Eles andam pelas terras circenses. Pessoas de corpos escuros como a escuridão dos corredores das tendas passam olhando estranho para eles.
    As pessoas eram estranhas: muito altas, muito baixas, muito magras, muito grandes. Roupas sobre o exagero, risos altos e máscaras.

    — Porque eles estão nos olhando assim? Eu contei e já tem pelo menos uns trinta passando e olhando — Pionla comenta para o irmão.

    — Provavelmente nos reconheceram, não se esqueça, somos conhecidos por toda essa terra — Bauvalier responde.

    Piola cai no chão porque alguém colocou uma corda para ela tropeçar.

    — Quem foi o louco que fez isso?! — Ela levanta e invoca a tesoura, mas Roseta lança um olhar que faz ela desinvocar a tesoura. — Tanto faz.

    — Aqui é o reino das brincadeiras, Pionla, fica mais tranquila — Ré diz tranquila, tirando foto de tudo com o celular e às vezes parando nas lojinhas.

    Eles andam e andam e andam.

    — Já está me dando claustrofobia esse lugar — Pionla diz.

    Alguém esbarra nela, fazendo-a quase cair, mas ela se segura em Bauvalier.

    — E isso já está virando palhaçada. E você, Roseta, não abriu a boca desde que chegamos aqui.

    — Porque será que estou em silêncio? Pense e logo achará a resposta — Roseta responde tranquila, com a voz o mais calma possível. O olhar passa pelos itens nas lojinhas enquanto caminham.

    — Ainda está chateada porque fizemos aquilo? Eu já me desculpei e dei uma indenização pelo ocorrido. Mas não pode dizer que foi só mal, porque eu, matando eles que estavam descontrolados, evitei que matassem pessoas inocentes — Pionla tenta se justificar.

    — Pode até ser. Mas para salvar pessoas de morrer, você matou. É um pensamento tão contraditório que me surpreende. Mas aceitarei essa explicação por enquanto, só para ficarmos em boas condições, já que nossa missão não vai ficar mais fácil comigo em silêncio. Mas saiba que isso não quer dizer que acho certo nada que vocês fizeram lá — Roseta responde com firmeza.

    Ré volta ao grupinho com várias sacolas.

    — Gente, vocês não acreditam no que consegui nessas pechinchas!

    Ela entrega vários doces em forma de máscaras enquanto come frutas cobertas de chocolate.

    — Eu amo as comidas daqui, elas são as mais deliciosas e gostosas de todo o país cenográfico! — diz animada.

    — Ré, não vamos nos desconcentrar, precisamos encontrar o lugar que a charada diz — Pionla pega o papel e lê mais uma vez. — Talvez devêssemos buscar informação.

    — Tem uma pessoa que minha família faz negócios, talvez ela saiba onde seria o local que a charada se refere — Roseta pega na mão da Paola e do Bauvalier para guiá-los.

    Bauvalier fica todo vermelho, mas respira fundo, se acalmando antes que ela percebesse.

    Pionla ri baixinho e olha para trás, onde vê um vulto.

    Eles andam por diversos corredores, passam por várias pessoas, até chegarem em uma loja bem maior, com uma grande logo: “Boutade”. Roseta continua guiando eles para dentro.

    — Desculpa, eu acho que esse não está bom… vamos tentar pôr mais espinhos — uma mulher com aparência circense, cabelos cacheados e nariz de palhaço anda de um lado para o outro, aprovando e desaprovando coisas que os funcionários mostram a ela.

    — Aqui estamos — Roseta diz, apontando levemente para a mulher.

    Ré, não tão discreta, aponta também.

    — Aquela ali, né? — ela questiona.

    A mulher olha para o grupinho e vem na direção deles com um sorriso alegre.

    — Madame Roseta, é bom vê-la novamente, espero que me reconheça.

    O olhar dela passa pelos outros e para nas duas divindades, onde ela arregala os olhos e logo desvia o olhar.

    — Euphoy, também é bom te ver, mas onde está seu pai? Eu ia pedir um favor para ele — sua voz sai tranquila.

    Ela se vira para a grande foto do pai na loja e depois volta com o rosto triste. Roseta percebe o erro.

