Capítulo II- Revolta
A voz ecoava na minha cabeça. No meu braço esquerdo, uma longa tatuagem de serpente apareceu. Dela, uma pequena cobra branca de olhos esmeralda surgiu no meu ombro, aumentando de tamanho até se enrolar por toda a lança. A cada movimento da serpente, eu sentia uma dor intensa e um cansaço profundo tomarem meu corpo. Meus grunhidos de dor escapavam sem que eu conseguisse conter. Era como se a própria lança estivesse perfurando meu braço.
Ashley observava, ao mesmo tempo admirada e assustada. Era possível perceber a preocupação em seu olhar, enquanto seu avô apenas assistia, como se já tivesse visto aquilo milhares de vezes. Quando a serpente se enrolou por completo, um brilho verde tomou todo o local. Quando finalmente diminuiu, a lança, antes totalmente prateada, agora estava coberta de ornamentos de serpente. O cabo tinha uma guarda que lembrava escamas e, na parte de trás, duas pontas que simulavam presas. A lâmina havia adquirido um formato mais irregular, mas perfeitamente simétrico entre os lados.
Depois da transformação, acabei caindo no chão, extremamente cansado. Ashley correu em minha direção para me ajudar.
— Miguel! Você está bem? Eu sabia que era uma ideia ruim! Você é um idiota, sabia? — dizia ela, enquanto segurava minha cabeça em suas pernas.
— Foi um bom trabalho, rapaz. É difícil encontrar alguém que consiga criar uma arma espectral com tanta qualidade, ainda mais sendo tão novo — disse o Sr. Hazman, enquanto segurava a lança e a analisava.
Dei um leve sorriso e, depois de tomar um pouco de coragem, me levantei. Mesmo após algum tempo descansando e depois da quantidade absurda de comida e água que fui obrigado a comer e beber por insistência da Ashley, eu ainda me sentia muito cansado. Mas agora eu finalmente tinha algo para usar contra ele…
Depois do descanso, me despedi dos dois. Mesmo com os apelos da Ashley para que eu ficasse, seu avô disse que eu deveria voltar para casa e descansar, já que aquele era um processo que acabava esgotando demais o usuário.
No caminho de volta, acabei passando pela rua dos criminosos de novo e, estranhamente, não havia ninguém lá. Mas, como já estava cansado a ponto de minhas pernas tremerem, decidi apenas voltar para casa. Ao chegar, coloquei minha lança apoiada próxima à porta do meu quarto e acabei adormecendo em instantes.
Quando me dei conta, estava em um palácio. Ele era completamente branco; todo lugar era enfeitado com ornamentos de cobras, estátuas e uma tapeçaria em tons de verde. As janelas revelavam um infinito azul do lado de fora, como se aquele lugar estivesse no próprio céu. Depois de algum tempo olhando, precisei desviar o olhar — a visão me deixava enjoado.
Caminhando um pouco pelo corredor, cheguei a uma grande sala. Bem no centro dela havia um trono. Atrás dele, uma gigantesca estátua de serpente se erguia. A maior parte de seu corpo estava encoberta por uma escuridão que tampava quase tudo atrás do trono; era impossível ver onde seu corpo acabava. Sua boca estava aberta, como se estivesse prestes a engolir quem se sentasse ali. Ao me aproximar, senti como se algo me forçasse a continuar.
— Ó meu pequeno, venha para mim — disse uma voz doce, mas que parecia esconder um grande mal.
Só de ouvi-la, senti um arrepio percorrer minha espinha. Era como se meu corpo gritasse para que eu fugisse dali.
A força que me puxava se tornava cada vez maior; eu a sentia como se me enforcasse. Quando finalmente me sentei no trono, os olhos da serpente se tornaram esmeralda e ela avançou sobre mim.
Naquela noite, acordei suando frio. Meu corpo todo tremia e, quando olhei para meu braço esquerdo, a lança estava em minhas mãos. Eu a segurava com tanta força que parecia que nunca iria soltar.
Todo esse momento foi interrompido quando ouvi uma explosão do lado de fora de casa. Corri até minha janela para observar e, quando olhei, senti um frio enorme na barriga. Eu sinceramente nem sabia direito o que pensar. Todo o condomínio estava em chamas.
Desci as escadas de casa e fui para as ruas tentar entender o que estava acontecendo. Quanto mais eu andava, mais assustado ficava. Por toda parte, as pessoas que eu via diariamente… todas estavam mortas. Havia corpos de homens, mulheres, crianças e espectros espalhados por todos os lados. Parecia que havíamos sido atacados por animais.
Foi quando ouvi outra grande explosão. Vinha da rua dos criminosos.
