CAPÍTULO VI
Enquanto a imprensa filma o desastre na construção da sede da empresa de jogos, várias pessoas curiosas pararam para ver o que aconteceu. Todas as colunas haviam sido reforçadas para a construção não cair.
“Foi aqui, no centro da cidade onde seria a sede de uma das maiores empresas de jogos do mundo em nosso país, onde ocorreu a explosão — demonstrava o jornalista, ao vivo. — Os policiais ainda estão tentando identificar a causa do problema. Eles tentaram perguntar aos dois dos três guardas presentes no local, no entanto eles perderam a memória por conta do choque que levaram da explosão, por isso foram encaminhados ao hospital psiquiátrico logo depois, já o outro guarda se encontra em estado crítico em um hospital especializado no tratamento de queimaduras. Ao todo cinco pessoas morreram. A polícia acredita que os mortos possam ser os responsáveis pela explosão.”
“CREEEEAK!”
— Estou em casa — avisou Noah, todo acabado, entrando na cozinha de casa.
Ao chegar em casa não teve resposta, procurou sua mãe por todos os cantos, mas nada. Ela não estava em nenhum dos cômodos da casa, porém a televisão estava ligada para as paredes, o deixando preocupado, pois às quatro da madrugada a sua mãe deveria estar na cama como sempre.
Ela era uma mulher que não saía mais depois do entardecer e, além disso, várias coisas se encontravam fora de seu lugar, e, quando chegou, o portão, assim como a porta, estavam destrancados, tendo pensado antes que ela apenas havia se esquecido de trancá-los, igual há diversas outras vezes desde que ela adquiriu a amnésia.
Mas agora era bem diferente, saindo correndo atrás dela sem nem ao menos se arrumar. Noah a procurou por todos os lugares abertos, ele passou pelo mercadinho, pelas lojas de conveniência, por todos os postos de gasolina por perto e até pelos bares, só que nada, não teve sequer uma resposta.
— Que merda, onde foi que ela se meteu agora? — se perguntou, exausto da correria, parando do outro lado da rua de uma drogaria, onde viu a sua mãe sair lentamente de lá de dentro, com uma sacolinha folgada. — É sério? Ela tinha que estar no último lugar em que eu ia ver? — Murmurou. — Oh, mãe… — a chamou correndo para o lado dela.
— Filho? O que você faz aqui? — perguntou surpresa em vê-lo.
— Sou eu quem te pergunto isso…! O que você veio fazer aqui?
— Minha cabeça estava doendo muito, então tomei o último remédio que tinha para a cabeça, por isso vim atrás de comprar mais dois pacotinhos — contou, mostrando-os.
— Era só ligar que eu comprava antes de voltar para casa!
— Eu tentei, mas não consegui achar o telefone, e olha que eu revirei a casa tentando encontrá-lo.
— Que coisa, mãe. Só… vamos voltar logo para casa.
— Eu queria parar para tomar um cafezinho antes de ir.
— Tudo bem — suspirou, cedendo —, no caminho a gente compra.
— E mais uma coisa…
— O que?
— O que aconteceu com você…? Está horrível, parece que vai cair aos pedaços.
— Foi um acidente infeliz, nada de mais, quando chegarmos em casa eu vou direto pro chuveiro.
— Deixa que eu preparo a banheira para você tomar um banho relaxante.
— Não temos banheira, mãe.
— Como não? E aquela que compramos na semana passada.
— Não compramos, só demos uma olhada depois que pagamos uma dívida com a loja.
— Ah… — suspirou, pensativa, tentando se lembrar.
No caminho foram direto para casa, ela havia se esquecido completamente do café, agora só falava da dor de cabeça que estava voltando a sentir. Então a primeira coisa que fez foi tomar o remédio que comprou e, em seguida, se deitou para descansar em seu quarto.
— Descansa, mãe. Vou deixar seu café pronto para quando você acordar — disse, bem preocupado, ajustando a coberta em cima dela.
— Obrigada, filho.
Após terminar de preparar o café e de tê-lo colocado em uma garrafa térmica, Noah, que não conseguia pregar os olhos, aproveitou para tomar um banho relativamente quente.
Não podia se dar ao luxo de forçar o chuveiro todo remendado que tinham, mas, exausto do jeito que estava, tudo o que queria era esquecer dos problemas por um tempo ao invés de tomar um banho corrido como sempre.
Ele colocou os trapos que usava no cesto de roupas sujas, já que apesar de não valer a pena costurá-las, ainda serviam como pano de chão, já o celular, surpreendentemente intacto, deixou na pia, a carteira, que ainda dava para usar, ao lado e a devastada câmera junto, e então parou diante do pequeno espelho para olhar os ferimentos espalhados por todo o seu corpo.
Noah não tinha sofrido nenhum ferimento grave, ao menos não sentia que havia quebrado algum osso, suas queimaduras eram leves, mas estava repleto de hematomas e arranhões por todo o corpo a arderem e a latejarem muito, era agonizante, ao menos em seu rosto não havia nada demais, apenas uns insignificantes arranhões e muita poeira.
Como não tinha nada que pudesse fazer, apenas respirou fundo e se preparou para tomar um banho que seria, até certo ponto, doloroso com tantos ferimentos.
