CAPÍTULO V
Após sair da cafeteria, aproveitou que tinha uma lan-house por perto para ir atrás de mais informações. O lugar não era tão barato quanto seus concorrentes, mas era o mais próximo dele no momento e o melhor que tinha na região. Então procurou exatamente onde ficaria a sede da empresa, como que poderia chegar lá, quais estabelecimentos havia em volta e como seria a estrutura do lugar.
A empresa ficava no centro da cidade de São Paulo, bem longe de onde ele morava, eram mais de treze quilômetros de distância até lá, levaria muito tempo mesmo que andasse de ônibus.
Para piorar o lugar não tinha nada de muito útil em volta, pois todas as outras empresas já estariam fechadas até lá, assim como as lojas e os diversos lugares em que poderia encher a barriga.
O único lugar em que conseguiria entrar sem problemas era no banco que ficava bem de frente com o prédio da empresa de jogos, mas seria estranho ficar a noite inteira dentro do banco.
Então, Noah, já tendo tudo o que precisava guardado no bolso interno de sua blusa; a sua pequena câmera, uma caneta, um pequeno caderno de bolso onde fazia as suas anotações e sua carteira relativamente vazia, foi para o ponto de ônibus mais próximo após olhar qual era a melhor rota até o centro e ligou para a sua mãe para avisá-la de que ele iria voltar, muito provavelmente, apenas no dia seguinte para casa, levando um tempo, muito tempo, até que ela o atendesse.
— Oi… Mãe, você está me ouvindo?
— Sim, estou! Eu não sou surda, Noah! Porque você está me ligando de repente? Foi preso de novo?
— Não, mãe. Me escute, eu não vou chegar em casa cedo hoje, você não precisa ficar acordada me esperando.
— Entendi, tome cuidado para não ser preso de novo então.
— Eu sei, tchau mãe.
— Tchau.
Logo o ônibus chegou, estava lotado, mas levaria horas até que outro aparecesse, então ele apenas entrou e se espremeu no pouco espaço que tinha, ao menos algumas pessoas haviam descido, tornando aquilo menos desagradável. O seu destino era a rodoviária.
De lá ele poderia ir andando até o local da construção onde ocorreria a venda ilegal da arma que vinha causando tantos problemas. Com o tempo o ônibus foi ficando vazio e, após algumas paradas, ele pôde finalmente se sentar.
A viagem levou mais de uma hora até que pudesse finalmente descer para se aliviar no banheiro público da rodoviária, um lugar imundo que os funcionários públicos não conseguiam manter limpo por causa da falta de cuidado de quem o usava, era como se o fato de ser “público” dava o direito das pessoas serem desleixadas.
— Que nojo, é por isso que as pessoas preferem aguentar até chegar em casa — disse tampando o nariz, não aguentando o fedor do banheiro vazio.
Enquanto mijava, Noah parecia que iria vomitar de tão enojado que estava com aquele repugnante ambiente. Por isso, quando terminou, nem perdeu tempo lavando as mãos; ele apenas saiu rapidamente do banheiro, até porque nem tinha sabonete para lavá-las.
Ele foi até um dos hoteis mais baratos que tinha na região e alugou um quarto para passar uma noite, pegou seu caderno onde havia feito várias anotações na lan-house e começou a montar o seu plano de ação.
Primeiro, ele precisava dar um jeito de estudar a estrutura do lugar; para isso, precisou esperar até que uma brecha aparecesse, o que levou horas até que uma oportunidade para ele entrar no meio da construção surgisse, na qual ele não desperdiçou.
Enquanto estavam todos distraídos com o repentino problema com o gerador de energia, o qual era essencial para que a construção continuasse, Noah entrou de fininho e, agindo naturalmente, roubou as roupas de alguém e se misturou no meio dos novatos, nos quais ajudavam por toda a obra.
Ele evitou chamar atenção e manteve o rosto discretamente escondido o máximo que pôde de todos ao seu redor enquanto memorizava a estrutura daquele enorme lugar, anotando os pontos de fuga que poderia usar caso tivesse que escapar.
Ao final do dia, quando estavam todos indo embora, Noah pôs a segunda etapa do plano em ação; ele precisava dar um jeito de continuar lá dentro sem que ninguém o notasse, mas não era tão simples quanto parecia ser.
Havia muita gente em sua volta indo para a mesma direção. Além disso, os guardas, que haviam acabado de chegar para vigiar a noite, e todos os supervisores da construção averiguavam a área para se certificar de que todo mundo já havia ido embora antes de trancarem o lugar até às oito da manhã. Por isso precisava criar uma distração para que pudesse sumir de vista. Não dava para esperar até que algum milagre acontecesse.
Ele já tinha o lugar onde ficaria escondido pronto, mas, como não teve tempo de se esconder lá, agora precisava causar um pequeno caos durante o percurso que fazia até a saída, pois, depois que passasse pelo portão, talvez não tivesse outra chance de entrar para fotografar a venda da arma.
Enquanto andava lentamente, analisando o seu redor, reparou que nada estava a proteger a miniretroescavadeira, então, se a trava de segurança falhasse ela bateria em uma das estruturas prontas da garagem subterrânea, atravessando a porta de madeira improvisada que deixaram para que ninguém entrasse lá sem permissão. Era a melhor chance que tinha.
— Aí, alguém esqueceu algo lá dentro — disse, chamando a atenção de todos, enquanto andava ligeiramente até a miniretroescavadeira.
No meio do percurso, trombou com a última pessoa a operar aquela máquina, abatendo a pulseira que usava, arrancando-a no mesmo instante em que trombou nela, “me desculpa”.
