Índice de Capítulo

    Após tamanha turbulência pela manhã, nada melhor do que um pouco de paz naquele lugar abandonado pelos deuses chamado de Selva de Concreto. Lion e Christian, que sobreviveram por muito pouco no confronto contra o Malavares e que quase tiveram suas peles arrancadas por uma bruxa louca, finalmente poderiam desfrutar um pouco de tranquilidade.

    Preferindo manter distância do casebre amaldiçoado que se encontravam, a dupla rodeava pelo grande corredor de salgueiros que destinava até a sua base provisória na cabana da bruxa. Já tinha cerca de uma hora desde que Samir saiu em direção ao templo e desde então, a paz e o tédio começaram a se misturar.

    — Eu quero ir pra casa — disse Christian, passando seu cigarro para Lion.

    — Todos nós queremos, Chris. Pelo menos essa merda toda está no fim.

    — Pois é, meu nobre. Quem diria que em uma simples viagem, daríamos de cara com um monstro daqueles e ainda por cima, a bruxa que os convocou? Será que alguém vai acreditar nessa história quando voltar e contar pra todo mundo?

    Lion inclinou seu rosto na direção dele.

    — Eu diria que era mais uma das suas mentiradas. Que nem o dia em que você disse que cheirou cocaína no cu de uma stripper.

    — Mas eu fiz isso! — respondeu Christian, afirmativamente. — Uma semana depois ela ainda sentia o buraco arder, foi loucura, meu nobre.

    — Ninguém em sã consciência deixaria fazer uma porra dessas em si mesmo — disse Lion, rindo. — Tipo, deve ser degradante para um caralho. Alguém colocando o nariz no seu peidante por livre e espontânea vontade, loucura total.

    — Ah, meu amigo! Você casou cedo, quem mandou cair no golpe de “alma gêmea”? Você é quem não tá vivendo as coisas boas da vida e agora fica aí de putaria e choro pra cima de mim. E detalhe: de lá pra cá, já fiz isso umas três vezes.

    — Caralho, Chris! Vai mentir na casa da porra — esbravejou Lion, puxando a fumaça do cigarro. — Eu tô tentando fazer meu trabalho aqui na moral e você inventando falsidades.

    — Não me culpe se sua esposa é fria feito a porra de uma tábua na cama, meu nobre. Quem mandou ir de cabeça na primeira emocionada que deu? Agora se fode aí!

    — Escuta, se você falar da Marina mais uma vez eu juro que… — ameaçou Lion, até que algo estranho atingiu suas narinas… — Tá sentindo esse cheiro?

    Christian balançou a mão no ar, tentando dissipar o máximo possível da fumaça do cigarro. Apesar do nariz afetado pela nicotina, um cheiro suave e profano atingiu suas narinas, fazendo-os imediatamente tapá-los.

    — Caralho! Que cheiro ruim da porra é esse? — questionou Christian, tentando achar a direção.

    Lion olhou aos seus arredores, enquanto tentava se guiar com certa dificuldade pelo cheiro até sua origem. Então, seus olhos travaram seu foco em uma árvore específica, onde um fino, quase invisível, fio de fumaça saía do seu tronco.

    — Chris, destrava o rifle. Vou investigar aquela árvore. Prepare para abrir fogo no primeiro sinal de bizarrice.

    Apesar de não saber do que poderia acontecer, Chris não levou o conselho levianamente. Seu rifle foi imediatamente destravado e posto em mãos, pronto para dar cobertura ao seu parceiro.

    — Eu vou avançar — murmurou Lion, dando um passo de cada vez.

    Receoso, o mercenário mantinha o rifle em mãos, segurando-o com mais intensidade à medida que ia se aproximando da árvore. Ele olhou para o alto, para os lados, ao redor, até garantir que não havia nada ali. Então, achou uma cavidade dentro do tronco, onde uma luz fraca brilhava.

    — O que é isso?

    Uma vela, não possuía mais do que a grossura de um dedo mínimo estava fracamente acesa. Aquilo era estranho, pois ainda era claro e aquele lugar não parecia um memorial aos mortos. O mercenário deu de ombros e soprou dentro do tronco, apagando o último vestígio de luz que estava ali dentro.

    — Era alguma coisa, Lion? — perguntou Christian, em um tom de voz alto.

    — Nem, só uma vela perdida mesmo! Alguém andou rezando por aqui, eu acho.

    Christian deu de ombros. Aparentemente, não ocorreria mais nada interessante pelo resto do dia. Sem nada mais para fazer, pegou outro cigarro e acendeu seu isqueiro, porém as chamas se apagaram. Ele achou aquilo estranho, então tentou acender mais uma vez, só que toda vez que a menor faísca surgia, ela desaparecia no ar.

    — Que porra é essa? — perguntou Christian, confuso.

