Naquele dia, acordei com Maria gritando e acordando todos, como se estivesse em um daqueles filmes de exército. Todos nós levantamos rápido e entramos em formação em frente às camas.

    — Como todos aqui sabem, hoje é um dia importante. Vai ser uma das nossas maiores missões em conjunto até agora, então quero todos prontos e preparados para sairmos em 15 minutos. Agora, vão logo!

    Todos nós saímos rapidamente para tomar banho e nos vestirmos com o uniforme. Quando eu estava prestes a vestir minha jaqueta, me perdi em pensamentos ao olhar para o símbolo nela. Era o símbolo da igreja — a mesma que tinha acabado com a minha casa, a mesma que transformou meu amigo em um lixo e a mesma que levou a Ashley… E agora eu estava ajudando eles…

    Meu devaneio foi interrompido quando Kainan falou comigo:

    — Pronto para hoje?

    Eu assenti com a cabeça.

    — Sabe, é bom ter você conosco. Eu normalmente sou bom em perceber quais pessoas são realmente legais, e você é uma delas.

    Ele esticou o punho para um cumprimento de soco, e eu completei.

    Depois de todos nos vestirmos, voltamos às posições em frente às camas. Jorge e Mariane cochichavam algo que eu não conseguia ouvir, até o momento em que ele entrou.

    Alto, sem um único fio de cabelo na cabeça e usando um grande bigode, seu olhar era atento, mas gentil para alguém de alto escalão do exército.

    — Bom dia, meu querido Esquadrão 7! Faz tempo que não vejo vocês, não é? Percebi até mesmo que vocês têm um novo membro.

    Notei seu olhar me fitando de cima a baixo rapidamente.

    — Bom, mas agora deixando os cumprimentos de lado, hoje teremos uma missão importante. A líder de esquadrão, Mantovani, vai levar vocês até a sala de armas para se prepararem e depois passar os detalhes da missão de hoje. Por agora é só isso. Até mais.

    Depois que ele saiu, todos pareceram estar animados com a missão.

    — Bom, o general Zeke já explicou o que vai acontecer, então vamos.

    Duda nos guiou por um caminho que eu ainda não tinha feito antes. Ele passava por algumas salas trancadas e estranhas, até estarmos de frente para uma porta de aço guardada por alguns homens armados. Duda parou bem em frente a eles e mostrou seu cartão de identificação. Quando eles abriram a porta, dentro daquela sala havia uma quantidade enorme de armas de todo tipo, desde armas de fogo até katanas, lanças e outras.

    — Como essa missão é importante, vocês foram autorizados a usar armas espectrais neutras. Sintam-se à vontade para escolher uma delas.

    Assim que Duda terminou de falar, todo mundo começou a se espalhar pela sala quase ao mesmo tempo.

    Aquela sala era enorme, muito maior do que eu imaginava que existiria dentro da igreja, e tinha um ar frio estranho, misturado com cheiro de ferro, óleo e alguma coisa diferente — uma energia meio pesada que parecia ficar grudada na pele.

    As paredes eram cobertas por armas de todos os tipos, desde rifles enormes até espadas, lanças, correntes, machados e coisas que eu nem sabia nomear direito. No centro, havia algumas mesas metálicas com mais armas organizadas, todas com aquele pequeno detalhe perto do cabo ou da empunhadura

    Eu fiquei parado por alguns segundos só observando, tentando entender como aquilo tudo funcionava na prática.

    A Mariane foi a primeira a escolher.

    Ela nem sequer olhou para as armas de fogo. Passou direto, como se aquilo nem existisse, e foi até uma espada longa, grande o suficiente para parecer pesada até para ela. A lâmina era larga, com algumas gravações próximas à base, onde ficava o receptor. Ela segurou o cabo com firmeza e puxou a espada do suporte com naturalidade, como se já soubesse que era aquela.

    Ela girou a espada no ar uma vez, e o som do metal cortando o ar ecoou pela sala.

