CAPÍTULO IV
Sempre que precisava de informações novas para conseguir fatos para vender ao jornal, Noah ia ao mesmo lugar, uma cafeteria que estava quase sempre vazia.
Aquele era o lugar mais barato e tranquilo que ele conhecia para relaxar, também era o lugar onde havia conhecido duas de suas poucas amizades:
A André, uma mulher que se identificava como homem, relativamente musculosa e com cabelo curto, mas o rosto ainda era bem feminino e bonito, mesmo sem maquiagem, além disso, suas curvas ainda eram bem aparentes, apesar de reduzir o tamanho dos peitos com uma faixa os apertando e roupas largas;
E a Giulia era uma baixinha bem explosiva, apesar de ter uma aparência bem delicada e um rosto de criança.
Elas eram as donas daquele lugar, um casal que morava em cima do próprio estabelecimento, no qual era apenas uma fachada, um ponto seguro usado pelas gangues da cidade e de outras cidades para negociarem, pagando muito dinheiro a elas para manterem o sigilo e para atendê-los sempre que precisavam.
“TLIM-TLIM.”
— Olha só quem voltou aqui, já estava achando que você tinha nos abandonado — disse André, enquanto limpava o balcão.
— Estava sem dinheiro para pagar pelo café.
— Sabe que pode nos pagar depois, confiamos em você.
— Não quero correr o risco de perder isso — disse se sentando em frente ao balcão.
— Bem, como vem passado?
— Ainda estou em busca de um emprego, mas todos só querem gente com experiência e os jornais não me contratam nem que a vaca tussa, depois que o jornal em que eu trabalhava faliu, parece que as portas foram fechadas. Bem, fazer o quê? Estou dando o meu jeito, como sempre.
— Posso te arranjar alguns trampos se quiser? Sabe que tenho muitos contatos.
— Vou passar dessa vez, por hora só vim atrás do de sempre.
— Para sua sorte eu fiz o café há alguns minutos atrás, está naquela garrafa térmica. Pode ficar à vontade! Eu vou lá em cima ver se a Giulia já consegue descer, ela está atendendo os nossos convidados. Me avise se algum cliente aparecer.
— Como se alguém além de mim frequentasse esse lugar — brincou.
— Você iria se surpreender! — falou antes de sumir de vista.
— Eu pagaria para ver — suspirou com um ligeiro sorriso no rosto.
Sem muito o que fazer enquanto esperava as duas aparecerem, ele se levantou, pegou o café no maior copo descartável que tinha, ligou a tevê e ficou assistindo o jornal da tarde sentado no mesmo lugar.
Um ataque em massa havia acontecido em uma favela durante um transporte de drogas e ninguém conseguia descrever o incidente, tudo tinha sido tão rápido que não deu nem tempo dos moradores verem quem foram os responsáveis por aquilo, não havendo testemunhas e nem pistas que fizessem algum sentido.
O caso ficou paralisado, já que nem sequer conseguiam alguma ideia de como aquilo foi possível, ainda mais com todo o estrago que foi feito, nem mesmo um homem bomba seria capaz de causar tanto estrago. O enorme galpão havia sido completamente destruído por dentro e só havia sobrado alguns vestígios das vítimas que haviam sido destroçadas.
— Muito obrigada por virem, espero vê-los de novo em breve — disse Giulia, agindo de um jeito meigo e sorridente, descendo as escadas logo atrás dos representantes e seus guardas-costas, das três gangues que brigavam pelo domínio do submundo da cidade, que saem sem dizer uma única palavra, apenas trocando brevemente seus olhares com Noah, que tomava lentamente o seu café enquanto os seguia com os olhos, inexpressivo.
“TLIM-TLIM.”
— Pela cara deles, a negociação foi tensa — comentou Noah, após virar o restante do café de uma única vez.
— Nem me fale, a tensão entre esses desgraçados está só aumentando a cada dia. As gangues não se conversam mais e dizem só meia-verdade. — disse deixando de agir de uma maneira meiga e sorridente instantaneamente. — Eu odeio admitir, mas você estava certo.
— Quanto ódio no coração. O que foi que aconteceu com a Giulia doce e sorridente de agora há pouco? — zombou Noah.
— Nem comece, eu estou exausta. Se eu tivesse que agir assim por mais tempo, acho que iria acabar com aqueles merdas por conta própria. — desabafou se sentando no banco confortável da cafeteria, completamente largada.
— Eu percebi que você virou a noite… de novo. Você sempre exagera na maquiagem para esconder as olheiras.
— Graças a isso eu consegui informações interessantes para você — disse de modo vibrante, apesar de cansada.
— Sou todo ouvido.
— Tem uma espécie de arma nova, muito poderosa, sendo comercializada no mercado negro, infelizmente não consegui descobrir do que se trata exata-mente. Esperava conseguir alguma informação durante as negociações de hoje, mas como já disse, eles não estão mais se conversando… Só o que sei é que ela ainda está em sua fase de testes e de que ela anda causando muitos problemas para a maioria daqueles que se arriscaram a utilizá-la. Quase todos os que tentaram usá-la acabaram morrendo e os que sobreviveram estão em estado crítico no hospital!
— E quanto a aqueles que conseguiram usar essa arma?
— Quanto a isso não consegui informações oficiais, mas parece que estão aos poucos tomando o poder sobre as outras gangues, mas não são intocáveis, mas eles ainda podem dar um baita problema a qualquer momento.
— Além dos gangsters, quem mais tá envolvido nisso?
— Tem muita gente de olho nisso, governos, ricaços, basicamente todos os que podem pagar por isso, seja lá de que maneira, mas apenas aqueles que têm algum tipo de contato com esse lado obscuro do nosso mundo que sabe sobre isso, é algo surreal. Sabe esse incidente que acabou de passar na televisão…? Tem haver com isso, só que o governo não quer que as pessoas saibam disso, até porque iria deixar todo mundo apavorado.
— Faz sentido. Bem, te conhecendo, você já deve saber aonde vão ser os próximos locais de entrega dessa arma. Estou certo?
— Nos conhecemos há mais de uma década, se estivesse errado eu dobraria o preço pela informação — brincou, ficando mais calma depois de se sentar para descansar.
— Eu estaria fudido se isso acontecesse.
— De qualquer forma, continuando… a troca pela mercadoria ocorrerá amanhã, lá pela madrugada, no meio da obra onde vai ser a sede daquela empresa famosa de jogos europeia vindo aqui para o Brasil. Aquela que quase faliu há muito tempo… Eu não lembro o nome dela agora, não sou de jogar videogames, mas isso não importa, o que importa é que tudo acontecerá lá, vai ser algo rápido e extremamente discreto!
“TLIM-TLIM.”
— Olha só, quem diria que alguém além de mim apareceria aqui — sussurrou, zuando a Giulia por conta do lugar estar sempre vazio quando ele entra e sai, ao ver um casal entrar no estabelecimento. — Obrigado pelo café — agradeceu deixando o dinheiro em cima do balcão —, vou me preparar logo para o trabalho, eu voltarei amanhã para nós jogarmos conversa fora.
— Até amanhã — se despediu correndo para trás do balcão para atender os clientes.
— Até.
— Boa tarde, no que posso ajudar? — perguntou aos novos clientes.
“TLIM-TLIM.”

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