Capítulo 2: Sua Apostasia Não Muda Seus Pecados
Todos ainda estavam absorvendo o que aquela criatura havia sido. O jardim permanecia coberto de pétalas carmim, e a semente pulsava silenciosa no solo. Foi Pionla quem rompeu o silêncio.
— Se aquele bicho nasceu apenas da presença da semente… — disse, com a voz ainda trêmula — imagine o que pode surgir da própria semente.
Sua fala soou menos formal do que o habitual. O susto ainda a deixava instável.
Bauvalier cruzou os braços, pensativo.
— Teremos que investigar isso de perto. As pessoas já sabem do ocorrido, graças à Ré. Isso pode ser ruim… ou bom. Um aviso ainda é um aviso, seja ele crise ou oportunidade.
Ele suspirou e voltou o olhar para a irmã.
— Pionla, você irá para o Reino de Cartas. Você é boa em diálogos. Veja se eles sabem de algo, — ou se precisamos nos preocupar mais do que já estamos.
Sua voz era calma, calculada. Um sorriso surgiu em seus lábios, mas não chegou aos olhos.
— Eu, Ré e Roseta vamos investigar a raiz do problema na Floresta de Relógios.
Roseta ergueu a cabeça imediatamente.
— Receio informar que ficarei aqui — disse com firmeza. — Preciso garantir que essas criaturas de rosto de rosa não voltem a aparecer… ou que algo pior aconteça.
Bauvalier soltou um suspiro discreto, claramente decepcionado, mas assentiu em compreensão. Pionla e Ré trocaram um olhar rápido.
— Então precisamos ir, — disse Ré — O tempo está passando.
Ela apontou para o relógio, cujo ponteiro avançava de forma inquietante. Sem mais palavras, cada um seguiu para seu destino. Roseta permaneceu sentada, observando a semente com atenção, a espada firme em sua mão.
Pionla invocou uma torre de xadrez e subiu até o topo, usando-a como passagem para ganhar velocidade rumo ao leste. Enquanto isso, a dupla que seguia para a floresta avançava entre as árvores, mergulhando na sombra crescente da Floresta de Relógios.
— Abaixa.
Ré sussurrou, erguendo as orelhas para escutar melhor. No mesmo instante, jogou-se ao chão e puxou Bauvalier junto. Uma enorme tesoura cortou o ar acima deles, passando a poucos centímetros de suas cabeças.
Ré fez um gesto rápido para que ficassem em silêncio. Seus olhos acompanharam a lâmina até que ela se afastasse entre os ramos.
— Pelo visto, o ser nascido da presença da semente já surgiu, — murmurou Bauvalier. — Tenho uma teoria… mas preciso de mais provas.
Ré assentiu em silêncio.
Eles avançaram com cuidado entre os galhos até alcançarem o tronco da árvore que havia dado início a tudo. Ao lado dele, repousava outra semente. Um som característico, como o corte de papel, escapava dela de forma intermitente, mas naquele momento não era isso que prendia a atenção de Bauvalier.
— Deixa eu ver isso — disse ele em voz baixa. — Fica de vigia.
Ao se aproximar do tronco, Bauvalier percebeu algo gravado na madeira. Letras profundas, como se tivessem sido entalhadas pelo próprio tempo. Ele ativou seus poderes e transcreveu o texto em um pergaminho divino. Então começou a ler:
Pequena filha,
sua fuga pode ter sido bem arquitetada, criando um reino para escapar de onde a lua vê.
Mas infelizmente não poderei deixar você e seu reino impunes por seu pecado.
Sua fuga. Sua renúncia à própria natureza divina.
Tive que destruir seu reino — e o farei devagar, para que você veja tudo definhar.
Criaturas nascerão da presença de minha ira, e da própria ira surgirão cópias de seus irmãos.
Inclusive uma cópia sua, minha filha.
Você destruiu seu próprio reino. Um ato ousado, devo admitir.
Vamos ver se ele será tão interessante quanto no palco.
— Carmesina
Bauvalier sentiu o corpo gelar.
O choque durou pouco.
Uma tesoura cravou-se violentamente no tronco, a poucos centímetros de seu rosto. Ré já estava em combate.
A criatura agora se revelava por completo: uma figura alta, etérea, lembrando uma dama de olhos vendados. Seu corpo parecia feito de luz distorcida, e a tesoura girava ao seu redor como uma extensão de sua vontade.
Bauvalier correu para ajudar Ré, desviando a lâmina com uma torre de xadrez que surgiu do chão.
— Bauvalier, por que não me ajudou antes?! — gritou Ré.
Ela abriu várias tocas de coelho ao redor da criatura, puxando celulares ligados e arremessando-os um a um. Cada impacto explodia em pixels, corações e fragmentos digitais, desviando a tesoura de uma trajetória fatal.
— Eu… me desconcentrei. — respondeu ele, seco.
Bauvalier bateu os pés no chão. Padrões de tabuleiro se espalharam sob a criatura. Torres e bispos se ergueram, avançando em sua direção, mas o ser se movia com leveza, desviando entre as peças.
Num movimento rápido, a criatura surgiu diante de Ré, a tesoura descendo para parti-la ao meio.
Antes que o golpe se completasse, Bauvalier ergueu uma pilastra sob o inimigo, lançando-o para o alto.
Ré apontou para frente.
Bauvalier entendeu.
Uma torre avançou no instante em que a criatura caiu, acertando-a em cheio contra o chão. Ré aproveitou a abertura: tirou uma foto do ser, mirou com precisão e lançou o celular.
O aparelho seguiu teleguiado.
A explosão formou um enorme coração de pixels que engoliu a criatura por completo.
Quando a luz se dissipou, restava apenas a tesoura, caída no chão.
Ré a recolheu com cuidado e a guardou dentro de uma toca de coelho.
— Vamos levar isso, — disse. — mas, — ela olhou para o tronco marcado — O que tinha lá… Bauvalier…
Bauvalier fechou os olhos em angústia.
Ao mesmo tempo, os olhos de Pionla se abriram enquanto sua jornada continuava rumo ao Reino de Cartas. Ela observava o caminho à frente enquanto a torre avançava, sólida sob seus pés.
O chão começou a mudar. O opioma se rearranjava em padrões geométricos, como um tabuleiro vivo. Borboletas feitas de cartas surgiram pelo caminho, cruzando o ar em bandos silenciosos, criando uma visão tão bela quanto inquietante. O vento soprava com mais força quando, ao longe, Pionla avistou os guardas diante do portão.
Assim que a reconheceram, curvaram-se profundamente e abriram passagem.
Pionla desceu da torre e bateu o pé com firmeza no chão. À medida que caminhava em direção ao palácio, a torre se desfez em fumaça, dissipando-se no ar.
Ela atravessou o pátio até as grandes portas do palácio, que se abriram por ordem dos mordomos. Lá dentro, foi recepcionada por duas figuras ajoelhadas diante dela: o Visconde e seu filho, Pierro.
— Bem-vinda, nossa deusa, — disse o Visconde, com um sorriso respeitoso — Mas receio que sua visita não seja apenas cerimonial, não é? Ré já nos enviou uma mensagem avisando de sua chegada… e de que busca respostas sobre as sementes.
— Olá, Visconde — respondeu Pionla com serenidade. — Sim, preciso de respostas. Mas notei que a Condessa não está presente. Ela está bem?
Sua voz manteve-se calma, apesar da urgência da situação.
O sorriso do Visconde vacilou.
— Ela morreu em um acidente, — disse, com a voz embargada. — Nossos trabalhadores cavavam para expandir as terras quando tudo aconteceu. Era muito jovem… apenas mil e novecentos anos. Deixou a mim e a nosso filho, Pierro. — Ele respirou fundo. — Uma lástima ele ter chegado aos quinhentos anos sem a mãe.
Pionla desviou o olhar, fixando-se nas petúnias cantantes que ornamentavam o salão. Não quis encarar o Visconde naquele momento tão frágil.
— Meus pêsames. — disse por fim. — Ainda assim, preciso das informações que mencionei.
Os dois se levantaram.
— Certamente, nossa deusa — respondeu o Visconde. — Meu filho a conduzirá ao jardim do palácio. Há algo lá que acredito que desejará ver.
Ele fez um gesto, e Pierro se pôs a andar. Pionla o seguiu. O jovem mantinha o olhar baixo, evitando encará-la, o luto ainda pesado em seus ombros e ver sua deusa tão de perto o amedrontava.
Ao chegarem ao jardim, Pierro apontou para o centro do espaço.
Ali repousava uma grande gema pálida, quase leitosa, cravada no solo como um coração exposto.
— O que é isso? — perguntou Pionla.
Sua voz saiu gentil, cuidadosamente suave, numa tentativa clara de mostrar ao jovem que não precisava temê-la.
— Durante uma escavação, encontramos isto, — disse Pierro, indicando a gema. — Ela brilha quando tocamos, mas é estranha demais para ser apenas uma pedra luminosa. Acreditamos que haja algo além.
— Obrigada pela ajuda, — respondeu Pionla. — A partir daqui, eu assumo.
Ela retirou o chapéu e se aproximou da gema. Ao encostar a palma da mão em sua superfície fria, o interior da pedra começou a pulsar. Um brilho vermelho surgiu lentamente. Pionla fechou os olhos.
Pierro permaneceu imóvel. Aquela cena era impossível de ignorar.
Quando os olhos de Pionla se abriram novamente, uma coroa formada por peças de xadrez materializou-se sobre sua cabeça. Seus cabelos cresceram e se ergueram, dançando com o vento que agora atravessava o jardim. A gema tornou-se completamente carmim e, com um estalo suave, se abriu.
De dentro dela caiu uma pequena carta.
Atrás dela, envolta em fios dourados, surgiu uma carta de copas dourada.
Pionla levou o olhar à mensagem. Seus olhos percorreram cada palavra com cuidado, e então ela começou a ler em voz baixa, como se temesse que a realidade se desfizesse se falasse alto demais.
Minha cara irmã,
sei que sua fuga foi bem-sucedida e imploro que, se encontrar esta mensagem, a leia.
Nossa mãe pretende destruir seu reino.
Eu, nossas irmãs e nossos primos criamos alguns objetos feitos de nosso poder condensado. Juntos, eles podem destruir essa praga.
Mas foi preciso espalhá-los por seu reino, de modo que ELA não os encontre.
Você é boa com charadas, Sherini.
Acredito que conseguirá salvar sua terra se encontrá-los antes DELA… ou antes da ruína.
Com amor,
seu irmão,
Red
Os olhos de Pionla se arregalaram.
Ela ergueu o olhar em direção à porta. Pierro a observava em silêncio, esperando por uma resposta, por qualquer sinal.
— Preciso ir embora, — disse ela, recolocando o chapéu com um gesto firme. — Mas antes, preciso saber de algo. Alguma semente caiu por aqui?
Pierro hesitou por um instante.
— Para falar a verdade… sim. Caiu na fronteira dos quatro Reinos de Cartas. Na fonte.
O olhar de Pionla escureceu.
Ela bateu o pé no chão, e o ar ao redor pareceu se contrair.
— Envie cavaleiros e guerreiros imediatamente, — ordenou. — Para os quatro reinos. Este é um mandado direto meu.
Se algo nascer da terra perto dessa semente… — sua voz endureceu — matem.
Não quero que essas criaturas tenham a chance de revidar.
Sem esperar resposta, ela atravessou o palácio até a porta de saída. Antes de partir, lançou mais um olhar à carta dourada, apertando-a com força.
Do lado de fora, a torre de xadrez reapareceu. Pionla subiu em seu topo e estalou os dedos. A torre avançou novamente, levando-a de volta à Mansão Rose.
Enquanto seguia viagem, algo chamou sua atenção.
Um pequeno papel preso à carta dourada, quase invisível.
Ela o abriu.
Minha melodia favorita está onde a luz não enxerga a Lua.
Pionla fechou os olhos por um breve instante, e os olhos Bauvalier e enxergar Ré esperando explicações
— Não encontrei nada, Ré. Vamos voltar para a Mansão ver se a Pionla já voltou.
Ré concordou com a cabeça, mas seu olhar passou rápido pela árvore que Bauvalier estava, atento demais para alguém que dizia estar tranquila.
Bauvalier estendeu a mão à frente e, com um estalo de energia, criou uma carruagem elétrica. Ele se sentou atrás. Ré lançou um último olhar para as árvores e, então, assumiu a frente para dirigir.
— Então tá…
As orelhas dela se levantaram de repente. Seus olhos se moveram rápido entre as árvores e os relógios pendurados pelos galhos.
— O que há de errado? Vamos. Não é você que vive falando de tempo? Então seja rápida. — provocou Bauvalier.
Apesar do deboche, o lugar estava estranhamente silencioso. Apenas o tic-tac do relógio de Ré ecoava.
— Três… dois…
Uma toca de coelho se abriu ao lado da carruagem. Uma enorme tesoura surgiu do nada, mas foi redirecionada para o chão, cravando-se com força.
Ré virou bruscamente a carruagem na direção de onde o ataque veio.
Entre os troncos, outra criatura apareceu.
Ré abriu uma nova toca atrás dela.
— Um…
A carruagem avançou com tudo, atravessando a toca. O espaço dentro dela se distorcia, indo de um lado para o outro, como se algo interferisse no poder de Ré.
— Ré, que loucura é essa?! — gritou Bauvalier, enquanto ela trancava as portas.
Ela sentiu. Tinha achado o ponto certo.
Criou mais uma toca atrás da criatura e acelerou sem hesitar, atropelando-a e puxando-a junto.
Quando a toca se abriu novamente, eles surgiram direto no jardim da Mansão Rose.
Roseta estava lutando contra a criatura de cabeça de rosa. Ao ver a toca se abrir, ela reagiu no instinto: chutou a criatura para frente no mesmo instante em que a carruagem saiu em disparada, atingindo as duas criaturas de uma vez.
Bauvalier arrombou a porta da carruagem e saltou, usando seu poder para puxar Ré consigo segundos antes de o veículo colidir violentamente contra a parede.
As criaturas foram esmagadas.
— Que merd@ foi essa, Ré?! — ele gritou, respirando pesado, a adrenalina ainda pulsando. — Por que você nunca fala as coisas antes de fazer?!
— Eu faço antes de perguntar — respondeu ela, firme. — E, querendo ou não, deu certo. Então qual é o problema?
Antes que a discussão escalasse, uma sombra passou por cima deles.
A torre de xadrez surgiu no céu.
Pionla desceu dela num salto. Seus olhos estavam arregalados, o rosto pálido.
— Gente!
Todos se viraram para ela.
— O tio Red deixou uma mensagem… para nossa mãe. E também uma ajuda.
Ela ergueu a carta dourada. Tentou sorrir, mas o sorriso saiu trêmulo. Sua voz falhou, carregada de choro.
— Mas eu tenho uma péssima notícia

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