Capítulo 6: Tão frágil quanto papel, mas nunca tanto quanto o ego
Alicex desceu do topo do cogumelo com leveza, os pés tocando o chão como se ele pudesse rasgar a qualquer momento. Parou diante dos quatro, espreguiçou-se com preguiça calculada, ajeitou o boné torto e abriu um sorriso malandro.
— Então… pra onde exatamente os manes querem que eu guie vocês?
O olhar dela passeou por todos, lento, avaliador — até parar em Pionla por tempo demais.
— Precisamos que nos leve até a fronteira de Kuaitia com o Circo das Maravilhas — disse Bauvalier, a voz firme, porém alerta.
— Tá certo — respondeu Alicex, já virando de costas e fazendo sinal para seguirem. — Mas ó: não desgrudem de mim. O caminho passa por território de uma turma minha. Já conversei com eles, então dá pra atravessar numa boa…
Ela parou por um segundo, olhou por cima do ombro, o sorriso afiado.
— …desde que vocês não fiquem circulando demais. Entenderam bem, “majestade”?
Sem esperar resposta, começou a andar.
À medida que avançavam, a paisagem mudava. O chão escurecido de Cogulux foi perdendo cor até se tornar branco demais — papel. Não terra, não pedra: papel. As ruas surgiam como folhas dobradas, prédios erguidos em camadas frágeis, casas simples com janelas desenhadas à tinta.
— Não me lembrava de Kuaitia assim — comentou Pionla, observando as construções humildes. — Deve fazer muito tempo desde a nossa última visita.
— Claro… — murmurou Alicex, quase inaudível. — Venham pra cá como se vocês se importassem.
— Sim, Pionla — completou Bauvalier, sem notar o tom. — Acho que a última vez foi há cem anos… ou cento e dez, não me recordo bem. Mas é estranho ver tudo tão precário. Eu jurava que tínhamos enviado um ótimo financiamento para melhorar este lugar.
Ele fez um gesto amplo com a mão, como se resumisse Kuaitia inteira a um detalhe administrativo.
Ré sentiu o ar pesar. Antes que o silêncio virasse algo pior, acelerou o passo até ficar ao lado de Alicex.
— Então… como vai a família, Ali? — tentou, num tom casual.
Alicex não respondeu de imediato. Continuou andando, os passos firmes sobre o papel rangendo baixo. Só depois virou o rosto, o sorriso agora ausente.
— Vai bem — disse. — Mas ia ficar bem melhor se nosso reino não fosse ignorado pelos deuses.
Ela fez uma pausa curta, o olhar duro.
— E também pelo governo corrupto daqui.
Depois do que Alicex disse, o silêncio estourou.
Ré levou a mão à boca, incrédula por ela ter falado aquilo em voz alta. Pionla e Bauvalier trocaram um olhar — algo escureceu ali.
— O que você disse, menininha? — Pionla perguntou, o tom cortante.
— Por acaso eu gaguejei? — Alicex respondeu em deboche, virando-se e ficando cara a cara com ela.
— Mais respeito. Nós somos autoridade aqui — Bauvalier disse, já perdendo a paciência.
— Gente… — Roseta tentou intervir, mas ninguém ouviu.
— Se vocês acham que são autoridade — Alicex continuou, elevando a voz — então me explica por que tem tanto crime, tanta pobreza e fome por aqui. Fala. Porque dizer que manda é fácil, mas eu nunca vi vocês brotarem por essas ruas.
— Estamos tentando manter os reinos em ordem — Pionla rebateu, aproximando-se. — Eu e meu irmão tivemos que lidar com problemas muito mais graves depois da morte da nossa mãe.
A tensão ficou densa.
Ré se colocou rapidamente entre as duas, afastando-as com as mãos. Pionla ainda lançava olhares duros; Alicex parecia pronta para partir pra cima.
— Vamos discutir isso depois — Ré disse, firme, tentando manter a calma. — Agora precisamos ir até a fronteira.
— Tá — respondeu Pionla, seca.
— Ok — Alicex completou, sem esconder o desprezo.
— Que ótimo… fico feliz que tudo tenha dado certo no final — Ré tentou aliviar, forçando um entusiasmo.
— Essa discussão será retomada — Bauvalier disse, mais controlado.
Ele se virou para falar com Roseta — e congelou.
— Roseta?
Nenhuma resposta.
— Onde ela está? — Pionla perguntou, agora claramente preocupada.
— Filhos da put@! — Alicex gritou, fazendo várias pessoas na rua olharem. — Quem foram os babacas que sequestraram a mina? Não sabem que isso é proibido nessa área?!
