Depois das nada animadoras notícias, voltei ao meu quarto e passei algumas horas pensando no que fazer. As dores de cabeça que eu já sentia haviam aumentado; eu sabia que vinham do meu espectro, mas não eram fortes o bastante para me impedir de pensar. Eram apenas um incômodo constante, como um ruído ao fundo. No fim, decidi ignorá-las por enquanto e tomei minha decisão: eu deveria ir atrás do Gui. Precisava falar com ele sobre tudo o que estava acontecendo.

    Tomei um pouco de coragem e peguei minhas coisas para sair da casa. O senhor Hazman tentou me impedir, mas, ao perceber que não conseguiria, apenas me entregou uma bainha para tampar a lança que eu carregava e me desejou boa sorte. Não disse mais nada, e isso me pareceu suficiente.

    Assim que saí da ferraria, o sol me pegou desprevenido. Era época de verão, e o calor parecia pesar sobre os ombros. As ruas próximas estavam quase desertas, exceto por alguns soldados que rondavam a região. Mantive a cabeça baixa e o passo constante, evitando cruzar olhares. Sabia que, se me reconhecessem, não haveria conversa.

    Depois de caminhar por algum tempo, cheguei ao antigo centro da cidade. No passado, aquele lugar fora um polo comercial que movimentava muita renda; agora era um amontoado de barracas improvisadas, gente vendendo todo tipo de coisa — legal ou não. O ambiente era denso, cheio de olhares atentos demais e mãos inquietas. Continuei andando sem parar, atento aos arredores, enquanto ouvia comentários soltos surgirem aqui e ali.

    — Você viu o que aconteceu no Santa Mônica?

    — Aquele lugar perigoso?

    — Sim. Parece que os bandidos de lá se revoltaram e atacaram os soldados da igreja. A igreja até tentou mandar reforços para salvá-los, mas dois criminosos conseguiram acabar com toda a tropa. Estão chamando eles até de demônios.

    — Que horror. Eu sempre soube que as pessoas daquele lugar não prestavam. Tomara que Lorde Andrey os ache e os execute logo.

    Continuei andando, mas senti a mandíbula travar por um instante. As palavras ficavam presas na cabeça mais do que deveriam. Uma leve pressão surgiu atrás dos olhos, discreta, controlável. Ignorei. Aquelas pessoas não sabiam de nada, e ainda assim falavam com tanta certeza. Isso era o que mais irritava.

    Depois de algum tempo, avistei um pequeno bar. Na parede, bem em frente à entrada, estava escrito: “Bar Dois Irmãos”. Entrei sem hesitar. O lugar era mal iluminado, com várias mesas espalhadas e ocupadas por figuras que não pareciam exatamente amistosas. Ainda assim, ninguém me deu atenção imediata, o que considerei um ponto positivo.

    Fui até o balcão, sentei-me e apoiei minha lança ao lado, de forma visível, mas não ameaçadora. Um homem alto, de barba longa e ruiva, limpava uma caneca quando se aproximou.

    — E aí, amigo, vai querer o quê? — disse, esfregando o pano na caneca de forma quase automática.

    — Só um copo de água — respondi, mantendo a voz firme.

    Ele não comentou nada. Pegou um copo de vidro de um gancho e o encheu com água de um filtro.

    — Mais alguma coisa? — perguntou, já se virando.

    — Tem mais uma coisa, sim… Por acaso você conhece alguém chamado Gui? Um cara alto, cheio de tatuagens. Um pouco mais velho do que eu.

    A mudança foi imediata. O movimento da mão dele parou, e o ar pareceu ficar mais pesado.

    — Fora daqui! — ele gritou, apontando para a porta.

    — Mas eu só—

    — Fora agora, garoto! Não me ouviu? Aqui não é lugar pra gente da igreja de Kaiser!

    Algumas cabeças se viraram. Senti novamente a pressão nos olhos, mais forte dessa vez, mas mantive a postura.

    — Igreja de Kaiser? O que é isso? — perguntei, enquanto ele dava a volta no balcão, se aproximando demais.

    Quando ele estava prestes a colocar a mão sobre meu ombro, uma voz veio da porta atrás do balcão.

    — Se acalme, Julio.

    O tom era mais calmo, quase casual. Um segundo homem surgiu, idêntico ao primeiro em quase todos os aspectos. Não precisei pensar muito para entender o nome do bar.

    — Traga o garoto para cá. Eu cuido dele.

    Ninguém no bar pareceu se importar. As conversas continuaram, e tive a impressão de ouvir alguém murmurar algo como “vish, mais um”. Engoli seco.

    Em um pensamento rapido , cheguei à conclusão de que seria mais fácil lidar com aquilo longe do salão. Além disso, Julio claramente sabia mais do que deixava transparecer. Peguei minha lança com calma e segui na direção indicada.

    Quando finalmente atravessei a porta, apenas um deles me acompanhou. Ele me conduziu até a parte de trás do bar, um espaço estreito e mal iluminado, com caixas empilhadas e um cheiro forte de bebida velha. Assim que a porta se fechou atrás de nós, ele soltou um suspiro aliviado e se virou para mim, visivelmente animado.

