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    O manto laranja do sol poente se estendia pelos horizontes do céu de Santa Marília. Seria aproximadamente uma hora e meia até chegar em casa, então seria bom não ir de mãos vazias. As lojas se fechavam, enquanto os restaurantes e casas de eventos começavam a abrir.

    “Uma coisa doce poderia servir para aliviar o estresse.”

    Parando na primeira cafeteria que encontrou, o emissário se sentou no banco próximo ao balcão. O estabelecimento ainda estava com pouco movimento, com apenas duas pessoas sentadas em lugares opostos. Sua presença ali causou um desconforto perceptivo nos funcionários, que não tiravam os olhos dele toda vez que faziam alguma atividade.

    “Isso é até engraçado, pois o que eles ganham de salário é quase a mesma coisa que um trabalhador dos campos. Se contar a carga horária, ainda saímos no lucro. Mas parece que o ambiente realmente molda as pessoas.”

    — Boa noite — disse Huan Shen, para o atendente no balcão. — O que vocês têm de bom aqui em tortas?

    O atendente, que parecia estar na casa dos seus vinte anos, congelou por alguns segundos. Huan Shen se questionava como a diferença de bairros fornecia um tratamento tão destoante que algumas vezes parecia até cartunesco.

    — É…temos algumas de limão em promoção ali, feitas anteontem. Acho que consigo fazer até trinta e cinco por cento de desconto pra você.

    Normalmente, isso renderia um soco violento em quem fez isso. Embora gostasse de promoções como qualquer ser humano com capacidade matemática de nível básico, aquela oferta tinha sido feita como uma forma de expulsá-lo o mais rápido possível do estabelecimento, descartando o que consideravam inferior entre seus produtos.

    — Não é assim que você deve tratar um cliente, Andreas — disse uma voz grave e experiente.

    O emissário olhou sobre o ombro, deparando-se com um homem em seus plenos cinquenta anos, usando uma calça social junto com uma camisa de manga longa. Sua barba aparada e bem-feita exibia vários fios brancos, assim como seus cabelos asseados e organizados. Seu corpo era rígido e bem-treinado, com sinais de exercícios constantes. Sua pele bronzeada e olhos afiados, junto com o seu andar confiante, indicavam a presença de poder quase tangível. Aquele homem não era alguém para se levar levianamente.

    — S-sim, senhor! Me desculpe — respondeu o garoto, acenando com a cabeça.

    Huan Shen olhou no menu sobre a mesa, enquanto torcia para o homem apenas seguir o seu caminho. Para a sua insatisfação, ele pegou o banco ao lado e se sentou.

    “Eu só queria um pouco de paz por hoje, só isso.”

    — Perdoe o jovem, é que a maioria das pessoas da região agrícola costuma ficar no distrito comercial. A forte cultura alimentar siciliana e a viabilidade de preços acabam fazendo com que a maioria das pessoas prefira ficar por lá. Não pense que foi por alguma questão discriminatória, apenas foi falta de costume.

    “Você acabou de descrever discriminação, filho da puta!”

    — Parece bastante burocracia para um homem que só quer comprar uma torta. Você não explica isso para todos os clientes que entram aqui, não é?

    — Ainda estamos trabalhando nisso. Pode levar um tempo inclusive — respondeu o homem, com um tom de ironia. — Acho que ainda não me apresentei.

    — Nem precisa, você é Devar Bakir, o homem mais poderoso de Santa Marília. Patriarca atual dos Bakir, você também é o dono desse estabelecimento e provavelmente de aproximadamente vinte por cento dos negócios e estabelecimentos de Santa Marília.

    O homem pareceu um pouco intrigado.

    — Não precisava de tantos detalhes, mas você está certo. Como descobriu tudo isso?

    “É claro que precisava dos detalhes, os diálogos em uma webnovel precisam de uma quantidade considerável de exposição não-natural para garantir que o leitor está fazendo. Ou acha mesmo que os vilões só revelam seus poderes nos instantes cruciais apenas por arrogância?”

    — Você se surpreenderia com a quantidade de lugares que tem uma pintura sua junto com uma grande descrição dos seus negócios.

    Bakir deu de ombros.

    — Eu posso ter tido meus feitos, porém muito do meu trabalho é continuação direta dos meus antecessores. Quando assumi, meu pai deixou claro a responsabilidade com as milhares de vidas que dependem dos Bakir para terem sustento e dignidade. Esse é o ethos da minha família.

    — Garoto! — disse Huan Shen, se dirigindo ao atendente. — Você ainda não disse o que você tem de bom em relação à torta.

