volta envelheciam. Cabelos ficavam brancos, peles enrugavam, costas se curvavam.
E eu?
Eu continuava a mesma.
Só percebi a dimensão da minha maldição quando um jovem do meu clã, um guerreiro promissor que eu vi crescer, se declarou para mim.
Ele se ajoelhou, trêmulo, e disse “Eu te amo, Julia”. Naquela época, ousar amar a Rank 1 era quase uma sentença de morte social.
Mas eu não o puni. Eu nem sequer entendi. Apenas ignorei, voltei aos meus estudos, achando que era uma fase.
Quando percebi…
Ele estava no leito de morte. Velho. Enrugado. A vida tinha passado por ele e o consumido.
E eu estava ao lado dele, segurando sua mão, com a mesma pele, o mesmo rosto e a mesma juventude dos meus 20 anos.
Eu era uma anomalia temporal. Uma deusa que se esqueceu de morrer.
Quando ele partiu, a dor virou ação. Decidi fazer o que deveria ter feito há muito tempo. Limpar a casa.
Dei a ordem: O Exílio de Vanaheim.
Mandei os três Clãs Principais — Flor, Fogo e Dragão — descerem para a Camada 2.
Asgard seria um santuário neutro.
Lá embaixo, eles dividiram o continente em três grandes regiões. Mas antes que eles partissem, eu tinha uma última conversa pendente.
Fui até o Palácio de Obsidiana.
A antiga sede do Clã dos Dragões, uma fortaleza de vidro vulcânico negro.
O céu acima era dominado por revoadas de bestas. Dragões gigantescos devoravam gado inteiro, enquanto vassalos tentavam, com correntes e magia, manter o controle sobre o caos.
Entrei no Salão Principal.
O Chefe do Clã, Aelan Tant, estava no trono.
Ele era a imagem da decadência. Um homem imenso, robusto, mas gordo de excessos, com uma barba trançada suja de vinho. Ao redor do trono, sete mulheres — suas esposas, variando de meninas de 16 anos a mulheres de 30 — o serviam.
Por onde eu passava, o mundo se ajoelhava. Não importava a arrogância; diante da Rank 1, joelhos dobravam.
Servos, guardas, nobres.
Até mesmo Aelan, resmungando, levantou seu corpo pesado do trono e se ajoelhou junto de suas esposas.
— O que traz Vossa Majestade Imperial a este humilde covil…? — perguntou ele.
Já havia se passado mais de 100 anos desde que eu quebrara o domínio deles, mas o cheiro de arrogância ainda impregnava as paredes.
— Quero discutir história, Aelan. — Minha voz ecoou. — Quero saber por que seus antepassados, os Domadores de Dragões, nunca ousaram entrar na Floresta Dourada. E o que vocês sabem sobre os Humanos de Cristal.
Aelan congelou.
O suor frio brotou na testa dele, visível mesmo na penumbra.
Ainda de joelhos, ele ergueu o tronco, os olhos arregalados de terror supersticioso.
— Isso é uma surpresa, Vossa Majestade… Que a “Deusa” não saiba de algo que está escrito nas tabuletas proibidas dos nossos clãs…
— Prossiga. — ordenei. — Conte-me o que sabe. Ou seu clã perde as asas.
Ele engoliu em seco.
— O motivo… de nossos antepassados não passarem da orla da Floresta Dourada… Eram as criaturas.
— As Bestas de Galhos.
Franzi a testa.
— Criaturas de galhos?
— Sim. — Aelan tremeu. — Eram humanoides… mas galhos secos e espinhos saíam de dentro de seus olhos, de suas bocas, rasgavam as pontas dos dedos. Eles infectavam o que tocavam. Logicamente, isso virou um mito, um conto para assustar crianças. “Não vá à floresta ou você vira árvore.”
— Mas e os Humanos de Cristal?
Ele se levantou, incapaz de ficar de joelhos com o peso da memória. Fez um sinal para uma serva.
Ela trouxe um livro enorme, encadernado em escamas de dragão ancião.
