Notas de Aviso

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    Cerca de dez pessoas se encontravam no local. Os homens que ajudaram Leonel a se levantar conversavam, confusos, sobre a situação. Uma criança de cerca de doze anos, curiosa, observou a sombra bem de perto. Uma mulher de meia-idade — provavelmente sua mãe — gritou, com a voz apreensiva.

    Outro homem aproximou-se. Em sua face, a raiva contorcia a boca.

    — Onde conseguiu essas roupas, moleque? — esbravejou, apontando o dedo para o rapaz enquanto girava a cabeça, verbalizando sua indignação aos presentes.

    — Ladrão! Quebrou minha janela e roubou as minhas roupas!

    O rapaz observou as expressões difusas das pessoas e ouvia suas palavras, mas não entendia o que estavam dizendo.

    O homem que o ajudara instantes antes perguntou.

    — É verdade, rapaz? — Leonel não compreendeu, mas respondeu em seu próprio idioma.

    — O que? Não entendo o que estão dizendo. A sombra. É isso? O que querem saber? — angustiado e desorientado tentou gesticular e repetiu as palavras, ao vento.

    — O que ele disse? Não conheço essa língua.

    O homem acusador, com firmeza na voz e postura convicta, encarou o jovem. Sua barba malfeita emoldurava seu rosto largo, sustentado por um corpo pesado. Usava roupas simples, cor de terra, semelhantes às que Leonel estava usando.

    O outro homem que também ajudou Leonel se interpôs na conversa.

    — O rapaz não é daqui. Acho que não fala nossa língua; vamos nos acalmar — os presentes, ao ouvirem suas palavras ponderadas, arrefeceram os ânimos. 

    — Quem é esse? Como fica a minha situação? — perguntou o homem ainda inquieto.

    — Melhor chamar o ancião! Ele sabe o que fazer! — disse uma garota que estava próxima, entrando na conversa.

    — Sim, verdade — o primeiro homem a ajudar Leonel assentiu, um sorriso no rosto.

    O rapaz, ainda sem entender o que aconteceu, foi convidado a seguir os três homens que com ele interagiam. No entanto, enquanto o conduziam, a sombra o seguiu.

    A mãe do menino curioso sentiu o estômago latejar.

    — A coisa, o que é essa coisa? — e, nesse instante, os presentes aterrorizaram-se ao perceber a própria distração; por um momento, haviam-se esquecido completamente da entidade que ali figurava.

    Com naturalidade, sem se importar com qualquer reação à sua presença, a sombra caminhou em direção a Leonel.

    Todos a observavam mover-se, e cada um sentia uma emoção perturbadora muito particular em relação àquela situação.

    A criança andou ao lado, despreocupada; já sua mãe, a uma boa distância, tremia afobadamente, gesticulando ao filho para se afastar daquilo.

    A garota mais nova que se inseriu na conversa dos homens recuou devagar, cedendo passagem à entidade.

    Os homens ao redor de Leonel, por fim, reagiram.

    Um deles, com impulso desmedido, ao perceber que a sombra chegava cada vez mais perto, estendeu os braços para evitar que avançasse.

    — Quem é você? — indagou. Sua voz vibrou transbordando o medo que dissolvia sua confiança.

    A entidade, por sua vez, apenas desviou do homem à sua frente e se dirigiu para o lugar em que desejava estar. Ao lado de Leonel.

    O acusador estava agora genuinamente assustado. Chegara ao local depois, e pela primeira vez percebeu, com completa consciência, o que acontecera ali antes de ele chegar.

    — Era essa coisa de que todos estavam falando? — suas palavras soaram anônimas; ninguém conseguia tirar os olhos da situação.

    Percebendo que o ignoraram, afastou o rapaz com um empurrão, colocou-se à frente da entidade e, antecipando que ela poderia esquivar-se, lançou a mão direita em direção ao braço sombrio e tentou contê-la.

    Seus dedos se fecharam sobre o vazio. Transpassaram-na.

    Sua mão atravessou a sombra como se ele tentasse agarrar o próprio vento.

    Seu semblante perdeu a cor.

