Notas de Aviso

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    No período matutino, contados já seis dias do acolhimento de Leonel, os emissários retornaram acompanhados da comitiva.

    A cavalaria era composta por duas dúzias de soldados armados com lanças e espadas. Ao centro, dentro da cabine de uma carroça, encontrava-se o mago, também adequadamente vestido — assim como os subalternos — com uma armadura de couro. Ele segurava um cajado de madeira sinuosa, ornado em uma das extremidades por um cristal escarlate reluzente, alojado em uma haste.

    — Onde está o rapaz? — perguntou o homem a Falgo.

    Da entrada do vilarejo, Falgo guiou o mago e sua guarda em direção à casa dos Bradel. Hurdan seguia os soldados de longe; sua face estava inchada e púrpura, devido a lesões recentes.

    À porta da residência, com estrondo, requisitaram a atenção dos moradores. Ninguém atendeu. Falgo sentiu o frio subir por sua espinha e espalhar-se por todo o corpo.

    — Podem estar na lavoura — comentou, encontrando o olhar do mago.

    “Tss” — foi o som que estalou pelos lábios do homem. O olhar transbordava em suas pupilas ardentes, convidando Falgo a desaparecer dentro de si mesmo.

    — Leve-nos até lá — comandou o mago.

    Seguiram pela estrada até o local de trabalho dos aldeões do vilarejo, que, ao perceberem a aproximação do grupo imponente, não apenas pararam o que estavam fazendo, como ficaram paralisados,  incapazes de reagir.

    Os Bradel congelaram, especialmente Calae, que sentiu o suor frio escorrer-lhe pelas costas, apesar do calor sufocante.

    Os olhos do mago, ignorando os presentes, ancoraram-se na entidade. Ele não demonstrava apenas surpresa, estava genuinamente esforçando-se para conter a empolgação.

    — Ei! — chamou, erguendo o cajado e indicando vagamente comandos aos soldados. Compreendendo os gestos do superior, tomaram posição com grande agilidade para resguardar o perímetro, cercando a família que ali trabalhava.

    O mago desceu da carruagem e caminhou a passos largos, sozinho, concentrando toda sua atenção na sombra densa que segurava nas mãos uma enxada sombria.

    — Você, garoto — disse o mago, referindo-se a Leonel. — Essa sombra é sua, certo? — O rapaz, já começando a acostumar-se com gesticulações variadas, entendeu parcialmente as insinuações do mago, mas não respondeu. Estava em alerta, e o tom de voz do homem, somado ao cerco dos soldados, fez suas mãos tensionarem o cabo da enxada instintivamente.

    — Ele não fala nossa língua — a voz de Tanya tremia, e ao compreender sua falha, completou afobadamente. — Senhor.

    O mago fitou a entidade, coçou o queixo e apertou os olhos. Abaixou-se, pegou uma pequena pedra entre os dedos e a arremessou em direção à sombra. A pedra colidiu contra a superfície sombria.

    O sorriso do homem era legítimo.

    — Então foi ela que matou o ancião? — perguntou a Hurdan, que estava bem longe. Hurdan engasgou-se. Caminhou alguns passos à frente e engoliu com força antes de assentir.
    — Sim — afirmou, abaixando a cabeça.

    O mago inflou o peito de ar, satisfeito. Indicou aos soldados: — Escoltem a sombra. Vamos levá-la em custódia.

    Os soldados, prontamente, cercaram a entidade sombria. Hesitante, um deles estendeu a mão para agarrar um dos braços dela, outro, seguindo o exemplo, fez o mesmo quanto ao outro braço. A mão do primeiro soldado transpassou o vazio; a do segundo, revestida por uma luva, apertou o braço da entidade.
    — Senhor — chamou o soldado atônito. — Não consigo tocá-la! — O mago, por sua vez, recuou. Observou e indicou a outro soldado — que também estava com as mãos enluvadas — que a tocasse. O guarda sentiu o coração acelerar, mas obedeceu prontamente.

    O mago afastou-se mais um passo, e indicou que levassem a sombra consigo. Os homens que seguraram os braços da entidade puxaram, a sombra resistiu.

    — Senhor mago — interveio Dounek, forçando a voz para soar o mais cortês possível. O comandante levantou a mão e, com os longos dedos, indicou para que o aldeão se afastasse.
    — Soltem — disse aos soldados — e afastem-se!

    — Meu nome é Fygar. Como se chama?… sombra? — questionou o mago.

    Aproximou-se alguns passos. — Não sei se me compreende, e peço perdão pela grosseria, mas requisito que nos acompanhe.

    A entidade o encarou, mas permaneceu em umbra, como sempre.

    Fygar passou os dedos pelos cabelos curtos, andou ao redor da entidade meditando sobre a situação.

    — Com sua licença — disse, esticando a mão em direção à entidade. Ela transpassou, assim como a do soldado anteriormente. Fygar fitou as pessoas ao redor. Ergueu o pé e chutou levemente a enxada sombria que se estendia da sombra. Sua bota acertou o objeto como se ali estivesse. O mago recuou, intrigado.

    — Poderia nos acompanhar? — repetiu para a sombra, com polidez em sua expressão.

    — Hum… Vejo que estamos em uma situação difícil. — Fygar fitou o sol forte no meio do céu, alisou seu cajado e, por fim, declarou:
    — Vistam suas luvas. Carreguem-na!

    Os soldados sem luvas obedeceram. Quatro homens fortes avançaram, contendo os braços e as pernas da entidade, e, com esforço, tentaram retirá-la do solo. Surpreendentemente, obtiveram êxito.

    — Vamos — disse Fygar, satisfeito.

    Calae, com um impulso súbito, agarrou-se ao corpo de Leonel. — Pai! — clamou. — Preciso de ajuda! — Suplicou a garota.

    Dounek, anestesiado pelo receio, não entendeu a agonia da menina. Mas, segundos depois, quando os soldados que escoltavam a entidade erguida do solo alcançaram uma boa distância, eles sentiram uma resistência como se uma parede invisível impedisse o progresso deles.
    Leonel fincou os pés no solo e, utilizando a enxada, fez força para resistir ao que o arrastava. Calae, abraçada a ele, tentou evitar que o menino fosse puxado.

    No perímetro oposto, os soldados, em absoluto atordoamento, esforçavam-se para levar o prisioneiro.
    Dounek, ainda confuso, amparou o garoto com os braços, seguindo o exemplo da filha.

    Fygar, por sua vez, tensionou as sobrancelhas em um misto de ansiedade e alegria.

    — A sombra — bradou Hurdan — pertence ao rapaz!

    O mago retornou pelo caminho trilhado na lavoura e aproximou-se dos aldeões, ainda indicando aos soldados que continuassem a puxar.
    Coremd colocou-se entre Leonel e o mago que se aproximava, e Tanya, por impulso, seguiu o exemplo do filho.

    Enquanto os três lutavam para não serem arrastados, mãe e filho formaram uma barreira em auxílio do garoto.

    Fygar parou.

    — Ei! — chamou, dirigindo-se a um grupo de soldados. — …o garoto. Tragam o garoto — comandou.

    A família Bradel estava cercada.

    — Espere, senhor mago — suplicou Falgo. Os aldeões de Rendel que observavam a cena, inquietos, começaram a aproximar-se.

    Os soldados, em prontidão, ladearam Leonel. — Ei, garota, afaste-se — ordenou o mais alto deles — e você também — disse, referindo-se a Dounek.

    No instante em que Dounek afrouxou o aperto, Leonel foi arremessado para a frente, levando consigo a garota que, sozinha, não conseguiu resistir.

    Tanya esquivou-se por instinto ao perceber os dois sendo arrastados às suas costas, mas Coremd não. Foi atingido nas pernas por trás, desequilibrou-se e caiu sobre Leonel e a irmã, sendo puxado junto com eles.

    — Parem — gritou Calae, que apertava com firmeza o tronco do rapaz. Nesse instante, Leonel também gritou, não por dor, mas com raiva, ao perceber as feridas nos braços de Calae.

    A sombra fechou a mão sobre um dos braços que a imobilizavam.

    Com força pura, o aperto foi suficiente para a braçadeira entortar. O soldado sentiu a dor e soltou a entidade para amparar o braço latejante. Nesse instante, o punho sombrio martelou ferozmente o elmo do segundo soldado que prendia as pernas sombrias, produzindo um eco metálico.

    O cotovelo atingiu o terceiro na têmpora do capacete, permitindo que a sombra tocasse o solo com as costas. Debateu-se e chutou a esmo até, finalmente, desvencilhar-se.

    Num salto, levantou-se e correu em direção a Leonel, que estava cercado pelos soldados a mando do mago.

    — Comandante! — gritou um dos soldados em alerta. Fygar, ao se virar, deparou-se com um espectro negro correndo na direção do garoto. Os combatentes perseguiam a umbra, empunhando lanças e espadas.

    O mago recuou três passos e bradou: — Não resistam! — ordenou, ecoando sua autoridade resoluta pelo campo.

    Calae levantou-se, mas um soldado bruto agarrou-lhe o antebraço com força exagerada, puxando-a para longe do garoto, enquanto Leonel foi contido por dois combatentes que tentavam imobilizá-lo no chão.

