Capítulo I- Quem?
O ar gelado daquele lugar enchia meus pulmões e parecia rasgá-los por dentro. Cada ferida latejava; minhas cicatrizes pareciam queimar mesmo com o frio. Segurava firme minha lança, ajustando a postura mais uma vez.
À minha frente, alguém que um dia chamei de amigo me encarava. Não precisava dizer nada; a gente sabia o que vinha a seguir. Ele segurava a espada e avançava. Por um segundo, tudo pareceu parar, até que ele levantou a lâmina…
Pa!
Caí da cama. Ainda meio lento, meio zonzo por causa do sonho, com aquela sensação estranha grudada em mim. Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi meu reflexo no espelho: cabelos cacheados e bagunçados, olhos castanhos claros por causa do sol da manhã, sardas no rosto, o frio batendo na pele exposta.
Cheguei mais perto do espelho e olhei a sobrancelha. Pra minha sorte, nenhuma cicatriz. Depois de um sonho desses, resolvi começar o dia logo.
A água do banheiro bateu no rosto como gelo. Cada gota acordava tudo. A torneira mal soltava água — energia elétrica era luxo e, bem… eu não era a pessoa mais luxuosa do mundo. O banho foi rápido, até porque tenho a teoria de que, se passasse mais tempo ali, congelaria.
Me vestir já era quase automático. Primeiro as botas, depois a calça jeans larga e desbotada, e a camiseta canelada preta. Ajustei o relógio, o brinco e a corrente prateada.
Pronto. Coloquei a bolsa de ombro e saí. As ruas do meu suposto condomínio estavam cheias de gente começando o dia, como sempre. A pobreza e o crime, que já eram um problema, só pioraram depois do ANÚNCIO e da chegada das igrejas — as “grandes bênçãos de Deus” que chamamos de espectros só aumentaram uma desigualdade que já era enorme. Agora, além de gente com poder financeiro, tinha gente realmente poderosa. Enquanto andava, via algumas pessoas com seus espectros. Mesmo depois de três anos, ainda era estranho ver aquilo. Cumprimentei alguns conhecidos, mas aquele lugar ainda me incomodava: casas remendadas com destroços e restos de outras construções. Uma rua depois da minha ficavam os criminosos.
Eu, sinceramente, tinha uma boa relação com eles — principalmente com o Gui. Ele era meu amigo desde os 11 anos, quando cheguei no sexto ano. Aprendi muita coisa com ele.
— Iae, Miguel, suave? — Fala aí, Gui, tô bem.
O Gui era um cara alto e branquelo, cheio de tatuagens pelo corpo todo, até no rosto. Apesar de magro, era respeitado ali por ser o dono daquele ponto. Não é querendo me gabar, mas meu bairro é considerado o mais perigoso da cidade, e muito disso vem do Gui e dos outros aqui.
O espectro do Gui ficava sempre ao lado dele — um cachorro grande, com pelos longos vermelhos e amarelos que pareciam fogo vivo.
— E aí, Ryze.
Ele veio me cumprimentar, pedindo carinho, como sempre.
Enquanto eu conversava com o pessoal, percebi um grupo chegando. Devia ter uns cinco deles — homens altos e fortes. Tirando o do meio. Ele andava na frente, peito estufado, com o queixo dobrando várias vezes por causa da gordura. A barba rala quase sumia no meio da papada. O uniforme da igreja mal cobria a barriga.
Com ele vinham os capangas e o espectro — um javali enorme, quase do tamanho de uma moto, fácil uns 300 quilos, o que, por coincidência, fazia ele parecer ainda mais com o dono.
Quando chegaram perto, deu pra sentir o clima mudar. Todo mundo ficou tenso. O Gui parou de falar comigo e foi na direção deles.
— Olha só se não são meus bandidinhos favoritos — disse o soldado do meio. — Chegou o dia de pagamento.
Ele passou a mão naquela barba nojenta. Os soldados ao lado dele fitavam cada uma das pessoas ao redor. O clima ficou pesado, como se, a qualquer momento, alguém fosse morrer.
— Olha, Roberto, vocês já pegaram o desse mês, e não faz nem uma semana. Com tantos impostos, não temos tido nem clientes — respondeu Gui, encarando-o.
Mesmo sendo bem mais alto, aquele gorducho não parecia nem um pouco intimidado. Ryze, por outro lado, estava com o pelo ouriçado, soltando um rosnado baixo para o javali que nos encarava de forma ameaçadora.
— Olha, garoto, vou ser bem sincero. A igreja de Loxus já está sendo muito gentil em permitir que gente desse tipo viva em nosso território. Então, a menos que queiram que queimemos todo esse lugar, é bom nos entregarem o que queremos.
No momento em que ele disse isso, Gui deu dois passos à frente. Quase instintivamente, todos os soldados empunharam suas armas e as apontaram na direção dele. Em resposta, os bandidos também puxaram algumas armas e cercaram os soldados.
— Abaixem as armas — disse Gui, fazendo uma expressão mais pacífica para tentar acalmar todos.
Depois que abaixaram as armas, Gui tirou um pequeno pacote de moedas do bolso e entregou ao soldado.
— É tudo que temos por agora.
O soldado pegou as moedas e as contou. Sua feição ficou bem mais satisfeita. Antes de virar as costas e partir, percebeu que eu o encarava. Ele deu um sorriso imundo, então subiu em um cavalo junto dos outros soldados.
— Quem eram aqueles merdas, Gui? — perguntei, me aproximando dele.
— Ninguém demais. Só uns cuzões da igreja. Eles sempre vêm cobrar os impostos sobre tudo que o condomínio ganha.
— Você tá me dizendo que eles pegam dinheiro até dos trabalhadores daqui?
— Basicamente. Eles são um bando de lixo.
Quando Gui falou isso, um dos bandidos se levantou — o irmão mais velho dele, que apelidamos de Piquenote. Ele era o completo oposto do Gui: pequeno, moreno, com uma aparência muito mais desleixada, mas, em contrapartida, parecia bem mais intimidador.
— Que merda, Gui. Até quando vamos deixar esses paus no cu ficarem roubando a gente? Eu te falei, já devíamos ter matado esses filhos da puta há tempos.
— Não podemos entrar em guerra contra a igreja. Eles iriam dizimar todo o condomínio, assim como fizeram com todos os outros bairros.
— Quero que a igreja se foda. Se você não vai fazer nada, deixa que eu mesmo faço.
Então ele e mais um grupo de uns quatro saíram com seus cavalos. O Gui até tentou impedir, mas não adiantou.
Depois disso, me despedi de todos ali e continuei meu caminho. Eu estava revoltado, mas sabia que não conseguiria lidar diretamente com a igreja — pelo menos, ainda não.
Depois de andar mais algum tempo, cheguei a uma pequena loja. Sua entrada era rústica, com uma placa de madeira escrita: “Ferraria Hazman”. Quando entrei, a loja parecia ter saído direto de um livro medieval. As paredes eram lotadas de armas e escudos, desde lanças e espadas até as mais pesadas armaduras. Um pouco à frente, no balcão, havia um velho senhor com um bigode consideravelmente engraçado. Seus cabelos eram grisalhos e o topo da cabeça brilhava tanto que parecia polido de tão careca.
— Bom dia, Sr. Hazman — disse, acenando e me apoiando no balcão.
— Ora, bom dia, Miguel! Chegou no momento perfeito. Vou pedir pra Ashley buscar pra você. A propósito, acho que foi, de longe, um dos meus melhores trabalhos, hihi — disse ele com um grande sorriso.
Ele gritou por Ashley e pediu que trouxesse meu pedido. Então, de uma pequena cortina no lugar da porta dos fundos da ferraria, saiu uma garota de cabelos castanhos bem claros, lisos e muito longos, passando da cintura. Seus olhos castanhos escuros combinavam com o tom do cabelo. Ela usava um vestido branco cheio de flores. Ela era uma velha amiga, tanto minha quanto de Gui
Em suas mãos, carregava uma longa lança de prata. Devia ter algo em torno de 1,75 m — basicamente a minha altura. A lâmina era tão reluzente e afiada que parecia capaz de cortar só de olhar. Ashley a carregava com certa dificuldade por causa do peso.
— Olha ele aí. Oi, Miguel, há quanto tempo! — disse ela, deixando a lança sobre o balcão e se apoiando, cansada pelo esforço.
— Ashley, eu literalmente falei com você ontem — respondi, vendo-a soltar um leve riso.
— Independente, bobalhão. Mas e aí, vai fazer agora? Você sabe que a igreja não permite a criação de armas de espectro sem autorização, né? — disse ela, olhando animada para a lança.
— Um: não me importo com a igreja. Dois: com toda certeza vou fazer, até porque já paguei pro seu vô forjar a lança.
Peguei a lança com as duas mãos. Ela era realmente mais pesada do que eu esperava. Levantei-a à altura do peito e me concentrei. Senti uma energia correndo por todo o meu corpo. Ao me conectar com a lança, ouvi uma voz que parecia vir de dentro de mim.
— Há quanto tempo, meu pequeno… com saudades?

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