Depois da luta, a Duda disse que precisávamos voltar logo para o dormitório por conta da hora. Nos despedimos do Felipe e do pessoal ali e, depois de um banho, finalmente consegui dormir.

    Acordei com o som de uma buzina ou algo assim. Olhei pela janela do dormitório e o sol nem tinha nascido. Com um pouco de relutância, levantei da cama. Meu corpo ainda doía um pouco pela luta de ontem, mas estava melhorando. Quando reparei, todos estavam enfileirados em frente às suas camas, e um homem alto e careca entrou pela porta. Duda deu um passo à frente e prestou continência para o homem, que nem mesmo mudou sua expressão.

    — Apresentando o pelotão 7, senhor — ela disse, apontando para nós ali atrás.

    — Descansar — ele disse, arrumando a postura, enquanto todos se mantiveram na posição de descanso, parados. Consegui perceber Jorge e Mariane cochichando algo, mas sinceramente não conseguia entender nada do que diziam.

    O homem ficou alguns segundos em silêncio, nos observando como se estivesse contando algo invisível.

    Alto. Largo. Careca. O uniforme dele parecia mais velho do que o nosso.

    — Então esse é o ilustre pelotão 7 — a voz era baixa, mas atravessava fácil o espaço. — Esperava mais barulho.

    Ninguém respondeu.

    Ele começou a andar devagar entre as fileiras. Passava de um em um, os fitando como um lobo olhando para as presas. Quando chegou perto de mim, diminuiu ainda mais o passo. Seus olhos encararam os meus. Reconheci aquele olhar, como se já o tivesse visto antes. Ele não falou nada. Só ficou ali me encarando por um instante, até voltar a caminhar.

    — Recebi ordens da igreja ontem à noite — continuou, virando-se de frente para todos. — As suas missões vão começar a apertar. Não vou aceitar novos erros.

    Jorge endireitou a postura de um jeito desajeitado.

    — Vocês não são especiais — ele disse. — Não aqui dentro.

    Ele deu uma olhada para Duda.

    — A líder de vocês sabe disso.

    Duda assentiu.

    — Vocês terão um treino físico agora. Depois, preparo pra campo. Quem ficar pra trás, fica de fora da próxima missão.

    Ele virou de costas e saiu do dormitório como se já tivesse terminado tudo o que precisava ali.

    Quando a porta fechou, o ar pareceu voltar a circular.

    — Bom dia pra você também — Jorge murmurou.

    — Cala a boca — Mariane respondeu, também murmurando.

    Depois dessa cena, todos fomos para fora, na área de treinamento físico. Por algum motivo, toda a estação de treinamento parecia estar vazia. A Duda tomou a frente e começamos os exercícios físicos.

    O primeiro foi um treino em que tínhamos que correr em volta de uma quadra por 10 minutos, e o mínimo de voltas era 30. Kainan avançava correndo como se aquilo fosse extremamente fácil para ele. Jorge era o mais rápido dali, inegavelmente, mas na sexta volta já parecia estar morrendo de cansaço. Mariane corria um pouco à frente e parecia ter alguma técnica de corrida. Eu, pessoalmente, não estava nem um pouco a fim de me esforçar para cumprir metas daquele lugar ou algo parecido, então estava correndo na velocidade que julguei ser suficiente para completar o treino no tempo mínimo.

    Enquanto eu corria, o Renan se aproximou de mim com um sorriso meio torto, respirando um pouco mais pesado do que fingia.

    — Então… — ele começou, olhando pra frente pra não chamar atenção. — É verdade mesmo o papo do Matheus?

    — Que papo?

    — Que você se infiltrou no meio dos caras. Que ficou dias lá dentro. E que salvou ele.

    Ele deu uma risadinha curta.

    — Ouvi um pessoal falando disso.

    Soltei um riso meio fraco enquanto pensava na noite em questão.

    — Não diria que foi exatamente isso.

    — Entendi.

    — Mas e aí, tá aqui há quanto tempo?

    — Justo. Eu tô desde o começo do ano. Não por escolha, mas… — ele fez um gesto vago com a mão enquanto corria. — Acabou sendo isso ou nada.

    Assenti sem comentar. Ele pareceu confortável com o silêncio.

    Na curva seguinte, Jorge passou por nós rápido demais, respirando alto, quase tropeçando no próprio ritmo. Mariane vinha logo atrás, passada firme, olhando pra ele com um sorriso que não dava pra entender direito se era incentivo ou deboche.

    — Eles são sempre assim, desde pequenos. Brigam, se zoam, mas ninguém de fora pode fazer o mesmo.

    — Saquei.

    Kainan passou mais uma vez, agora suado de verdade e com a expressão fechada. Quando cruzou comigo, seu sorriso se abriu, ele acenou e voltou a correr.

    Quando o treino de corrida terminou, veio o resto: flexões, barras e etc.

    Duda caminhava entre a gente, contando em voz alta, postura sempre reta, tentando parecer a líder do grupo. Quando alguém errava o movimento, ela corrigia com calma, tocando no ombro e ajustando a posição. Às vezes sorria, às vezes ficava séria, mas sempre parecia muito incomodada com algo.

    — Miguel — ela disse em voz baixa quando passou por mim. — Se sentir que tá forçando demais, reduz um pouco. A gente ainda vai precisar de você inteiro depois.

    — Tô bem — respondi, mas estranhei um pouco. “A gente vai precisar de você inteiro.” O que iria ter depois?

    Ela assentiu, mas não parecia totalmente convencida.

    Nas barras, Kainan subiu como se fosse automático. Jorge fez força demais e quase caiu na terceira. Mariane fez com uma facilidade invejável, olhando em volta enquanto subia, como se estivesse entediada. Renan demorou mais, trapaceou um pouco com o impulso, mas quando percebeu que Duda estava olhando, ajustou o movimento o mais rápido que podia.

    — Tá contando isso aí mesmo? — Jorge provocou.

    — Conta se ninguém ver — Renan respondeu, rindo.

    Jorge revirou os olhos enquanto Mariane ria de canto. Duda segurou o riso, escondendo o rosto e fingindo não ouvir.

    Quando o treino acabou de vez, ninguém falou nada por alguns segundos. Só o som da respiração pesada.

    Foi aí que a Duda falou que era hora de ir para a aula teórica, e que devíamos tomar um banho e nos encontrar lá.

    Troquei um olhar rápido com Duda. Ela ajeitou o uniforme, respirou fundo e começou a andar primeiro, como sempre.

    Depois do banho e da troca de uniforme, seguimos em silêncio até o prédio das aulas teóricas. Ele ficava um pouco afastado da área de treino, um bloco largo de concreto escuro, com símbolos entalhados nas paredes que eu ainda não sabia identificar.

    A sala era grande, fria demais. Fileiras de mesas de metal, todas voltadas para um quadro negro enorme, coberto por inscrições e diagramas já desenhados antes mesmo de a gente chegar. No fundo, vitrines de vidro protegiam objetos estranhos: fragmentos de pedra, anéis, correntes, pedaços de ossos que não pareciam humanos.

    Sentamos.

    Jorge largou o corpo na cadeira como se tivesse sobrevivido a uma guerra. Mariane se esticou um pouco, relaxada demais. Kainan ficou ereto, mãos apoiadas na mesa. Renan escolheu um lugar mais pro lado, longe dos dois primeiros. Duda se sentou à frente, mas não como líder. Só como aluna.

    Poucos segundos depois, a porta se abriu.

    O homem que entrou não usava uniforme de combate. O dele era mais escuro, sem insígnias visíveis. Cabelos grisalhos, óculos finos, postura rígida. Ele não se apresentou.

    — Espectros não são armas — foi a primeira coisa que ele disse, escrevendo no quadro. — São entidades vivas.

    Alguns se mexeram na cadeira.

    — E, ainda assim, são usados como armas por pessoas idiotas que acham que sabem lidar com algo do tipo. — Ele fez uma pausa curta. — O que torna isso perigoso.

    Começou a desenhar círculos conectados por linhas.

    — Todo ser humano gera uma energia específica. Chamamos de ego.

    Meu olhar foi direto para o desenho.

    Ego → Humano → Espectro.

    — O ego é o que ancora o espectro à realidade. É o que dá forma, limite e controle. Sem ele, um espectro não pensa. Ele reage.

    Ele bateu o giz no quadro.

    — Quando um espectro perde o vínculo com seu portador, o ego se dissipa. O que sobra é instinto.

    — Por isso, o controle é mais importante que força — continuou o homem. — Sincronia alta entre portador e espectro aumenta exponencialmente a capacidade de ambos. Mas também aumenta o risco.

    Ele se virou.

    — Quanto mais vocês usam o espectro como ferramenta… menos ele se vê como parceiro.

    Aquilo ficou ecoando.

    Ferramenta.
    Parceiro.

    Sem perceber, lembrei da serpente. Do jeito como ela se movia. Do jeito como reagia às minhas emoções antes mesmo de eu pensar.

    O homem continuou explicando classificações, níveis de sincronia, casos documentados. Falou de batalhas antigas, de falhas, de cidades inteiras isoladas por causa de Darkins que ninguém conseguiu conter.

    Em certo momento, ele olhou na nossa direção.

    — Perguntas?

    Mariane inclinou a cabeça.

    — Mas os espectros não são animais ou algo assim?

    O homem a encarou por alguns segundos a mais do que o normal.

    — Essa visão idiota sobre eles é o que nos levou aonde estamos hoje. Todas essas igrejas veem o “poder” que Deus nos deu como uma arma, e não como algo real.

    Mariane pareceu ficar envergonhada com a resposta.

    — Espectros são seres pensantes como nós, e tudo indica que algumas pessoas podem até se comunicar com os seus.

    Todos da sala pareceram perder o foco por um segundo, como se pensassem nos próprios espectros.

    Senti algo apertar por dentro.

    A aula terminou pouco depois.

    Duda caminhou ao meu lado por alguns metros.

    — Muita coisa de uma vez, né? — ela disse, tentando soar leve.

    — É. Você parecia bem preocupada hoje. Aconteceu alguma coisa?

    Ela demorou um pouco pra responder. Continuou andando, os olhos à frente, como se estivesse medindo cada passo.

    — Acontece sempre. Quando chega perto de missão — ela disse, olhando para baixo.

    Olhou pra mim de lado, rápida.

    — Acho que é pela responsabilidade, sabe?

    Ficamos em silêncio por mais alguns metros. O prédio das aulas ficou pra trás e entramos numa área mais movimentada da base. Soldados passando em direções diferentes, alguns sozinhos, outros em grupos pequenos. Espectros apareciam e desapareciam perto dos corpos, como sombras inquietas.

    — Você tá indo bem, relaxa — falei pra ela, tentando sorrir.

    — Não parece.

    — Sabe… eu tô observando todo mundo, e eles parecem confiar em você. Eu também confio, então só relaxa. Você é uma boa líder.

    A expressão dela pareceu ficar um pouco mais tranquila.

    — Tá prestando atenção demais, bobão — ela disse, fazendo uma careta.

    — Alguém tem que prestar.

    Paramos perto de um corredor largo, protegido por grades grossas e duas portas de metal reforçado. Não entramos, mas deu pra ver o suficiente.

    Lá dentro, racks inteiros de armas. Lâminas de formatos estranhos, lanças com inscrições, armas de fogo adaptadas com encaixes metálicos que eu nunca tinha visto. Algumas vibravam levemente, como se estivessem vivas.

    — Arsenal — Duda disse, sem cerimônia. — A gente vai usar antes da missão de amanhã.

    Seguiu andando antes que eu perguntasse qualquer coisa.

    Mais à frente, passamos por uma área aberta com estruturas de treino diferentes das da manhã. Alvos móveis, marcas no chão, paredes quebradas e refeitas dezenas de vezes. O lugar cheirava a metal e poeira antiga.

    — Treino de combate com espectro — ela explicou. — Vocês ainda não vêm pra cá direto. Falta base.

    Base.

    Guardei a palavra.

    Quando o sol já começava a cair, o toque soou pela base inteira. Um som seco, impossível de ignorar.

    — Recolher — Duda disse. — Vamos.

    No dormitório, a comida já estava entregue. Marmitas simples, todas iguais. Ninguém reclamou. Jorge comeu rápido demais, como se tivesse medo de alguém tirar. Mariane beliscava a comida, conversando baixo com ele. Kainan agradeceu antes de comer, quase automático. Renan ficou mais quieto do que de manhã, mas sentou perto de mim.

    — Aula pesada — ele comentou. — Dá pra entender por que tanta gente pira.

    Assenti.

    Depois do jantar, ninguém teve muita energia pra falar alto. O cansaço pesava diferente agora. Não era só físico.

    Antes das luzes apagarem, Duda se levantou.

    — Amanhã — disse, chamando atenção sem levantar a voz — a gente sai em missão cedo.

    O dormitório ficou em silêncio.

    — Não é grande — ela continuou. — Mas é real. Então durmam. E estejam prontos.

    Alguns trocaram olhares. Jorge sorriu de nervoso. Mariane cruzou os braços, atenta demais. Kainan assentiu uma vez. Renan respirou fundo.

    Eu só me deitei.

    O teto parecia diferente no escuro.

    Missão.
    Arsenal.
    Ego.
    Parceiro.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota