Capítulo XIV- Peso
— Eu não posso! Eu não posso simplesmente morrer aqui, ainda mais para um traidor desses! O Gui prometeu trazer ele de volta! Eu não vou perder! — Petrini começou a gritar enquanto se levantava, exalando energia.
Do lado dele, um enorme peixe gigante de olhos negros saiu do chão e envolveu seu corpo. Seus dentes eram do tamanho de facas, e os olhos, tão escuros que pareciam vazios. À primeira vista, o corpo da criatura parecia frágil, mas logo foi encoberto por dezenas de pétalas vermelhas, o que a tornou ainda mais ameaçadora.
A arma na mão de Petrini começou a mudar. Cresceu, alongou-se, até se tornar algo parecido com uma magnum negra com detalhes amarelos. No momento em que ele apontou para mim e disparou, quase inconscientemente me joguei para o lado. O tiro abriu um buraco na casa atrás de mim, tão grande quanto uma porta.
Finalmente recobrei a postura e armei minha lança
— Basylisk? Tá aí? É uma boa hora para ajudar… — falei comigo mesmo, tentando chamar a atenção dela.
— Eu te falei para matar ele! Por que não obedeceu? Se eu perder esse receptáculo… você vai ter que agir sozinho, meu pequeno.
— Basylisk?! BASYLISK?! Droga… vou ter que lutar sozinho.
Assim que consegui juntar energia, arremessei minha lança na direção de Petrini, que saiu de trás de seu peixe agora transformado. Seu braço direito estava envolvido por um líquido viscoso que formava um membro muito maior, com músculos que pareciam superar o tamanho do próprio corpo.
Seu olhar havia mudado. Os olhos estavam arregalados demais, e ele parecia pronto para me matar a qualquer instante.
Quando a lança voou em sua direção, ele tentou afastá-la com um tapa. Mas ela atravessou direto seu braço e atingiu o peito. Ele soltou um grito tão alto que parecia anunciar o Apocalipse. Sua voz agora soava como várias ao mesmo tempo.
Petrini limpou o sangue do canto da boca enquanto o líquido viscoso se espalhava pelo braço direito e subia até o ombro. Aquilo não escorria como algo comum; parecia vivo, reorganizando-se sob a pele, formando músculos maiores do que o natural. O metal espalhado pela rua começou a vibrar com um som fino e irritante, como se estivesse sendo chamado.
— Você abandonou todo mundo, Miguel — ele disse, os olhos arregalados demais. — Acha mesmo que merece ficar vivo depois disso?
Minha lança, caída alguns metros atrás, começou a se arrastar pelo chão em direção a ele. Antes que eu reagisse, pedaços de grade e pregos arrancados das casas ao redor se desprenderam das paredes e dispararam na minha direção.
Eu me joguei para o lado no instante exato em que a lança passou rasgando o ar onde minha cabeça estava. Rolei pelo chão e usei o impulso para me levantar enquanto um pedaço de ferro atravessava o espaço que eu ocupava segundos antes. Outro veio na altura do meu peito; girei o corpo e senti o metal raspar na lateral da minha jaqueta.
Petrini fechou o punho e minha própria arma voou até sua mão. Ele a girou como se fosse dele desde sempre.
— Olha pra você… usando o símbolo deles no peito. Você não passa de um cachorro adestrado.
Ele avançou, e o braço coberto pelo líquido cresceu ainda mais, formando uma massa grotesca de músculos pulsantes. O soco que ele lançou contra mim veio pesado demais para ser humano. Eu ergui a lança no último segundo para bloquear. O impacto reverberou pelo cabo, atravessou meu braço e me empurrou para trás vários passos, os pés arrastando na pedra.
O líquido que envolvia o braço dele parecia ter absorvido o choque. Petrini não demonstrava qualquer sinal de dor, como se o golpe tivesse sido apenas um teste.
Aproveitando a abertura, avancei com um corte diagonal mirando a lateral da perna dele. A lâmina atravessou o tecido da calça, mas o líquido se deslocou rapidamente, cobrindo o ferimento antes que o sangue pudesse se espalhar. Ele sorriu como se aquilo tivesse sido irrelevante.
— Fraco. Sempre foi.
Ele abriu a mão e as chapas metálicas de uma barraca próxima se soltaram do teto. As placas vieram girando na minha direção como lâminas improvisadas. Eu mergulhei por baixo da primeira, desviei da segunda por centímetros e usei a própria haste da lança para desviar a terceira, que ricocheteou contra a parede atrás de mim.