    O homem, que até momentos atrás exibia firmeza, pulou dois passos e recuou desequilibrado.  Um corpo robusto que revelou sua resignação ao pavor.

    Os demais, ao presenciarem a cena, igualmente elevaram o grau de apreensão.

    — O que é isso? — indagou o primeiro homem da mão gentil. Ele direcionou a pergunta aflitiva ao jovem, mas mesmo Leonel, assim como os demais, não sabia o que era aquela sombra.

    O rapaz observava a entidade com certo ceticismo. Supôs que ela pararia ao seu lado. Acertou.

    A sombra ignorou todos os demais, se aproximou de Leonel e, ao seu lado, ela parou.

    Enquanto a pequena multidão observava atônita, a criança que seguia a entidade, mais curiosa que prudente, tentou cutucar a coisa.

    Seu dedo transpassou.

    — Não tem nada aqui! — exclamou em espanto.

    — Olha, mãe, não dá pra tocar nela — a mulher, engasgada com densos sentimentos, quase desmaiou.

    Leonel encarou a face da entidade.

    — Quem é você? — perguntou com sincera curiosidade.

    — Consegue falar? — e, pela primeira vez, desde que notou a realidade da sombra, ao focar a atenção sobre ela, percebeu que ela balançou a cabeça.

    — Não? Certo? — posso me comunicar com ela. A sombra entendeu o que eu falei — ao menos pareceu entender.

    Parados no meio da rua, cada vez mais pessoas se aglomeravam ao redor. Se antes eram cerca de dez, agora provavelmente o número já dobrara.

    As pessoas murmuravam entre si, demonstravam espanto, surpresa, receio — medo.

    A mãe do menino, completamente aflita, levemente curvada e em posição de defesa, deu passos largos em direção à sombra, agarrou o braço do filho com força e puxou-o para longe.

    — Vamos até o ancião! — conclamou novamente a garota, a voz tão trêmula quanto o corpo.

    — E essa coisa? O que fazemos com ela? — perguntou o homem acusador.

    — Melhor não mexer, isso é coisa pra mago! — afirmou a moça.

    E novamente, mas agora com muito mais cuidado, os homens indicaram a Leonel que os acompanhasse.

    Andavam devagar, um grupo de quatro homens, uma sombra e uma mulher. Um dos aldeões pronunciou aos demais algumas palavras, virou as costas e saiu apressado do local. A mulher afastou-se um pouco mais do grupo, mas continuou a segui-los.

    Já os dois homens restantes, o acusador e o primeiro a oferecer auxílio a Leonel, seguiam ao lado do rapaz, nitidamente contrariados — todos em absoluta prudência em relação à sombra. Se suas pernas tivessem vontade própria, já estariam a uma boa distância dessa situação.

    A rua começou a inclinar em uma descida sinuosa, e a paisagem ao redor foi preenchida por árvores e arbustos verdejantes de diferentes tamanhos — ao contrário da aglomeração de casas que as margeava a poucas dezenas de metros.

    Não foi uma caminhada longa. 

    Um dos sujeitos apontou com a mão para uma residência com telhado de madeira escura, que também possuía uma varanda e se localizava ao centro de um amplo terreno ocupado por árvores pequenas, todas elas repletas de frutos.

    O homem que ajudara Leonel bateu palmas em frente à casa.

    — Senhor Goter — chamou em bom tom.

    À porta da morada, um velho de cerca de setenta anos atendeu-os.

    O senhor mancava da perna esquerda, era relativamente baixo, bem nutrido, com entradas profundas de calvície, enquanto um ralo cabelo branco cobria a lateral de sua cabeça. Estava vestido com um colete de couro que ornava a camisa e as botas escuras.

    — Quem é? — perguntou comprimindo os olhos.

    — Noam. Sou o Noam. Desculpe por incomodar tão cedo, senhor!

    — Que isso, sem problema. Ah, Hurdan está com você? — notou o ancião ao perceber o corpulento homem um pouco atrás.

    — E um jovem?

    O senhor Goter já não enxergava tão bem quanto antes, reconhecia as pessoas mais pela silhueta do que pelos traços que os distinguiam.