E então ele fingiu que havia encontrado a mesma pulseira presa em uma das alavancas da miniretroescavadeira, gritando:
“Sabia que tinha visto algo… De quem é essa pulseira?”.
Foi o momento em que pôde se aproveitar da situação para destravar as rodas, fazendo-a ir parar na garagem, causando um estrago muito maior do que ele estava esperando devido à velocidade que a máquina ganhou na descida.
Pelo menos tinha conseguido o que queria; agora todo mundo estava prestando atenção no estrago que ele havia causado. Então, logo em que teve a chance, largou a pulseira em qualquer lugar e sumiu de vista enquanto todos analisavam o estrago.
— Está tudo dando certo até agora — suspirou enquanto corria silenciosamente até o esconderijo.
Noah se escondeu no segundo andar, se aproveitando da bagunça que ainda era aquela área do prédio.
Ele tinha visão de tudo o que precisava, as duas entradas para aquela obra, e como ninguém realmente esperava que algum funcionário fosse se esconder.
Foi fácil para ele passar despercebido pelos guardas e os supervisores enquanto averiguavam o lugar de cima a baixo, já que eles não faziam nada além de dar uma breve olhada por cada andar em que passavam.
Com isso, pôde se tranquilizar enquanto esperava até o tempo passar para pôr a terceira e penúltima etapa do plano em ação, até porque o guarda que deveria rondar todo o perímetro, para se certificar de que ninguém havia invadindo aquela construção, não ia muito além do primeiro andar, onde mal ficava por alguns segundos, pois tudo o que aqueles guardas realmente faziam era fofocar, jogar conversa fora e falar sobre putaria ao invés de se concentrarem em vigiar aquele lugar.
As horas passaram, o sol se pôs, as luzes conectadas a potentes baterias foram ligadas, assim como os vários detectores de movimento virados para os muros feitos de containers e todos os portões trancados, ao menos deveriam ter sido trancados.
Após todas as lojas e empresas ao redor da obra encerrarem o expediente e as ruas ficarem vazias, mercadores carregando uma maleta suspeita em mãos se aproximaram da entrada principal e falaram algo para o guarda, em seguida se comprimentaram de um jeito estranho e só depois disso tudo que o portão foi liberado para entrarem.
Após alguns minutos de espera, outro grupo apareceu; entraram pelo outro portão ao fazerem a mesma coisa com o outro guarda e se encontraram no meio daquele gigantesco lugar.
— Vocês estão a quase meia hora atrasados — reclamou, calmamente, o contrabandista com a maleta em mãos ao olhar a hora em seu relógio de pulso.
— Tivemos um contratempo.
— Espero que ninguém tenha seguido vocês.
— Relaxa, já resolvemos o problema! Agora cadê aquilo o que nos prometeram?
— Está bem aqui — disse abrindo a maleta e mostrando o conteúdo para eles.
— Maravilhoso — ponderou com brilho nos olhos.
Noah não conseguia ouvir direito o que acontecia de onde estava, por isso correu de volta para o primeiro andar, onde sabia que tinha um buraco usado para passar os objetos mais pesados que usavam naquela obra de um andar para outro. Por lá ele poderia descer para o andar térreo com o mínimo risco de ser pego.
Depois de descer pela resistente corda, ele se veria cercado por mais entulhos ainda não usados na construção, mas descer por uma corda era tão difícil quanto parecia, ainda mais sem poder fazer barulho.
Mas mesmo que com bastante dificuldade, lentamente ele estava conseguindo, enquanto ouvia os marginais conversando sobre a potência da arma e o que aquilo podia fazer, apesar de não conseguir ouvir tão claramente quanto queria por estar muito focado em não chamar atenção.
Contudo, logo que estava prestes a tocar os pés no chão, Noah acabou escorregando por causa das suas mãos suadas, fazendo pouco barulho, mas o suficiente para chamar atenção de todos. Para a sua sorte, não conseguiam vê-lo de onde estava, para seu azar, não tinha a mínima ideia de como conseguiria se safar dessa.
Ele estava quebrando a cabeça para pensar em algo útil ao mesmo tempo em que tremia desesperado. Foi então que um rato, comendo o que lhe parecia ser uma barata, apareceu. Instantaneamente, ao ver o roedor, Noah jogou a primeira pedra que viu para afugentá-lo, fazendo-o correr para longe enquanto guinchava, assustado,
“SQUEAAAK… EAK!”
— É só um rato — avisou o guarda que estava indo verificar o barulho que ouviram.
Aliviado, respirando profundamente para se acalmar depois de sentir que o seu coração estava para saltar pela boca, Noah pegou sua pequena, porém potente, câmera. E após se esconder aonde pudesse ter um bom ângulo de câmera sem que fosse facilmente pego, a pôs para gravá-los.
— Agora que vocês já sabem que ela está funcionando, nós queremos ver o dinheiro — disse um dos mercadores, apontando para a bolsa que os gangsters trouxeram.
— Pegue — falou jogando a bolsa para os pés deles.
— Se estiver faltando algo, nós iremos embora e levaremos o produto conosco — avisou ao abrir a bolsa.
— Podem conferir. Está tudo aí! Duzentos e oitenta e três mil reais.
Levou um tempo até que terminassem de conferir, mas no fim a quantia estava certa e as notas eram todas verdadeiras, então, depois que o mercador que verificou as notas acenou com a cabeça para os outros, o que segurava a maleta a jogou para os braços do gângster mais próximo.
Então eles agradeceram pela compra e foram embora. Nisso, os gangsters abriram a maleta de novo, deixando Noah, que tentava não deixar nada passar, apreensivo para ver do que se tratava e, quando um deles colocou a mão no que havia dentro, uma forte luz surgiu em um único instante, seguida por uma devastadora explosão.

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