Quando cheguei lá, dei de cara com um dos soldados da Igreja. Ele segurava em suas mãos o corpo de uma mulher ensanguentada. Seu sorriso era sádico. Quando finalmente percebeu minha presença, minha reação foi quase imediata: estoquei seu peito com minha lança. A lâmina o perfurou como se passasse pela água; era uma sensação indistinguível.
Quando tentei ajudar a mulher, percebi que ela já não respirava.
Comecei a correr, tentando encontrar qualquer pessoa viva. Eu precisava encontrar alguém. Qualquer um. Depois de correr por algumas ruas, ouvi um grande som de gritos. Era como se estivessem comemorando. Tentei ao máximo me aproximar sem ser visto, avançando aos poucos.
Quando cheguei perto o suficiente, vi um grande grupo de soldados. Todos gritavam, com as mãos para o alto, enquanto balançavam suas armas. Observando melhor, finalmente entendi o que estava acontecendo: bem no meio dos soldados estava aquele homem de mais cedo — Rogério. Ele havia acabado de arremessar a cabeça de Piquenote bem diante dos olhos do Gui, que estava rendido por outros dois soldados.
— Seu bosta, o que pensa que tá fazendo?! Nós tínhamos um acordo!!! — eu podia ouvir o Gui gritando, a voz trêmula enquanto encarava o crânio já sem vida do irmão.
— O que você achou que ia acontecer, garoto? Você manda seus homens me atacarem e acha que a grande Igreja deixaria isso passar? — disse o homem, enquanto se aproximava do Gui e apoiava o pé contra a cabeça dele. — Vou ser bem sincero: esse aqui foi bem trabalhoso de matar. Ele deu fim em quase cinquenta dos meus homens. Mas, no fim, o que ele poderia fazer contra alguém que é simplesmente superior?
Eu estava prestes a me levantar para ir ajudá-lo quando, em meio à multidão, uma garota passou correndo com uma pequena adaga e a fincou na perna de Roberto. Ele deu dois passos para trás, soltando um grito que mais lembrava um grunhido de porco.
— Escuta aqui, seu lixo. Não ouse colocar seus pés sobre outra pessoa — era Ashley. Era possível sentir o medo em sua voz. Suas mãos tremiam ao segurar a adaga, e seus olhos brilhavam com lágrimas.
— Ash? O que… urgh… você está fazendo aqui? — perguntou Gui, engasgando com um pouco do próprio sangue. — Vai embora, por favor. Se eles te pegare—
Ele foi interrompido quando um dos soldados que o prendia deu um chute violento em sua cabeça.
No momento em que ela se virou para olhar para ele, só foi possível ouvir o som do vento sendo cortado. Foi rápido. Tão rápido que quase não pude ver o movimento. Em um piscar de olhos, aqueles longos cabelos foram cortados. O som da carne batendo no chão ecoou, e os olhos já sem vida de Ashley rolaram e caíram diante de Gui. As lágrimas que ela tentava segurar agora escorriam livremente por seu rosto — antes de tudo acabar.
Os soldados começaram a gritar, enquanto seu líder segurava um machado curto com uma das mãos, a lâmina manchada com o sangue de Ashley. Ele levantou os braços e gritou:
— Vocês viram isso? HAHAHAHA! Pobre garota… era tão bonita. Pena que decidiu se juntar a esses lixos. Daria uma ótima escrava.
Ele dizia isso enquanto passava a mão pela barba rala e nojenta, sorrindo novamente ao pisar com força sobre a cabeça de Gui.
Gui, caído no chão, já não reagia. Seu corpo não emitia um único som. Ele parecia ter perdido completamente a vontade de lutar.
Senti uma pontada no coração. Todos os momentos que vivi com Ashley ao longo da minha vida ecoaram na minha cabeça. As boas lembranças, as risadas, as pessoas do condomínio — tudo aquilo explodiu de uma só vez.
— Ó, meu querido… finalmente pode me aceitar? — disse a voz que ecoava na minha cabeça.
À minha frente, uma mulher de cabelos brancos me observava de braços abertos. Olhar para ela me trazia conforto. Eu sabia que, se a abraçasse, toda aquela dor sumiria.
Foi quando eu…
Agarrei seu pescoço com toda a minha força.
Com lágrimas escorrendo pelos meus olhos, gritei:
— Me dê poder! Me dê poder para que eu mate todos eles agora!!
Ela sorriu.
Então, aquela mulher se desfez em sombras, enquanto a tatuagem de cobra em meu braço voltava a aparecer, se espalhando pela pele como algo vivo. Meus gritos chamaram a atenção de Roberto e de seu pequeno exército, que imediatamente se voltaram para mim.
— Ei, você! O que está fazendo? — ele gritou. — Seja um bom garoto e venha aqui. Talvez a gente só te transforme em um escravo, ao invés de te matar.
Em um piscar de olhos, a parede da casa foi destruída. De dentro dela, uma gigantesca cobra emergiu, dilacerando e devorando dezenas de soldados. Gritos ecoavam por todos os lados. O caos se espalhou instantaneamente.
Enquanto a cobra atacava, saltei para fora da casa e caminhei lentamente em direção a Roberto. Todos olhavam assustados, incapazes de reagir.
— Olha só… parece que temos um pequeno herói aqui! — ele gritou. — Ah, eu me lembro de você. Estava aqui mais cedo, quando vim cobrar esses lixos. Você provavelmente estava junto quando planejaram me atacar, não é?
Ele me encarava de cima, apontando aquele machado grotesco na minha direção.
— Vamos, responda, garoto!
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Roberto avançou e desferiu um ataque lateral com o machado. Reagi no instinto, defendendo com a lança, segurando-a com as duas mãos.
O impacto foi brutal.
O machado ainda vibrava quando eu forcei meu corpo para o lado. O impacto atingiu o chão onde eu estava um segundo antes — a terra cedeu, abriu, rachou. Se eu tivesse hesitado, teria sido partido ao meio.
Meu coração martelava no peito.
Deslizei baixo, quase raspando o chão, como uma cobra fugindo do pé que tenta esmagá-la. Minhas mãos apertaram a lança e eu ataquei sem pensar, apenas reagindo. Um golpe ascendente, mirando o abdômen.
A ponta entrou.
Sangue quente escorreu pela lâmina… mas não atravessou.
Os músculos dele se fecharam ao redor do metal, duros demais, densos demais. Roberto apenas grunhiu, como se a dor fosse irrelevante.
— Só isso? — ele cuspiu sangue, sorrindo.
Não respondi. Não podia.
O machado veio de novo.
Desceu em um arco brutal, carregado por uma força que não era humana. Saltei para trás, mas o impacto ainda me alcançou. O choque atravessou meu corpo como um trovão — fui arremessado, perdi o ar, rolei pelo chão sentindo algo estalar dentro de mim.
Levantei antes que ele pudesse me esmagar.
Meus olhos queimavam. Verde esmeralda refletia no metal da lança.
Avancei em zigue-zague, passos curtos, irregulares, nunca em linha reta. Ataquei sem parar — garganta, joelho, costelas, rosto. Não buscava força. Buscava brechas. Cada estocada era um teste, cada movimento um risco.
Ele recuava meio passo de cada vez, bloqueando, desviando, sentindo a lâmina morder sua carne. O sangue agora era real. Escorria. Pingava no chão.
Mas ele aguentava.
Roberto bateu o pé no chão.
O impacto explodiu de dentro para fora.
Meu corpo foi lançado para o alto como se eu não pesasse nada. O mundo girou. Caí pesado demais, o chão arrancando o ar dos meus pulmões. Tentei me mover — tarde demais.
Algo avançou pela lateral.
O javali.
Não pensei. Rolei por instinto. As presas rasgaram o chão onde minha cabeça estava um instante antes. A criatura passou como um projétil, destruindo tudo no caminho, mas não era ela o problema.
Era Roberto.
Ele veio logo atrás.
O machado desceu enquanto eu ainda estava de joelhos. Levantei a lança com as duas mãos. O impacto foi absurdo. Meus pés afundaram no chão. Meus braços gritaram. Senti meus músculos cederem pouco a pouco.
Ele estava me esmagando.
Foi então que ele sorriu de novo.
O machado girou de forma estranha — não para me cortar, mas para atingir o chão ao meu lado. O impacto explodiu lateralmente. Não tive tempo de reagir.
Senti algo rasgar minha perna.
Caí.
O mundo perdeu foco. O gosto de sangue tomou minha boca. A lança escapou por centímetros dos meus dedos.
Roberto se aproximou, lento, confiante.
— Acabou, garoto.
Eu tentei me levantar. Meu corpo não respondeu.
Foi quando o ar ao lado dele incendiou.
Uma lâmina curta, vermelha, com detalhes dourados, atravessou o pescoço de Roberto por trás.
O sangue saiu em jato.
— Miguel, sai daí — ouvi a voz de Gui, ofegante, quente como fogo.
Roberto rugiu, girando o corpo com força absurda, arremessando Gui para longe. Mas o estrago já estava feito. O controle dele falhou por um segundo.
Foi o suficiente.
Gui voltou como um raio vermelho.
A espada entrou de novo — desta vez pela boca, atravessando o céu da garganta e saindo pela nuca. Gui segurou firme e rasgou para baixo, abrindo o pescoço até o peito. Sangue, carne, som. Muito som.
Roberto caiu de joelhos.
Gui não parou.
Cravou a espada no olho esquerdo dele e girou.
Só então Roberto caiu de vez.

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