Capítulo VIII- Descartaveis
Quando finalmente anoiteceu, eu decidi agir. Caminhei espreitando até a parte traseira da mansão Neves. Por mais que houvesse vários seguranças espalhados pelo terreno, existiam pontos isolados onde a falta de luz tornava difícil enxergar qualquer coisa. O muro era alto, e o arame farpado cercava tudo. Usei o pano da minha lança, joguei por cima do arame e, com um pouco de esforço, consegui pular sem me cortar.
Os jardins eram cheios de arbustos e plantas grandes, o que acabou jogando a meu favor. Tinha esconderijos suficientes para avançar sem ser visto. Depois de andar um pouco, notei uma janela aberta no segundo andar, com a luz apagada. Aquela era claramente minha melhor chance de entrar.
O problema era que, bem em frente, havia dois guardas.
Eles pareciam distraídos, conversando baixo, mas não o suficiente para ignorar alguém passando por ali. Fiquei parado por alguns segundos, pensando, até decidir testar o anel de vez. Convoquei o espectro a alguns metros de distância, em outro arbusto. O mato se mexeu, galhos estalaram.
— Ouviu isso? — um deles perguntou.
— Deve ser algum bicho — o outro respondeu, mas, mesmo assim, os dois foram verificar.
Quando ficaram de costas, avancei. Usei toda a força que tinha no golpe com a lança. Os dois caíram quase ao mesmo tempo, afundando nos arbustos. Por sorte, não fizeram barulho suficiente para chamar atenção. Os corpos ficaram escondidos ali mesmo, o que me poupou trabalho.
Ao lado da janela havia um grande cano de escoamento. Me apoiei nele e consegui escalar até o segundo andar. Entrei com cuidado.
Era um banheiro grande, luxuoso demais. Produtos de cabelo, perfumes, toalhas caras. Tudo ali indicava que aquele banheiro não era de um homem. Saí devagar e entrei no quarto. Não havia ninguém. Reparei nos livros espalhados, muitos livros. Religião, história, ficção. Aquilo me deixou mais atento.
Quando cheguei perto da porta, ouvi movimento do lado de fora. A porta começou a se abrir. Me movi rápido e fiquei atrás dela.
Uma garota então entrou pela porta.
Ela usava uma camisola de cetim azul-claro, tecido fino, leve. O cabelo loiro claro caía solto, e os olhos verdes chamavam atenção de um jeito que me fez reparar mais do que devia. Fiquei alguns segundos parado demais; isso foi tempo o suficiente para ela me perceber ali.
Antes que gritasse, pulei sobre ela e tapei sua boca. Meu coração disparou.
— Calma — falei baixo. — Por favor, não grita.
Ela tentou reagir, os olhos arregalados. Apertei um pouco mais a mão.
— Eu não vou te machucar, sou uma pessoa do bem. Só… fica quieta, por favor.
Na minha cabeça, a frase tinha saído um pouco melhor, mas, quando disse aquilo, parecia tudo errado. Do jeito que estava, eu parecia qualquer coisa, menos alguém do bem. Pensei rápido e inventei a primeira coisa que veio.
— Eu sou só um ladrão — falei. — Entrei pra pegar algumas coisas. Não quero machucar ninguém.
A luz da lua atravessava a cortina e iluminava o quarto. Por alguns segundos, ficamos nos encarando. Aquilo só piorou tudo.
Empurrei ela contra a cama e usei o lençol para enrolar seu corpo, prendendo braços e boca. Fiz isso rápido, sem dar espaço para reação. Coloquei ela dentro do armário, entre as roupas penduradas.
— Desculpa — murmurei, antes de fechar a porta e fazer sinal de silêncio.
Saí do quarto e olhei pelo corredor. Tudo quieto. Segui até um cômodo à frente. Ele era cheio de livros e tinha uma decoração estranha, com correntes que passavam pelas estantes.
Finalmente tinha encontrado ele. Matheus Neves estava sentado numa poltrona, um livro na mão e uma xícara de chá ao lado. Ele estava cochilando de uma forma tão profunda que chegava a roncar. Fechei as portas atrás de mim e usei a lança para travar as maçanetas.
