CAPÍTULO 10: O FUGITIVO (2/4)
Elas tinham pressa, por isso deixaram a conversa de lado e se focaram em colocar todas as caixas dentro da van o mais rápido que conseguiam e Noah as ajudava tirando as caixas do buraco.
Levou um tempo, mas quando finalmente terminaram elas começaram a trocar de roupa, colocaram uma maquiagem para se disfarçar, perucas, trocaram de roupa e se armaram para caso as encontrassem. Precisavam ter muita cautela, por esse motivo que não poderiam perder mais tempo ali.
— Noah, é aqui que nós nos despedimos — disse Giulia, secamente, o abraçando.
— Não fale como se nunca mais fossemos nos ver… — pediu a abraçando mais forte.
— Estamos sumindo da cidade — explicou André, enquanto mexia na menor das caixas. A única que não haviam guardado.
— O que? — suspirou, chocado. — Para onde vocês vão?
— Não sabemos — disse Giulia, agarrada nele.
— Como assim não sabem?
— Por medidas de segurança, só saberemos disso quando pegarmos as passagens — contou, enquanto se aproximava dele com um colar que tirou da caixa. — E é por isso que vou te dar o meu último presente, ou melhor, nosso último presente.
— Isso é…? — contestou pegando o colar.
— Um fragmento — disse Giulia —, só que não funciona, ao menos não fomos capazes de usá-lo!
— Como conseguiram isso?
— Da mesma forma de sempre, através de nossos contatos — explicou André.
— Incrível.
— É mais uma pedra normal como qualquer outra agora, mas é o nosso jeito de fazê-lo nunca se esquecer da gente — comentou Giulia.
— Pior que não tenho nada para vocês. Já sei — murmurou, tendo uma ideia —, os meus aneis, vão servir nas duas — falou entregando-às após certo sufoco para tirá-los.
— Se não servir, fazemos colares — brincou André. — É isso então…
— Sim — concordou.
— Adeus Noah — se despediu Giulia, com mais um abraço.
— Adeus.
— Quando estiver em sua casa, e em segurança, olhe a carta que deixei em seu bolso, nela tem o número de alguém que vai poder te ajudar a sumir daqui em segurança e irá ficar sob os cuidados de sua mãe no nosso lugar — avisou André.
— É um amigo nosso, de confiança — complementou Giulia.
— Obrigado, por tudo.
— Obrigado a você também, por tudo — devolveu André, agradecendo pelas duas.
— Mais uma coisa antes de irmos. Noah, sugiro que esqueça os supers, ou você vai se meter na mesma encrenca que a gente — alertou Giulia.
— Eu sei!
— Aguente firme até o dia em que nos veremos de novo — disse André.
— Fica tranquila, estarei mais forte do que nunca no exército!
— Até a próxima, Noah.
— Até.
Em seguida, com muita cautela, elas saíram de dentro da casa abandonada e se despediram pela última vez dele antes de irem embora naquela pequena van, ficando, ele, parado só as olhando partirem.
E então, percebendo que nada voltaria ao normal tão cedo, decidiu, antes de tudo, ir até a sua mãe, pois não sabia se voltaria a vê-la depois de tal notícia.
Era uma longa caminhada até o hospital, mas como não tinha um centavo sequer sobrando no bolso, ir de ônibus não lhe era uma opção, ainda assim, desesperado para olhá-la pela última vez, não economizou forças para chegar o mais rápido possível que podia andando.
No caminho, conforme ele se aproximava cada vez mais do hospital, foi ficando nervoso, não sabia como reagir diante de sua própria mãe com tantos problemas na cabeça, ainda mais que se sentia culpado agora por todos os problemas, já que as coisas só foram ficando cada vez piores depois que ficou fissurado nos “supers”.
Talvez se não tivesse bebido demais na noite em que perdeu o seu emprego com a falência do jornal, se tivesse ido para casa desde o início, ou ao menos ido atrás de suas melhores amigas para lidar com a situação, não teria se deparado com, seja lá quem fosse, que atravessou uma porta de vidro enquanto estava caído com a sua cabeça nas nuvens sem entender nada e não teria ido atrás de tais informações que lhe trouxeram tantos problemas poucos anos depois.
No hospital, os médicos não deram a ele nenhuma notícia positiva, mas nada de diferente ao longo das poucas horas em que passou fora, indo, logo em seguida, para o quarto em que sua mãe estava junta de outras pessoas hospitalizadas.
— Oi, mãe… — cumprimentou ao se agachar ao lado da cama, segurando a mão dela. — Eu não sei se a senhora pode me ouvir ou não, mas não tenho muito tempo, por isso que terei que ser rápido! Primeiro, me desculpa, mesmo com todo o seu esforço, eu fracassei em tudo. Não fui capaz de te ajudar quando mais precisou e agora, mesmo com a senhora nesse estado, eu estou indo embora e sequer sei para onde vou, não poderei ficar aqui com a senhora até que as coisas se ajustem. A senhora sofre, e é tudo minha culpa, porque não fui cuidadoso o bastante, porque atrai problemas para as pessoas que só queriam o meu bem, porque não te ouvi quando mais novo e me envolvi com coisas que não posso voltar atrás, por isso, me desculpa por estar indo embora agora, mãe — pediu novamente, com lágrimas nos olhos, nas quais ele não conseguia segurar —, me desculpa por ter causado tantos problemas, ao menos você vai ficar sob os cuidados de alguém que, apesar de eu não o conhecer, é amigo da Giulia e da André, então acredito que estará em boas mãos, além de cercada por médicos prontos para socorrê-la, então fique bem logo. Por fim, eu fiz um presente pra senhora, pro seu aniversário que está chegando, e espero que goste, é algo que fiz usando seus materiais de tricô, não sou bom nisso, mas eu me esforcei bastante, por isso, se der, eu passarei aqui para entregá-la amanhã, antes que a ambulância chegue para levá-la.