Ela saiu andando até um beco, puxou um grande pincel e desenhou uma porta na parede. A tinta escorreu — e a porta se abriu, revelando vários corredores.
Sem opção, os outros a seguiram.
— Onde você está indo? — Pionla perguntou, tentando acompanhá-la.
— Por essas bandas, sequestro dá guerra — Alicex respondeu, analisando os corredores. — E uma guerra de facções é a pior coisa que pode acontecer.
— E como você tem tanta certeza que é um sequestro —- Pionla questiona
— Por aqui ninguém some do nada, e provavelmente com sorte ela ainda pode estar viva — Alicex responde
— Então por que estamos nesse lugar estranho? — Bauvalier questionou, com um leve deboche.
Alicex revirou os olhos, mas continuou andando.
— Esse “lugar estranho”, Bauvalier, são corredores secretos. Só membros de facção conseguem abrir — Ré explicou, andando no mesmo ritmo que Alicex. — A Ali já me ajudou a passar por aqui antes.
Alicex parou diante de uma parede vazia, desenhou outra porta e entrou.
Do outro lado, havia um grupo de pessoas bebendo, rindo e montando armas improvisadas.
— Escutem aqui! — Alicex gritou. — Onde está o Aravo?
Os homens apontaram para um sujeito mais velho, encostado ao fundo. Alicex foi até ele e respirou fundo antes de falar.
— Foi você ou algum desses idiotas que sequestrou uma mina?
Aravo sorriu.
— Boa tarde também, Alicex. Não fui eu, nem meus homens. Você sabe que isso aqui é proibido.
O sorriso desapareceu quando ele percebeu quem estava ali.
— Mas se isso aconteceu no meu território… — a voz dele ficou pesada — você sabe exatamente o que acontece.
— O que vai acontecer? — Ré perguntou, ficando atrás de Alicex.
Aravo olhou para ela, depois para os irmãos.
— E aí Ré, vejo que Alicex trouxe companhia —- Ele olha os irmãos —- E logo nossos deuses: Pionla e Bauvalier. — Ele voltou o olhar para Ré. — Mas o que vai acontecer e que se o Jasy não explicar por que invadiram meu território e sequestraram uma mina, vou ter que sujar minhas mãos. Você sabe como funciona, né Ré?
— Não acho que precise de algo tão extremo — Alicex disse, agora mais calma.
Aravo a observou por alguns segundos antes de responder.
— Você garante que ela foi sequestrada? — perguntou. — Ou está apenas supondo? Porque, sem certeza, eu não ajo. Ainda assim, vou mandar meus homens verificarem se isso procede.
O olhar dele deslizou até Pionla.
— Se puder encontrá-la, ficaremos em dívida com o senhor — Pionla disse.
Aravo levantou a mão, interrompendo-a.
— Nem comece, deusinha. Não estou fazendo isso para ajudar vocês. Estou fazendo porque tenho princípios. — Ele se recostou no assento, cruzando os braços. — Mas, se quiserem considerar isso uma dívida… tudo bem.
Depois, fez um gesto vago com a mão.
— Amanhã eu vejo isso. Se quiserem ficar por aqui, será por conta da Alicex.
Alicex assentiu, embora com uma careta de claro deboche. Bauvalier lançou um olhar rápido para Pionla; ela desviou, escondendo o rosto sob o chapéu, visivelmente envergonhada.
— Certo. Vou mostrar onde vocês vão ficar — disse Alicex.
Ela desenhou uma pequena porta no chão com o pincel. Assim que se abriu, pulou para dentro. Os outros a seguiram e caíram sobre um colchão velho, em um quarto pequeno, aconchegante… e bastante destruído.
— Espero que gostem — Alicex disse, abrindo outra porta para sair. Ela bateu com força ao fechá-la.
— Mas ainda está de dia — Ré comentou, confusa.
— Se era pra ficar nesse lugar, era melhor termos criado nosso próprio quarto — Bauvalier resmungou, olhando para Pionla.
— Podemos usar nossos poderes para melhorar algumas coisas — Pionla tentou soar positiva.
Enquanto Pionla e Bauvalier começavam a reorganizar o espaço, Ré observava o relógio em seu pulso.
Em outro lugar, distante dali, outro relógio também soava.
Os olhos de Roseta se abriram lentamente.
Ela estava amarrada.
Sem demonstrar esforço, soltou as amarras — mas permaneceu deitada. Pouco depois, a porta se abriu. Roseta fingiu estar presa, o corpo relaxado, a respiração fraca.
Quem entrou foi apenas um garoto.
— Moça… você acordou. Que bom — ele disse, aproximando-se. Colocou a mão em sua testa. — Não parece doente… mas sinto muito.