    Quando seu rosto se inclinou para sua direita, uma figura completamente inesperada surgiu do seu lado. Uma criatura com a pele tão branca quanto o solo, repleta de veias com uma tonalidade dourada. Seus olhos pareciam feitos de gesso e suas expressões estranhas. Seu cabelo se movia de forma anormal e sua constituição parecia tão frágil, mas ao mesmo tempo tão resistente que chegava a ser confuso.

    — MERDA!

    O mercenário deu um salto para trás e começou a abrir fogo adoidado, disparando com seu rifle como se não houvesse amanhã. Ao escutar os barulhos, a reação imediata do Lion foi sacar o seu rifle, se abaixar e abrir fogo também, mesmo sem saber do que se tratava. Correr riscos naquele lugar não era uma opção.

    Então, o pente acabou. Christian puxava o gatilho, mas nada saía. Quando olhou na direção da criatura, ela ainda permanecia lá, com todos os buracos em seu corpo sendo fechados em uma velocidade extremamente anormal. A criatura cuspiu uma das balas, que caiu no chão completamente revestida de sangue negro.

    — Existem pouquíssimas coisas que matam a nossa espécie. E embora eu já tenha recebido a dádiva da morte duas vezes, não será com isso que receberei a terceira.

    Ao ver que sua arma não teve nenhum efeito naquela criatura, ele entrou em desespero. Sacando seu machado, ele balançou contra o seu pescoço com toda a sua vontade, numa esperança desesperada de que as coisas pudessem se resolver.

    — MORRA!

    A criatura segurou seu braço com a mão esquerda em pleno ar, e então usou sua outra mão para tocar na testa de Christian. O mercenário congelou, como se estivesse prestes a presenciar um dos maiores momentos de sua vida.

    — Incendiar — disse a criatura, calmamente.

    No segundo seguinte, uma torrente de fogo subiu do solo e envolveu o mercenário, cobrindo cada parte do seu corpo. O que se seguiu foram gritos de dor e desespero, enquanto o mesmo rolava pelo chão, em uma esperança vã de apagar as chamas.

    — Não adianta. O enxofre está grudado na sua pele agora, só vai deixar a situação pior.

    Lion congelou naquele exato ponto, vendo seu colega que conhecia a mais de cinco anos agonizando até o momento em que seu corpo parou de se mexer. Foi tão rápido, instantâneo e brutal, que o mesmo ponderava como aquele tipo de coisa poderia ser justo.

    — Quem é você, criatura? — perguntou Lion, aterrorizado.

    — Temos alguém cordial aqui! Bem, da última vez que me nomearam, me chamaram Sião, o Herdeiro das Chamas Selvagens. Aquele que representa a morte para quem desrespeita a sagrada Selva de Concreto. E hoje, meu caro! É um péssimo dia para estar do lado errado do meu humor.

    No alto da cabana, a situação de Kalira não estava nem um pouco fácil. Seu olho direito mal estava funcionando, devido a martelada que recebeu a alguns minutos. Sua pele pálida estava com tons de roxo espalhados por todo o corpo. Samir não estava errado, tinha bastante gente que só precisava de um alvo indefeso para expressar toda a sua fúria.

    — Essa vadia não deu um único grito sequer! — disse Benício, puxando uma chave de fenda de dentro do abdômen dela. — Foi assim que você fez meu amigo morrer, sua bruxa imunda?

    A bruxa mantinha sua expressão dura, encarando-o como um lobo encara sua presa. Apesar de estar amarrada, machucada e sem nenhuma esperança, sua vontade ainda era algo que atemorizava todos aqueles homens.

    — Você ouviu aqueles tiros lá embaixo? Será que aconteceu alguma coisa? — perguntou um dos arqueólogos, passando um pano úmido nas ferramentas sujas.

    — Nem, os mercenários devem estar apenas brincando. A bruxa, infelizmente, ainda está viva e mantém todo esse domínio livre de monstros. Inclusive — mencionou o outro arqueólogo, apontando para a porta. — Tá ouvindo isso? Passos. Eles devem ter cansado de esperar lá embaixo.

    De repente, um pequeno sorriso se esboçou no rosto da bruxa, que cobria seus dentes brancos com o vermelho do seu sangue. Era uma imagem particularmente bizarra e até mesmo amedrontadora.

    — Do que está rindo, aberração? — perguntou Benicio.

    A porta se abriu, seguida de uma criatura pálida com veias douradas em seu corpo. A princípio, os arqueólogos ficaram confusos, mas o horror surgiu quando viram a cabeça do Lion pendurada na sua cintura. Suas mãos começaram a tremer e alguns começaram a ter vazamentos em certas partes da calça. O sulfurizado residia ali de pé, apenas olhando a situação completamente impassível.

