Quando finalmente deixei a casa de Rosa, eu já havia pensado em grande parte do que iria fazer dali em diante.

    Voltei a caminhar sem pressa pelas ruas, mas agora estava bem mais atento do que antes. Não sabia em que momento poderia dar de cara com algum soldado do Gui ou da Igreja. Me esforcei ao máximo para passar despercebido enquanto usava um pano para cobrir minha lança nas costas, como se fosse um guarda-chuva ou algo do tipo.

    Conforme eu caminhava, comecei a observar ainda mais os espectros e a forma que as pessoas agiam com eles. A maioria parecia apenas animais, como os que temos de estimação, mas outros me passavam uma energia diferente. Observei também que as pessoas, mesmo depois de seis anos, ainda não pareciam saber lidar direito com eles. Algumas os tratavam como animais, outras conversavam baixo com eles, e por aí vai.

    Depois de andar mais um pouco, entrei em uma loja pequena, dessas que vendem de tudo um pouco. Fingi interesse em ferramentas simples, linhas, lâminas baratas.

    — As coisas estão complicadas, não é? — tentei parecer só mais uma pessoa aleatória puxando assunto.

    O dono da loja, um senhor que parecia ter seus cinquenta anos, completamente calvo e com um bigode acinzentado, respondeu:

    — Sim, desde a guerra tudo mudou, não é, jovem? Tenho pena da sua geração ter que lidar com tantas guerras e essas igrejas que acham que podem se comparar a Deus — disse ele enquanto olhava pela janela da loja as pessoas que passavam.

    — Mas foi ele que deu a ideia, não é?

    — Não acho que essas guerras eram o que Ele queria quando nos deu esse poder, mas quem sou eu para saber os planos d’Ele, não é? — respondeu enquanto dava uma risada. — Ahahahah.

    Depois disso, ele começou a me mostrar mais de seus produtos. A conversa seguiu por alguns minutos, sem nada realmente importante, até que agradeci e me despedi.

    Quando saí da loja, o barulho da rua voltou a me envolver. Continuei andando, mas agora minha mente estava longe dali.

    As palavras sobre Deus ficaram presas na minha cabeça.

    Seis anos atrás, todos tinham parado ao mesmo tempo. Eu lembrava da sensação com clareza demais. O mundo parecia ter sido desligado, como se alguém tivesse arrancado o som, o vento, o peso das coisas. E então veio aquela voz.

    Meus filhos… finalmente chegou o momento—

    A lembrança foi cortada de forma brusca quando alguém esbarrou no meu ombro.

    — Presta atenção por onde anda, moleque.

    Quase tropecei. Dei um passo para trás e só então percebi: soldados da Igreja.

    Eram três. Dois seguravam um homem pelos braços, forçando-o a andar. Ele estava mal vestido, sujo, o rosto marcado por algo entre pânico e desespero. Quando passou por mim, seus olhos se encontraram com os meus.

    Foi rápido. Mas, naquele instante, eu soube.

    Ele estava implorando por ajuda.

    — Anda logo — um dos soldados rosnou, empurrando-o com mais força.

    O soldado empurrou o homem outra vez. Dessa vez, com gosto.

    O corpo dele bateu contra o chão de pedra antes de ser puxado de volta pelos braços. Um gemido curto escapou, abafado rápido demais.

    Algo dentro de mim se deslocou.

    Não foi pensamento. Não foi decisão.

    Minha mão se moveu sozinha, escorregando sob o pano, procurando o peso familiar da lança.

    No mesmo instante, um calor estranho subiu pelo braço, pesado, nauseante. O mundo pareceu inclinar por um segundo, como se o chão tivesse perdido firmeza. Meu estômago revirou, e uma pressão surda tomou a cabeça.

    Não agora.

    Uma voz reagiu dentro de mim, ela era diferente da voz do meu espectro, era mais séria. Não com fúria — com alerta. Como um animal puxando a coleira antes do dono cometer um erro.

    — Ei.

    A voz veio seca.

    Levantei o olhar rápido demais.

    Um dos soldados havia parado. Não me encarava de frente, mas o olhar dele passou por mim devagar, atento demais. Avaliando. Como quem sente algo fora do lugar.

    Meu coração bateu forte uma única vez.

    Afrouxei os dedos, escondi a mão de volta sob o pano e dei um passo lateral, fingindo ajeitar a carga nas costas.

