O barulho vinha antes mesmo de eu ver o lugar.

    Passos pesados, madeira batendo, gritos curtos, metal raspando. Quando a Duda me levou mais pra dentro, o espaço se abriu de vez. Era bem maior do que eu imaginava. Um salão aberto, com vários palanques de madeira espalhados, alguns baixos, outros mais altos, todos marcados por rachaduras e manchas antigas. Tinha gente lutando por todo lado.

    Eu parei por um segundo sem nem perceber. Meus olhos começaram a correr sozinhos de uma luta pra outra. Todos ali pareciam saber usar bem seus espectros.

    Um cara alto, usando uma espada fina, tinha atrás de si um coiote cinza, grande, com olhos amarelos, parado em posição de ataque. Cada golpe dele vinha pesado, direto, sem muito cuidado.

    Mais ao lado, uma garota magra girava duas adagas curtas. O espectro dela parecia ser uma doninha, longa, rápida demais, como se estivesse sempre esperando o momento certo. Os ataques dela eram rápidos, quase traiçoeiros.

    Vi também um sujeito usando um martelo curto. O espectro era um urso marrom, enorme, com marcas brancas no peito. Cada impacto fazia o chão tremer um pouco.

    Mais à frente, um cara com uma lança longa treinava contra dois ao mesmo tempo. O espectro dele era uma ave escura, algo entre um falcão e um corvo, com penas azuladas. Ele se movia muito rápido e parecia que sempre sabia onde os outros dois iriam estar.

    Eu olhava tudo aquilo impressionado, mas também tentava medir, mesmo sem querer. Força, velocidade, controle. Teoricamente, muita gente ali era forte. Mas poucos pareciam realmente perigosos.

    A Duda percebeu que eu tinha parado.

    — Vem — ela disse, puxando levemente meu braço. — As lutas principais ficam mais pra cima.

    Subimos por uma escada lateral até um dos palanques mais altos. Lá em cima, tinha mais gente assistindo. Em um deles, dois caras lutavam com mais intensidade do que o resto.

    — É aqui — ela falou, parando e abrindo o braço, mostrando o lugar. — Onde a gente faz os testes de verdade. Onde treina com espectros em combate real. É isso que a gente usa pra defender a igreja.

    Meu olhar saiu da mão dela quase sem eu perceber.

    Foi instintivo.

    No palanque mais próximo, um cara lutava como se não estivesse treinando, mas tentando vencer de verdade.

    Moreno, mais baixo do que eu esperava. Devia ter por volta de um metro e sessenta e nove, talvez menos. Mas o corpo dele era forte. Ele tinha uma postura firme. Cabelo liso, preto, colado na testa pelo suor. Olhos escuros demais pra dar pra ver direito de longe. Nas mãos, dois socos ingleses. Junto com ele, o seu espectro se movia: era um Leão Negro, quase absorvendo a luz ao redor. Os olhos brilhavam em azul, assim como alguns contornos pelo corpo, como linhas vivas marcando a forma da criatura. Ele não parecia pesado, mas tinha presença. Dava a sensação de força concentrada.

    O cara avançava o tempo todo. Cada golpe era curto, direto, pesado. Eu tinha a impressão de que dava pra matar alguém com um soco daqueles. Dava pra ver que ele já tinha lutado antes. O outro, um sujeito de cabelo raspado, usando um bastão, tentava manter distância. O espectro dele era um macaco, ágil, se movendo de um lado pro outro. Mas não adiantava. O bastão girava, tentava empurrar, bloquear. O macaco pulava, desviava. Mesmo assim, o moreno não parava. Pressionava sem dar espaço. Um soco passava raspando, outro acertava o braço, depois o tronco. O som seco dos impactos ecoava.

    Eu percebi a Duda olhando.

    Ela parecia olhar de um jeito diferente. Um segundo a mais de atenção. Um foco que não era só técnico.

    O cara do bastão recuou mais uma vez, respirando pesado. Tentou atacar de novo, mas acabou tomando um contragolpe em cheio no rosto. Ele então levantou a mão.

    — Desisto.

    O juiz anunciou a vitória. O moreno relaxou os ombros, respirou fundo e pulou do palanque com facilidade.

    Ele foi direto até a Duda.

    — Demorou hoje — ele disse, sorrindo.

    — Foi mal — ela respondeu. — Tive que buscar alguém.

    Só depois disso ele pareceu notar que eu estava ali.

    — Ah — ela completou. — Esse aqui é o Miguel. É o cara que ajudou o Sr. Matheus.

    Ele virou pra mim e estendeu a mão.