    — E tem mais alguém? Quem é? — o velho perguntou.

    Os presentes não sabiam o que dizer, não sabiam o que era aquilo nem como poderiam se referir ou descrever aquela coisa.

    — Sou a Calae, senhor Goter — apresentou-se a mulher.

    O velho se empertigou, não tinha notado a presença da moça.

    — Ah, sim, a filha de Tanya! — Entrem — convidou.

    Sem saber como agir, os homens apenas aceitaram a oferta. Hurdan seguiu em frente indicando o caminho para Leonel. Logo atrás, Noam e Calae hesitaram, pois a sombra se interpôs entre eles e o rapaz.

    Leonel não entendia o idioma, apenas os seguia, e por algum motivo, ainda desconhecido para si mesmo, começou simplesmente a aceitar a presença da entidade que estava ao seu lado. Os demais, não.
    Dentro da casa, em um cômodo de bom tamanho, encontravam-se uma mesa e várias cadeiras.

    — Sentem — indicou o velho.

    — Querem beber alguma coisa? — e, ao olhar novamente para o grupo, a percepção de Goter resolveu funcionar.

    — O que é essa coisa? — perguntou o senhor.

    — Jovem, o que é essa coisa ao seu lado? — apontou em espanto, com a mão enrugada.

    — Uma maldição? — Ele olhou para Noam.

    — O que é isso? Quem é esse rapaz? — Goter também percebeu que não conhecia o jovem que acompanhava o grupo.

    — Calma — tentou apaziguar Noam, mas instintivamente também se afastou ainda mais da sombra.

    — É isso o que queremos saber — declarou Calae.

    Hurdan, agora já restabelecido na compostura, declarou:
    — Esse rapaz é um ladrão, e essa coisa sombria o acompanha — confessou tentando soar convincente, mas fracassou ao expressar fragilidade em sua voz.

    — Como assim, um ladrão? — o velho, agora ainda mais assustado, perguntou.

    — Não sabemos disso ainda — refutou Noam.

    — É sim, eu sei, é um ladrão — acusou Hurdan.

    — Essas roupas são minhas — disse ele apontando para o rapaz no centro da sala.

    Enquanto a intensa conversa se desdobrava à sua frente — com gestos, acusações, questionamentos e inferências —, Leonel começou a respirar com dificuldade, a falta de ar apertava-lhe o peito tanto quanto a angústia. Não sabia o que diziam, não entendia o que queriam, nem conhecia essas pessoas ou esse lugar. Onde estava?

    — Onde estou? — a pergunta saiu sem que desejasse pronunciá-la.

    — O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

    Todos ficaram quietos. E respiraram.

    Noam tomou a iniciativa.

    — Senhor, esse rapaz é um estrangeiro. Ele apareceu na vila hoje de manhã, e estamos aqui para consultar o senhor. E também para descobrir o que era essa coisa — clamou.

    — Tire essa coisa daqui — ordenou o velho apontando para a entidade.

    — O que vai fazer em relação ao roubo? — perguntou Hurdan.

    — Tirem essa coisa daqui — disse novamente. Mas ninguém ousou seguir essa ordem, ao contrário, só de pensar em tocar na sombra já os apavorava.

    — Qual o problema de vocês? Não estão entendendo o que estou dizendo?
    — Senhor Goter, é melhor não mexer com isso! — avisou Calae.

    — Não sabemos o que é essa coisa.
    — Eu disse que não quero essa maldição dentro da minha casa! — o velho estava vermelho de raiva, quase espumava pela boca.

    — Alguém tire essa coisa daqui! — ordenou mais uma vez. Seus olhos começaram a lacrimejar e de vermelho seu rosto tornou-se pálido.
    Com um impulso violento, o velho subitamente arremessou-se em direção à sombra, mas por um erro de cálculo de sua perna lesionada, atingiu com as duas mãos o tórax do jovem Leonel, que se encontrava ao centro da sala.

    O rapaz cambaleou para trás e caiu, batendo a cabeça contra a parede próxima à porta.

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