Me aproximei devagar e usei as próprias correntes das estantes para amarrá-lo. Fiz tudo com cuidado, até puxar com força de uma vez.
Ele acordou assustado.
— O qu—
Antes que gritasse, pressionei um livro contra a boca dele.
— Fica quieto.
A serpente surgiu no meu ombro e rastejou até o pescoço dele. Ele começou a tremer.
— Nenhum som, ou faço ela cortar seu pescoço.
Mostrei a ele o anel que Rosa havia me dad.
— Reconhece isso?
Ele arregalou os olhos.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou, a voz tremendo.
Dei um meio sorriso.
— Achei que ia ser mais difícil. Afinal, o senhor é um herói de guerra, não é?
Por um segundo, Matheus Neves pareceu surpreso. O corpo tenso, os olhos atentos demais. Mas a expressão mudou rápido. Rápido demais.
Os ombros relaxaram. A respiração se estabilizou. O medo, se existiu, evaporou como se nunca tivesse estado ali.
O olhar dele desceu.
Não para mim.
Para a serpente enrolada em seu pescoço.
O frio no cômodo aumentou de repente. Não como uma rajada, mas como algo que se infiltra, se espalha, toma espaço sem pedir permissão.
— Esse espectro… — ele murmurou, mais curioso do que alarmado.
Os olhos dele voltaram para mim, agora diferentes. Mais atentos. Mais fundos.
— Então é você.
Meu estômago retesou.
— Um dos dois demônios que encontramos em Santa Mônica — continuou, quase satisfeito. — O da serpente.
A confirmação não veio de mim. Veio do jeito que ele disse. Da certeza na voz. Da memória que aquilo despertou nele.
— Você estava lá no dia em que o Roberto morreu, não estava?
O nome bateu como um soco.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto, como alguém cansado de explicar algo óbvio demais.
— Garoto… — balançou a cabeça — dá pra ver de longe que você é jovem. Inteligente, até.
O olhar percorreu meu corpo como quem avalia uma ferramenta quebrada.
— Mas também dá pra ver que você não faz ideia de onde se meteu.
O frio se espalhou mais. Minhas mãos começaram a doer. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões.
— Esse anel no seu dedo… — ele fez um gesto vago, em falsa decepção — você realmente acha que alguém te deu isso por bondade?
Cerrei os dentes.
— Tira isso agora — disse, num tom quase paciente. — Antes que acabe como todo mundo daquele buraco imundo onde você nasceu.
Algo estalou dentro de mim.
Não foi pensamento. Foi ruptura.
— Santa Mônica… — ele continuou, abrindo um meio sorriso. — Sempre o mesmo tipo de gente.
O rosto da Ashley surgiu sem aviso.
O riso dela, rápido demais.
O sangue no chão.
O cheiro de fumaça.
O grito que não chegou a sair.
— Morrem aos montes — Matheus deu de ombros — ninguém sente falta. E ainda acham que o mundo deve algo a eles.
Minha visão queimou.
— Aquela confusão toda, aquelas mortes… — ele suspirou. — Um dia comum. Só lixo sendo varrido.
Não percebi o movimento.
Só o impacto.
Não foi o punho dele.
Foi como se uma parede inteira tivesse decidido me atravessar.
O golpe do espectro veio seco, brutal. Meu corpo voou para trás, atravessando uma estante inteira. Madeira explodiu. Livros se despedaçaram no ar. O chão tremeu quando caí, o impacto arrancando o ar dos meus pulmões.
Minha cabeça zunia.
O gosto de sangue encheu minha boca.
— Viu só? — a voz dele veio calma demais. — Você reage rápido quando se sente ofendido.
Me forcei a levantar. O mundo balançava, mas o ódio segurava meu corpo de pé.
— Cala a boca.
Atrás dele, o espectro tomou forma de verdade.
O Yeti.
Imenso. Branco demais para parecer vivo. O corpo parecia esculpido em gelo antigo, rachaduras profundas pulsando luz azulada. Os olhos eram vazios, como cavernas congeladas.
— Esse ódio… — Matheus abriu os braços, satisfeito. — É tudo o que gente como você tem.
Avancei.
Troquei de lugar com o espectro num piscar de olhos e reapareci ao lado dele. Girei o corpo e chutei com tudo a lateral do rosto. O impacto vibrou até o meu quadril. Senti o osso dele tremer sob o pé.
Antes que ele recuperasse o equilíbrio, ataquei o joelho.
Ele recuou um passo.
E sorriu.
O chão sob meus pés congelou de repente. O gelo se espalhou rápido demais. Escorreguei.
O punho dele veio pesado, preciso. Acertou minha costela e arrancou todo o ar do meu peito. O mundo fechou. Dobrei o corpo, mas usei o impulso para girar e cravar o cotovelo no maxilar dele.
O estalo ecoou pelo cômodo.
Cuspi sangue.
— Isso — ele murmurou. — Raiva pura. Sem pensar.
O Yeti rugiu.
Um braço de gelo se formou no ar e desceu como um martelo. Cruzei os antebraços para defender, mas o impacto me lançou contra a parede. Senti algo rasgar nas costas. O frio queimava.
Me levantei no ódio.
Avancei de novo.
Socos. Chutes. Ataques sem pausa.
Ele bloqueava, recuava, observava.
— Cada golpe seu, é alguém tentando provar que vale alguma coisa.
Meu punho acertou o rosto dele.
O frio aumentou ainda mais. Minhas pernas começaram a falhar.
O Yeti bateu os punhos no chão.
A onda de impacto me lançou no ar. Atravessar outra estante foi como atravessar vidro e madeira ao mesmo tempo. Rolei no chão, o corpo não respondendo como antes.
Tentei me levantar.
Não consegui, de repente visões vieram a mim como flashes de luzes
Rosa desviando o olhar.
Os simbolos na sua casa
A coruja pousando em mim
—A coruja?— falei comigo mesmo enquanto estava no chão
me lembrei de ter tido uma sensação de calma o tempo todo quando estava com a Rosa, era quase como algo sobrenatural
— Coruja? Então foi ela que você encontrou… — Matheus se aproximou e pisou na minha mão. O osso estalou. — Realmente achou que isso é uma historinha bonita pra um garoto saído do lixo brincar de herói?
Gritei com a dor que parecia romper meus ossos
— Você não passa de uma peça — ele continuou. — Substituível. Como todos eles.
O ódio queimava tanto que doía mais que os ferimentos.
Tentei arrancar o anel.
Senti minha pele começar a ser furada, espinhos nasceram de dentro da carne.
O grito saiu rasgado, quebrado. As vinhas explodiram para fora do meu braço, apertando, perfurando, sugando. Cada movimento era uma dor que não fazia sentido, como se meu corpo estivesse sendo ocupado à força.
Algo se mexeu dentro de mim.
Não era meu.
Senti como se mãos invisíveis estivessem puxando meus músculos, rearranjando ossos, usando meu corpo como ferramenta. A imagem de um dragão de rosas se espalhava por dentro, bebendo da minha raiva, da minha dor, da minha fraqueza, aquilo era o poder de algum espectro que estava no anel
Meu braço se ergueu sem que eu quisesse.
O chicote se formou.
Ataquei.
O chicote rasgou o ar, despedaçando gelo, quebrando colunas, arrancando o chão. Cada golpe era mais forte, mais selvagem. Matheus recuava agora, sério, atento.
— Olha só… — murmurou. — Até que você aguenta bastante, mas será que consegue sair do controle da Eva?
Minha visão escurecia. O corpo já não respondia. Eu estava sendo usado.
Foi então que senti.
Parecia a imagem de um corvo abrindo as asas dentro da minha cabeça.
Um peso frio, lúcido, cortando o caos.
Aquela voz que eu havia ouvido na cidade…
—Você é realmente um idiota.
As vinhas começaram a recuar. O chicote perdeu forma, caiu pesado no chão. O anel escorregou do dedo, arrancando a carne junto.
Caí de joelhos.
Depois de lado.
Respirava em pedaços.
Penas negras se espalharam pela minha visão turva.
Matheus me observava, respirando fundo.
— Impressionante — disse. — Poucos conseguem sobreviver a ela…

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