    — Não precisa disso! — atestou Stumded, aflito, aproximando-se do local. Mas sua tentativa de apaziguamento evaporou.

    A sombra, com ímpeto, jogou o corpo contra um dos soldados que bloqueavam o caminho. O homem foi arremessado a três metros de distância. Chutou um dos oponentes que imobilizavam o rapaz, fazendo-o rodopiar no ar e despencar desacordado sobre Coremd. Em seguida, socou o capacete do segundo combatente com um cruzado sólido, nocauteando-o sem misericórdia.

    Leonel, ainda no chão, olhou para Calae. Sem hesitação, a sombra impulsionou-se contra o bruto que a restringia. Mirou o soco na cabeça da moça, mas o punho sombrio transpassou o crânio de Calae e atingiu o peito encouraçado do homem atrás dela, que, com o impacto, tropeçou e caiu de costas.

    Remoendo a aflição, Tanya disparou em direção à filha; no entanto, um combatente próximo esticou a lança para impedir sua passagem.

    — Dounek! — gritou a mulher. O homem, atendendo ao pedido da esposa, apertou o cabo da lança que a impedia, obtendo como resposta a ira do oponente, que sacou a espada em direção ao marido impetuoso.

    A tensão asfixiava o lugar. O segundo pelotão de infantaria já reforçava o perímetro, e estavam novamente cercados por soldados com lanças.

    Fygar respirou fundo. — Vocês podem se render! Ninguém precisa se machucar — conclamou, sua voz soando como um último aviso, enquanto levantava a mão ao rosto e gesticulava com o cajado para que capturassem a sombra e o garoto.

    Leonel olhou ao redor e pulou em direção ao corpo do soldado desacordado sobre Coremd. Com medo e afobamento, puxou a espada da bainha com dificuldade. Um erro que custou uma estocada de lança na panturrilha. A dor propagou-se pelos nervos e ele cerrou os dentes.
    — Leonel! — gritou Calae em lágrimas, tornando-se alvo da ameaça de pontas metálicas dançando no ar.

    Indiferente à própria situação, Leonel, de joelhos, esticou a mão em desespero, temendo pela segurança da garota. A sombra, por sua vez, apertou com força a ponta de uma lança e puxou-a, desarmando o soldado — movimento que desencadeou estocadas em sua direção.

    Como uma parede de pedra, duas pontas ricochetearam em sua pele; outra encontrou nela apenas um obstáculo intransponível, mesmo que o impacto tenha feito a umbra dar dois passos para trás. Com a espada sombria em punho, atacou o cabo da arma que a atingira, cortando-o como papel.

    A sombra olhou para Leonel, e este olhou para Calae.

    Com resolução, a sombra abraçou a garota e ajeitou-a nos braços. Chutou o solo, arremessando detritos contra os soldados que os cercavam e, com um forte impulso, lançou-se contra os homens aturdidos, esquivou-se com agilidade, quebrou o cerco e correu com toda sua velocidade sem saber para onde ir.

    Fygar ficou maravilhado com a situação, mas em um piscar de olhos, recobrou a postura.

    — Prendam o rapaz! — ordenou, enquanto calculava o resultado.

    Três soldados prontamente dominaram Leonel mais uma vez, e poucos segundos depois, um solavanco poderoso puxou o menino. A violência foi tamanha que os três homens não conseguiram conter o arrasto, mas isso custou caro ao rapaz: o soldado subjugou-lhe o braço que portava a espada e, preso com firmeza sob o aperto do combatente, com o tranco magnético, Leonel sentiu o membro estalar como madeira seca. A dor aguda da fratura logo compartilhou sua agonia com as outras partes do corpo.

    A sombra era veloz, sua corrida intensa — ainda que, como consequência, arrastasse o menino que rolava impotente, esfacelando a pele contra o chão da lavoura, lacerando o corpo enquanto a dor lhe perfurava os sentidos.

    — Pare! — implorou Calae amparada pelos braços sombrios. — Leonel… — disse ela, com o coração apertado.

    A distância percorrida já era considerável, e os soldados e o mago corriam em seu encalço; no entanto, a sombra — ciente da incoerência de sua ação e das lágrimas da jovem — parou.

    Calae indicou que queria descer. Com delicadeza a entidade colocou-a no chão.

    Leonel levantou-se com dificuldade, apertando o braço esquerdo que balançava inerte. O rosto começou a cobrir-se do sangue que escorria de algum corte em sua cabeça. Joelhos, braços, costas, sentia ardência por todo o corpo, sangrava por múltiplas feridas.

    A sombra passou por ele e assumiu a postura de combate. Ergueu os punhos frente à face e esperou pelos agressores que se aproximavam.

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