Capítulo 1: Nossa Terra
No hotel Le Sherine, no centro do país, duas figuras discutiam sem qualquer chance de parar.
— Sua ignorância em achar que esse problema é tão simples me impressiona, Pionla. Achei que fosse mais esperta do que isso, sabendo pelo que estamos passando — disse Bauvalier, andando de um lado para o outro. Sua voz era alta, cortante, carregada de raiva.
A jovem não ficou atrás.
— Bauvalier, sejamos justos. Não estou sendo ignorante, estou sendo realista. Você acha mesmo que destruir uma herança cultural do nosso povo não vai deixá-los furiosos? Tenha senso! Se nossa mãe estivesse aqui…
— Mas ela não está! — ele a interrompeu, elevando ainda mais o tom. — E não vamos destruir tudo só para…
Batidas firmes na porta interromperam a discussão. Os dois irmãos se calaram, trocando olhares tensos. Por um instante, apenas o som de um relógio preenchia o quarto: tic-tac, tic-tac.
Então, ouviram a voz conhecida de Ré, do outro lado da porta:
— Pionla, senhor Bauvalier… vocês se esqueceram do chá da tarde com a família Rose. Precisamos discutir aqueles negócios políticos de vocês.
Os dois se entreolharam mais uma vez. Ajustaram as roupas e abriram a porta, encontrando Ré à sua frente. Bauvalier passou por ela sem dizer uma palavra, seguindo pelo corredor sem olhar para trás.
Ré permaneceu ali, batendo o dedo no relógio em um ritmo nervoso, esperando que ele se afastasse o suficiente antes de falar com a amiga.
— O que deu nele? Eu sei que vocês brigam às vezes, mas dessa vez parece sério.
Embora sua voz fosse calma, o gesto repetitivo denunciava sua ansiedade. Pionla ajeitou o chapéu e respondeu com tranquilidade:
— Vamos andando que eu te conto.
As duas seguiram pela rua de tijolos brancos. À frente, Bauvalier caminhava com o rosto fechado. Pionla suspirou.
— Espero que ele melhore essa expressão antes de falar com a madame Roseta. Mas, como eu ia dizendo… meu irmão e eu estamos brigando porque não conseguimos decidir o que fazer com a Floresta de Relógios.
Ré ouviu em silêncio.
— Eu quero mantê-la — continuou Pionla. — é um símbolo cultural do nosso povo. Além disso, é onde muitos enterram seus falecidos. Mas meu irmão quer expandir o território. Para ele, a floresta não tem serventia real: não dá para plantar, não gera recursos. Mais espaço significaria mais pessoas chegando ao país.
Ela fez uma breve pausa antes de completar:
— Desde que a barreira do mundo exterior foi quebrada, ficou mais fácil entrar aqui. Isso dificulta tudo. Precisamos de espaço… mas também precisamos manter quem somos.
O silêncio se instalou enquanto se aproximavam da Mansão Rose. O campo de rosas carmim se espalhava ao redor da propriedade, formando um jardim vermelho intenso. Ré passou a mão suavemente pelas pétalas e disse:
— Tão lindo o jardim da família Rose… — comentou Ré. — Pensar que cada uma dessas rosas representa alguém que já se foi. São tantas, e tão bem cuidadas… um verdadeiro mar de carmim. O que você acha, Pionla?
Pionla passou a mão delicadamente pelas pétalas, sentindo sua textura macia. O gesto cessou quando chegaram à parte de trás do jardim, onde Bauvalier tomava chá ao lado de Roseta. Os dois ergueram o olhar ao perceber a aproximação delas. Bauvalier fechou levemente a expressão ao notar o atraso.
O sol brilhava alto, iluminando os rostos e destacando cada reação, mas por pouco tempo. Ré, de repente, colocou uma toca de coelho e se afastou discretamente, deixando apenas os três no jardim.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por Roseta.
— Madame Pionla, pode se sentar, estávamos esperando sua presença para discutir algo deveras importante.
Ela sentou-se ao lado do irmão e serviu um pouco de chá em sua xícara, mantendo a postura serena.