    Ele apertou minha mão como se quisesse esmagar um bando de gravetos.

    Eu segurei o aperto, mantive a expressão neutra. Não fiz força extra, mas também não cedi. Ele sorriu um pouco mais.

    — E aí, cara. Suave? Então foi você que ajudou o Sr. Matheus. Deve ser bem forte, né?

    — Não foi nada demais — respondi. — Só fiz o que ele pediu.

    — Hum — ele murmurou. — Sei.

    Ele me olhava como quem procura falha. Me analisou de cima a baixo umas duas vezes.

    — Na moral, eu queria muito lutar com você. Só pra ver.

    — Acho que não precisa, cara — falei, dando um sorriso melhor.

    — Precisa sim — ele disse, rindo. — Se o Matheus te escolheu, você tem que ser bom.

    A Duda entrou no meio.

    — Eu também quero ver. Fiquei curiosa com o quão forte você é. O Felipe é um dos melhores lutadores do exército.

    Suspirei.

    — Ah é? Acho que tudo bem então.

    Peguei uma lança de madeira encostada ali perto. Ele manteve os socos ingleses. Subimos no palanque.

    Ele se mexia o tempo todo. Saltinhos curtos, girava o pescoço, mexia os ombros. Dava pra ver que ele gostava de se exibir.

    — Vai usar espectro? — ele perguntou, enquanto estralava o pescoço.

    — Não. Acho que não precisa.

    Ele deu de ombros, o que me fez agradecer, pois acho que se descobrissem que eu nem mesmo consegui invocar meu espectro, teria um grande problema.

    O juiz então levantou a mão e anunciou o início da luta, e Felipe avançou no mesmo instante, sem hesitar. Ele veio rápido, encurtando a distância em poucos passos, tentando se manter perto demais para que a lança fosse realmente confortável de usar. O primeiro soco veio alto, mirando meu queixo, e eu consegui esquivar com um ajuste rápido dos pés, sentindo o vento passar rente ao rosto enquanto já reposicionava o corpo.

    Antes que eu pudesse abrir espaço de vez, ele continuou pressionando, alternando golpes altos e baixos, tentando me forçar a recuar em linha reta. Usei a lança pra manter ele afastado, atacando em linha e depois em diagonal, pra obrigá-lo a respeitar a distância. Ainda assim, Felipe não parecia intimidado; ele avançava mesmo quando a ponta da lança chegava perto demais, confiando na própria resistência e no tempo de reação.

    Ele conseguiu entrar mais uma vez, bloqueando a haste com o antebraço e respondendo com um gancho curto que pegou de raspão no meu ombro. O impacto não foi limpo, mas foi o suficiente pra fazer o braço arder. Recuei um passo, girei o corpo e usei o comprimento da lança pra varrer o espaço à minha frente, forçando Felipe a saltar pra trás.

    A troca continuou assim, sem pausa. Quando ele avançava, eu abria espaço; quando eu tentava controlar demais, ele quebrava o ritmo com a pressão constante. Em alguns momentos, consegui acertar o tronco e a perna dele com golpes rápidos, sentindo o impacto sólido da madeira contra o corpo. Em outros, era eu quem acabava recebendo socos curtos demais pra reagir a tempo, especialmente quando ele conseguia se manter colado em mim.

    A respiração dos dois começou a pesar conforme a luta avançava. Felipe já não sorria o tempo todo, mas ainda parecia confortável naquela pressão constante. Eu sentia o corpo respondendo bem, mas sabia que qualquer erro mínimo ali podia me fazer ter dores no corpo por uma semana inteira.

    Em uma troca mais agressiva, tentei um ataque mais forte pra empurrá-lo pra trás e recuperar espaço de vez. Felipe respondeu travando a lança no impacto, usando o corpo inteiro pra segurar a força do golpe. A madeira vibrou de um jeito estranho e, antes que eu pudesse ajustar, veio o segundo impacto, mais seco.

    A lança rachou.

    O som foi claro o suficiente pra que eu soubesse que não dava mais pra confiar nela. Felipe percebeu no mesmo instante e avançou sem pensar, mas antes que qualquer coisa pudesse continuar, a voz do juiz interrompeu a cena e decretou o fim da luta, anunciando a vitória de Felipe pelas regras.

    Fiquei parado por um instante, respirando fundo, sentindo o coração bater forte no peito. Felipe chegou perto, rindo enquanto tirava os socos ingleses das mãos, ainda com o olhar aceso.

    — Caraca, mano… — ele disse, balançando a cabeça. — Essa foi por muito pouco.

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