De repente, enquanto ele se lamentava, a tevê ligou. Era sua mãe, que se sentava no sofá vagarosamente, quem havia ligado o aparelho, ela sequer tinha mudado de canal, até porque eram todos muito parecidos.

    A tevê aberta não tinha muita variedade de conteúdos, era basicamente jornal, jornal, jornal e mais jornal, ou programa religioso.

    Às vezes passava algo diferente no lugar dos jornais, alguma novela, algum filme, série, ou desenho animado, os quais passavam sempre no mesmo horário, tanto que se programavam para assistir nas raras vezes em que passaria algo de que gostavam, e era por isso que ela estava lá, pois logo começaria a novela preferida dela.

    Mas o jornal ainda não havia acabado; e nele, uma filmagem de um homem estranho se teletransportado para salvar a vida de uma menininha estava a ser comentada por um especialista em edição de vídeos:

    “… simplificando, esse vídeo não passa de algo criado no computador por um amador, fica fácil de perceber isso quando nós observamos detalhes que se repetem muito em vídeos parecidos. A imagem é sempre ruim, nunca tem áudio, na maioria das vezes está de noite e, acima de tudo, nunca tem alguém que tenha testemunhado isso, alguém que possa provar. É assim que você consegue ver que esse vídeo e qualquer outro que seja parecido, como aqueles que falam de monstros, do pé grande, e assim por diante, são falsos. Além disso, se alguém com superpoderes existisse de verdade, o mundo inteiro teria ciência disso…”.

    “PSHHHH!”

    — Não estou afim de ver essas porcarias — resmungou a senhora, voltando para o sofá após desligar a TV, com seus óculos e sua bíblia em mãos, que estavam ao lado da televisão. — Quando estiver faltando uns dois minutos para começar a minha novela me avise, por favor.

    — Você tomou café quando eu estava fora? — perguntou curioso por vê-la de pé.

    — Só uma canequinha para matar a vontade.

    — Puta que pariu, então é por isso que ainda está acordada. Mãe, a senhora sabe que não pode tomar café duas vezes no mesmo dia, vai ter dificuldades para dormir à noite.

    — Eu tomo um sonífero quando for dormir.

    — Que velha teimosa — murmurou, desacreditado. — Tanto faz, faça como a senhora quiser, eu vou para a lan-house — disse largando as cartas na mesa.

    — Mas aí quem é que vai me avisar de que a novela está começando?

    — Eu coloco o despertador para tocar e deixo um bilhete colado nele para você não se esquecer, fique tranquila.

    — Ah, tá, se é assim, tudo bem então.

    Antes de sair, Noah se arrumou de novo, escovou os dentes, penteou o cabelo, pegou suas coisas e trocou de roupa, dessa vez usando algo mais casual, saindo rapidamente de casa para descansar.

    Foi uma longa caminhada até a lan-house, ela era pequena, mas servia de tudo, lanche, suco, refrigerante e café, dava para passar horas usando os computadores. Além disso, o valor era baixo comparado com as grandes franquias e o ambiente era calmo, perfeito para trabalhar sem interrupções.

    A Internet discada era lenta, por isso, sempre que ia na lan-house, Noah pegava um café e alguns pães de queijo para comer enquanto esperava pacientemente até que os longos minutos que o aparelho levava para realmente acessar a internet passassem.

    — Eles usaram o meu blog para mostrar o vídeo na TV — pensou em voz alta, animado, enquanto entrava calmamente em seu blog, ainda que tivesse que esperar pela boa vontade da internet discada para funcionar.

    O seu blog era extremamente organizado, era fácil de se encontrar todo tipo de assunto relacionado a poderes na vida real, com diversas imagens e filmagens nas quais ele opinou, deixando claro a sua opinião, descrevendo a situação, a repercussão que tiverem nas redes sociais e se eram reais ou não após ir atrás de respostas para cada filmagem.

    Mas apesar de todo o trabalho que teve indo atrás das informações e de trazer o contexto e provas sobre cada palavra que disse, sites diversos em que pesquisou, as pessoas pareciam só entrar lá para falar mal, xingar e debochar dele, e dessa vez não foi diferente.

    A única diferença foi o número de visitantes que, pela primeira vez em meses, havia saído de um ou dois visitantes por mês para uma centena em um único dia, ao menos o blog era anônimo, então ninguém sabia quem ele era.

    — Que frustrante — suspirou enquanto continuava a ler cada um dos comentários em sua última postagem. — As pessoas só sabem julgar, ninguém sequer parou para dar uma mísera analisada em tudo o que eu trouxe, olharem os outros posts — reclamou. — Bando de imbecis.

    Cansado de ler aqueles comentários negativos que pareciam não terem fim, se preparou para fechar a página em que estava. No entanto, quando faltava apenas um clique, um novo comentário foi postado no meio daquela onda de xingamentos, o único positivo, que não só concordou com tudo o que ele mostrou como também acrescentou.

    Não demorou muito para as pessoas irem no mesmo comentário e comentarem as mesmas merdas que falaram para ele, mas isso não tinha a mínima importância.

    Noah apenas desistiu de fechar a página e bloqueou os usuários que estavam a falar mal de ambos, e então mandou uma única resposta, sigilosa, a aquele usuário desconhecido:

    “Finalmente alguém de visão. Se tiver mais informações me diga”. E logo recebeu uma resposta do mesmo: “Tem muito mais do que você sabe”.

    “BZZZT BZZZT…”

    Antes que continuasse a conversa, o seu celular o interrompeu. Era a sua mãe querendo saber o motivo do despertador estar tocando.

    Então, Noah, com toda a paciência do mundo, explica que era para avisar que a novela que ela queria assistir estava prestes a começar, na qual ela nem sequer se lembrava mais, porém, ainda assim, com bastante paciência explicou tudo e ajudou ela a achar o canal da novela, pois estava no canal errado e ela não se lembrava disso.

    Após a sua mãe desligar, Noah, já descansado, precisava ir atrás de arranjar mais dinheiro depois de passar algum tempo na lan-house, já que o valor que depositou para usar os computadores já havia acabado e ele não tinha mais dinheiro sobrando para gastar a toa, por isso apenas escreveu: 

    “Quero saber de tudo”.

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