    — Vim atender o seu chamado, bruxa. Porém, a paciência parece não ser o seu forte — disse Sião.

    — Seu desgraçado! Já tem duas horas que eu tô presa aqui com esses caras! Quem tem zero noção de tempo é você, retardado! Anda, me tira daqui!

    Desesperado com o que estava prestes a acontecer, Benicio teve um surto de coragem e apontou a chave de fenda para o pescoço da bruxa, com suas mãos trêmulas.

    — Para trás! Vá embora ou eu vou matá-la agora mesmo! — bradou Benício.

    — Sião, por favor, não coloque fogo na minha cabana, deu trabalho para construí-la. Não quero ter que fazer isso tão cedo de novo.

    Embora Kalira não pudesse competir com a velocidade de Sião, por ser uma bruxa, ela conseguia acompanhá-lo com seus olhos facilmente. O que infelizmente não foi possível para os arqueólogos, que só conseguiram ver um borrão rápido antes dos seus pescoços serem torcidos, junto com um enorme punho atravessando seus tórax.

    Em pouco mais de um segundo, os três arqueólogos caíram no chão, duros, mortos e miseráveis.

    — Seu poder aumentou ultimamente? — perguntou Kalira.

    — Um pouco, sim. Eu possuo um controle maior das minhas chamas — respondeu, enquanto partia as cordas que a mantinham presa. — Consegue andar?

    — Não, cortaram meus tendões. Eu preciso estar no templo de Malchi-Zarum antes que seja tarde demais!

    Sião ergueu uma sobrancelha.

    — Desse jeito? Não espera que eu vá carregando você, né?

    — Não, Sião. Eu não esperava gentileza da sua parte em relação a sua criadora. Achei que seria pedir demais.

    — Eu não pedi para ser trazido de volta pra esse mundo! Agora tenho que permanecer preso nessa vida e nesse corpo por capricho da sua parte. Consentimento significa alguma coisa para vocês bruxas?

    Kalira deu de ombros.

    — Não posso falar por todas nós, mas para mim não significa muita coisa. De qualquer forma, preciso que você me faça um favor: pegue a minha mochila, deve estar jogada por aí por aqueles brutamontes, por favor.

    Não demorou muito para Sião encontrá-la. Tinha sido largada na base da Colonizadora, totalmente ignorada pelos homens ali. Era uma bela mochila, mas particularmente pequena.

    — Tome. Espero que tenha um milagre aí dentro.

    — Mais ou menos isso — disse a bruxa, com um sorriso.

    Entornando seu conteúdo no chão, um recipiente de madeira e alguns frascos de vidros pequenos puderam ser encontrados ali no meio.

    — O que é tudo isso? — perguntou Sião.

    — Eu vou fazer uma pílula. Uma que vai resolver grande parte do meu problema agora.

    — Não entendo quase nada, mas esse tipo de coisa não demora para fazer? Tive a impressão que estava com pressa.

    — E eu estou! Mas deixa eu te contar algo: nem toda pílula precisa do tempo de maturação. E a que vou fazer foi especialmente desenvolvida para isso! O problema é que ela tem um prazo de validade muito curto para ser consumida, por isso não dá para ter em estoque.

    Posicionando o pote de madeira no solo, ela derramou o primeiro frasco, contendo a água parada centenária do templo de Malchi-Zarum. Ainda possuía alguns vestígios de musgos nela. Adicionalmente, colocou um pouco de seiva de pinheiro sangrento e um pequeno frasco de medula óssea humana líquida. Sião comprimiu as pálpebras, confuso com tudo o que estava acontecendo.

    Kalira fez um círculo com seu próprio sangue no chão de madeira, gravando letras de idiomas antigas em suas extremidades. Suas mãos convergiram em direção ao pote, emanando uma fumaça negra que transformava a mistura desagradável em uma substância condensada e viscosa. Ela pegou a maior parte da massa e começou a girá-la entre suas palmas em movimentos circulatórios, formando o que parecia ser uma pequena esfera de massa.

    — Fogo, por favor! — disse Kalira.

    Sião deu de ombros e estalou os dedos, fazendo a massa em sua mão entrar em chamas.

    — Seu controle realmente é bom, hein?

    — Eu tenho treinado. E então, vai precisar de mais alguma coisa? Eu quero ir embora, já.

    — Sim! —  respondeu a bruxa, cruzando as pernas. — Vou precisar que você mantenha meu corpo seguro enquanto eu absorvo a pílula. Ela não é uma das mais rápidas para se absorver e preciso de concentração total enquanto eu absorvo sua essência. Ela vai refratar em todos os meus meridianos.

    — Então depois disso, posso ir embora?

    — TÁ! VOCÊ PODE! Parece que é incapaz de fazer a porra de uma gentileza! Agora só fica aí, tá?

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota