Capítulo 107 — Olha Quem Está de Volta (Título sem correlação com o capítulo)
Na frente do pequeno pendurado nas paredes do tronco, Ayda terminava de se arrumar para o longo dia que estava por vir. Seus longos dreadlocks foram envolvidos e organizados por uma fina argola de ouro, deixando apenas dois deles livres sobre o seu rosto. Sua couraça já estava devidamente fechada sobre o seu corpo, assim como sua calça larga marrom e botas escuras de cano alto. Em sua cintura, um conjunto de bolsas residiam no largo cinto de couro preto.
Delicadamente, posicionou as duas argolas em cada orelha, uma de prata no nariz e passou uma sombra delicada sobre as pálpebras. O toque final era o seu longo e belo turbante verde-esmeralda envoltos sobre o seu pescoço, exalando uma sutil fragrância de mirra.
Com a sua aljava cheia de flechas na cintura e o seu arco de ébano preso em suas costas, ela estava pronta para começar mais um dia de patrulha. Do outro lado da zona interna do tronco, Lily dormia profundamente após ter passado a madrugada inteira fugindo dos milicianos. Claro que isso também foi acentuado pelo chá de camomila oferecido pela guardiã, pois não queria ser incomodada em suas atividades.
Alguns minutos depois, ela estava novamente no local onde enfrentou os cinco milicianos. Ela revirou seus corpos, procurando qualquer tipo de pista que pudesse levá-la a ter alguma informação sobre a Mão Sombria. Porém, para a sua surpresa infeliz, nenhum deles tinha a pílula de transformação.
— Diabos! Por que eu nunca encontro nada que preste?
Havia um componente muito específico na missão de Ayda: não ser revelada em hipótese alguma. Mesmo sendo uma guardiã habilidosa e especialista na arte da arquearia e furtividade, ela tinha ciência que a milícia de Leonard, mesmo não sendo tão habilidosos no confronto, conseguiam montar um perímetro bom o bastante para encontrá-la caso avançasse imprudentemente. Ela sabia também que se fosse revelada, eles poderiam sumir com a operação ou fazer com que seu rosto fosse divulgado em todos os cantos da cidade.
— Seria tão mais fácil se eu conseguisse chegar lá chutando a porta e pegasse o que eu quisesse…o complicado é que eu nem sei ao certo o que ou quem estou procurando.
Ayda revistou os cadáveres mais uma vez, porém algo chamou sua atenção: um pequeno pedaço de papel amassado no bolso direito. Ao desembrulha-lo, encontrou uma série de números avulsos nele.
— Isso parece um código…e essas letras também, não dá pra ter certeza. Droga! Quando parece que achei algo bom, fico perdida novamente!
Frustrada, ela guardou o papel e voltou para o seu acampamento, para tentar pensar novamente. Mesmo a entrada estando a trinta metros do solo, ela conseguia subir graças a vários entalhes cuidadosamente feitos no tronco para posicionar suas mãos e pés, ao mesmo tempo que era praticamente invisível ao olho nu.
Ao retornar, deu de cara com a Lily, acordada e a observando, atenciosamente.
— Você não deveria estar dormindo agora?
— Eu tenho um sono leve. E também eu sou uma pessoa diurna, então não vou conseguir dormir bem nesse horário.
— Entendo. Bom, eu vou sair daqui a pouco, então você pode ficar por aí mesmo.
— Não posso ir com você?
Ayda a encarou, com a sobrancelha erguida.
— Você não está sendo procurada pela milícia do homem mais poderoso da cidade?
A jovem deu de ombros. Mais uma vez, teria que ficar confinada em um lugar enquanto os outros tinham grandes aventuras do lado de fora.
— Pelo menos na fazenda eu podia passar meu tempo com as plantas… — murmurou.
Sem paciência para as reclamações de uma adolescente, Ayda pegou um enorme pergaminho e o estendeu sobre o solo. Nele, haviam vários rascunhos de pessoas conhecidas em Santa Marília, junto com anotações embaixo dos seus “retratos”. Até aquele momento, ela conseguiu traçar ligações entre o regente, as principais famílias latifundiárias e a milícia. Porém, havia algo faltando: quem estava distribuindo aquelas pílulas para os soldados? Já tinha investigado a única apotecária da cidade, mas ela não tinha nada consigo.
— O que é isso? — perguntou Lily, se aproximando.
Ayda pensou em manter silêncio, mas não ganharia nada com isso.
— É só um mapa de pessoas que estou investigando. Eles estão envolvidos com uma organização maligna chamada Mão Sombria, conhece?
A jovem permaneceu em um silêncio aterrador por alguns segundos, algo que foi percebido pela guardiã.
— Lily — disse ela, pondo suas mãos suavemente em seus braços. — Você sabe de alguma coisa? Qualquer informação que você possa ter seria muito bem apreciada.
Ela olhou para o solo, como se as piores memórias da sua vida estivessem remoendo dentro da sua cabeça. A violência, a fome, o frio, a truculência da carroça balançando, as moscas, o cheiro de morte e a incerteza de sobrevivência começaram a vir à tona novamente.
— E-eu não sei muita coisa sobre eles…mas sei que foram responsáveis pelo meu sequestro. Eu estava voltando do colégio com minhas amigas, quando fiz um desvio e um homem estranho veio na minha direção. De repente, eu apaguei e acordei amarrada em uma carroça, junto com outras pessoas.
Pela primeira vez, Ayda estava interessada em escutar o que aquela garota tinha para falar. Ela contou toda a história desde o momento em que seus captores foram mortos, seguindo para o ataque do druida, a morte e renascimento do Huan Shen e quando foi absorvida por uma árvore. Em qualquer outra circunstância, Ayda acharia que tudo isso era uma ficção mal-escrita, mas o mundo era tão bizarro que havia um fundo de verdade em tudo aquilo.
— Eu sinto muito por tudo que você passou, de verdade — disse Ayda, com um tom gentil.
— Obrigado! Bom, pelo menos não posso dizer que eu só perdi coisas nesse meio-tempo. Eu consegui abrir meus meridianos para a magia, conheci pessoas muito boas e tive um ótimo mentor.
— Eu prometo que irei atrás dessas pessoas e as farei enfrentar a justiça divina! Por todos que sofreram em suas mãos.
— Espera! Já que tanto você e ele estão indo atrás da Mão Sombria, não seria melhor se trabalhassem juntos? Assim eu poderia ter dois mentores.
Ayda riu.
— Eu trabalho sozinha, pequena. Com todo respeito, mas seu mentor parece ser um pouco amador e facilmente suscetível a armadilhas. Ele é grande, forte e um pouco habilidoso, porém esse trabalho exige agilidade e precisão.
Lily ergueu uma sobrancelha.
— Se você diz…
— De qualquer forma, essa foi a última pista que encontrei em um daqueles caras que estavam te perseguindo mais cedo — disse ela, entregando o pedaço de papel encontrado. — Parece algum tipo de código ou…
— Coordenadas?
— O que?
— Isso são coordenadas. Você coloca esses números em um mapa e eles te revelam a posição.
Embora fosse uma excelente guardiã, Ayda sempre usou a posição dos astros, mapas físicos e os indicadores naturais para se localizar na natureza. Era muito boa nisso, inclusive.
— Como você pega uma série de números e transforma em um lugar?
— Eu aprendi um pouco disso no colégio…você teria um mapa-múndi aí, por acaso?
Da sua mochila enorme, ela tirou um porta-mapas de couro em formato de cilindro. Dentro dele, vários mapas dos mais diversos tamanhos e escalas. Quando Ayda puxou o mapa-múndi, ele ocupava quase metade da área interna do tronco. Uma maravilha feita à mão. Lily conseguia ver os detalhes nas bordas e as informações com os mais variados tipos de lápis e tinturas, indicando que sua construção foi feita ao longo de muitos anos.
Porém, ele não possuía escala. Em várias partes, inclusive, algumas regiões pareciam deformadas para se encaixar no papel e para atender uma necessidade específica.
— Ok…talvez eu consiga extrair algo disso daqui?
— Como assim “talvez”? Esse é um mapa muito bom! — retrucou Ayda.
Definindo o ponto zero na capital imperial de Bela Vista, ela colocou uma folha de papel manteiga translúcido sobre o mapa-mundi, no qual ela desenhou algumas linhas. Devido ao mapa ser desproporcional, não conseguiria atingir a precisão total nas coordenadas, mas chegaria em algum lugar.
Após alguns minutos, Lily fez um pequeno círculo no papel e o removeu, apontando para uma estrada na fronteira de Santa Marília.
— Acho que você vai encontrar o que procura aqui.
Ayda se lembrou da estrada, mas não tinha nada de especial nela. Apenas terra batida, mata rasteira e uma apoteca vagabunda no meio da estrada.
Foi quando se deu conta que a apoteca sempre estava fechada quando passava por ela. Talvez estivesse na hora de fazer uma visitinha ao lugar.

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