— Agora que estamos todos aqui, — continuou Roseta — preciso dizer que o minério que minha família utiliza para a fabricação de armas não reapareceu. Já se passaram cinco dias. Isso nunca aconteceu antes. Ele sempre retorna exatamente após um ano. Além disso… — sua voz hesitou por um instante — as rosas plantadas e protegidas por sua mãe estão morrendo. Não sei se já sabiam disso.
Bauvalier levantou a mão, interrompendo-a.
— Onde essas rosas foram plantadas?
— Na Floresta de Relógios, senhor Bauvalier. — respondeu Roseta com calma.
O rosto dele se fechou ainda mais.
— Eu sabia…. — murmurou, antes de retomar o tom firme. — Mas não se preocupe, madame Rose. Vamos descobrir o que causou esse atraso no minério. Está tudo sob controle.
Pionla assentiu levemente.
— Concordo com ele. Esse problema será resolvido em breve. Mas, aproveitando o assunto… gostaria de saber o que a senhora pensa sobre a Floresta de Relógios. Foi de lá que surgiram os primeiros membros da família Rose, não foi? Tenho certeza de que é um lugar muito importante para você.
A carranca de Bauvalier se acentuou. Ele reconhecia a estratégia da irmã: mencionar a floresta naquele momento era uma tentativa clara de ganhar vantagem na discussão antes mesmo que ela começasse
— Pionla, não acho que seja a hora para isso. Discutiremos mais tarde.
A voz de Bauvalier saiu baixa, carregada de seriedade e aviso. Ele mexia lentamente o chá em sua xícara, como se medisse cada palavra.
— Acho que este é o momento ideal, — respondeu Pionla. — Ou você acredita que madame Roseta não seria imparcial?
Roseta pousou a xícara com cuidado antes de falar.
— Não desejo me intrometer na briga de vocês, mas, já que fui questionada, suponho que deva responder. — Fez uma breve pausa. — A Floresta de Relógios é, sem dúvida, muito importante para o nosso país. Contudo, ela ocupa uma grande extensão de terra. Talvez, se pudéssemos utilizá-la, nosso território se tornaria maior.
Bauvalier ergueu levemente o olhar.
— Como uma das três famílias mais ricas do país, — continuou Roseta. — acredito que tenho uma visão clara sobre o crescimento e a estabilidade de nossa nação.
Pionla baixou os olhos para a xícara. O chá refletia seu olhar escuro e pensativo. Ao lado dela, Bauvalier esboçou um leve sorriso, satisfeito com a resposta. No entanto, Roseta ainda não havia terminado.
— Mas talvez, — acrescentou, com cautela — seja prudente investigar melhor a região antes de qualquer decisão. Precisamos ter certeza de que não há nada perigoso por lá. Vocês compreendem… não é, majestades?
O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. O vento atravessou o jardim, fazendo as rosas carmim se agitarem levemente. Por um instante, tudo pareceu suspenso.
Então, algo soou.
Tac.
Não vinha de um relógio visível, nem do interior da mansão.
Tac. Tac.
Pionla ergueu a cabeça. Seu corpo enrijeceu.
— Vocês ouviram isso? — perguntou, em voz baixa.
Bauvalier franziu o cenho, atento. Roseta pousou a xícara com cuidado exagerado, como se qualquer movimento brusco pudesse provocar algo maior.
O som ecoou novamente, mais forte, vindo das profundezas do jardim.
Tac. Tac. Tac.
As rosas mais próximas começaram a escurecer. O carmim vibrante perdeu o brilho, tornando-se opaco, quase acinzentado. Algumas pétalas se soltaram, caindo ao chão em silêncio.
Ré reapareceu do outro lado do jardim, sem a leveza de antes. A toca de coelho estava torta, e seu rosto, pálido.
— Majestades… — disse, ofegante. — Há algo errado.
Ela apontou para o horizonte, na direção da Floresta de Relógios.
No céu, acima das árvores distantes, um brilho irregular pulsava, como se o tempo ali estivesse falhando. O ar parecia ondular ao redor da floresta, distorcendo a luz.
O leve sorriso de Bauvalier desapareceu.
— Isso não estava acontecendo antes. — murmurou.
Pionla se levantou lentamente. O chá em sua xícara começou a vibrar, formando pequenas ondas circulares.
Tac.
O som cessou de repente.
O silêncio que se seguiu foi pior.