    — Vai ser essa aqui — ela disse com um sorriso no rosto, enquanto apoiava a espada nas costas.

    O Kainan foi mais devagar. Ele caminhou até uma bancada lateral e ficou alguns segundos encarando um par de manoplas metálicas reforçadas, grossas, com placas protegendo os nós dos dedos. O receptor ficava embutido na parte interna, perto do pulso. Ele colocou uma, depois a outra, fechou os punhos, e eu consegui ouvir o leve estalo do metal se ajustando.

    O Jorge já parecia uma criança em loja de brinquedo. Ele andava de um lado para o outro, analisando tudo com um sorriso meio animado no rosto, até parar em duas lâminas curvadas, menores, leves e rápidas. Ele testou o peso nas mãos, girando o corpo de um jeito quase exagerado.

    — Isso aqui é muito foda, não é, Mariane? — ele perguntou, sorrindo para ela, e ela assentiu com a cabeça.

    O Renan demorou um pouco mais que os outros. Ele ficou andando pela sala, como se estivesse procurando alguma coisa específica, mas, ao mesmo tempo, parecia evitar encarar qualquer arma maior. Os olhos dele passavam pelas espingardas, pelas espadas enormes, pelos machados, mas ele não tocava em nada.

    Até que parou em frente a um arco.

    Não era um arco comum. Era feito de um material escuro que parecia quase orgânico, como se tivesse sido moldado e não forjado. O receptor espectral ficava embutido bem no centro da empunhadura, com pequenas linhas que percorriam os dois lados da curvatura.

    Ele passou a mão pela madeira devagar, como se estivesse testando.

    — Acho que isso aqui já tá bom pra mim — ele disse, dando um meio sorriso que não convencia muito.

    Ele pegou também uma aljava fina, com flechas de ponta metálica, e colocou nas costas, ajustando a correia.

    A Duda foi a última.

    Ela não parecia com pressa. Caminhou entre as armas, como se estivesse analisando mais do que só peso e formato. Parou por alguns segundos em frente a uma lança curta, depois ignorou. Olhou para um rifle longo, também não pegou.

    No fim, ela escolheu uma alabarda.

    O cabo era longo, quase da altura dela, e na ponta havia uma lâmina curva, acompanhada de uma ponta perfurante. O receptor espectral ficava próximo à base da lâmina, envolvido por pequenas marcas prateadas.

    Ela segurou a arma, apoiou a base no chão e testou o equilíbrio, girando levemente o cabo com as duas mãos.

    — Vamos precisar de alcance, né, Miguel? — ela perguntou, sorrindo para mim.

    Eu dei uma risada e concordei.

    Foi quando alguém de fora falou algo para ela:

    — Miguel.

    A Duda estava parada perto da porta, me olhando.

    — Alguém tá te chamando lá fora.

    Alguns deles olharam na minha direção, mas ninguém falou nada.

    Eu apenas assenti e comecei a andar até a saída, sentindo os olhares me acompanhando por alguns segundos, antes de voltarem para as próprias armas.

    Quando atravessei a porta de aço, o ar do corredor parecia mais quente que o da sala.

    A Marcela estava encostada na parede, os braços cruzados, como se já estivesse ali fazia algum tempo.

    Assim que me aproximei, ela descruzou os braços.

    — E aí — eu disse, encostando na parede oposta, mantendo certa distância. — O que foi?

    Ela me encarou por alguns segundos antes de responder.

    — O Matheus pediu pra te entregar isso.

    Ela puxou das costas um objeto longo, envolto em um pano escuro.

    Meu olhar desceu automaticamente.

    Ela segurava com cuidado, como se soubesse exatamente o que tinha ali.

    — Pode pegar.

    Eu estendi a mão.

    Assim que meus dedos tocaram o tecido, uma sensação estranha percorreu meu braço.

    Quando puxei o pano, a prata refletiu a luz do corredor.

    A lança.

    O metal polido, os detalhes esculpidos em forma de serpente subindo pelo cabo, a pedra verde cravada perto da base da lâmina.

    Por um segundo, a imagem do sr. Hazman veio na minha cabeça.

    Depois a Ashley.

    A primeira vez que eu tinha forçado energia na lâmina.

    O jeito que ela tinha ficado olhando, preocupada.

    Minha mão apertou o cabo com mais força do que o necessário.

    Eu passei os dedos pelos ornamentos, observando os detalhes como se estivesse vendo pela primeira vez.

    — Por que ele tá me entregando isso agora? — perguntei, sem tirar os olhos da lança.

    A Marcela deu de ombros.

    — Provavelmente porque você vai precisar.

    Ela fez uma pequena pausa antes de continuar.

    — Ah, e tem mais uma coisa. O Matheus tem uma missão específica pra você hoje.

    Eu levantei o olhar.

    — No Tamandaré, o seu objetivo vai ser capturar o traficante Pedro Petrini. Só desmaiar. A gente faz o resto.

    O nome ficou alguns segundos no ar.

    Pedro Petrini.

    A imagem dele apareceu quase automática na minha memória. Ele indo no Santa Mônica. Conversando com o Gui como se fosse da família.

    — Eu sei que você conhece ele — a Marcela continuou. — Ele tinha ligação com o pessoal do Santa Mônica.

    Eu fiquei alguns segundos em silêncio.

    Depois apenas assenti.

    — Tá.

    Ela me encarou como se estivesse tentando ler alguma coisa no meu rosto.

    — Só isso. Não inventa nada além disso, ok? Ainda não entendo o porquê de o Matheus te deixar vivo.

    Eu ajeitei a lança na mão.

    — Talvez eu só seja mais útil que algumas pessoas, não é?…

    E voltei para dentro.

    Assim que entrei na sala, a conversa que estava acontecendo diminuiu quase instantaneamente.

    A Mariane estava falando mais alto que o normal.

    — …eu só não entendo por que deram acesso a armas espectrais neutras pra gente, se essas coisas foram praticamente proibidas depois que aqueles imundos do Santa Mônica atentaram contra o exército e contra a igreja.

    O clima ficou pesado.

    O Kainan coçou a nuca.

    — Eu não sei se foi totalmente culpa deles… Eu já ouvi dizer que a igreja também não é exatamente santa.

    Ela virou o rosto pra ele na hora.

    — A igreja protege a gente. Se não fosse por ela, isso aqui já tinha virado um caos muito maior.

    Eu continuei andando como se não estivesse ouvindo.

    Quando me aproximei, os olhares desceram direto para a lança na minha mão.

    O metal prateado chamava atenção demais.

    O Renan foi o primeiro a falar.

    — Caralho… onde você conseguiu isso?

    Eu parei ao lado da minha antiga posição.

    — O Matheus me entregou.

    A Mariane não disse nada, mas o olhar dela ficou preso na pedra verde por alguns segundos antes de desviar.

    E, naquele momento, a missão começou de verdade.

    A Mariane começou a andar um pouco à frente, com a espada apoiada no ombro, girando o pescoço de um lado pro outro, com aquele sorriso que ela sempre faz quando parece estar torcendo pra alguém aparecer só pra ela ter um motivo pra usar a lâmina. O Kainan vinha logo atrás, mas, diferente dela, não parecia procurar briga — ele observava tudo de cima: janelas, telhados, becos, como se estivesse montando um mapa mental da rua enquanto caminhava. Jorge, como sempre, estava praticamente colado na Mariane, falando alguma coisa que eu não consegui ouvir direito, mas, pelo jeito que ele ria, devia estar provocando ela sobre quem derrubaria mais inimigos. Renan estava do meu lado, com o arco já nas mãos, tentando puxar assunto comigo de tempos em tempos, comentando que a cidade estava silenciosa demais, que aquilo não parecia normal… mas dava pra perceber, no jeito que ele apertava o arco, que ele não estava falando por estratégia — estava falando pra não ficar em silêncio. Mais atrás vinha a Duda, séria como sempre quando a missão envolvia todo mundo, o olhar fixo, atento, como se qualquer erro nosso fosse responsabilidade direta dela.

