Capítulo VI- Lealdade
No momento em que ouvi aquilo, tomei uma decisão. Eu precisava entender o que estava acontecendo. As palavras de Gui ecoavam na minha mente, insistentes demais para serem ignoradas. Será que eu realmente não sabia o que eram os espectros?
Meus pensamentos foram interrompidos quando a senhora falou comigo.
— Acabei. Se sente melhor? — perguntou, com um sorriso gentil.
Assenti com a cabeça.
— Você… por acaso tem algum lugar para passar a noite? Desde que meu filho se foi, essa casa ficou grande demais. No fim, somos só eu e Tori.
Não havia dramatização em sua voz.
— Não queria abusar da bondade da senhora
— De Forma alguma. Tenho um quarto sobrando. Venha, eu te mostro.
Segui atrás dela pela casa. Conforme caminhávamos, notei alguns quadros pendurados nas paredes, todos com o mesmo símbolo estranho. Algumas portas estavam fechadas, trancadas.
No andar de cima, ela parou diante de uma porta e a destrancou.
— É aqui. Meu filho dormia neste quarto.
Entrei. O quarto estava impecável, como se ninguém nunca tivesse sequer entrado ali.
— Desculpe… não cheguei a perguntar seu nome.
— Ah, claro. Sou Rosa. E o seu?
— Miguel.
Houve um breve silêncio.
— A senhora fala bastante do seu filho. Mas não vi nenhuma foto dele… ou da família.
Rosa demorou alguns segundos para responder.
— Depois que ele morreu, eu não suportava olhar para nada que me lembrasse disso. Guardei tudo. — Ela suspirou. — Foi uma época difícil.
Assenti, aceitando a resposta sem insistir.
Agradeci pelo quarto. Ela disse que, se precisasse de algo, era só chamá-la, e fechou a porta ao sair.
Quando me deitei, o cansaço finalmente atingiu meu corpo — mas não minha mente. As palavras de Gui voltavam sem parar. A força dele… aquilo não era normal.
Depois de um tempo, me levantei.
Sentei no chão do quarto, na postura que havia aprendido no karatê quando era mais novo. Respirei fundo e fechei os olhos.
Já havia tentado aquilo outras vezes.
Perguntei a pessoas diferentes como invocavam seus espectros. As respostas nunca ajudavam. “Quando eu quero, ele aparece.” “É só se concentrar.”
Nada disso funcionava comigo.
Ignorei tudo e me concentrei na única coisa que fazia sentido: o dia do ataque. A sensação. O poder que havia usado sem entender. A serpente.
Algo percorreu meu corpo.
A energia começou a se reunir à minha frente, formando uma sombra instável. Por um instante, senti que estava perto demais.
Abri os olhos.
A forma se desfez no mesmo instante.
O quarto voltou ao silêncio absoluto.
Fechei meus olhos mais uma vez, mais concentrado, respirei fundo, tentei mentalizar meu espectro na mente, tentei imaginar ele ali, me concentrei o máximo que podia e quando abri os olhos…
— Nada. — murmurei para mim mesmo.
Tentei mais uma vez, e outra, e outra, e mais uma dezena ou centena de vezes, mas nada funcionava. A frustração percorria todo meu corpo. O que eu estava fazendo de errado? Como eu não conseguia fazer algo tão simples? A frustração aos poucos se tornava raiva.
Eu abaixei minha cabeça contra o chão.
Foi quando ouvi uma batida na porta.
— Miguel? Posso entrar?
Tentei parecer normal e sentei na cama rapidamente, depois deixei que ela entrasse. Ela abriu a porta e fitou todo o lugar em apenas uma olhada, como uma coruja. Toriel estava junto dela em seu ombro, me encarando de uma forma quase assustadora.
— Estava tentando convocar seu espectro?
— Como a senhora sa… —
Antes que eu pudesse terminar a frase, ela me pediu para que esperasse e virou as costas.
Depois de alguns instantes, ela retornou ao quarto, carregava consigo uma pequena caixa de madeira. Sua aparência era bem cuidada, parecia quase um tesouro. Ela a trouxe para perto da cama.
Quando a vi mais de perto, a caixa parecia ter diversos ornamentos e, em sua parte superior, havia um símbolo. Reconheci como o mesmo dos quadros que havia visto antes. O símbolo era composto por diversas linhas espalhadas de uma forma quase agressiva que, por fim, formavam uma rosa na tampa da caixa.
Quando ela finalmente a abriu, dentro havia apenas um anel. Seu metal era claro como a prata e, em sua parte superior, novamente a rosa estava entalhada.
Ela retirou o anel da caixa e me entregou.
— Esse anel era do meu filho. Ele sempre disse que o ajudava a lidar com seu espectro… talvez possa te ajudar também.
Eu tive um pouco de receio no início, mas a frustração e a raiva fizeram com que eu colocasse o anel. No começo, não senti nada realmente estranho, mas quando tentei novamente invocar meu espectro…
Lá estava ela. A serpente branca.
Sua forma era consideravelmente menor do que a que invoquei durante o ataque, mas grande o suficiente para ainda parecer uma ameaça. Ainda assim, algo chamou minha atenção: ela não se movia, nem mesmo respirava. Era como se fosse apenas uma estátua. Ela permaneceu assim até o momento em que pensei em mandá-la se mover.
No mesmo instante, ela se esgueirou um pouco à frente. Eu finalmente tinha conseguido, mas não conseguia me sentir bem com o que estava acontecendo, era como um enjoo estranho. Em questão de segundos, a serpente desapareceu novamente. Um cansaço pesado tomou meu corpo, e levei a mão à cabeça por impulso.
— Está tudo bem?
— Está sim. Foi só uma dor de cabeça. — Respirei fundo. — A propósito, posso te fazer uma pergunta? Como seu filho conseguiu isso? Sempre soube que artefatos de espectros eram extremamente raros e caros.
— Você é bem inteligente, não é? Bom, acho que não tem por que esconder isso de você. Meu filho, no passado, foi um grande guerreiro. Lembra-se da Primeira Guerra dos Espectros? Meu filho tinha sua idade na época. Ninguém sabia direito o que eram os espectros, mas já os usavam em batalhas. As igrejas, por todo o mundo, que surgiram começaram a atacar e tomar locais. Foi quando a nossa cidade foi atacada.
Meu filho era um dos líderes da resistência e acabou conseguindo esse anel derrotando um membro da igreja. Ele era muito forte, mas um dia foi traído. Um homem, Matheus Neves, o atacou com a guarda baixa e o matou. Depois disso, toda a resistência foi aniquilada e a igreja tomou o poder. Hoje, Neves se tornou um grande nome no exército da igreja e vive como um nobre no Campo das Garças, na parte rica da cidade.
Eu sei que é errado, mas eu sinto tanta raiva daquele homem…
Uma lágrima escorreu por seus olhos, e Tori, em seu ombro, firmou as garras como se agarrasse uma presa.
Eu tentei confortá-la. Depois de se acalmar um pouco, ela disse que precisava de um tempo para espairecer e que iria sair, mas logo voltaria.
Depois dela sair, eu tive algum tempo para pensar. Eu me lembrei do que a igreja fez com minha casa, de todas as pessoas mortas. Me lembrei de Ashley. Eu precisava fazer algo. Eu precisava tirar algo deles.
Então eu decidi.
Eu ia me vingar, e ia começar por esse cara.
Depois de recolher minhas coisas, encontrei minha lança. Ela estava com uma energia estranha, parecia que não queria ser segurada por mim. Achei que fosse só o cansaço e resolvi ignorar.
Antes de sair da casa, deixei um bilhete.
“Muito obrigado por tudo, senhora Rosa.
Me desculpe por ir assim, mas tenho que fazer algo.
Ass: Miguel”
Eu reconheço que é meio tosco, mas sempre gostei de cartas.
Depois de deixá-la presa em cima da mesa, finalmente deixei a casa da dona Rosa e voltei para a cidade.

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