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    Mas foi uma baita revelação na época. O nome Mei ficou gravado na minha cabeça como ferro em brasa.

    Sayra, por outro lado, parecia uma criança que acabara de ganhar o melhor brinquedo do mundo. O rosto dela corou de excitação, e um sorriso quase maníaco se abriu.

    — Mestre, eu te amo! — ela exclamou, sem tirar os olhos de Mina. — Me deixar com um peixe grande assim logo de cara… você é o melhor!

    Ren, que ainda processava a informação, balançou a cabeça, cético.
    — Isso é difícil de acreditar. Una Mei não tem filhas registradas… Pelo menos, não oficialmente.

    Mas Sayra não estava interessada na burocracia. Ela queria sangue e suor.

    As duas mãos dela brilharam com uma energia translúcida, dourada, que se condensou rapidamente formando dois pequenos escudos redondos, flutuando como esferas orbitando seus pulsos.

    — Venha!

    Mina atacou.

    Não foi uma investida bruta. Foi arte.
    Cada passo dela parecia parte de uma dança antiga, coreografada com precisão milimétrica. Os leques cortavam o ar com leveza, emitindo sons agudos, enquanto a nuvem de pétalas seguia seus movimentos como uma extensão viva de sua vontade.

    Era bonito. Quase hipnótico. Mas eu sentia o perigo dali: aquelas pétalas poderiam ser tão afiadas quanto navalhas.

    Sayra defendia com calma, mas com um brilho selvagem nos olhos. O som metálico dos leques batendo nos escudos de energia — Clang! Clang! — se misturava com o farfalhar suave das flores.

    Mina girou, tentando um corte lateral, mas Sayra foi mais rápida.
    Num único movimento fluido, a Observadora girou o corpo, desviando do leque por um fio, e desferiu um chute alto.

    Vush.

    O pé de Sayra parou.
    A milímetros da garganta de Mina.
    O vento deslocado pelo golpe fez o cabelo negro de Mina voar para trás.

    Parou. Mas a mensagem foi clara: se ela quisesse, a garganta teria sido esmagada. Fim de luta.

    Sayra baixou a perna lentamente, o sorriso satisfeito nunca saindo do rosto.

    — Gostei de você… — sussurrou ela.

    Mina recuou, ofegante, o suor escorrendo pela têmpora. Ela não sorriu, manteve a postura rígida, mas seus olhos brilharam. Parecia satisfeita por ter, pelo menos, obrigado Sayra a levar aquilo a sério.

    Logo depois, a outra garota se aproximou.

    Holi Resca.
    Cabelos rosa-claros, pele delicada, um jeito meio bobinho de andar, tropeçando nos próprios pés. Ela parecia deslocada ali, como um coelho num covil de lobos.
    Mas era bonita. Inegavelmente. Muitos alunos ao redor suspiraram ou sorriram, desarmados pela aparência inofensiva.
    “Fofa demais”, ouvi alguém sussurrar atrás de mim.

    Ela olhou ao redor, brincando com uma mecha do cabelo, e falou com voz doce:

    — Meu nome é Holi Resca… — Ela disse de um jeito tímido, encolhendo os ombros.

    Sayra a encarou por um segundo. O sorriso da Observadora mudou. Ficou afiado.

    Falsa.

    Holi piscou, a máscara tremendo por um segundo.
    — Não me chama de falsa… — ela respondeu, a voz ainda tímida, mas com uma pontada de irritação. — Eu não sou falsa…

    Sayra não respondeu. Apenas esperou.
    Holi suspirou, vendo que o teatro não funcionaria com aquela mulher.

    Então, ela firmou os pés no chão.
    A mudança foi sutil, mas brutal para quem sabia olhar.
    O corpo dela pareceu… enrijecer.
    Não de tensão nervosa, mas de densidade. Dava para ver os músculos sob a pele delicada se tornando compactos, duros como aço. A postura “fofa” desapareceu, substituída por uma base sólida de combate.

    O código genético dela… Fortificação Corporal.

    Sayra avançou.
    A Observadora atacou com uma sequência rápida de socos e chutes — testes leves para o nível dela, mas com força suficiente para quebrar as costelas de alguém comum.

    Bam! Bam! Bam!

    Holi resistiu a todos.
    Sem cambalear. Sem desviar. Sem recuar um milímetro.
    Ela recebeu os golpes diretamente nos braços e no tronco, o som do impacto lembrando carne batendo em pedra maciça. Ela ficou ali, firme, com um olhar que misturava a inocência encenada com uma determinação assustadora.

