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    O interior da Sala do Núcleo da Forja do Martelo Divino exalava um calor diferente do restante da construção. Não o calor bruto do metal em fusão, mas sim o calor da reverência e da importância. As paredes de pedra polida carregavam relevos de dragões e martelos ancestrais, enquanto no centro repousava uma mesa larga de ébano encantado, com inscrições de selos antigos protegendo seus segredos. 

    Foi ali que Baek Jin, a Lâmina Silenciosa, esperou em silêncio por poucos minutos. Seus olhos analisavam o ambiente sem pressa, como se cada detalhe fosse digno de nota. Ao seu lado, Yan Mei-Ling permanecia como uma sombra discreta, enquanto Tae-Min ainda se recuperava da sucessão de eventos e mantinha-se recuado, respeitoso. 

    Então, a porta dupla se abriu com suavidade. 

    Seus passos não eram apressados, mas continham uma presença que fazia o ar na sala sutilmente se dobrar. Vestida com um manto roxo bordado com fios dourados, surgiu a Diretora Jisoo — a mulher por trás da fama da Forja do Martelo Divino. 

    Ela aparentava ter pouco mais de trinta anos, mas nenhuma marca de tempo ousava tocar sua pele. Os longos cabelos roxos escorriam pelas costas, como ondas de ametista líquida, e seus olhos tinham o brilho calmo de quem já vira o mundo mudar de era. Seu corpo, farto e curvilíneo, carregava uma elegância natural, como se cada movimento fosse planejado por deuses artesãos. E mesmo vestida com o manto formal da forja, bordado com brasões do Martelo Celestial, sua aura era serena, pura e intocada. 

    Ela entrou e, ao ver Baek Jin ali, de pé, com seu manto cinzento simples e o olhar cortante como o fio de uma espada perfeita, uma exclamação escapou de seus lábios pintados com sobriedade

    — Por todos os céus… então é verdade. O Santo Marcial, Baek Jin, a Lâmina Silenciosa, caminhando entre mortais novamente. 

    Ela curvou-se levemente, o respeito em sua postura sem teatralidade. Mas antes que mais palavras escapassem, a voz de Baek Jin a cortou com a precisão de um fio de lâmina. 

    — Corte as formalidades. 

    Seu tom era calmo. Sem hostilidade, mas carregado de um peso que fez o próprio ar parecer hesitar. 

    — Estou aqui para firmar um contrato comercial, Diretora Jisoo. Preciso de espadas, armaduras… e talvez artefatos, se vossa forja ainda os produz. 

    A mulher o observou em silêncio por um momento. Não pela ofensa — pois não havia uma —, mas pela força de presença de um homem que havia, anos atrás, desaparecido após atingir o ápice da Arte Marcial. Um homem que havia vencido cultivadores lendários sem exibir uma única emoção. Um homem que, mesmo trajando roupas simples, tinha olhos que carregavam eras de batalhas

    — Entendo. — Jisoo caminhou até a cadeira oposta à dele e sentou-se com leveza. — E com que fundos o Senhor Baek Jin pretende financiar uma encomenda em tão larga escala? 

    Ele ergueu o braço direito. Com um gesto sutil, um anel de jade escuro brilhou em seu dedo

    Com um leve estalo de Qi, uma pequena bolsa de couro surgiu sobre a mesa. Quando Jisoo a abriu, seus olhos se arregalaram levemente — o que, para alguém como ela, era equivalente a um grito. 

    Dentro da bolsa repousavam Moedas de Ferro Negro de Grau Superior — raríssimas, cunhadas com essência de minério infernal, usadas apenas em transações entre cultivadores de nível Santo e acima. Cada uma equivalia a um pequeno tesouro nacional. 

    — Eu não sou pobre, Diretora. — disse Baek Jin, apoiando os braços sobre a mesa. — Minhas reservas são antigas… e abundantes. 

    Jisoo respirou fundo e fechou a bolsa com cuidado, como quem devolve uma adaga afiada à bainha. Ela apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos com elegância. 

    — Vejo que não brinca com palavras. 

    — Não tenho tempo para isso. 

    Ela sorriu levemente. 

    — Um exército, então. Está forjando um novo grupo de cultivadores…? 

    Baek Jin a encarou por um longo segundo. Seus olhos pareciam escavar a alma de quem ousava perguntar demais. 

    — O que estou forjando não é da conta da forja. — disse, em voz baixa. — O Martelo Divino molda o aço, mas não pergunta por onde ele cortará. 

    Jisoo recostou-se na cadeira. Seus olhos, agora com um brilho mais analítico, mediam o homem à sua frente como uma lâmina rara e incompreendida. 

    — Justo. Então diga-me o que deseja, com precisão. 

    Baek Jin estalou os dedos. Mei-Ling aproximou-se com um pergaminho selado por Qi interno. Ele o abriu e empurrou à frente. 

    — Cinco mil espadas longas de lâmina dupla, núcleo de aço espiritual com bainha de madeira de ébano encantada. Três mil armaduras leves de combate, adaptadas a movimentação de cultivadores. Escudos reforçados com liga de prata viva. Arcos resistentes a Qi de fogo. E se tiverem… artefatos simples de aumento de percepção, ou selos para proteção mental, quero amostras para avaliação. 

    Jisoo examinava cada item com olhos experientes. Ao terminar, ela o enrolou com delicadeza e guardou ao lado. 

    — É uma encomenda de guerra, Mestre Baek. Exigirá semanas de forja, mesmo com turnos dobrados. Mas… minha forja o aceitará. Será um contrato selado com honra. 

    Ela esticou a mão, indicando o início do vínculo. 

    Baek Jin observou a mão estendida. Por um instante, o silêncio reinou. Então, com lentidão, ele ergueu a mão direita e selou o aperto. 

    No exato momento em que suas mãos se tocaram, um brilho suave de Qi percorreu a sala, como se os próprios dragões entalhados nas paredes tivessem sentido o peso daquele acordo. 

    — A partir de hoje, a Forja do Martelo Divino abastecerá o aço do meu exército. — disse Baek Jin, soltando a mão dela. 

    Jisoo sorriu. 

    — E o mundo, mais uma vez, tremerá ao som da sua lâmina, não é? 

    Ele não respondeu. 

    Apenas levantou-se, o manto ondulando como sombra atrás de si. 

    — Enviarei um representante para coletar as primeiras remessas. Qualquer atraso e outro martelo assumirá o fardo. 

    Ela se levantou também, inclinando levemente a cabeça. 

    — A lâmina exige muito, mas o martelo não recua. Boa sorte, Mestre Baek. 

    Sem uma palavra, ele se virou. Yan Mei-Ling e Tae-Min o seguiram, e as portas se fecharam lentamente atrás deles. 

    Sozinha na sala, Jisoo permaneceu imóvel por longos segundos. Então, sussurrou para si mesma: 

    — Um exército forjado por Baek Jin… Que os céus tenham olhos. As eras mudam quando esse homem se move. 

    … 

    O Clã Baek, fundado há séculos no coração da Cordilheira do Dragão Silencioso, sempre foi conhecido por sua tradição conservadora e disciplina férrea. As notícias mais importantes passavam primeiro pelas bocas dos anciãos, filtradas, suavizadas, moldadas para não abalar os alicerces que sustentavam o orgulho da linhagem marcial. 

    Mas na manhã daquele dia, o silêncio dos corredores se quebrou com um único pergaminho pregado no portão da Praça Central do Clã

    Era simples, direto, selado com o emblema de uma espada envolta em chamas etéreas — um brasão que ninguém reconhecia, mas que carregava o peso de uma declaração de guerra. 

    “Anúncio Oficial da Liga da Lâmina Celestial” 

    Por ordem direta de Baek Jin, Santo Marcial e Lâmina Silenciosa, a partir de hoje inicia-se o recrutamento para o Grupo de Exploração denominado Liga da Lâmina Celestial

    Todos os discípulos do clã entre o 5º Nível do Reino Marcial e o início do Reino Guerreiro estão aptos a se apresentar para testes. 

    A seleção ocorrerá em três fases: 

    1. Combate real em arena de vida e morte; 
    1. Teste de lealdade com juramento de alma; 
    1. Avaliação direta por Baek Jin. 

    Esta é uma oportunidade única de lutar ao lado da Lâmina Silenciosa. A convocação não é obrigatória, mas todos os que entrarem… não sairão os mesmos. 

    Assinado, 
    Baek Jin 

    O choque foi imediato

    Em menos de uma hora, os pátios de treino fervilhavam com rumores. Cultivadores se reuniam em pequenos grupos, sussurrando como corvos sobre um cadáver quente. As reações variavam entre admiração, medo, suspeita e fervorosa excitação

    — “Isso é loucura! Ele quer criar um exército dentro do clã?” 

    — “É um golpe disfarçado de grupo de exploração. Ele quer tomar o lugar do Patriarca!” 

    — “Shhh! Você quer ser silenciado? Esse homem é o Santo Marcial! Ele matou um Lorde Celestial com uma única palma!” 

    — “Ainda assim… como o Patriarca deixou isso acontecer?” 

    Essa pergunta ecoava como um trovão entre os discípulos e até mesmo entre os anciãos. 

    E a resposta… era um segredo guardado atrás das portas da Câmara Sagrada do Clã Baek. 

    Duas noites antes, sob o brilho pálido de uma lua esmaecida, Baek Jin caminhava solitário até o alto do Pico do Dragão Cego, onde o Patriarca Baek Mu-Hwan mantinha sua morada isolada. O velho patriarca, um homem de olhar profundo e palavras medidas, aguardava de pé na sacada, com as mãos cruzadas atrás das costas e o olhar perdido no horizonte. 

    — Eu esperava por você, Jin. — disse sem virar-se. 

    Baek Jin se aproximou em silêncio. As pedras sob seus pés não rangiam. O vento que soprava no alto da montanha parecia desviar-se ao redor de sua figura. 

    — Preciso da sua permissão. — disse ele, direto como sempre. 

    O Patriarca virou-se devagar. Sua aparência era imponente, mesmo com os cabelos grisalhos e a barba longa trançada. Seus olhos ainda continham a chama dos tempos antigos, mas agora eram olhos que carregavam o peso do passado. 

    — Para quê? 

    — Para forjar um novo exército. — respondeu Baek Jin. — Um que responderá somente a mim… mas que lutará apenas por este clã. 

    Mu-Hwan ergueu uma sobrancelha, como se ponderasse o peso daquelas palavras. O silêncio entre eles foi denso como o nevoeiro espiritual que rodeava as montanhas. 

    — Você quer montar uma tropa… dentro do clã? Com autoridade própria? 

    — Chame como quiser. Liga, divisão, grupo de exploração. Os nomes pouco importam. — disse Baek Jin. — Mas serão meus homens. E protegerão este clã com sangue e aço

    O Patriarca apertou os olhos. 

    — Você sabe o que isso pode causar. Os anciãos não aceitarão facilmente. Muitos verão isso como o primeiro passo para um golpe. 

    Baek Jin levantou a mão direita. E então, para surpresa do velho Patriarca, cravou o joelho no chão de pedra, com o punho cerrado sobre o peito. 

    Eu, Baek Jin, juro perante os Céus. 

    Não lutarei contra este clã. 
    Não levantarei minha espada contra nenhum irmão de sangue. 
    Mas, se um inimigo externo ousar cruzar nossos portões… 
    Que minha lâmina seja a primeira a cortar. 
    E que minha vida seja o preço, se falhar em protegê-los. 

    O vento silenciou. As nuvens pararam de se mover. Até os pássaros no bosque abaixo cessaram seus cantos. 

    Era um juramento sagrado. Um voto feito diante dos céus

    Baek Mu-Hwan se aproximou devagar. Seus passos eram lentos, mas seu olhar era profundo como um abismo. 

    — Se você quebrar esse juramento, os céus o punirão. Mesmo sendo um Santo Marcial. 

    — Que assim seja. 

    O Patriarca ficou em silêncio por longos segundos. Então, colocou a mão sobre o ombro de Baek Jin. 

    — Muito bem. Faça como quiser. 

    Na manhã seguinte, a decisão abalou os pilares internos do clã

    Os anciãos se reuniram em câmara fechada, exigindo explicações. 

    — “Ele está tramando algo, Patriarca! Primeiro um grupo… depois, tomará o conselho!” 

    — “Não podemos deixar um Santo Marcial criar uma milícia particular! Isso é um risco!” 

    — “Hoje é uma Liga, amanhã será um Trono!” 

    Mas Baek Mu-Hwan apenas ergueu a mão. 

    — Baek Jin me deu sua palavra. E sua palavra… vale mais do que o medo de vocês. 

    Os anciãos mais jovens se calaram. Os mais antigos, no entanto, não aceitaram tão facilmente. Olhares carregados de desconfiança se espalharam entre os corredores. Sussurros de possíveis alianças, votos secretos… e até ameaças veladas começaram a tomar forma. 

    Mas nada disso deteve a marcha inevitável da mudança. 

    Na semana seguinte, a Primeira Seleção da Liga da Lâmina Celestial se iniciou. Milhares de discípulos compareceram. 

    Alguns buscavam poder. 

    Outros, redenção. 

    Alguns apenas queriam servir ao herói lendário. 

    E outros… buscavam uma chance de mudar o destino do mundo

    No topo da plataforma central, Baek Jin os observava como uma estátua de ferro negro, sua presença mais cortante que qualquer lâmina, mais pesada que qualquer armadura. 

    Ao seu lado, Yan Mei-Ling mantinha anotações, Tae-Min cuidava das inscrições, e forasteiros poderosos começavam a chegar, atraídos pela promessa de algo maior. 

    O exército estava nascendo. 

    E os ventos do clã Baek jamais soprariam da mesma forma novamente. 

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