    — Sinto muito… meus pêsames — Roseta diz arrependida.

    — Tá tudo bem. Então… o que precisam?

    — Precisamos saber onde podemos achar o local da charada — Pionla diz, entregando o papel para ela.

    — Que bom que nós, cirquistas, somos ótimos em charadas — ela pega e lê rápido:

    “Sobre uma terra de graças e sorrisos, onde encontraram minha máscara.
    Digo-te então: quem conseguirá fazer o palhaço sorrir?
    E quem terá coragem de fazê-lo chorar?
    Atrás da máscara, algo sempre precisa ser quebrado para avançar.”

    Ela ri, soltando uma gargalhada.

    — Desculpe, desculpe… isso não é exatamente uma charada, é um ditado: “Tem que ter coragem para fazer o palhaço rir, mas tem que ser louco para fazer o palhaço chorar.”
    Mas essa está levemente diferente… e essa última parte me passa a impressão de que talvez eu saiba onde vocês estão buscando — ela diz com um sorriso enviesado.

    — Pode nos levar nesse lugar? É de caráter de urgência — Pionla diz rápido.

    — Tem certeza, Pionla? Você lembra que há pouco tempo deu muito problema alguém nos guiar — Bauvalier diz seco.

    — Não é como se nós soubéssemos andar nesse labirinto que chamam de circo — ela responde.

    — Claro que posso levar. Mas preciso saber por que querem ir lá com tanta urgência — Euphoy diz, agora mais séria.

    — Não, é confidencial e…

    — Esse papo não cola. Eu posso simplesmente ajudar em algo sem saber os riscos? Tenho muito a perder para acreditar e aceitar assim. Mesmo que sejam deuses, eu preciso saber — ela corta Pionla.

    — Estamos em uma missão para evitar o fim de todos os reinos. E preciso ir nesse lugar para resolver um dos problemas. Está feliz agora? Vai nos ajudar? Porque podemos achar qualquer outra pessoa daqui — Bauvalier diz irritado.

    — Claro que vou ajudar. Mas não me façam rir… vocês, depois de recusarem o pedido do circo, não têm muitas opções para ficar exigindo ajuda — ela responde com a voz bem-humorada, mas com um fundo de verdade.

    Ré e Roseta olham para as divindades gêmeas com questionamento.

    Mas os irmãos não respondem

    — Não vai ser quem vai contar… mas eu preciso resolver algumas coisas aqui e já volto para falar com vocês — Ela cria um balão e sobe voando junto com ele.

    — Como foi que os dois fizeram para esse circo estar assim? — Ré questiona em curiosidade.

    — Exatamente. Não é possível que vocês não tenham nenhuma estrutura de governança — Roseta diz tranquila.

    — São assuntos… da monarquia… hmm… vocês não precisam saber — Bauvalier diz sem olhar para elas.
    Pionla também desvia o olhar.

    — Estão a tentar nos enganar — Roseta se aproxima de Bauvalier, chegando mais perto. — Suponho que essa não seja a verdade. Escondê-la não vai impedir de encontrarmos.

    — Certo… meio que… eles pediram uma grande quantia de dinheiro para tentar aumentar o território, porque estavam em superpopulação… e nós dois negamos — Bauvalier suspira nervosamente.

    — Mas não sabíamos que seria grandes coisas… talvez possamos ter sido um pouco precoces em nosso pré-julgamento — Pionla arruma o chapéu de maneira que não pudessem ver o rosto dela.

    — Minha Sherine… não é possível, tem algo que vocês fazem direito? — Ré diz em sarcasmo.

    — Vocês dizem como se fosse fácil ter que comandar tantos reinos… mas é muito difícil — Bauvalier retruca.

    — Pode até não ser fácil, mas difícil a este ponto duvido veementemente — Roseta diz calma, chegando mais próxima. — Além disso, o mínimo como governantes é governar bem… acho que devem concordar.

    Bauvalier e Pionla olham para baixo com vergonha por levarem sermão.

    Euphoy volta com um sorriso cordial.

    — Pronto, podemos ir ao lugar — Ela espera todos a seguirem entre os corredores. — Fiquem de olhos atentos. Nessa época do ano tem muitos roubos. Eles aproveitam a euforia do dia de nascimento do circo.