    Foi quando meu olhar subiu quase por instinto e, no mesmo momento, ouvi passos correndo sobre telha. Antes que eu abrisse a boca, três sombras saltaram do alto e caíram na nossa frente, com o impacto pesado das botas contra a pedra.

    Jorge foi o primeiro a reagir, apontando pra eles como se a gente não estivesse encarando os três homens já posicionados, bloqueando a rua. Um deles era mais alto, ombros largos, uma cicatriz atravessando o rosto, como se já tivesse sobrevivido a coisa demais pra estar ali só de passagem. Os outros dois se moveram rápido — um fechando a saída da esquerda, o outro descendo por uma escada lateral à direita — não era ataque impulsivo, era cerco.

    A Mariane inclinou a cabeça, analisando os três por um segundo que pareceu até desrespeitoso, e soltou uma risada curta.

    — É sério? É isso que o Tamandaré tem pra oferecer? Só três?

    Ela nem esperou resposta. A espada saiu da bainha num movimento seco, e ela disparou pra frente. Jorge foi junto, quase no mesmo instante, como se manter formação fosse só uma sugestão.

    — Mantém a formação! — Duda gritou atrás da gente.

    Mas os dois já tinham partido.

    E o que me incomodou não foi eles avançarem.

    Foi que os três homens não demonstraram surpresa nenhuma.

    Era como se estivessem esperando exatamente isso.

    A Mariane não diminuiu a velocidade nem por um segundo. O cara da cicatriz mal terminou de firmar os pés no chão, e ela já estava em cima dele, a espada descendo num arco pesado que fez o som do metal rasgar o ar. Ele bloqueou por pouco, a lâmina dele encontrando a dela com um estalo alto que ecoou pela rua vazia. O impacto fez poeira subir das pedras.

    Jorge entrou pelo lado, tentando pegar o homem desprevenido, mas um dos outros dois interceptou, girando uma lança curta numa defesa rápida que obrigou Jorge a recuar dois passos.

    — Eu pego esse! — Jorge gritou, já avançando de novo.

    Renan puxou a primeira flecha quase no automático. Eu ouvi o som da corda tensionando ao meu lado antes mesmo de ver. Ele soltou. A flecha cortou o espaço e obrigou o terceiro homem, o que estava descendo pela lateral, a se jogar pro lado pra não ser atingido no peito.

    A Mariane pressionou o homem da cicatriz com uma sequência de golpes rápidos, forçando ele a recuar alguns passos, enquanto o metal batia alto demais pra aquela rua estreita. Jorge já estava trocando golpes com o da lança, avançando sem pensar duas vezes, quase tropeçando na própria pressa de acertar. Eu mal consegui manter meu foco quando um dos outros soldados veio direto na minha direção, a lâmina descendo num corte vertical que eu bloqueei por pouco, sentindo o impacto subir pelo braço.

    Kainan correu pra ajudar a gente no mesmo instante em que percebeu que estávamos ficando espalhados demais. Ele entrou no meio da confusão e acertou um dos caras que estava tentando alcançar a Mariane pelas costas, obrigando o sujeito a recuar.

    — Junta! Junta! — Duda gritou atrás da gente.

    Mas aí os reforços chegaram de vez.

    Não foi só o som de passos dessa vez. Foi gente virando a esquina, ocupando a rua, surgindo das laterais. Mais soldados do Tamandaré, armaduras simples, mas em número suficiente pra transformar aquilo numa briga desorganizada em segundos.

    Uma besta disparou.

    A flecha passou raspando pelo meu rosto e cravou na parede atrás. Renan respondeu quase no reflexo, atirando de volta e acertando um dos homens na perna, mas outro já vinha por trás dele. Eu empurrei meu oponente e fui pra cima desse segundo, bloqueando o golpe que ia atingir o Renan.

    A rua virou caos.

