Notas de Aviso

    Contatos: https://linktr.ee/youkaimakai Doações pix: o.abismo.de.om@gmail.com

    O Abismo é o espelho do mundo.

    Na verdade, essas palavras não me pertencem. Elas ecoam algo maior, completo, perfeito. A criação é onde todos habitamos. Somos espectadores que narram o percurso da forma.
    A magia é o tecido da consciência e da vida. Surge da singularidade e por ela se desdobra. Estamos vivos durante toda a eternidade. No fundo do abismo, encontro-me. Sou a voz que desvela a história.

    O futuro rei estava de joelhos. À sua frente, o colossal réptil se arrastava. Estava ferido, mortalmente refém do destino. O futuro rei, por sua vez, acreditava que a morte era uma ilusão, um delírio de quem escolhe abandonar a luta. Ele se levantou, cambaleou alguns passos em direção à besta, tropeçou e caiu como uma pedra impotente. O impacto coroou sua face com mais um corte.

    Apoiou o peso do corpo nos braços, arrastou-se alguns metros, e nesse instante sua mentira começou a ruir, assim como a chama de sua vida.

    O fôlego no limite e os pensamentos difusos, seus sentidos começaram a falhar, e até mesmo a dor aguda deu uma trégua. O torso perfurado, ossos fraturados e uma vontade em inércia que avança.

    A besta o observou, ignorou a precariedade de seu próprio corpo, o qual estava em estado ainda mais lastimável do que o do homem. Movida por simpatia, reconhecimento e uma pitada de afeto que jamais assumiria, seu corpo — sincero e contrário ao seu orgulho — moveu-se atraído pela figura moribunda.
    Por um instante seus olhos se encontraram. Os algozes que antes brandiam golpes assassinos estavam agora abraçados pelas consequências de seus atos. Ambos à beira do inevitável fim.

    O futuro rei ainda era jovem, um guerreiro de renomada habilidade, herdeiro de uma aldeia nômade de caçadores. Estavam em guerra, como sempre, mas a novidade do combate não era o fato de enfrentarem um inimigo semelhante, sobrepujá-lo a qualquer custo, mas sim o azar de compartilhar o campo de batalha de uma guerra alheia. Os dragões em ímpeto. E ao lado, os humanos em fúria.
    A razão dos dragões era simples: território. A dos humanos mais simples ainda: ódio. Os corpos amontoados na campina gélida descreviam o impasse. Durante o combate: flechas, lâminas, pedras, lanças, rajadas de fogo, garras e insanidade, quem atrapalhava merecia ser obliterado. Ambos atrapalharam.

    O guerreiro liderou os seus em busca de sangue, o réptil, em busca de glória. Em um momento de plena intensidade, perceberam-se face a face, e como um casamento fulminante, abraçaram uma luta de desfecho.

    Ambos sangrando, o dragão eriçou o vermelho de suas escamas e sugou o ar para uma baforada. O homem, por sua vez, arremessou uma rede entrelaçando a cabeça do réptil, e com êxito, se aproximou de uma ferida já aberta sobre o estômago da besta. A estocada foi profunda, mas seu corpo não tardou a voar metros de distância ao ser repelido pelo contra-ataque iminente. Despencou contra uma rocha, rompendo a couraça de camadas que o protegia. Despido da sorte, avançou novamente, esquivando-se ao evitar as garras. O dragão abriu as asas e indicou levantar voo, mas com as costas desprotegidas, outra besta de porte semelhante e escamas prateadas, escalou-lhe o corpo, garras que fincaram a dor e rasgaram a carne.

    O homem, ofendido pela atrevida intromissão, partiu para cima do agressor, e em movimentos sincronizados, o futuro rei estocou a espada na garganta do réptil prateado, enquanto a besta vermelha o rendeu, com as presas dilacerando o vulnerável pescoço.

    Não muito longe, estirado sobre a campina, um jovem inimigo sangrava em agonia. Não muito tempo depois, a besta prateada sangrou ao seu lado. Ninguém percebeu.

    Naquele dia, há mais de quinze mil anos, algo que nunca imaginaram que seria possível aconteceu. Um pacto de vida e de morte, o primeiro rei dragão nasceu.

    — Bom, companheiros de asas, esse breve relato é o começo da história — ao menos no que diz respeito à nossa consagração com os humanos. Alguém tem algo a dizer?

    — Gostei da introdução, grande amigo, mas não acha que poderia ter ampliado a parte do combate e descrito melhor todo o contexto do conflito. Não me leve a mal — gostei da prosa e de como narra a história, foi interessante —, mas é só isso?
    — Compreendo e concordo com o que diz, pequeno amigo — o verde de suas escamas é vivo, e a intensidade resplandecente ofusca minha prosa. Entenda: eu sou aquele que conhece toda a história — pois, como bem sabem, meu vínculo é perpétuo —, mas não sou quem deve contá-la. Aqueles que obtiveram o relato pelo pacto devem honrar o protegido.
    — Grande amigo, dentre nós é o mais adequado para contar a prosa. Nossa primeira reunião na nova era — o retorno ao princípio —, finalmente pudemos voltar ao berço. Temos todo o tempo e oferecemos nossos ouvidos para tudo o que desejar falar. Então fale o quanto quiser.

    — Agradeço as palavras, Escavador, e sugiro um revezamento. O que me dizem dessa proposta? Cada um ficará encarregado de relatar o percurso de seu vínculo. Por exemplo, Asas laminadas descreverá a jornada de seu protegido. O mesmo pode ser feito pelo Mestre dos Mares. E assim, todos contarão uma parte e todos ouvirão a perspectiva de cada um, tecendo juntos essa longa história que move o mundo.

    — E como decidiremos quem começa e o que deve ser contado?

    — Ótima pergunta, meu bom Companheiro dos Mortos. Podemos começar no instante em que o destino começa a girar, mas podem introduzir os eventos que acharem necessários. E caminharemos pela narrativa em ordem até que todos eles se encontrem.

    — Somos nove, quem começa? Posso começar, se quiserem. Mas, como meu protegido é um vagante da sorte, não acredito que seja o ideal.

    — Podemos começar pela sombra — ela é o pilar que sustenta todos os fios. O que me diz, Mentalista? Conte-nos como o seu parceiro cruzou a fronteira. No fim, ele é o elo que surge do acaso, a ponte que conecta os mundos.

    — Se assim desejam, aceito a proposta. Concordo que a chave de toda a jornada é o despertar da escuridão. Se me permitem — e sei que o farão, pois duas coisas são certas entre nós: a lealdade indelével e o fato de que amamos ouvir uma boa história —, inicio a prosa pelo meu jovem. Com seus olhos castanhos, no auge da adolescência, quando mal se podia prever que aquele pequeno corpo franzino carregaria o peso de tamanho sofrimento. Tudo começa como uma página em branco preenchida por seu corpo — uma carcaça de carne desprovida de tudo o que não seja a aparência. Um belo rapaz abandonado no chão do desconhecido.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota