Capítulo XII- Planos
Quando finalmente fechei os olhos, eu já não estava mais no dormitório.
Um local todo enfeitado com mármore e colunas ornamentadas havia tomado a minha volta. Eu conhecia aquele lugar, era o mesmo da minha última visão. O silêncio ali era quase calmante.
O corredor à minha frente era longo e, conforme caminhava, a única coisa que podia ouvir eram meus próprios passos. Quando cheguei novamente à sala do trono, eu já sentia o que estava ali: era ela de novo.
— Eu sei que você está aí, não adianta ficar se escondendo — falei enquanto olhava em volta e tentava localizar qualquer coisa que se movesse.
— Que rapaz mais atento você, meu pequeno — a voz doce, porém quase venenosa, tocou meus ouvidos. — Acho que você deveria ser um pouco mais gentil comigo, não concorda?
Enquanto a voz falava, uma serpente branca tão grande que só sua cabeça era maior que meu corpo começou a emergir do chão. Seus olhos brilhavam em esmeralda enquanto sua presença tomava o local.
Bem acima dela, uma mulher com um longo vestido branco estava debruçada, me encarando. Seus olhos eram idênticos aos da serpente e pareciam conseguir observar o fundo da minha alma, ela esbanjando um sorriso tão malicioso quanto gentil.
No momento em que a vi, me lembrei das palavras de Gui e de tudo que sabia sobre os espectros.
— Você é meu espectro, não é? — perguntei enquanto tentava desfazer o contato visual quase hipnótico.
— Que falta de educação… mas sim, eu sou o que vocês chamariam de Espectro, mas meu nome real é 𓂀⟁βΔ∴§¥₭𐍈.
No momento em que aquelas palavras saíram da sua boca, minha cabeça inteira pareceu revirar. A dor era tão intensa que um zunido preencheu minha mente.
— Ah, é, esqueci que vocês não podem ouvir a nossa língua. Deixa eu facilitar para você: meu nome é Basylisk — quando ela disse aquilo, a dor foi aos poucos passando, restando apenas um pouco do zunido na minha cabeça.
— Nossa língua? Vocês, os espectros, têm uma língua própria?
— Não é óbvio, querido? Somos bem mais evoluídos que vocês, afinal, também somos bem mais antigos.
Ela fez uma pausa curta antes de continuar.
— Mas agora, voltando ao ponto importante: sabe por que eu te trouxe aqui?
— Sinceramente? Não faço ideia.
— Claro, claro. Bom, vou te explicar de forma simples.
A silhueta que estava bem na minha frente desapareceu. Logo em seguida, senti suas mãos tocarem meus ombros por trás.
— Se lembra da Rose?
No momento em que ela disse aquilo, a imagem do dragão de pétalas voltou à minha mente, junto da Rosa. Eu apenas assenti com a cabeça.
— Que bom que se lembra. Bem, você deve lembrar que usou aquele anel nojento para tentar me dar ordens, não é?
As mãos dela subiram lentamente pelo meu pescoço.
— Bom, mas eu sinceramente não posso te culpar por aquilo. Eu não podia te ajudar em muito naquele momento mesmo. Foi difícil convencer eles a me deixar sair, sabia?
— Eles? De quem você tá falando? — tentei virar meu rosto para olhar para ela.
— Isso não vem ao caso por agora.
Ela apertou levemente minha mão.
— O ponto é: amanhã, na sua “missãozinha” com aquele seu grupo, alguém vai dar as caras. Um velho amigo seu.
A mão dela desceu devagar até a minha palma.
— Eu quero que você finque isso nele.
No mesmo instante, a lança que o Sr. Hazman havia forjado para mim apareceu ali.
— Calma, me explica melhor isso.
— Infelizmente, não vai dar tempo, meu bem. Mas saiba que agora vou te ajudar bem mais.
Enquanto ela falava, a serpente à minha frente começou a abrir sua enorme boca, revelando suas presas e o que parecia ser um caminho sem fim em seu interior.
— Ah, e outra coisa: se possível, evita a Corvina. Ela é bem chata, ok?
Ela piscou para mim.
Em seguida, me empurrou contra a boca da serpente, que imediatamente me devorou.
Acordei assustado na minha cama do alojamento. Minhas mãos tremiam, e eu ainda sentia como se estivesse dentro do estômago daquela coisa.
Quando voltei à realidade e olhei em volta, percebi que uma das camas do alojamento estava vazia.
Tentei sair dali da forma mais silenciosa possível, evitando todos. Mas, sinceramente, nem sei por que me esforcei tanto, já que eles não acordavam nem mesmo com o ronco do Renan.
Quando saí do dormitório, vi a fugitiva sentada no teto do alojamento, olhando para cima.
Subi tentando ser o mais discreto possível. Quando finalmente cheguei lá em cima:
— O que acha que tá fazendo aí? — a Duda disse, sem nem se dar ao trabalho de virar para trás.
— Que droga, você me percebeu bem fácil, né? — eu disse, coçando a cabeça enquanto caminhava em direção a ela.
— Sou boa nessas coisas. Mas você ainda não respondeu à pergunta…
— Eu só fiquei curioso para saber o que nossa ilustre líder estava fazendo aqui a essas horas. Aconteceu alguma coisa?
— Você é mais observador do que parece, né?
Ela deu um sorriso e voltou a olhar para cima. Eu entendi o convite e sentei ao lado dela.
— Já ouviu falar no Adriano Mantovani?
Eu já tinha ouvido aquele nome em algum momento, mas simplesmente não me lembrava onde. Apenas neguei com a cabeça.
— Você é bem desinformado para alguém que trabalha para o Matheus.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Bom, de qualquer forma, o Adriano é um dos quatro heróis de Loxus junto com o Matheus. Quando houve a Guerra das Igrejas, ele foi responsável por acabar com exércitos inteiros sozinho.
— Hoje ele é um dos nomes mais importantes aqui no exército e, bem… ele é meu pai.
No momento em que ela disse aquilo, algumas coisas começaram a fazer mais sentido: a obsessão dela em tentar ser uma boa líder e todo aquele peso que ela parecia carregar.
Tudo aquilo vinha do pai dela.
— Sabe, depois do grande anúncio, meu pai acabou mudando. Ele sempre foi ocupado e trabalhava muito, mas depois do aparecimento das igrejas, ele ficou obcecado com a ideia de ser um escolhido de Deus e com o poder dos espectros.
Ela apertou as mãos no colo.
— Isso fez ele se afastar cada vez mais de mim e da minha mãe. E depois da Grande Guerra, isso só piorou.
— Eu sei que sou boba e egoísta por isso, mas eu quero meu pai de volta.
A voz dela falhou um pouco.
— Talvez, só talvez, se eu conseguir um cargo alto no exército ou conquistar grandes coisas aqui, eu consiga ter pelo menos um pouco dele de volta.
Uma pequena lágrima escorreu pelo canto do seu olho. Ela limpou rápido.
— Sou uma boba, não é?
Eu olhei nos olhos dela, lembrando da sensação de encarar Basylisk mais cedo.
— Você não é nada boba. Só quer algo que ama de volta.
Ela desviou o olhar rapidamente.
— Nunca tinha percebido que seus olhos eram esverdeados, kkkkk.
Depois disso, ela se levantou e bateu as roupas, como se estivesse tirando poeira.
— Bom, já passou da hora de dormirmos, não acha? Amanhã é um grande dia.

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