    — É…ah, sim! Claro! — respondeu. — O sabor de infusão de camomila com cobertura de chantilly é bastante popular atualmente.

    O emissário fez uma cara feia.

    — Puta merda, entendo porque ninguém que trabalha vinte e quatro por sete vem aqui comprar alguma coisa — murmurou. — Só me arranja uma de chocolate, na moral!

    “Só existem duas tortas doces que prestam: chocolate e limão. O resto é frescura.”

    O atendente apenas acenou com a cabeça e foi para a dispensa. Então, o emissário retornou sua atenção para o nobre ao seu lado.

    — Desculpe minha interrupção, eu meio que estou com pressa para voltar. Eu aprecio o ethos da sua família, mas não acho que eu tenha alguma coisa a ver com isso. — O emissário ponderou por alguns segundos, até chegar a uma conclusão. — Sua aparição aqui não é atoa, né?

    Bakir deu um pequeno sorriso pretensioso.

    — Meus homens sempre estão procurando pessoas com potencial. Me alertaram que você não é apenas forte, mas sim bastante esperto. Você aparenta ser alguém com algum tipo de treinamento militar. Se ainda for um usuário de magia, seu valor sobe ainda mais.

    “Seu ethos me parece mercantil demais.”

    — Acredito que seus talentos sejam bem melhores empregados em outros tipos de atividade. Você poderá morar facilmente em bairros como Baco, Rômulo ou Juno. Você e a jovem que te acompanha. Os tempos mudam, os talentos devem se agarrar a oportunidades ou apodrecerem na mediocridade.

    “Eu não gostei dessa conversa.”

    Huan Shen pegou a torta e colocou oitenta cédulas sobre o balcão, mesmo a torta custando setenta.

    — Eu não tenho intenção de ficar em Santa Marília, Sr. Bakir. Inclusive, planejo partir muito em breve. Mas agradeço a oferta.

    Os dois trocaram breve acenos. O atendente pensou em questioná-lo sobre o troco, mas Huan Shen apenas fez um sinal negativo com a cabeça, sumindo pelas ruas. O semblante amigável do Bakir sumiu, voltando ao seu padrão frio e autoritário.

    — Traga um café, expresso e sem açúcar.  — disse ele.

    O homem permaneceu em silêncio por alguns momentos, até uma mão familiar encostar em seu ombro. Sentando ao seu lado, um homem com a mesma faixa etária que a sua, usando um longo sobretudo, cabelos asseados e sem um pingo de pelo em seu queixo sentou-se ao seu lado no banco. Um pouco mais atrás, dois seguranças residiam em posições firmes.

    — Eu vou querer um latte, com canela — disse o mesmo, removendo seu sobretudo.

    — Dia difícil? — questionou Bakir, tomando um gole do seu café.

    — Foi, mas eu já estou acostumado. Hoje fiz algumas ligações para meus contatos na Administração Imperial. Parece que o Santo Império estava decidido a enviar um investigador para cá há alguns meses. E eles escolheram um da velha guarda, ainda por cima.

    Bakir respirou fundo, preocupado.

    — Velha guarda? Bem menos razoáveis e flexíveis, pelo que sei. Quanto tempo até ele chegar?

    — Uns três ou quatro dias. A primeira coisa que ele vai perceber é a distribuição de terra, depois vai atrás dos meus homens e vão descobrir que são ligados à sua família. Isso é problemático, Julius.

    — Estamos indo tão bem! Não posso deixar que isso acabe com o meu mandato. Diga-me que você tem um plano, velho amigo.

    — Não temos tempo para maquiar os dados. Ele é um especialista em descobrir esse tipo de coisa. Talvez possamos convocar o Tarasov para manter o investigador fora do alcance dos nossos “empreendimentos”.

    — A autoridade de um investigador enviado pela sede é maior do que a de um capitão local. Ele não vai poder nos ajudar muito nesse assunto. Sinceramente, Julius, não consigo pensar em outras alternativas além de uma ação mais “contundente”.

    O regente olhou para o parceiro com um certo receio.

    — Devar, estamos falando de um oficial de alto escalão imperial. Se algo “contundente” acontecer, um esquadrão de inquisidores viria direto para cá e tudo que construímos iria pelo ralo.

    O nobre tomou o resto de café em sua xícara e se levantou.

    — Eu preciso consultar o meu filho. Ele também pode me dar um insight sobre esse assunto.

    — E como vai o Leonard? Soube que ele viajou pro Sul há alguns dias.

    — Resolvendo alguns problemas, envolvendo um desertor. Em breve, espero boas notícias advindas dele.

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