    — Você realmente conhece o Kaiser? — perguntou, com os olhos arregalados, quase brilhando.

    O nome soou estranho por um instante, mas a compreensão veio rápido demais para ser coincidência. Gui tinha criado uma identidade própria… talvez mais do que isso. Mantive a expressão neutra e tentei parecer mais confiante do que realmente estava.

    — Sim… eu sou um amigo dele — respondi, coçando a cabeça de leve.

    O homem abriu um sorriso largo, quase infantil.

    — Isso é incrível. Não achei que alguém tão forte tivesse amigos assim… — ele fez uma breve pausa, como se escolhesse melhor as palavras. — Mas então, por que você está procurando o senhor Kaiser?

    Antes de responder, observei o ambiente ao redor. Não havia ninguém mais ali, mas ainda assim senti uma leve tensão no ar, como se cada palavra dita pudesse ter peso demais. A pressão atrás dos olhos voltou, discreta, e ignorei mais uma vez.

    — Preciso falar com ele — disse por fim. — É importante. Coisas grandes estão acontecendo, e ele provavelmente já sabe disso.

    O sorriso do homem diminuiu um pouco, dando lugar a um olhar mais atento.

    — É… isso faz sentido — murmurou. — Depois do que aconteceu em Santa Mônica, nada mais é pequeno.

    Ele cruzou os braços e me encarou por alguns segundos, como se me avaliasse.

    — Você chegou em um momento complicado. A igreja está se mexendo mais do que nunca… e quem anda perguntando demais costuma desaparecer. Ainda assim, se você é mesmo próximo dele, talvez eu consiga ajudar.

    Ele deu um passo mais perto e baixou o tom da voz.

    — Mas vou te avisar logo: encontrar o Kaiser não é simples.

    Eu achei extremamente estranho a facilidade com que aquele homem acreditara em mim. Nada ali parecia sólido demais para sustentar tanta confiança. Quando abri a boca para pedir que ele me levasse até Kaiser, senti algo errado — não um pensamento, mas uma pressão discreta, como se o ar atrás de mim tivesse ficado mais denso.

    Dei meio passo para o lado por instinto.

    O golpe passou raspando.

    Um porrete grosso acertou a parede de pedra onde minha cabeça estaria, o impacto abafado pela madeira velha do beco. Girei o corpo imediatamente, já com a mão na lança, e vi Júlio cerrando os dentes enquanto puxava a arma de volta.

    O porrete não era comum. A madeira estava marcada por veios escuros, quase como cicatrizes antigas, e uma energia baixa vibrava ao redor dele. Atrás de Júlio, projetando-se como uma sombra viva, estava o espectro: um lobo, grande, musculoso, com olhos atentos e postura agressiva. Não era uma ilusão — era presença.

    Antes que eu avançasse, o outro irmão surgiu do lado oposto do beco.

    Ele segurava uma barra curta de metal, simples demais para chamar atenção, mas carregada da mesma energia. Atrás dele, o mesmo animal tomava forma: outro lobo, idêntico na espécie, mas diferente na postura. Enquanto o de Júlio mantinha o corpo inclinado para o ataque, este permanecia mais ereto, atento, como se protegesse o território.

    Dois irmãos. Dois lobos.

    Mesmo espectro. Vontades diferentes.

    Não havia tempo para pensar muito.

    Avancei primeiro.

    Usei o espaço estreito a meu favor, empurrando Júlio contra a parede antes que ele levantasse o porrete novamente. Segurei seu braço e forcei para baixo, controlando o movimento. O lobo atrás dele rosnou em silêncio, a energia se intensificando, mas Júlio não podia se dar ao luxo de soltar um grito.

    O outro veio por trás.

    Senti o deslocamento de ar e girei o corpo, puxando a lança ainda embainhada. Usei apenas o cabo para bloquear o golpe metálico. O choque foi seco, contido, reverberando pelos braços. Uma pontada atravessou minha testa, rápida, concentrada, perdi o equilíbrio por alguns segundos pela dor

    Empurrei o homem para trás com um chute curto no abdômen. Ele bateu contra a parede do beco e engolindo o som da dor. Júlio já se soltava, vindo outra vez, mas eu me movia melhor naquele espaço do que eles esperavam

    Consegui torcer o pulso de Júlio num movimento rápido, fazendo o porrete cair. O lobo atrás dele vacilou por um instante, como se perdesse firmeza. Quando virei para finalizar o outro, algo fez meu corpo travar no meio do movimento.

    Uma presença diferente.

    Mais pesada. Mais familiar.

    Levantei o olhar no mesmo instante em que uma sombra ocupou a entrada do beco. Alta. Marcada por tatuagens que eu reconheceria em qualquer lugar. Atrás dele, um espectro se projetava lentamente, dominante, esmagando a energia dos dois lobos como se eles fossem apenas cães jovens.

    — Chega. — a voz veio baixa, firme, sem pressa.

    O beco inteiro pareceu prender o fôlego.

    Os irmãos congelaram. Os espectros recuaram, submissos. Eu abaixei a lança devagar.

    Gui estava ali.

    E eu soube, no mesmo instante, que encontrá-lo não significava alívio algum — apenas o início de algo muito pior.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota