Capítulo 4: Do Papel da Verdade
Com um único movimento do battuto, um coral se ergue.
O violino sobe em notas agudas, enquanto o tambor pulsa forte e pesado, como um coração antigo.
A voz de Orfelha atravessa a música, calma e definitiva.
— Vocês terão que encontrar e reconstruir a melodia que escrevi para a mãe de vocês. — Uma melodia que ela jamais aceitou… por ser orgulhosa demais.
Orfelha gira o battuto. Ao redor do grupo, montanhas de manuscritos melódicos surgem do chão, folhas e mais folhas vibrando com sons contidos.
— Vocês têm trinta minutos, — Se falharem… terei que puni-los com a morte.
Pionla dá um passo à frente.
— Madame Musicista, se deseja nos ajudar, por que impor um desafio?
Orfelha nem hesita.
— Só o fato de eu ter concedido meu poder para criar este eco de mim, permanecer aqui esperando… e ainda entregar uma das relíquias já é ajuda suficiente, — Além disso, auxílio não vem de graça.
Ela ergue o olhar.
— E mais: se não forem capazes de resolver um problema tão simples, não merecem prosseguir.
Sua voz permanece serena. Isso a torna ainda mais ameaçadora.
Bauvalier faz uma careta, claramente incomodado com a orquestra incessante.
— Então… tem mais alguma regra ou já podemos começar?
Orfelha suspira, como quem se lembra de algo importante.
— Sim. Há mais uma coisa, — Um de vocês pode me fazer algumas perguntas sobre o que eu sei. Eu responderei com a verdade, — Mas quem perguntar… não poderá ajudar na busca.
Ela inclina levemente a cabeça.
— Um acordo justo.
Pionla avança sem hesitar, um leve sorriso no rosto.
— Eu pergunto. Sei que eles conseguem sem mim.
A própria calma da sua voz a surpreende.
— Já que está tudo explicado… — diz Orfelha.
Ela ergue o battuto.
O tambor ressoa alto.
O desafio começa.
Roseta segura a mão de Ré e, num impulso, a arremessa para o topo de um dos montes de manuscritos, enquanto ela mesma começa a procurar entre as folhas mais baixas.
Bauvalier bate o pé no chão. Peões surgem, servos silenciosos, espalhando-se para analisar as melodias.
Pionla volta o olhar para Orfelha.
— Então… o que pode nos dizer sobre essa praga? — pergunta, a voz carregada de esperança — Ou talvez… sobre a minha mãe?
Orfelha se senta lentamente.
Um sorriso fino surge em seus lábios ao ouvir a pergunta.
— Sobre a praga da Carmesina… suponho que não haja muito a acrescentar, — diz, com desdém suave. — Apenas isto: talvez o final não seja como vocês imaginam. Ela sempre gostou do efeito surpresa.
Orfelha se aproxima.
A voz desce, cortante como cordas de violino tensionadas.
— Quanto à sua mãe, Sherini… minha cara irmã, que fugiu de seus deveres como Deusa no Palco de Carmim… alguém cujo ego foi tão grande que criou um reino inteiro para si.
Pionla abaixa o olhar por um instante. Respira. Então torna a encarar a tia.
— Tia Orfelha, não acredito que minha mãe tenha criado este mundo apenas por ego. Ela devia ter seus motivos.
A voz sai tensa, irritada — mas ainda respeitosa.
— Rimuru tinha motivos.
— Abis tinha motivos.
— Quineion tinha motivos.
A voz de Orfelha sobe um tom.
— Sua mãe tinha ego.
Ela dá um passo à frente.
— Sherini abandonou aqueles que chamava de família. Criou um mundo onde ela seria rainha. Onde seria deusa. Não deixou aviso. Não se despediu.
— Você leu a carta, Pionla. Viu que Red precisou implorar para que, se um dia ela a encontrasse, lesse sua mensagem.
Os olhos de Orfelha brilham.
— Você jamais entenderá a angústia de milhões de séculos esperando por uma irmã que simplesmente desapareceu.
Pionla cerra os punhos.
— Nossa mãe disse que vocês nunca foram uma família para ela… exceto a tia Rimuru, — Foi por isso que Rimuru também fugiu. Pelo exemplo da nossa mãe ela teve coragem.
Por um segundo, Orfelha fica em silêncio.
Então começa a rir.
Não um riso leve.
Uma gargalhada aberta, amarga.
— Por que está rindo? — Pionla rosna. — Eu não contei nenhuma piada.
— Não contou mesmo, — responde Orfelha, entre risos. — Mas deve achar que sou uma palhaça.
Ela se recompõe. A voz agora é áspera.
— Rimuru partiu para experimentar a mortalidade, para interpretar melhor seu papel.
— Ela abriu mão dos poderes de deusa.
— Não governava. Não interferia. Não tinha deveres.
Orfelha se inclina.
— Sua mãe fugiu… — e continuou usando seus poderes divinos como bem entendeu.
O sorriso desaparece.
— Comparar as duas é não só absurdo, como ofensivo, — Uma mentira confortável que sua mãe contou, — e você aceitou.
Ela estala os dedos.
O som do tambor ecoa, violento.
— Dez minutos para o fim do desafio.
Os três continuavam procurando a todo vapor, revirando cada canto, mas ainda não haviam encontrado nada.
— Roseta, achou alguma coisa? — perguntou Ré, com a voz trêmula enquanto procurava freneticamente.
— Nada, madame Ré. — respondeu Roseta, virando-se então para Bauvalier. — E o senhor, encontrou algo?
Bauvalier negou com a cabeça, respirando fundo.
— Talvez… talvez não consigamos. — disse, a voz embargada pelo medo.
Roseta percorreu o ambiente com o olhar. Então parou.
Fechou os olhos, tentando se concentrar.
Foi quando percebeu um ponto de luz brilhando sobre um dos montes.
— Fechem os olhos! — gritou Roseta, já correndo em direção à melodia.
Os outros dois obedeceram. No escuro, também enxergaram a pequena luz cintilante e correram para ajudar Roseta a procurar.
Orfelha observava tudo com um sorriso tranquilo.
— Dez segundos, queridos — anunciou, com a voz calma.
— O quê? Como assim, dez segundos?! — Pionla se virou, tentando avançar para ajudar, mas Orfelha moveu o battuto.
Notas musicais surgiram no ar, prendendo os braços de Pionla e impedindo-a de se mover.
— Você concordou com as regras, — disse Orfelha serenamente. — Sabe que não pode intervir. Nove…
Bauvalier bateu o pé no chão com força, fazendo os manuscritos voarem ao redor.
— Oito… sete… seis… — continuou Orfelha, com um sorriso tranquilo.
Ré fechou os olhos com mais força e conseguiu ver o ponto de luz com clareza.
— Ali! — apontou.
Roseta viu e saltou entre os cogumelos, esticando-se para alcançar o manuscrito.
— Cinco… quatro… três… — a voz de Orfelha ficou mais baixa e densa.
Roseta estava a centímetros do manuscrito quando ouviu:
— Dois…
Com um último esforço, ergueu-se ao máximo e conseguiu agarrá-lo antes que a contagem terminasse.
— Um…
Orfelha apareceu diante deles, balançando o battuto. Todos os quatro foram trazidos para a frente dela.
Ela tomou o manuscrito das mãos de Roseta e sorriu.
— Parabéns, queridos. Então… vamos tocar uma melodia.
Orfelha entregou o battuto a Pionla, que olhou para os amigos e sorriu aliviada.
— Conseguimos.
Pionla observou o manuscrito e moveu o battuto. Uma melodia suave e tranquila começou a soar.
Piano e violoncelo criaram um clima calmo, e Orfelha passou a cantar:
Saiba que mesmo longe daqui
Mesmo sabendo que quer me ver partir
Não posso simplesmente desistir de ti
Quando um dia eu tiver que ir
Por favor, não vá esquecer de mim
Irmã querida… irmazinha…
Pionla encerrou a orquestra, finalizando a melodia.
Orfelha sorriu e retomou o battuto.
— Já que conseguiram, darei o que queriam, — disse ela, rindo ao ver os olhares confusos — Mas antes… farei uma leitura de seus futuros, — Sim, queridos. Consigo ler o futuro de quem escuta uma melodia minha e me permite fazê-lo. Então… aceitam?
— Pode nos ajudar, Pionla… talvez possamos evitar algo ruim. — disse Ré, com um sorriso animado, curiosa sobre o futuro.
Pionla se virou para os outros.
— Se Roseta e Bauvalier concordarem, podemos fazer isso. — falou, a voz carregada de esperança.
Bauvalier assentiu em silêncio.
— Seria bom saber o que nos espera. — disse Roseta, com um sorriso sereno e tom calmo.
Orfelha estalou os dedos.
A orquestra surgiu no ar, notas se formando como fios de luz.
— Então vamos lá.
O mundo se dissolveu.
Quando a realidade se refez, apenas Roseta e Orfelha estavam presentes, em um quarto coberto de rosas abertas. O perfume era intenso.
Orfelha ergueu o battuto e começou a cantar, a voz crescendo como uma maré:
Rose… rosa Roseta,
teu futuro será trágico.
A maldição do amor te trará dor,
e ainda assim, será preciso conter o coração.
Sentimentos profundos te puxarão para o fundo,
e só ao aprender a não se afogar,
talvez teu final possa mudar.
A melodia se intensificou.
Saiba também:
tentarás salvar quem amas,
mesmo sem poder falar.
E, ainda assim… saberás exatamente de quem estou a contar.
O cenário se quebrou como vidro.
Agora, Ré estava sozinha com Orfelha, em uma sala repleta de relógios — alguns giravam para frente, outros para trás.
Coelha apressada,
o tempo te escapa.
Perdeste tua família tentando entender o que se perdeu.
Teu desespero, teu lamento, tua audácia…
fará cair quem amas.
A vida correrá por teus dedos,
tentarás te sacrificar,
mas nem todo sacrifício valerá a pena…
Os relógios pararam.
O mundo quebrou outra vez.
Em seguida, Pionla surgiu em uma sala vasta, o chão coberto por peças de xadrez gigantes.
Orfelha a observava com um olhar afiado, porém gentil.
Peão de marfim,
diga-me, Pionla:
sabes que ao fim tua força chegará.
De peão, tornar-te-ás rainha.
Mas olha bem tua jornada:
haverá quem te engane,
quem tente te fazer parar.
Não sejas tola,
nem cega.
Tua vida pode se desviar… se não fores esperta.
O battuto desceu com força.
A música ficou pesada.
Tudo ficou escuro.
Bauvalier estava sozinho.
Aviso-te,
há caminhos que ainda podem mudar.
Vejo um coração se apagar.
Vejo um guerreiro cair.
Vejo dor.
Vejo revolta.
Vejo mentira.
Vejo-te impedindo alguém de seguir.
E quando retornares à tua morada…
verás no reflexo alguém que não será mais tu.
Tu… tu…
A melodia cessou.
Orfelha desapareceu.
Todos reapareceram na floresta de cogumelos. Bauvalier segurava um papiro de cor carmim, onde uma melodia estava escrita.
— Que bom… ela já te deu o artefato. — disse Pionla, pegando-o de suas mãos e sentindo o leve tremor. — O que houve, irmão? Ela disse algo tão ruim assim sobre o seu futuro?
Bauvalier respirou fundo antes de responder.
— Não é isso, — disse, tentando soar tranquilo. — Só fiquei um pouco nervoso… ela começou a cantar do nada.
— Eu também fiquei, — comentou Pionla, com um risinho cansado. — Acho que foi mais confusão do que medo. Não entendi muita coisa.
— Madame Orfelha foi direta, — acrescentou Roseta — mas suas palavras permitem muitas interpretações.
— Tá… mas e agora? Qual é a próxima charada? — perguntou Ré, bocejando.
— Eu já vejo isso, — disse Pionla. — Mas antes, vamos descansar. Vocês devem estar exaustos.
Bauvalier passou a mão pelo chão, e uma mesa farta surgiu. Todos comeram e conversaram sobre as previsões… menos Bauvalier, que permaneceu em silêncio, sem tocar na comida.
— Senhor Bauvalier, — disse Roseta, servindo chá — o senhor ainda não falou sobre o que Orfelha viu no seu futuro.
— Ela disse que nosso caminho será difícil, — respondeu ele, evitando o olhar dela. — Mas que conseguiremos resolver a praga.
Roseta assentiu e voltou a conversar com as meninas.
Mais tarde, Pionla criou duas tendas. Roseta e Ré foram para uma. Quando Pionla se aproximou da outra, Bauvalier falou:
— Que tal dormir com elas hoje? Preciso pensar um pouco… sobre as previsões.
Pionla concordou. As meninas ficaram surpresas, mas gostaram da ideia.
Dentro da tenda, Ré perguntou:
— Já que você está aqui… qual é a próxima charada?
— Quase esqueci. — disse Pionla, abrindo o papiro e tinha um papelzinho preso ao lado da música escrita — Deixa eu ver…
Ela leu em voz alta:
— “Sobre uma terra de graças e sorrisos, onde encontraram minha máscara. Digo-te então: quem conseguirá fazer o palhaço sorrir? E quem terá coragem de fazê-lo chorar? Atrás da máscara, algo sempre precisa ser quebrado para avançar.”
Na outra tenda, Bauvalier se revirou inquieto.
A voz de Orfelha ecoava em sua mente:
“Não será mais tu…
tu…
quando retornares,
não serás mais tu.”

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