— Isso aconteceu quando nossos antepassados, na sua arrogância, trouxeram alguns cristais para estudo. Queriam usar a essência como combustível. Para descobrir o que eram…
— E um deles… — A voz de Aelan falhou. — Um deles chocou.
Fiquei surpresa. Pela primeira vez em décadas.
— Então quer dizer que… Vocês conseguiram? Conseguiram fazer um humano de cristal sobreviver ao despertar?
Aelan suava bicas.
— Sim… Mas não fomos nós. Ele… ele se libertou sozinho.
— Deve ter sido há muitos séculos… — murmurei, pensando nas implicações.
Eu estava prestes a virar as costas e ir embora, quando ele soltou a bomba.
— Na verdade, Majestade… Ele está vivo.
Parei. Girei nos calcanhares.
— O quê?
— O nome que demos a ele foi Noctialis. — Aelan falou rápido, com medo. — Ele era um humano poderoso. Nossa família o adotou, cuidou dele como um membro legítimo, ensinaram a domar dragões… Mas depois que Você surgiu, depois que a Torre foi aberta… ele sumiu.
— Ele roubou o maior dragão ancestral que tínhamos, o Pai de Todos, e voou para baixo. Para o fundo do abismo. Para as Camadas Negativas.
Aelan olhou para o teto, como se pudesse ver através da pedra.
— Ele voltou há cerca de 2 anos. E está lá. No Pico, a montanha mais alta de Asgard.
— E como eu não fiquei sabendo disso?! — Minha voz fez o vidro das janelas trincar. — Um ser antigo retorna e ninguém me avisa?
— Porque… — Aelan sussurrou. — Ele não responde a este mundo. Ele não tem Rank. Ele voltou… diferente. Como outro ser. Algo… Superior.
Quando escutei aquelas palavras, não quis perder mais um segundo de tempo imortal.
Voltei ao Palácio de Jade.
Entrei na Forja Real.
Eu precisava me preparar. Se esse “Noctialis” era o que eu pensava — um sobrevivente da Era dos Cristais —, ele poderia ser a chave… ou o fim.
Fabriquei uma armadura.
Usei o minério estelar mais resistente de Asgard, o Adamantite Branco.
Moldei-a ao meu corpo: colada, leve, cobrindo apenas o torso e os membros vitais, sem elmo. Eu queria olhar nos olhos dele.
E a espada.
Não usei aço.
Usei a própria essência condensada dos membros do Clã da Luz, fundida com a minha vontade.
Uma lâmina longa, reta, de um branco que emitia luz própria.
E na lâmina, gravei o desenho fino e delicado de uma flor. A flor que representava a família mais misteriosa do Clã das Flores.
Uma Orquídea Fantasma.
Eu estava pronta.
Pronta para ir, literalmente, ao topo do mundo e desafiar o passado.
Então eu fui.
Voei para o Extremo Leste, onde o sol nasce primeiro e a terra termina em nuvens. Para o teto de Asgard.
Não fui em carruagens. Fui montada numa besta de guerra.
O Clã dos Dragões me emprestou sua joia: um Dragão de Duas Cabeças, com escamas azul-cobalto e asas que, quando abertas, cobriam o sol.
Ao meu lado, voavam meus melhores cavaleiros, a Guarda de Elite da Luz, em suas próprias montarias.
Era a primeira vez que eu montava num dragão. O vento cortava meu rosto, o frio da altitude tentava congelar meu sangue, mas a adrenalina me mantinha quente. Eu estava de pé nas costas da fera, equilibrada como se estivesse em terra firme.
Até que eu o vi.
Lá embaixo, no platô da montanha mais alta.
Não era um animal. Era uma paisagem viva.
O Dragão Ancestral.
Suas escamas eram tão escuras quanto a obsidiana do palácio que ele abandonara. A cabeça era colossal, do tamanho do próprio Palácio de Jade. A criatura estava deitada sobre as quatro patas, uma montanha de trevas repousando no topo do mundo.