    Gritos, metal batendo, passos correndo, poeira subindo. Um cavalo preso numa carruagem começou a relinchar e puxar as rédeas, se debatendo com o barulho. Um dos soldados tropeçou e foi atropelado por outro que vinha atrás, e aquilo só piorou a confusão.

    Jorge conseguiu desarmar o homem da lança com um golpe lateral e, sem nem respirar, partiu pra cima de outro que vinha pela esquerda. Mariane finalmente conseguiu cortar o braço do homem da cicatriz, fazendo ele recuar sangrando, mas dois soldados já estavam entrando no lugar dele.

    — Eles não param de chegar! — Renan gritou, já puxando outra flecha.

    Eu avançava, derrubando um soldado depois do outro, quando me dei conta de que todos nós estávamos cercados, o que era a oportunidade perfeita. Em um piscar de olhos, sumi daquele campo de batalha e comecei a procurar por Petrini. Conforme andava pelas casas, percebia olhares me encarando pelas janelas, mas tudo ali estava calmo demais. Foi quando, de repente, em um reflexo, esquivei a cabeça um pouco para o lado, e uma bala passou voando pelo meu rosto, fazendo um pequeno corte. Quando me virei, pude ouvir os passos saindo de um beco próximo.

    — Se perdeu do grupo, malandro? — Petrini avançava, apontando uma pistola com uma energia e grafias amarelas pelo cabo diretamente para mim.

    — Olha, cara, não tô afim de perder tempo, então só se rende que eu te levo e a gente evita todo esse problema — eu disse, enquanto estalava o pescoço e preparava minha lança. — A propósito, e essa entradinha de vilão de desenho? Foi ridículo, cara.

    — Calma aí, parceiro, a vantagem aqui é minha — ele disse, enquanto chegava mais perto, até o momento em que olhou bem no meu rosto. — Calma… não é possível que seja você. O Gui avisou que você poderia aparecer, mas não achei que seria como um cachorro da igreja. Você é realmente um covarde, como ele falou. Mesmo depois do que eles fizeram, decidiu se render? Seu merda!

    No momento em que ouvi aquilo, cerrei meus dentes e mudei meu olhar.

    — Olha, eu sei que seu tipinho é cheio de falar merda, mas segura a língua na boca se não quiser que eu arranque ela — eu disse, enquanto esticava a lança e apontava para ele.

    — AHAHAAHA, toquei na ferida? Olha, até pensei em só te capturar e levar para o Gui, mas acho que ele não reclama se eu levar só seu corpo morto, igual ao da sua amiguinha.

    No momento em que ele disse aquilo, a memória da Ashley voltou à minha mente e quase instintivamente avancei contra ele.

    O primeiro disparo veio direto no meu peito.

    Eu vi o brilho antes do som. O gatilho afundando, o pulso dele firme, o recuo mínimo. Não tinha hesitação. Petrini atirava como quem respira.

    Eu já estava me movendo.

    Minha mão soltou a lança antes mesmo de a bala cruzar metade do caminho. Arremessei a arma na diagonal e, quando ele menos esperava, troquei.

    O mundo virou por um instante. O ar se comprimiu contra meus ouvidos e, no lugar onde eu estava, o disparo atravessou o vazio.

    Reapareci com o pé já tocando o chão, joelho flexionado, corpo inclinado para frente. A lança estava na minha mão no mesmo movimento, completando o giro do arremesso como se nunca tivesse saído dali.

    Ataquei de baixo para cima.

    Petrini inclinou o tronco para trás com uma elasticidade impressionante. A ponta da lâmina cortou o ar a poucos centímetros da garganta dele e abriu um risco fino na base do queixo.

    Ele não recuou.

    Sorriu.

    E atirou duas vezes seguidas.

    A primeira bala eu desviei com o corpo — senti o calor passar pela lateral do meu braço. A segunda eu bloqueei. A lâmina encontrou o projétil no meio do caminho. O impacto vibrou pelo cabo até o meu ombro, espalhando uma onda pesada pelo braço inteiro.

    Ele aproveitou o choque.

    Avançou um passo e girou o quadril para chutar minha perna de apoio.

    Eu puxei o pé para trás no último segundo, girando o corpo junto com o movimento. Usei a rotação para lançar a lança horizontalmente na direção dele.

    Ele ergueu o braço armado para bloquear, mas aquilo era exatamente o que eu queria.

    Soltei a arma no meio do giro.

    Troquei.

    Apareci atrás dele.

    Meu pé tocou o chão antes que o cérebro dele registrasse o vazio à frente. Eu já estava dentro da guarda dele quando ele começou a virar o corpo.

    Empurrei o cotovelo dele para fora e golpeei as costelas com o cabo da lança. Senti o impacto afundar no tecido do colete e arrancar o ar dele por meio segundo.

    Ele reagiu rápido.

    Girou com o próprio movimento e disparou quase à queima-roupa.

    Eu desci o corpo, sentindo o disparo cortar o ar acima da minha cabeça. Apoiei a mão no chão e varri as pernas dele com um giro baixo.

    Petrini perdeu o equilíbrio por um instante — só um.

    Mas era o suficiente.

    Eu arremessei a lança para o alto.

    Ela girou acima de nós, prata cortando a luz.

    Petrini rolou para trás e tentou criar distância, já apontando a arma para mim outra vez.

    Eu esperei.

    No momento em que o disparo saiu, troquei.

    Apareci no ar.

    A gravidade me puxou de volta enquanto eu agarrava a lança no meio do giro. Desci com o peso inteiro concentrado na ponta.

    Ele cruzou os braços, reforçando o antebraço com aquela energia amarelada. A lâmina bateu contra a defesa dele e o impacto explodiu uma onda de choque que levantou poeira e pequenas pedras do chão.

    Nós dois recuamos meio passo.

    Ele respirava pesado agora.

    Eu avancei primeiro.

    Girei a lança em arco amplo, forçando ele a bloquear lateralmente. No instante em que a arma dele se moveu para acompanhar, eu puxei o movimento de volta e empurrei o cabo contra o pulso que segurava a pistola.

    Ouvi o estalo.

    A arma quase caiu.

    Ele tentou recuperar com a outra mão.

    Eu chutei o joelho dele.

    A perna cedeu.

    Sem dar espaço, arremessei a lança atrás dele outra vez.

    Troquei.

    Reapareci com o corpo já girando, aproveitando o próprio impulso da troca. A lâmina atravessou o colete na altura do ombro e rasgou tecido e pele antes que ele conseguisse sair completamente da linha.

    O sangue escorreu escuro contra o uniforme.

    Ele tentou reagir com um soco direto.

    Eu desviei para dentro, não para fora. O punho passou pela minha lateral enquanto meu ombro colidia contra o peito dele.

    Usei o peso do corpo.

    Empurrei.

    Ele tropeçou para trás.

    Eu girei a lança uma última vez, encaixando a ponta na base da garganta dele antes que ele pudesse levantar a arma de novo.

    A respiração dele estava descompassada.

    Ele me olhou de baixo.

    — Vai lá, mostra que você realmente é um cachorro da igreja.

    Uma voz familiar ecoou na minha cabeça.

    — Eu te pedi para matar alguém, se lembra? — A voz era doce, e senti o calor gentil de alguém segurando minhas mãos. — Vamos lá, falta muito pouco. Faça isso e eu poderei te dar meu poder, eu serei sua.

    Senti como se minhas mãos fossem envoltas por mãos macias e que, se eu somente ouvisse a voz, estaria em paz.

    Meus olhos brilharam em um verde, mas algo em mim dizia para não ouvir a voz. No momento em que Petrini percebeu a indecisão, ele puxou algo do bolso: um pequeno anel com o símbolo de uma rosa. No momento em que ele colocou o anel, uma energia enorme saiu do corpo dele, fazendo com que eu fosse arremessado para trás.

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