Ao abrir os olhos, a primeira coisa que notou foram as bolhas de água que se formavam a partir da sua respiração. O líquido ao seu redor era mais espesso do que a água e era tão quente e reconfortante que mantinha ele relaxado, mesmo estando cercado por um vidro, colaborando para que tudo do lado de fora ficasse embaçado, o impedindo de identificar bem o ambiente em que estava.

    Havia crianças brincando enquanto um homem parecia estar examinando outra criança, porém, era ainda mais difícil de visualizá-los, já que o seu nome “Noah”, escrito de trás para frente em sua perspectiva, apesar de ser transparente, tinha um tom azulado que o atrapalhava ainda mais de ver o que acontecia.

    De repente, ele começou a sentir muita dor enquanto um som irritante tomava conta do ambiente, se sobrepondo a toda a barulheira das pequenas crianças.

    Noah acordou com o agonizante toque do despertador estragando o seu ciclo de sono, o desligando com uma força considerável, mas controlada, apenas para extravasar a sua má vontade para levantar.

    Fazendo muita força para se sentar e criando coragem para se levantar da cama enquanto encarava o seu reflexo; se vendo com o rosto inchado de sono, os olhos violetas cheios de remela, o seu nariz fino e arrebitado entupido e os seus lisos e volumosos cabelos castanhos totalmente bagunçados, não conseguindo ajeitá-los apenas com as mãos.

    Ele também conseguia ver quase todo o seu acanhado quarto, onde só cabia a sua cama e seu guarda roupas de duas portas, que era menor do que ele que tinha um metro e setenta e sete de altura, precisando se abaixar um pouco para poder escolher as suas roupas, além de uma pequena mesa de vidro ao lado, onde ficava seu Notebook de última geração, um presente que ganhou de aniversário e o aparelho mais caro que havia em sua casa.

    Mesmo estando calor desde manhã cedo, Noah, após limpar o rosto e escovar os dentes, começou a fazer uma série de exercícios na sala de estar, sempre olhando as suas fotos na mesa ao lado da TV antes de começar:

    A primeira mostrava ele comemorando o seu aniversário no hospital após ser internado mais uma vez. Ele estava muito doente quando criança, era quase como se pudesse ver os seus ossos através da pele. Noah passou a infância no hospital;

    A segunda era uma foto de quando ele entrou para o exército, depois de ter falhado na prova de admissão para a faculdade de jornalismo, tendo que refazê-la no ano seguinte, estudando no tempo livre logo depois de cada dia com uma rotina puxada e exaustiva dos treinamentos e serviços que fazia como um militar;

    E a terceira era de quando ele finalmente se formou na faculdade, largando o exército para entrar no jornal local de sua cidade.

    Depois de relembrar do passado por um momento, ele parava em frente a TV, a ligando manualmente, onde poderia assistir ao jornal enquanto se exercitava. O jornal falava sobre uma disputa de gangues por território que ocasionou na destruição de uma rua inteira, mas a polícia não sabia dizer o que eles usaram para causar tanta destruição.

    Em seguida, após sua sessão de uma hora de exercícios que usavam apenas o seu corpo para treinar, Noah parava para se hidratar bastante e comer três pães secos e velhos com margarina o suficiente para amolecer o miolo e ficar mais fácil para mastigar, além de tomar um copo de leite no final.

    Noah volta ao banheiro para tomar banho e colocar um par de lentes de contato coloridas para esconder a cor de seus olhos, os deixando castanhos. Apesar de dar para notar que a cor era falsa, as lentes disfarçavam bem os seus olhos.

    Por fim, Noah vestiu o seu terno, no qual ele sempre dobrava do mesmo jeito para não ficar amarrotado, e pegou uma mochila, onde guardou algumas fotos em uma pasta, a sua carteira e sua pequena câmera que usava para trabalhar como um jornalista independente.

    De repente, começou a chover muito no caminho até o ponto de ônibus, o forçando a sair correndo para chegar no ponto o mais seco possível, contudo, os seus sapatos não serviam para correr, o atrapalhando muito, chegando ensopado até o ponto de ônibus, além de ter perdido o primeiro ônibus para o centro.

    Logo em que chegou no ponto a chuva passou e o sol voltou a brilhar mais forte do que nunca. Ele aproveitou do forte sol que apareceu para se secar o máximo possível antes do próximo ônibus chegar.

    Noah desceu no centro e foi correndo para o prédio de um dos grandes jornais do estado de São Paulo, onde vendia fotos acompanhadas de histórias sobre os acontecimentos, como assaltos, traições, brigas ou tráfego ilegal, qualquer coisa que pudesse chamar atenção.

    Ele ia tanto ao jornal que o segurança o cumprimentava logo em que o via e a secretária do diretor-executivo também, na qual era sempre sorridente com ele, diferente do chefe dela que parecia estar sempre mal-humorado, mas era com ele que Noah falava para vender as suas informações, o entregando uma pasta com todas as fotos que tirou.

    — Pago trinta e sete por elas — disse o gorducho diretor-executivo, olhando várias fotos tiradas à distância de traficantes agindo.

    — Esse preço é muito baixo. Eu preciso de pelo menos duzentos por elas — reclamou Noah, ainda relativamente molhado.

    — Sabe o que é que eu vejo aqui para você estar me cobrando tanto assim? — perguntou pegando as fotos. — Eu só vejo lixo, lixo, lixo… super lixo — falou jogando-as uma de cada vez na mesa.

    — Mas foi muito difícil conseguir elas, eu me coloquei em risco para isso.

    — Não é assim que as coisas funcionam, Noah. Se você quer receber mais pelas fotos então precisa trazer provas concretas, imagens que mostram mais do que parecem, mas essas fotos não trazem uma visão clara da situação, elas não valem o preço que você está me pedindo. Elas não têm aquele tchan necessário.

    — Cem — disse tentando negociar o preço.

    — Quarenta.

    — Oitenta.

    — Cinquenta.

    — Sessenta.

    — Fechado — concordou, pegando uma caneta e começando a escrever num pequeno bloco de notas adesiva. — Entregue isso à minha secretária e ela lhe dará o dinheiro — disse o entregando a folha que arrancou do bloco.

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