E lá, bem à frente do focinho do gigante… uma figura minúscula em comparação, mas com uma presença que rivalizava com a da besta.
Noctialis.
Ou o que eu achava que ele era.
Uma armadura branca, imaculada, que exalava uma aura púrpura tóxica. Ele segurava uma lança negra, longa e serrilhada.
Quando nossa sombra cobriu o platô, ele olhou para cima.
Ele não gritou. Não fez pose.
Apenas ergueu a lança, mirou e arremessou.
ZUN.
A lança rompeu a barreira do som instantaneamente.
Não houve tempo para desviar.
O projétil atingiu o dragão à minha esquerda. Atravessou as escamas, a carne, o cavaleiro e saiu pelas costas. O dragão explodiu em sangue, morrendo antes de cair.
Meu dragão rugiu, sentindo a morte do companheiro. As duas cabeças gritaram em fúria e ele mergulhou.
Mergulhamos em direção ao inimigo.
Mas eu vi.
A lança negra parou no ar. Girou. E voltou para a mão da armadura branca como se estivesse presa por um elástico invisível.
Ele a pegou. E jogou novamente.
BOOM.
Outro cavaleiro, à minha direita, foi obliterado. Apenas pó restou.
A lança voltou para a mão dele. Ele mirou em mim.
Arremessou.
— Rásh-Mor! — gritei. Na língua dos dragões que significava “Fogo”.
As duas cabeças do meu dragão abriram as bocarra. Um jato duplo de chamas azuis, quentes como o núcleo de uma estrela, colidiu com a lança.
O fogo desacelerou o projétil, mas não o parou.
A lança rasgou as chamas. Passou de raspão pelo meu ombro, cortando a alça da minha armadura, e seguiu viagem.
Chegamos ao chão.
Estávamos de frente para ele.
As duas cabeças do meu dragão prepararam o sopro final para incinerar a figura de armadura.
Mas então… a sombra atrás dele se moveu.
O Dragão Ancestral abriu a boca.
Lentamente.
Não houve rugido. Apenas um suspiro geológico.
E ele cuspiu.
Não era fogo comum.
Era uma chama de cor Bege. Um tom pálido, morto, uma mistura de rosa coral desbotado e cinza. Uma cor que parecia não pertencer ao espectro de luz deste mundo.
A chama pálida engoliu meu dragão e os cavaleiros restantes.
Não queimou.
Apagou.
A carne, as escamas e os ossos simplesmente deixaram de existir ao toque daquela luz doente.
A onda de choque me arremessou para trás.
Voei longe, batendo contra a rocha da montanha. Rolei pelo chão, a armadura de Adamantite Branco gritando com o atrito.
Não me queimei. Não me feri gravemente. A minha aura de Rank 1 rejeitou a morte.
Cravei a Espada Orquídea no chão para frear.
Levantei a cabeça, sentindo o bafo quente e podre que vinha após o fogo bege.
E eu, Julia Silvit… pela primeira vez em séculos, estava de joelhos.
Olhei para cima.
Lá estava a figura de armadura, girando a lança negra, caminhando na minha direção. E atrás dele, o Dragão Ancestral, observando com olhos de um deus entediado.
Levantei-me.
Limpei a poeira dos joelhos.
Arranquei a espada do chão.
Olhei para ele. Decidida.
— Chega de brincar.
Meu Código Genético. Minha Habilidade Original.
Era diferente dos outros. Não era elemental. Não era físico.
Era Absoluto.
Estiquei meu braço esquerdo, segurando a espada com a lâmina apontada para baixo, sobre a pedra.
Abri a mão.
Soltei a espada.
TING.
A ponta da lâmina tocou o chão.
Mas não parou.
O chão ao meu redor se transformou. A pedra sólida virou água negra. Um lago escuro, sem fundo, que se expandiu instantaneamente num círculo perfeito.
O Mar da Consciência.
Naquele exato momento…
Tudo.
Todos.
Cada grão de areia, cada gota de sangue, cada batimento cardíaco, cada fluxo de emoção, consciência e energia num raio de 5 quilômetros…
Tudo entrou na minha cabeça.