    Ela joga uma bolinha contra uma das paredes do circo, que bate no teto e no chão, ricocheteando até acertar alguém que estava tentando roubar a espada de Bauvalier e a de Roseta.

    — De onde esse cara surgiu? Eu nem percebi — Bauvalier diz incrédulo.

    — Eles usam máscaras. Todos usam. Mas nessa época se esforçam ainda mais para roubarem — Euphoy diz com um risinho.

    Eles andam prestando atenção em tudo, mas de vez em quando param nas lojinhas.

    — Até que esse lugar é legal… não muito, mas é legal — Bauvalier diz, pegando um pouco de pipoca que explode na boca do saco da Ré.

    — Quer pipoca? Vai comprar a sua — Ré afasta o saco, então Roseta pega também.

    — Até você, Roseta?!

    — É que a minha acabou… e você deixou muito à mostra — Roseta diz com um risinho.

    — Que pesteira vocês brigando por comida — Pionla diz tranquila.

    As risadas de funo começam a diminuir deixando a conversa mais alta

    — Então se é pesteira, por que você não divide a sua pipoca? — Bauvalier sugere.

    — Como a Ré disse… vai comprar — Pionla puxa o saco de pipoca mais para perto de si.

    Bauvalier revira os olhos com a resposta dela.
    Então ele percebe o silêncio.

    Só a conversa deles fazia barulho.

    Ele olha ao redor e percebe que tudo está vazio pelos corredores de lona.

    — Pionla… — Bauvalier chama, apontando com o olhar ao redor.

    Ela entende imediatamente e concorda com um leve aceno.

    — Roseta… — Pionla diz.

    Roseta observa o redor também. Antes que pudesse avisar Ré e Euphoy, duas grandes mãos de fitas surgem por trás e prendem os corpos delas, puxando-as para longe.

    — Ré! — Roseta grita.

    Os que sobraram saem correndo, seguindo o rastro do silêncio.

    Eles correm até um emaranhado de fitas, amarradas a diversas máscaras de comédia e tragédia. Outras pessoas também estavam presas ali. As máscaras se encaixavam nos rostos das vítimas, como se as deixassem em transe.

    As fitas avançam e prendem Pionla, mas Roseta corta a fita rapidamente com a rapieira.

    Ao mesmo tempo, Bauvalier lança a espada na direção do emaranhado, teletransportando-se até ela. Ele a balança rápido, com movimentos precisos e agressivos, destruindo a criatura de máscaras.

    As fitas se desfazem.

    Ré e Euphoy caem no chão, confusas.

    — Vocês estão bem? — Bauvalier chega perto, ajudando as duas a se levantarem.

    Ré passa a mão na cabeça.

    — Eu… eu nem sei exatamente. Do nada tudo apagou… e eu vi a minha família ainda viva.

    Euphoy ajeita a roupa, tirando a poeira.

    — Eu também… mas eu vi meu pai ainda vivo, ao meu lado.

    — Provavelmente uma das criaturas que nasceram das sementes — Pionla diz, aproximando-se para ver se elas estavam bem.

    — Muito provável. Mas essas criaturas parecem se adaptar ao solo e à cultura do local — Bauvalier acrescenta, observando as máscaras espalhadas pelo chão.

    — Isso é bem real. Já que, só de ver tudo por aqui… se alguém sumisse, ia demorar a perceber. E até perceberem, já estariam enredados — Euphoy diz, olhando ao redor enquanto tenta reconhecer o caminho.
    Ela aperta o próprio nariz de palhaço.

    Um brilho vermelho forte surge.

    Ela sorri.

    — Mas acho que até esse mal pode ter vindo para o bem… estamos próximos.

    Eles seguem os passos dela até chegarem diante de um templo. Na porta, uma máscara gigantesca partida ao meio.

    — Aqui estamos. Na máscara que fez a primeira pessoa do circo explodir e criar a grande tenda… e seus corredores que se espalham por todo o nosso território — ela diz alegre, quase orgulhosa.

    Ré arregala os olhos.

    — Pera… explodiu o quê?

    — Não temos tempo para isso — Pionla diz, segurando a carta dourada entre os dedos, pronta para lançar.

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