    Sayra deu um passo para trás, cruzou os braços e soltou uma gargalhada curta.

    — Nada mal, princesa cor-de-rosa. Nada mal mesmo. Você é um tanquezinho de guerra disfarçado de boneca.

    Depois dessas demonstrações, uma coisa ficou cristalina para mim: não existia padrão em Fjorheim.
    Cada um ali tinha uma habilidade completamente diferente, uma lógica própria. Era como se o mundo tivesse distribuído talentos únicos aleatoriamente, só para se divertir vendo o caos que isso geraria.

    Holi tentou contra-atacar, movendo-se com o peso de um aríete, mas Sayra era água.
    Numa dança de esquivas e rasteiras, Sayra desequilibrou a base sólida de Holi. Com um toque preciso no tornozelo, derrubou a garota.

    Sayra terminou sentada em cima de Holi, sorrindo vitoriosa, antes de se levantar e estender a mão para ajudar a garota de cabelos rosa a ficar de pé.

    — Boa tentativa. — Sayra piscou.

    Ainda sorrindo, vermelha e animada com a sequência de lutas, Sayra se virou para a última.

    Lyshera Noctialis.

    A garota de cabelos brancos sujos e olhos de predador deu alguns passos à frente. A atmosfera ao redor dela era diferente. Mais pesada. Mais… primitiva.

    Sayra parou de sorrir por um instante, inclinando a cabeça.

    — Garota… você tem uma presença bem diferente. Cheira a coisa velha.

    Lyshera Noctialis, é meu nome. — A voz dela saiu rouca, forte, ecoando no peito de quem ouvia.

    Noctialis.

    Minha mente estalou. Eu conhecia esse nome.
    Era o nome de um dragão de um dos livros antigos que Katarina lia para mim nas noites de nevasca em Jotunheim.

    A lenda dizia que, há mil anos, Noctialis foi o dragão de estimação — ou parceiro — de um homem que ousou lutar contra a antiga Rank 1, a lendária Julia Silvit.
    Diziam que, após a morte desse homem, o dragão enlouqueceu e sumiu no Vazio, além das bordas das camadas conhecidas.
    Até hoje, era tratado apenas como um mito. Uma história para assustar crianças.

    Mas, olhando para Lyshera agora, o mito parecia real demais.

    Foi quando eu notei. Todos notaram.

    As mãos dela tremeram.
    As unhas, já longas e sujas, começaram a se alongar, escurecendo e ficando afiadas como lâminas de obsidiana.
    Quando ela abriu a boca para respirar, os dentes caninos cresceram, serrilhados, prontos para rasgar carne.
    Os olhos dourados turvos brilharam, e a pupila se fendeu em uma linha vertical perfeita.

    Não era magia. Não era energia.
    Era biológico. Visceral.

    Um Código Genético de Transformação.

    E pela pressão que ela emanava… não era uma transformação em qualquer animal. Era algo no topo da cadeia alimentar.

    — Noctialis… igual ao dragão… — Sayra murmurou, inclinando a cabeça com um interesse renovado. — Sua família deve ser bem importante, garota.

    Ren, assumindo a postura acadêmica que raramente usava, explicou:
    — Noctialis é, de fato, uma família antiga. Dizem as lendas que eles descendem diretamente desse dragão, mas houve uma miscigenação histórica. Eles possuem raízes do Clã da Luz correndo nas veias, o que estabiliza a natureza bestial.

    Sayra olhou para Lyshera e o sorriso em seu rosto se alargou. Era um convite.

    — Então mostre.

    Lyshera não esperou.
    Ela atacou.

    Não foi uma corrida. Foi uma explosão. O chão sob os pés dela cedeu, e ela se tornou um borrão branco e cinza. A velocidade superou, de longe, qualquer coisa que os outros alunos tinham mostrado até agora.

    Naquele momento, apenas dois pares de olhos no campo conseguiram acompanhar o movimento: os olhos vermelhos de Ren e os dourados de Sayra.

    Lyshera mirou o pescoço.
    Mas quando suas garras estavam prestes a tocar a pele de Sayra… ela agarrou o vento.

    Sayra havia desviado. Um passo lateral simples, econômico.
    Lyshera freou, as garras rasgando a terra para parar o ímpeto, e girou instantaneamente para um segundo ataque, rugindo baixo.

    Mas Sayra levantou o dedo indicador, balançando-o de um lado para o outro.

    — Nananinanão… — Ela estalou a língua, o sorriso zombeteiro brilhando. — Você é rápida, Dragoazinha. Mas…

    O ar estalou.
    Sayra sumiu.

    — …isso é velocidade.

    A voz dela veio de trás.
    Antes que a pupila vertical de Lyshera pudesse se contrair, Sayra já estava no ar, descendo num chute de cima para baixo. Mas, num controle absurdo de corpo, ela parou o impacto antes de esmagar o trapézio da garota.
    Em vez de bater, ela girou a perna, enlaçando o pescoço de Lyshera como uma serpente, e usou a gravidade.

    BAQUE.

    Lyshera foi ao chão, imobilizada, com Sayra agachada sobre ela, sem nem ter desmanchado o penteado.

    — Entendeu a diferença? — Sayra piscou.

    Lyshera, ofegante, relaxou os músculos. A transformação regrediu. As unhas diminuíram, os dentes voltaram ao normal, e o brilho dourado nos olhos apagou, deixando apenas a garota de aparência cansada.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto. Todos estavam atônitos. Aquilo não era apenas “aula”. Era uma demonstração de um abismo de poder.

    Ren bateu palmas uma única vez, quebrando o encanto.
    — Certo. O show acabou. Voltem para a sala.

    Enquanto os alunos se arrastavam de volta, ainda em choque, ouvi o sussurro de Sayra para Ren:
    — Todos aqui são muito interessantes, Mestre…

    Ren olhou para as costas dos alunos, um brilho calculista nos olhos.
    — Eu tive sorte… Muita sorte. Agora, eles vão conhecer a realidade. Vamos apresentá-los aos outros.


    De volta ao prédio principal, fomos levados para um auditório menor para conhecer o restante do corpo docente.

    O primeiro a entrar parecia ter saído de uma revista de moda corporativa.
    Aparência impecável. Rosto jovem, sem nenhuma marca de expressão. O cabelo castanho estava penteado com tanta perfeição que parecia imune ao vento. O uniforme dele, diferente do quimono solto de Ren, era ajustado ao corpo, como se tivesse sido costurado diretamente sobre a pele.

    Ele parou diante de nós e disse apenas um nome.

    Ative.

    Sim, só isso. Nada de sobrenome.
    Os boatos correram rápido pelas fileiras. Disseram que ele vem de uma família que renegou o uso de nomes completos, uma linhagem onde todos os membros possuem códigos genéticos ligados à eletricidade e velocidade.
    E não era só papo. A energia ao redor dele era estática pura. Diziam que, em toda a academia, ele era o mais rápido.

    — Serei o professor de Cálculos, Matemática Aplicada ao Uso de Energia e Controle de Concentração. — A voz dele era rápida, precisa, sem pausas desnecessárias. O tipo de cara que fala pouco, mas quando fala, parece estar resolvendo uma equação complexa dentro da própria cabeça.

    Logo depois que ele saiu, veio o oposto total.

    Uma figura entrou — ou melhor, tropeçou — na sala.
    Uma mulher. Cabelos desgrenhados, uma juba castanha que parecia ter lutado uma guerra contra o travesseiro e perdido feio. Olheiras profundas marcavam seu rosto, como se ela estivesse numa maratona de estudos há sete vidas seguidas.

    Mas, contraditoriamente, ela estava elétrica.
    — Olá! Oi! Gente, que turma grande, nossa! — Ela gesticulava o tempo todo, as mãos voando, parecia ter tomado café misturado com adrenalina pura.

    Ela seria nossa professora de Biologia das Camadas.
    Ensinaria tudo sobre os ecossistemas, a flora, a fauna das camadas normais… e das terríveis Camadas Negativas.
    Apesar do visual caótico e da mancha de tinta no jaleco, dava para sentir uma inteligência afiada ali. Provavelmente, uma daquelas gênias excêntricas que entendem mais de monstros do que de pessoas.

    E, claro, foi confirmado que Ren Tianyū ficaria responsável pela matéria prática de Códigos Genéticos e Combate.
    Combinava com ele. A aula já prometia ser um campo de guerra.

    As coisas pareciam estar indo bem. Organizadas. Até demais.

    Até que a temperatura da sala caiu.

    A porta se abriu, e um homem entrou como se o mundo ao redor tivesse parado só para ele passar.