O som de um disparo ecoou logo em seguida. A bala vinha envolta por aquela energia amarelada. Inclinei o corpo para dentro do ângulo do tiro, sentindo o calor passar raspando pelo meu rosto. A segunda bala acertou meu ombro de raspão, queimando a pele e quase me fazendo perder o equilíbrio.
Petrini não me deu tempo para respirar. Ele avançou e girou o braço monstruoso horizontalmente. O líquido se alongou como um chicote pesado, tentando me alcançar mesmo depois que eu recuei. Saltei para trás, mas a ponta daquele membro deformado atingiu meu antebraço, lançando-me contra uma parede.
Antes que eu tocasse o chão, ele puxou algo com um gesto brusco. Os estilhaços metálicos das janelas ao redor se desprenderam e dispararam todos de uma vez. Eu troquei de posição no último instante, reaparecendo alguns metros à esquerda, enquanto os pedaços de metal atravessavam o lugar onde eu estaria.
— Você traiu o Santa Mônica. Traiu o Gui. — Ele caminhava na minha direção, sangue escorrendo pelo queixo.
Ele estendeu o braço e o líquido começou a subir, envolvendo parcialmente o próprio torso como se estivesse formando uma armadura. Ao mesmo tempo, senti a lança vibrar nas minhas mãos. Ele tentava arrancá-la de mim à força.
Apertei o cabo com mais firmeza e avancei antes que ele pudesse completar o movimento. Girei o corpo e enfiei a ponta da lâmina na lateral do ombro dele, usando todo o peso do meu corpo. A arma penetrou, mas o líquido se contraiu ao redor da lâmina, prendendo-a como se estivesse tentando engoli-la.
Petrini segurou o cabo da lança com a mão normal e me puxou com brutalidade. Fui arrastado na direção dele e recebi um joelho direto no estômago. O ar abandonou meus pulmões num instante.
Ele me agarrou pelo pescoço e me ergueu alguns centímetros do chão. O líquido escorreu do braço dele para o meu, frio e pegajoso, tentando envolver minha pele.
— Você não merece viver mais do que eu — ele disse, aproximando o rosto do meu.
Com a pouca força que restava, soltei a lança e chutei o joelho dele com tudo. O impacto o fez perder o equilíbrio por um segundo, tempo suficiente para eu me soltar e rolar para trás.
Levantei ofegante. Minha visão começava a falhar, e o sangue escorria pela minha testa, entrando no olho. Petrini permanecia de pé, cercado por fragmentos de metal que orbitavam lentamente ao seu redor. O líquido cobria quase metade do corpo dele agora, pulsando como se tivesse vontade própria.
Ele ergueu a pistola novamente, apontando direto para minha cabeça.
— Acabou, Miguel. Sem igreja. Sem poder emprestado. Só você… e o que você realmente é.
EU não queria perder de novo.
A imagem da Ashley morta. O Matheus se mostrando mais forte que eu. A antiga Sr. Rosa me enganando. Tudo aquilo incendiava dentro de mim.
Eu não precisava do poder de ninguém. Eu não precisava de ajuda.
Lixo.
LIXO.
Era só o que todos eram.
Como eu poderia perder para um merda assim? Como eu poderia cair diante de alguém como ele?
– Eu sou a porra de um ÐƏỤ§.
Minha voz mudou no instante em que falei aquilo. Não era apenas mais grave — era algo distorcido, profundo, como se ecoasse de dentro de um abismo.
Em um movimento me levantei e avancei contra ele.
Meus dedos se curvaram, e usei toda a força do meu corpo para perfurar os olhos dele. Senti a resistência da pele, depois algo cedendo. Ele gritou — um grito cru, desesperado.
Sem parar, avancei ainda mais.
Impulsionei meu corpo para frente e bati minha testa contra a dele com violência. O impacto ecoou seco, e ele urrou mais alto, cambaleando.
O líquido viscoso que envolvia seu braço tentava se agarrar a mim e me asfixiar, mas isso não me impedia— mas era como se não soubesse o que fazer.
“Lixo.”
A palavra se repetia na minha mente, sem parar.
“Lixo. Lixo. Lixo.”
Afundei ainda mais meus dedos. Sentia a carne ceder, rasgar, ser triturada. O som era úmido, grotesco.
Eu não parei.
A última coisa que senti na ponta dos meus dedos foi um líquido diferente. Não era viscoso. Não era denso.
Era apenas água.
Eram lágrimas.
As últimas palavras dele foram um pedido de desculpas para alguém.
Mas eu já não consigo lembrar qual era o nome….

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