    — Desculpa — murmurei, baixo, sem encará-lo.

    Não esperei resposta.

    Me afastei rápido, misturando-me à movimentação da rua antes que o enjoo passasse por completo. Só quando dobrei a esquina é que percebi o quanto estava respirando fundo.

    Continuei andando.

    Mas agora, com a certeza incômoda de que não estava tão no controle quanto queria acreditar.

    Quando eles se afastaram, continuei andando como se nada tivesse acontecido, mas senti o estômago embrulhar. A Igreja prendia criminosos — era isso que diziam. Só que ninguém ali parecia um criminoso.

    Segui em frente.

    Passei por outras lojas, bancas, oficinas. Em cada uma, um comentário solto. Uma opinião jogada no ar.

    — Dizem que essa nova igreja, a Kaiser… — cochichou uma mulher enquanto embrulhava tecido. — Não parece igreja coisa nenhuma. Parece culto.

    — Tá crescendo rápido demais — comentou um homem numa oficina. — Gente largando a Igreja pra seguir aqueles loucos.

    — Eles falam que o líder deles é quem vai tomar o lugar de Deus — outro retrucou. — Só mais alguns idiotas.

    Em outra esquina, ouvi dois homens discutindo baixo.

    — Depois do que aconteceu em Santa Mônica, ninguém devia confiar em mais nada.

    — Aquilo foi culpa daqueles dois demônios.

    Meu coração deu um salto seco.

    — Dizem que destruíram metade do lugar.

    Continuei andando.

    Conforme avançava, o clima mudava. Soldados em maior número. Olhares desconfiados. Pessoas falando mais baixo.

    — Aqui eles descem o cacete primeiro e perguntam depois — murmurou um vendedor ambulante. — Dizem que é pra manter a ordem.

    — Ordem pra quem? — respondeu outro. — Pros nobres lá de cima?

    Em contrapartida, bem perto dali, as conversas eram outras.

    — A Igreja trouxe estabilidade.

    — As pessoas finalmente estão seguras.

    — Melhor isso do que o caos de antes.

    Duas cidades. Um mesmo símbolo.

    Foi assim que cheguei à banca de frutas.

    Ela ficava numa esquina movimentada, coberta por uma lona gasta. Caixas de madeira empilhadas com cuidado, frutas simples, mas bem organizadas. Atrás do balcão, uma garota arrumava algumas maçãs.

    Cabelos pretos, cacheados, presos de qualquer jeito. Pele morena. Pequena. Baixa demais para o vai e vem constante ao redor.

    Quando me aproximei, ela levantou o olhar e sorriu.

    — Bom dia! Quer ver alguma coisa?

    Enquanto puxava uma caixa para frente, revirou os olhos de leve, como se estivesse pensando em algo, e depois voltou a me encarar.

    — Essas aqui estão boas hoje… pelo menos foi o que minha mãe disse. — Fez uma careta rápida. — E ela raramente erra.

    Fingi indecisão.

    — O movimento parece grande.

    — Sempre é. — Ela suspirou.

    Pensou um pouco.

    — Mas pelo menos agora tá mais calmo. A Igreja ajudou bastante. Menos confusão, menos gente estranha por aí.

    — Ainda tem muito criminoso solto — disse a mulher mais velha, sem me olhar. — Mas agora eles estão sendo presos.

    Havia raiva ali. Antiga. Compacta demais para ser só opinião.

    — Mãe… — a garota murmurou, revirando os olhos outra vez.

    — É verdade, Ana Júlia.

    Então aquele era o nome dela.

    — O Andrei fez o que precisava ser feito — continuou a mulher. — Depois do caos, alguém tinha que assumir o controle.

    Antes que eu percebesse, minha boca abriu.

    — Nem todo mundo que eles levam é criminoso.

    O silêncio veio rápido demais.

    A mulher finalmente virou o rosto para mim. O olhar dela me atravessou com dureza imediata, como se estivesse só esperando alguém dizer aquilo.

    — Você não sabe do que está falando — respondeu. — Quem é inocente não tem motivo pra ser levado.

    O calor subiu pelo meu peito. Um incômodo conhecido, pressionando por dentro. O espectro reagiu em algum lugar fora do alcance dos olhos — não agressivo, mas inquieto. Um peso leve nas costas, como um aviso.

    — Às vezes tem — retruquei, rápido demais. — Às vezes basta estar no lugar errado.

    Ana Júlia se mexeu antes que a mulher respondesse.

    — Mãe… — disse ela, num tom mais firme agora. — Deixa. Não vale a pena.

    A mulher manteve o olhar em mim por mais um segundo. Avaliando. Depois bufou, voltando-se para as frutas.

    — Jovem demais pra entender como o mundo funciona.

    Ana Júlia me lançou um olhar breve. Não de reprovação. De pedido.

    — Ela só fala assim quando lembra de antes — disse, quase num sussurro. — Não leva pro lado pessoal.

    Assenti, mesmo sentindo o estômago apertado.

    Tarde demais.

    Eu já tinha falado mais do que devia.

    Peguei as frutas sem dizer mais nada, paguei rápido demais. Quando me afastei da banca, percebi o quanto meu corpo estava tenso, os ombros rígidos, a respiração curta.

    Vi então o rapaz alto se aproximar, ajudando a carregar caixas com facilidade. Forte, atento, tranquilo. Parte da família.

    Continuei andando.

    Mas agora com a sensação incômoda de que, por alguns segundos, tinha esquecido por que estava ali

    Após conseguir informações o suficiente segui em direção ao Parque das Garças.

    Não foi difícil ouvir coisas boas sobre a família Neves.

    Na verdade, era o contrário. Era difícil ouvir algo ruim.

    O nome de Matheus Neves surgia com respeito. Sempre acompanhado de frases parecidas. Que ele tinha crescido por mérito próprio. Que antes da Igreja já era alguém importante. Que depois do anúncio, só fez organizar o que já funcionava. Não era visto como um nobre distante — parecia alguém que tinha “chegado lá” sem esquecer de onde veio.

    — Ele ajuda bastante o bairro — comentou um homem enquanto fechava a loja. — Nunca virou as costas pra ninguém — disse outro. — Sempre foi justo.

    A casa no Parque das Garças refletia isso. Grande, sim, mas sem exageros inúteis. Bem cuidada. Sempre limpa. Sempre com movimento controlado.

    O filho mais velho também era conhecido.

    João Neves.

    Soldado da Igreja. Um dos bons.

    As pessoas falavam dele com orgulho, como se as vitórias dele fossem de todos. Diziam que ele voltava das guerras sem ostentar nada. Que ajudava vizinhos quando estava em casa. Que tratava todo mundo bem.

    Quando o vi passando mais cedo, não precisei de muito pra entender por quê.

    Ele era forte, isso era óbvio, mas não era só o corpo. A presença dele chamava atenção sem esforço. Caminhava tranquilo, postura firme, olhar atento, mas calmo.

    O espectro ao lado dele parecia um grande felino de guerra — corpo largo, patas pesadas, olhos atentos demais. Não rosnava, não avançava. Só observava tudo ao redor, como se nada pudesse pegá-lo desprevenido. Um animal acostumado a vencer.

    Os guardas da mansão tinham espectros parecidos entre si.

    Cães grandes. Alguns lembravam mastins, outros pareciam lobos. Sempre próximos aos donos, sempre atentos aos arredores. Nada agressivo à primeira vista, mas claramente treinados pra reagir rápido.

    A segurança vinha da rotina, dos olhos, dos homens e dos espectros.

    Conversando pela cidade, juntei o básico.

    À noite, dois guardas ficavam acordados do lado de fora. Trocas de turno curtas. Tochas posicionadas em pontos fixos. João costumava chegar antes do anoitecer quando estava na cidade. Matheus quase não saía depois que escurecia.

    A família parecia… normal.

    Boa até demais.

    Isso não mudava o que Matheus tinha feito e o que eu precisava fazer.

    Quando o sol começou a descer, eu já tinha decidido. Não ia esperar outro dia. Quanto mais tempo passasse, mais coisas podiam mudar. Mais gente. Mais atenção. Mais risco.

    O que eu precisava saber, eu já sabia.

    Segui em direção ao Parque das Garças enquanto o céu escurecia. Vi as tochas sendo acesas, uma a uma. O movimento diminuindo. A casa dos Neves se preparando para a noite.

    Uma família respeitada. Um homem admirado. Um filho considerado herói.

    E ainda assim, naquela noite, eu pisaria ali dentro.

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