    Óculos elegantes de aro fino. Olhos azuis, frios como o gelo eterno de Jotunheim. Cabelo amarrado num rabo de cavalo baixo com precisão cirúrgica. Roupas de corte fino, escuras com listras negras sutis.
    E um detalhe que chamava a atenção: uma faixa grossa de tecido cobrindo todo o pescoço, sumindo sob o colarinho.

    Hizu Jorney.

    Ele parou no centro. Não sorriu. Não franziu a testa. Apenas olhou para nós com a calma aterrorizante de quem sabe tudo o que precisa saber.

    — Muito prazer. Sou Hizu Jorney, vice-diretor desta academia.

    A voz dele era firme, polida, mas carregava uma elegância perigosa. Cada palavra parecia calculada para ter o peso exato.

    — Como vocês são uma das turmas novatas deste ano, prefiro ser direto e transparente. — Ele ajeitou os óculos com o dedo médio, um gesto lento. — Devido ao aumento alarmante nos ataques de demônios e fendas instáveis nas camadas inferiores, nosso Diretor está temporariamente ausente.

    Um murmúrio baixo correu pela sala.

    — Ele está na linha de frente, auxiliando pessoalmente os generais do exército dos Três Palácios… — Hizu fez uma pausa dramática, os olhos azuis varrendo a sala. — …Portanto, por hora, eu serei a autoridade máxima com a qual vocês terão contato. O Diretor pede desculpas por não poder recepcioná-los pessoalmente.

    Aquela frase pesou no ar.

    O Diretor não estava em uma viagem de negócios. Estava em guerra.
    Lá embaixo. Nas camadas onde os pesadelos ganham forma.
    Engoli em seco. Se alguém do nível do Diretor precisava ir para o front…

    É… o negócio estava muito mais feio do que a gente imaginava.

    Hizu ergueu uma mão enluvada, pedindo silêncio sem dizer uma palavra.

    — Primeiramente… esqueçam os números que vocês trouxeram de fora. Os Ranks das Camadas Neutras não têm valor aqui dentro. Nesta instituição, vocês terão rankings próprios, definidos pela classe de entrada e pelo progresso interno.

    Um zumbido suave ecoou no salão. No meu pulso esquerdo, uma pulseira metálica fina, que eu nem tinha notado quando foi colocada na entrada, brilhou. Uma projeção holográfica surgiu sobre a pele.

    Rank D – 79.

    — Como calouros, todos começarão como Rank D, acompanhados de um número individual de classificação. — A voz de Hizu era clínica. — Isso não significa necessariamente que são fracos. Significa apenas que estão no degrau mais baixo da escada. Temos atualmente cerca de três mil alunos ativos.

    Olhei para o lado, curioso. Shin, com aquele ar despreocupado de quem passeia no parque, olhou para o próprio pulso.
    Rank D – 67.
    Um pouco melhor que o meu, mas ainda na média.

    Espiei discretamente a pulseira de Mina.
    Rank D – 14.
    Meus olhos se estreitaram. Quatorze. Um número absurdamente alto para uma caloura. Justificava os olhares de inveja e medo ao redor dela. Ela já começava perto do topo da classe.

    Vastelion, o orgulhoso do Clã da Luz, ostentava um Rank D – 22.
    E Lyshera, a garota-dragão, exibia um Rank D – 31.

    E então, olhei para Holi.
    A garota de cabelos rosa olhava para o pulso, meio cabisbaixa, os ombros caídos.
    Rank D – 130.

    — Cento e trinta… — ela murmurou, a voz trêmula.

    Aquele número não fazia justiça ao que eu tinha visto no campo. Ela havia suportado os golpes de uma Observadora sem recuar um centímetro. O sistema da academia parecia avaliar algo além da força bruta, ou talvez… tivesse falhado com ela. Senti uma vontade súbita de dizer isso, de falar que aquele número era mentira, mas me calei.

    Hizu continuou, implacável:

    — Em três meses, haverá um teste de reclassificação massivo. Ele irá definir seus lugares reais na hierarquia. Até lá, seus números são voláteis. Podem subir… ou cair.

    Ele ajeitou os óculos novamente.

    — Lembrem-se: vocês podem pedir ajuda para qualquer professor, não apenas o responsável pela sua matéria. Inclusive a mim. Qualquer dúvida, instrução ou questão importante, minha sala está aberta.

    Ele deu um passo para trás, a sombra cobrindo parte de seu rosto.

    — A saída da academia é estritamente proibida sem autorização formal. E o uso de Códigos Genéticos sem a supervisão de um Observador ou Professor resulta em expulsão imediata. — Os olhos azuis brilharam por trás das lentes. — Temos vários professores do Clã Enola aqui, especialistas em conhecimento. Não tenham medo de buscar a verdade.

    E então… ele se virou.
    O manto escuro girou com precisão militar, e ele saiu pela porta lateral.
    Simples assim.

    Mas algo na presença dele ficou no ar. Uma gravidade residual. Uma sombra leve, mas persistente, que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Talvez fosse só impressão de um novato assustado.

    Ou talvez… fosse o presságio de que a calmaria estava prestes a acabar.

    “Rank D – 79…”
    Olhei de novo para o número brilhante no meu pulso.
    Eu já sabia o que esperar da rotina: aulas, treinos, hierarquia.
    Mas o que realmente me aguardava nas sombras de Fjorheim… ainda era um mistério absoluto.


    Depois da tensão do auditório, fomos dispensados e encaminhados aos dormitórios.

    O complexo residencial era uma cidade à parte. Cinco prédios enormes se erguiam à nossa frente como pilares de um novo começo, cada um com uma arquitetura distinta. Não havia separação de prédios entre meninos e meninas — o que tornava os pátios e corredores uma mistura caótica e animada de vozes e risadas — mas os quartos, felizmente (ou infelizmente, dependendo de quem você perguntasse), eram divididos por sexo.

    Para minha decepção, eu e Shin fomos designados para blocos diferentes.
    — A gente se vê no café, Ken — ele disse, acenando com aquela preguiça elegante, antes de sumir na multidão.

    Respirei fundo e segui em direção ao meu novo lar. Ou pelo menos, a cela de luxo onde eu dormiria pelos próximos anos.

    Subi até o terceiro andar do Bloco C. O corredor era silencioso, acarpetado. Parei em frente à porta 304.
    Passei a pulseira no leitor digital. A tranca destravou com um bipe suave e a porta deslizou para o lado.

    A primeira coisa que me atingiu não foi a visão, foi o cheiro.
    Uma fragrância forte de sândalo e alguma colônia cara, amadeirada, preencheu minhas narinas como uma barreira física.

    Entrei. E então eu o vi.

    Havia um garoto — não, aquilo era um homem — parado no meio do quarto.
    Alto. Muito alto.
    Ele estava de costas para mim, diante de um espelho de corpo inteiro. Seus cabelos negros eram longos, lisos, descendo pelas costas nuas como uma cortina de seda escura.
    Ele estava sem camisa. E o corpo dele… parecia ter sido esculpido em mármore negro por um artista obcecado pela perfeição. Cada músculo das costas se tensionava e relaxava conforme ele passava uma escova pelos fios, numa definição absurda.

    Ele parou.
    Lentamente, ele se virou.

    Olhos negros. Profundos como poços de piche. Eram frios, intensos, capazes de engolir qualquer um que ousasse encará-los por tempo demais.
    Mas o que fez meu sangue gelar não foi o olhar.
    Foi o que estava gravado no lado direito do pescoço dele, pulsando num tom violeta, quase como uma tatuagem viva.

    Rank B – 2.

    Eu congelei.
    B – 2?
    Isso significava que ele era do terceiro ano. E não apenas um veterano qualquer… ele era o segundo mais forte de todo o terceiro ano.

    Droga. Por que eu? O que eu fiz para o universo?

    Ele me analisou de cima a baixo, os olhos semicerrados como se estivesse avaliando a qualidade de um tecido. Então, num movimento súbito, ele esticou uma das mãos em minha direção, ergueu o queixo num gesto teatral e sua voz explodiu no quarto, potente como a de um tenor num palco de ópera:

    ME DIGA SEU NOME, GAROTO DO CLÃ DA ESCURIDÃO!

    A voz dele reverberou nas paredes, fazendo os vidros da janela vibrarem.
    Engoli em seco, segurando a alça da minha mala com força.

    — Ken… Ken Orquídea.

    — Belo nome, garoto! — Ele soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás. — Ken Orquídea… me lembra as orquídeas negras que florescem nos pântanos da Camada 8. Tão frágeis à primeira vista, tão belas… e tão venenosas! HAHAHAHA!

    Com um gesto dramático, ele girou o braço, me convidando a entrar.
    Fechei a porta com cuidado, ainda tentando processar com que tipo de louco eu estava lidando. Havia uma intensidade nele que fazia o quarto parecer minúsculo. Ele ocupava todo o espaço com sua aura.

    Levi Gressi, este é o meu nome. Grave-o! — Ele girou sobre os calcanhares e voltou para a penteadeira, pegando um pente fino para alinhar um fio rebelde. — Como você pode ver pelo meu pescoço, sou do terceiro ano… e o segundo mais forte entre eles.

    Ele me olhou pelo reflexo do espelho.

    — E você, garoto belo… tem algo em você que brilha. Esses olhos… rosa e preto? São extravagantes. Eu gosto de coisas extravagantes.

    Levi tem um problema sério, só só fui descobrir muito no futuro, ele era meio daltônico ou melhor ele não via a cor Roxa.

    Mas ele era definitivamente egocêntrico. Provavelmente narcisista.
    Mas forte… Deus, ele exalava poder.

    — Ah, a cama de cima é minha. A de baixo é sua. Simples. — Ele apontou com o pente, fazendo uma careta de nojo. — Meu antigo colega foi embora. Indigno. Não suportou o brilho da minha rotina.

    Ótimo, pensei. Ele expulsou o último colega.

    Comecei a guardar minhas coisas na parte de baixo do armário, tentando fazer o mínimo de barulho possível. O silêncio durou pouco. Quando me virei, Levi já estava me encarando de novo, encostado na parede com os braços cruzados, um brilho curioso e predatório nos olhos.

    — Me diga, Garoto Orquídea… Uma última pergunta, só para eu medir o quão “esplêndido” você realmente é.

    Ele sorriu de canto, como um joalheiro prestes a avaliar um diamante bruto.

    — O que um garoto da quinta camada veio fazer aqui? Qual é o seu desejo?

    Eu travei.
    Como ele sabia que eu era da quinta camada. Mas a pergunta era simples, mas a resposta…
    Eu tinha 16 anos. O mundo estava em paz, teoricamente. Não havia guerras declaradas nas camadas neutras. Então, por que eu estava ali?

    — Acho que… quero subir. — Comecei, a voz saindo automática. — Chegar no topo. Viver uma vida tranquila, aproveitar o que ela tem de melhor… depois de me esforçar.

    Levi bocejou, cobrindo a boca com as costas da mão. Tédio.

    Parei. Aquela não era a verdade inteira.
    As palavras travaram na minha garganta. Lembrei de algo que eu sempre empurrava para o fundo da mente, trancado a sete chaves.
    Minha mãe biológica. A mulher do Clã da Escuridão que me deu a vida e sumiu. Eu não sabia nada sobre ela. Nem o nome. Mas Katarina… Katarina dizia que eu tinha os olhos dela. E dizia, com medo na voz, que ela estava… lá embaixo. Nas Camadas Negativas.

    Apertei o punho. Levantei o rosto e encarei Levi nos olhos.

    — …Mas se nada disso der certo, eu tenho outro motivo. — Minha voz saiu mais grave. — Quero entender a verdade desse mundo. Quero encontrar minha mãe biológica. Descobrir quem ela era e por que me abandonou nas camadas neutras enquanto descia para o inferno das Negativas. Não é o único propósito da minha vida… mas é uma curiosidade que queima. E eu não consigo ignorar.

    O quarto ficou em silêncio por um segundo.
    Levi me encarou, estático.

    E então, o rosto dele se iluminou num sorriso largo, brilhante, quase cegante.

    EXTRAVAGANTE!

    Ele gritou, jogando os braços para o alto como se celebrasse o final de um grande espetáculo.

    — Desde o momento em que você cruzou aquela porta, eu soube! Rosto belo! Olhos belos! Estilo belo… e um sonho belo e trágico! Verdadeiramente… EXTRAVAGANTE!

    Ele apontou para mim, rindo.

    — Você serve, Ken Orquídea! Você serve para dividir o ar que eu respiro!

    Eu soltei um suspiro longo, deixando os ombros caírem.
    Definitivamente, essa convivência ia ser… uma experiência.

    Enquanto eu tentava me acostumar com a loucura do meu colega de quarto, a noite caía sobre a Academia Fjorheim.

    Mas, longe dali…
    Nas sombras que cercavam as muralhas da academia, algo estava acontecendo. Algo silencioso, sem testemunhas, sem alarde.
    Uma engrenagem começou a girar na escuridão.
    Algo que eu não sabia, e nem poderia imaginar, mas que, futuramente, mudaria não só o meu destino… mas o destino de todas as camadas.

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