— Por que alguém tão jovem está aqui? — Roseta perguntou, imitando uma voz fraca. — Onde estão aqueles que tiveram coragem de raptar uma Rose?
— Eu sou Lux — disse o garoto, sentando-se no chão à frente dela. — Foi meu pai que te sequestrou. Desculpa mesmo… ele não costuma fazer isso.
— “Não costuma”? — Roseta perguntou com suavidade perigosa. — Não pareceu que hesitaram.
Lux abaixou o olhar.
— Desde que meu pai e os homens dele pegaram umas armas que surgiram perto de uma bola vermelha… eles estão estranhos. — Ele respirou fundo. — Eu ouvi dizer que você é amiga dos deuses. Se puder pedir ajuda a eles… eu agradeceria.
Havia esperança demais naquele olhar.
— Vamos encontrar seu pai — Roseta disse com calma, levantando-se. — Eu vou falar com ele. Agora que estou alerta, não vão me sedar de novo.
Ela passou a mão pela cabeça do garoto.
Lux arregalou os olhos.
— Quando você se soltou?
— Foi após eu acordar — Roseta respondeu, fria. — Eu só estava esperando. Se você tentasse qualquer coisa, eu te neutralizaria.
Ela abriu a porta.
Do outro lado, apenas escuridão.
Ela escuta passos e volta, fechando a porta.
— Você deve saber andar por aqui, então me guie — ela diz tranquila.
— Ok, moça.
Ele pega um giz de cera e desenha uma portinha na parede, do lado oposto da porta principal.
— Vamos, moça.
Ele empurra a portinha, abrindo-a.
Roseta entra primeiro e, ao ouvir os passos se aproximando, fecha a portinha rapidamente.
— Então vamos encontrar seu pai — ela leva a mão até a cintura e percebe algo — …Mas antes preciso achar minha arma. Você tem ideia de onde ela pode estar?
— Eles costumam guardar as armas na sala de armas. A sua deve estar lá — ele responde, já desenhando mais algumas portas e abrindo a da esquerda.
— Então vamos.
Ela entra junto com ele e saem em um corredor com alguns guardas segurando armas com um brilho avermelhado e semblantes estranhos.
— Olá, rapazes — Roseta diz tranquila, mas suas mãos se fecham em punhos.
Eles não respondem.
Correm na direção dela.
Ela empurra o garoto para trás.
Com um movimento rápido, desvia do primeiro golpe.
— É muito rude tentar acertar uma dama sem arma — ela diz segurando o braço de um deles — Uma dança? Claro, eu aceito.
Ela gira o homem com força, usando o próprio corpo dele para atingir os outros ao redor.
Alguns tentam atingi-la com as armas, mas ela desvia com leveza, faz o homem girar mais uma vez e o lança contra os demais.
Os corpos caem um por um.
Silêncio.
— Agradeço a dança, mas agora vou pegar o que é meu — ela ajeita o vestido em um gesto elegante.
— Você matou eles? — Lux pergunta assustado.
— Não. Só estão inconscientes — ela responde calma — Vamos achar minha rapieira logo.
O menino segue na frente, guiando.
— Moça… esqueci de perguntar seu nome.
— É Roseta. Roseta Rose.
— Rose… — os olhos dele brilham — Você é da família que faz comércio, não é? Meu pai disse que vocês Rose são uma das razões de Kuatia ainda estar de pé. Você e sua família são heróis.
Roseta balança a cabeça em negação.
— Não sou heroína. Sou apenas uma negociadora.
Ela perde o raciocínio quando sente os braços do garoto envolvendo sua cintura.
— Mesmo assim, vocês mantiveram todos nós bem.
Ela sorri de leve e faz carinho na cabeça dele.
— Obrigada, garoto. Agora vamos.
Ele concorda e anda mais rápido.
Chegam até a sala de armas.
— Aqui, moça Roseta.
Ela observa o local com atenção. Entre as armas, vê um símbolo de lua vermelha marcado no metal.
— Armas nascidas do carmim… com certeza vieram da semente.
Ela tenta tocar uma delas.
A flor em seu olho começa a arder.
Ela se afasta rapidamente.
— Que estranho…
O olhar dela percorre o ambiente até encontrar sua rapieira.
Ela a pega com firmeza.
— Achei. Agora vamos falar com seu pai. Talvez eu consiga entender se o efeito dessas armas é temporário.
— Meu pai deve estar dormindo agora… ele ficou muito mal depois de usar uma dessas — Lux diz preocupado.
Roseta coloca a mão no ombro dele.
— Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

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