Estando mais desperto do que nunca, Noah parou para dar uma olhada no que havia se salvado de sua câmera digital, pois assim ele talvez conseguisse vender as peças para acumular a grana que precisaria para comprar outra enquanto ouvia, sentado na mesa da cozinha, um dos primeiros jornais do dia, no qual falava sobre a mesma coisa de sempre: o aumento na taxa de desemprego e as alternativas que as pessoas buscavam para pagar as suas contas. Não era nada animador, mas servia ao menos para passar o tempo sem que a casa ficasse em um completo silêncio.
Para a sua surpresa a maior parte da câmera ainda estava em bom estado, inclusive a sua memória onde as imagens estavam salvas, então, esperançoso, foi direto para o seu quarto ligar o notebook para tentar fazer a transferência das imagens, torcendo muito para que desse certo, ficando aliviado ao ver que seu computador reconheceu a câmera.
Noah não perdeu tempo para transferir todas as imagens salvas para o disquete e anotar tudo o que sabia sobre o caso para colocar em seu blog com o título: “A VERDADE SOBRE O INCIDENTE NA GAME-FOX”.
— Correio! — gritou o carteiro, ao deixar a carta presa na fresta do portão e ir embora.
Noah estava finalmente se sentindo cansado, com as pálpebras a pesarem, mas conhecia a índole das crianças do seu bairro, então sabia que as chances delas roubarem a carta e usá-la para fazer qualquer coisa que não fosse entregá-la para ele eram bem grandes.
Por isso, deixou a moleza de lado e foi pegar a carta o quanto antes. No entanto, o que havia dentro dela não era nada animador: era um aviso de despejo por atraso no aluguel, dizendo que teriam sete dias para irem embora.
Mas aquilo não era algo que ele estava afim de quebrar a cabeça naquele momento, tão cansado como estava. Tudo o que ele queria agora era cair na cama.
— Que saco — suspirou, desanimado —, depois eu lido com isso.
Mas ainda que estivesse cansado, Noah tinha dificuldades para pregar os olhos, não era capaz de tirar o que viu da cabeça quando acordou desnorteado com a explosão. Alguém tinha ido atrás do que havia dentro daquela maleta, era uma mulher, não sabia como ela era, se era jovem ou velha, mal foi capaz de vê-la, ele só sabia que se tratava de uma mulher por conta de sua silhueta.
Ela parecia estar sendo bem cuidadosa antes de tocar — seja lá no que fosse — aquela extremamente pequena arma. O cuidado era tanto que usou de um comprido pegador para segurá-la e a pôr dentro de uma caixinha quadrada, e então, de repente, ela sumiu de vista junto ao brilho de seus olhos que se fecharam.
— Droga, tenho que dormir — resmungou consigo mesmo, se virando na cama, tentando limpar a sua mente de todos esses pensamentos.
“UGHHHM…! OW…!”
Noah, quando estava prestes a cair no sono, começou a ouvir alguns barulhos do outro lado da porta de seu quarto, mas, como estava sonolento, levou um tempo até que fosse capaz de entender do que se tratava enquanto seu corpo ainda não reagia.
Quando veio finalmente o choque de realidade, não perdeu mais tempo na cama e foi ligeiramente ver o que era que estava acontecendo para a sua mãe estar a gemer tanto de dor, para ela ter saído de seu quarto aonde estavam todos os remédios da casa, além de um galãozinho de água e um copo para ela encher.
Ela nunca tinha feito isso antes, geralmente, quando estava muito mal, reclamava para ir no hospital no dia seguinte logo depois em que acordava, justo no momento em que o via pela primeira vez no dia.
Para piorar a situação, a sua mãe estava no chão, apoiando-se na parede em uma tentativa fútil de se levantar, e a pouco menos de três passos de distância do quarto de Noah.
— Mãe… — gritou, correndo desesperado até ela. — O que aconteceu?
A senhora sequer conseguia falar direito por causa de toda dor que sentia na cabeça, ela apenas ficava a pressionar a testa com sua mão no mesmo lugar, estava tremendo muito e ofegava enquanto repetia sem parar: “Ai… minha cabeça… ai, minha cabeça…”.
O estado dela era lamentável, o local em que ela estava pondo a mão na testa havia inchado um pouco, por isso, preocupado, ele não hesitou em levá-la para o sofá e chamar alguém que pudesse ajudá-los, mas às seis da manhã era difícil que alguém o atendesse, ainda assim, ligou para todo mundo que conhecia, porém, nada, mesmo assim ele persistiu e persistiu de novo e de novo.
A cada segundo que se passava lhe parecia ser uma eternidade diante do desespero, não sabia o que fazer, poderia ir atrás de um táxi, mas seria difícil de encontrar um tão cedo, principalmente morando em uma região tão perigosa da cidade, e para o seu azar que não parecia parar de aumentar, não havia ninguém por perto com carro, todos iam de ônibus para o trabalho.
Ele estava a perder as esperanças, chegou a largar o celular por um instante, no entanto, em seguida, o seu celular tocou, era a Giulia quem estava o ligando, o deixando extremamente aliviado para que pudesse pensar.
Após explicar toda a situação para ela, esperou até que elas aparecesse para socorrê-los enquanto tentava, de todas as formas, dar um jeito de aliviar a dor de sua mãe, com remédios, água e até com a planta medicinal que ela cultiva em casa, mesmo sem saber ao certo para o que ela servia.
— Aguente firme, mãe. Logo, logo nós chegaremos no hospital — disse após fracassar em tudo o que tentou fazer para ajudá-la, até ouvir o carro da André parar em frente de sua casa, o som que o fusca fazia era inconfundível.

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