“TOC-TOC!”
— Com licença, senhor — chamou a enfermeira, após bater na porta —, agora é a hora do banho dos pacientes, então preciso que você saia agora, ninguém pode estar aqui durante o banho. Para não comprometermos a privacidade de ninguém.
— Eu sei, a médica já tinha me informado sobre isso quando cheguei.
— Desculpe interrompê-lo.
— Tudo bem, não tem problema.
Enquanto andava vagarosamente, perplexo com tudo o que estava a lhe acontecer tão de repente, ficou a mexer no celular, estava a pagar tudo e qualquer vestígio das duas que ele pode encontrar ali dentro. Naquela situação não podia arriscar colocá-las em perigo caso se visse capturado por alguém, era tudo uma questão de confiança que continham de ambas as partes.
Então, enquanto tentava se manter calmo para não se desmantelar em lágrimas, resolveu dar uma olhada de imediato no papel em seu bolso, o qual não tinha a menor ideia de quando foi que havia sido colocado ali. De qualquer forma, como já estava perto da rua de sua casa e havia se certificado de que ninguém tinha lhe seguido, não via problema em se adiantar, mas antes que sequer tocasse no papel em seu bolso, ouviu sons de sirenes; uma viatura o esperava em frente ao seu lar, junto do senhorio do imóvel.
Eles pareciam estar conversando sobre algo enquanto pessoas curiosas os observavam. Ao menos ninguém tinha lhe notado, ainda mais estando distante deles, já que sua casa ficava do outro lado daquela extensa quadra.
Estando distante, ele se aproveitou da distração e deu meia volta, pronto para correr, no entanto, nisso, acabou trombando em alguém logo atrás, atraindo a atenção das pessoas, era uma mulher que nunca tinha visto antes que estava, assim como ele, caída no chão diante dos seus olhos.
Era bonita ao seu olhar, apesar de parecer ter uma certa idade, porém, isso não era hora para pensar nisso, então se levantou ligeiramente e se desculpou enquanto corria o mais rápido que podia, ignorando as ordens dos policiais para parar, os forçando a irem atrás dele.
“WIIIIIIIIIIIIIIIRON-WIIIIIIIIIIIIIIIRON…”
Ele estava em completa desvantagem, não tinha como ele correr mais rápido do que um carro; ao menos, podia usar da diferença de tamanho e todas as rotas que ele conhecia da cidade para ter uma chance de escapar.
Por isso, com a intenção de chegar na estrada mais movimentada e próxima que conhecia, cortou caminho por becos, passou pelo meio do mato alto, repleto de insetos nocivos, e se escondeu em lugares apertadíssimos quando não tinha para onde correr, tudo para que conseguisse despistá-los, porém, rapidamente o encontravam.
Para sua sorte, tinha uma bicicleta sem cadeado ao lado de uma papelaria e estava em uma descida, então a botou na marcha mais pesada e pedalou a toda velocidade para que chegasse logo na avenida, na qual já conseguia ver, mas, mesmo com todo o seu esforço, o carro continuava a ser mais rápido do que ele, sendo atingido pelo pára-choque da viatura e arremessado para longe, só parando de rolar rua abaixo ao trombar com a porta de um carro parado no meio do trânsito, a destroçando com o impacto.
Pelo menos não havia ninguém do lado do piloto, apenas no banco de trás, saindo todo mundo ileso do incidente, inclusive Noah, que deixou a todos perplexos, ninguém deveria ser capaz de se levantar depois de tamanha pancada, mas ele, apesar de estar claramente dolorido, não só havia ficado em pé, como saiu correndo pelo meio daquele monte de veículos parados até sumir de vista na pequena favela do outro lado antes que a viatura o alcançasse.
Noah não sabia o que iria lhe acontecer ao adentrar cada vez mais na favela, pois aquele era o lugar mais perigoso da cidade, onde uma facção tinha total controle sobre o lugar. Se sentia, de certa forma, inseguro.
O único lado bom era que nenhuma viatura ousava entrar ali sem mais nem menos, até porque, as chances de morrer eram grandes, ainda assim, ele se perguntava se havia feito a escolha certa, mas, conforme se cansava de correr, começou a ver que aquele lugar, apesar dos vários traficantes armados, desde jovens a velhos, que haviam por todos os cantos, era até que bem tranquilo.
As pessoas conviviam naquele meio como se nada estivesse errado, ao menos foi o que pensou no início, mas com o tempo viu que estava enganado até certo ponto, pois, as pessoas, apesar de estarem acostumadas a conviver naquele meio, evitavam ao máximo os pontos principais dos traficantes, apenas as inocentes crianças, sem a mínima noção do perigo, que viviam despreocupadas.
Com o passar das horas em que ficou a explorar a favela onde todos, sem exceção, viviam nas mesmas condições que ele, já sem nenhuma dor, começou a se sentir exausto e molenga. Ele não se aguentava mais em pé, precisava arranjar algum lugar para descansar antes que ficasse ainda mais escuro, se aconchegando em cima de um enorme reservatório de água de uma escola infantil totalmente mal estruturada, dormindo rapidamente debaixo daquele gélido céu estrelado, coberto por jornais que pegou sem ser notado.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.