Eu não via mais com os olhos. Eu era o espaço. Eu sabia onde cada átomo estava.
VUP.
Não precisei correr.
Eu me tornei a distância.
Teleportei para cima da figura de armadura.
A espada branca desceu. O impacto contra a lança negra dele gerou uma onda de choque que rachou a montanha ao meio.
A troca de golpes começou.
Era rápido demais para olhos humanos. Eram flashes de luz branca e faíscas negras.
Cada vez que ele movia a lança, eu já estava onde ele estaria. Eu sabia o futuro dele antes que ele pensasse.
Mas, no meio da tempestade de aço, algo clicou na minha mente onisciente.
A “informação” que vinha daquela armadura… era vazia.
Não havia coração batendo. Não havia pulmão respirando.
Era oco.
É uma marionete.
Aquele ser que lutava comigo, capaz de matar dragões… era um fantoche.
E o Dragão Ancestral lá atrás… ele não estava apenas observando. Ele estava controlando.
Num movimento de fúria, girei a espada.
Cortei o braço direito da armadura.
Depois a perna esquerda.
E, finalmente, enfiei a espada no centro do peito de metal, afundando a lâmina até o cabo, cravando o boneco no chão e criando uma cratera de impacto.
A luz púrpura nos olhos do elmo se apagou.
O corpo da armadura ficou inerte. Morto.
Arranquei a lança negra da mão decepada dele.
Saí da cratera.
Caminhei lentamente em direção à verdadeira ameaça.
O Dragão Ancestral.
E eu percebi.
Mesmo naquela cara reptiliana e escamosa… havia um sorriso.
Parei diante da besta colossal. Eu era um grão de areia diante dele.
A criatura estremeceu. O som que saiu da garganta dele foi profundo, tectônico.
Ele estava rindo.
A montanha tremeu com a risada dele.
Ele se levantou, a sombra cobrindo tudo.
“É uma enorme afronta…” — A voz dele não era som; era vibração mental. — “…E uma surpresa deliciosa.”
A pata dianteira dele, maior que um castelo, desceu rápido.
A unha, afiada como uma lança de obsidiana, parou a centímetros da minha testa. O vento do golpe despenteou meu cabelo.
Eu não pisquei. Eu sabia, com minha onisciência, que ele não iria me matar.
Ele riu de novo.
“Me pergunto… Por que você foi a Escolhida? Como Ele a escolheu…? Qual é o propósito de dar um poder desses a uma humana de carne e osso?”
Franzi a testa.
Escolhida?
Eu nunca soube o significado daquilo. Eu apenas me tornei a Rank 1. Mas sempre me perguntei… por que eu? Por que sou especial?
O Dragão recolheu a garra.
Ele era poderoso. Nitidamente, poderia me fazer sangrar, talvez até me matar se eu errasse um passo. Mas nós dois sabíamos… se a luta continuasse até o fim, eu poderia matá-lo também.
— O que é ser a Escolhida? — perguntei, gritando para a cara do monstro. — Me responda!
Ele aproximou o rosto gigantesco. O olho dele, uma fenda de magma antigo, focou em mim.
“Não cabe a mim dizer. A resposta não está no topo, Julia Silvit.”
Ele apontou o focinho para o chão. Para a terra.
“Desça. Vá para o fundo. Vá para o fim deste mundo vertical. Encontre aqueles que deixaram o mundo quebrado assim…”
A voz dele tornou-se um sussurro que fez meus dentes doerem.
“Encontre o Deus Irregular.”
“Deus Irregular?”
Fiquei sozinha no topo de Asgard.
Com uma lança negra na mão, uma armadura branca e uma pergunta que mudaria a história.
Depois disso, o dragão abriu as asas. O céu escureceu.
Com um único bater de asas, ele levantou voo, criando um furacão na montanha.
Ele voou para o Extremo Leste. Para além das nuvens. Para o fim dos limites da camada, onde o mapa terminava e o nada existia.

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