— Parece, — disse Roseta, com a voz tensa — que não teremos o luxo de esperar.
Pionla apertou os dedos ao redor da xícara.
— Não — respondeu. — Parece que algo bem ruim vai acontecer.
A floresta se agitou ainda mais. Mesmo à distância, era possível ver raízes de um vermelho carmim intenso rompendo o solo e se prendendo à terra como garras vivas. Um grande tronco se ergueu e se quebrou na ponta, retorcendo-se em formas semelhantes a garras.
Então, no céu, surgiu uma lua carmim.
Sua luz caiu sobre a terra como um véu pesado. Onde tocava, o ar parecia vibrar. Em poucos instantes, o brilho se apagou, como se tivesse sido sugado pelo próprio chão.
— O que caralh@s foi aquilo?! — Ré andava de um lado para o outro, as mãos trêmulas enquanto puxava o celular. Digitava freneticamente, enviando mensagens para todos que conhecia na Terra Cenográfica.
— Isso… isso é normal? — perguntou Bauvalier à irmã.
Sua voz saiu nervosa, trêmula. Pela primeira vez, não havia arrogância nem certeza — apenas medo.
Uma das sementes caiu no jardim com violência, cravando-se na terra a poucos metros deles. O impacto fez as rosas estremecerem. Por sorte, não atingiu ninguém.
— O que são essas coisas…? — murmurou Pionla.
Sua voz também tremia, mas seu corpo já reagia. Ela assumiu uma postura de combate, os olhos fixos à frente, enquanto seus poderes começavam a se manifestar ao redor de suas mãos.
— Seja lá o que for… — continuou, firme — não veio em paz
Roseta se aproximou da semente com cautela, mantendo a mão firme sobre a espada ainda presa à bainha. Assim que se inclinou, um som seco ecoou.
Tic-tac.
Os números surgiram na superfície da semente como um temporizador vivo. Ao mesmo tempo, uma melodia estranha começou a se espalhar pelo ar — suave demais para ser natural, antiga demais para ser reconhecida.
Roseta franziu o cenho, observando mais de perto. Em seguida, olhou para os outros e, com um gesto controlado, afastou a mão da espada.
— Não acho que seja um perigo imediato, — disse — Mas se isso caiu aqui, deve ter caído em outros lugares também.
Os olhos de Ré se fixaram no chão.
Sem aviso, ela invocou uma toca de coelho ao lado de Roseta e a puxou para longe com força. No mesmo movimento, lançou o próprio celular sobre o local onde a semente estava.
O solo se rompeu.
Um braço começou a emergir da terra.
O celular explodiu em uma chuva de pixels, corações e ícones de likes, dissipando-se no ar como fumaça digital.
— O que deu em você, Ré?! — gritou Bauvalier.
Ninguém respondeu.
Todos olhavam para o que agora se erguia diante deles.
A criatura era alta e esguia. Lâminas curvas substituíam seus braços. Seu corpo era coberto por penas finas que refletiam tons carmim à luz do sol. Onde deveria haver um rosto, havia uma rosa aberta, voltada para o céu. Em seu “pescoço”, um laço se fechava na forma de um lírio-aranha vermelho.
Ela permanecia imóvel. Observando. Ou fingindo observar.
— Pela terra de nossa mãe… — murmuraram os irmãos ao mesmo tempo.
As palavras saíram como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões divinos.
Roseta não hesitou.
Num movimento rápido, puxou a espada e avançou, tentando atingir o tronco da criatura. O golpe, porém, foi rebatido. A força do impacto a lançou para trás.
Os irmãos se entreolharam.
Ambos ergueram as mãos.
Pionla moldou o ar à sua frente, criando uma enorme tesoura reluzente. Bauvalier, ao seu lado, ergueu uma torre de xadrez colossal, peças fundidas em um único bloco de poder.
Com um leve movimento dos dedos, Pionla fez a tesoura se partir em lâminas menores, que avançaram contra a criatura. Ela se defendeu, desviando e bloqueando com os braços-lâmina.
Então a torre de Bauvalier atingiu em cheio.
O impacto foi seco.
Por um instante, tudo ficou em silêncio.
A criatura explodiu em pétalas carmim, que se espalharam pelo jardim como uma chuva silenciosa.

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