Quando comecei a sentir isso?

    Acho que sempre senti. Creio que todo ser humano pensa em coisas do tipo; acontece que alguns passam do limite do desejo e o põem em prática.

    Mesmo assim, sou diferente desses psicopatas maníacos. Eles matam pessoas apenas pelo prazer de matar. São demônios desprezíveis que tiram vidas humanas para seu benefício; isso, sim, é a escória da humanidade. Eu… sou diferente. Eu quero matar, mas… quem eu quero matar é alguém horrível também, então isso me faz melhor do que os outros.

    “Você é diferente…”

    Sim, eu sou diferente, porque, se eu não for diferente, então não existe explicação. Então eu sou só mais um monstro comum. E eu prefiro qualquer inferno a admitir que sou comum.

    Eu não nasci querendo o sangue de alguém aleatório. Não era assim. Eu nunca olhei para uma criança na rua e senti vontade de esmagar o que há de vivo nela. Eu nunca senti prazer na dor de alguém que não me fez nada.

    Eu sempre odiei meu chefe, mas nunca pensei em matá-lo. Quer dizer, quem nunca quis dar um fim no chefe?

    Ele sempre foi desprezível com todos. Uma vez, despediu um senhor na frente de todos, só porque ele sempre se atrasava, já que tinha que levar o filho para a fisioterapia antes do trabalho.

    Se isso já não é suficiente para querer matá-lo, realmente não sei o que seria suficiente.

    Porém, um dia, esse meu desejo foi elevado ao extremo, como se Azazel tivesse implantado toda a ira do mundo em minha cabeça, e, naquele momento, tudo estava direcionado para uma única pessoa.

    Meu chefe.

    Ele tinha que morrer.

    “Você só está fazendo justiça, lembre-se disso.”

    — Isso é apenas justiça.

    Na minha frente estava um homem de rosto quadrado e cabelo que claramente era uma peruca malfeita. Ele estava ajoelhado com uma cara assustada, enquanto lágrimas brotavam de seus olhos. Eu apontava uma arma em sua testa, pronto para estourar seus miolos.

    Onde eu estou? O que estou fazendo? Sinto como se uma parte inteira de minhas memórias tivesse sido apagada, ou como se eu tivesse desmaiado e acordado repentinamente.

    O que está acontecendo?

    “Como pode esquecer do que ele fez? Ele merece coisa pior do que a morte!”

    “Isso é apenas justiça, lembre-se.”
    Agora eu me lembro.

    Quem está ajoelhado na minha frente, clamando por perdão, não é nada mais do que esterco.

    Um velho tão desprezível quanto um rato, que poderia tirar dinheiro de um mendigo; tão ganancioso que poderia rivalizar com demônios.

    Esse homem tinha que morrer.

    “É apenas a justiça agindo.”

    — É apenas a justiça agindo.

    Eu olhei para o diabo à minha frente, sorri e desviei a arma, mirando em outro lugar.

    Um lugar mais… escondido.

    Bang!

    “Nossa… você é realmente cruel.”

    — Isso não é crueldade; é apenas justiça.

    “Hehe… bom garoto.”

    O homem à minha frente não gritou como um humano, nem chorou como um; ele parecia grunhir como um porco medroso. Não sei se ele realmente fez um barulho tão animalesco assim ou se foi coisa da minha cabeça. De qualquer jeito, isso fazia mais sentido.

    Afinal, um porco deveria fazer sons de leitão, não é mesmo?

    Eu fiquei observando-o sangrar por algumas horas, até finalmente empalidecer totalmente e morrer por falta de sangue. Eu não me senti aliviado o suficiente; aquele homem deveria sofrer mais.

    Mas o que eu deveria fazer para ele sofrer mais?

    Algo que o deixaria ainda mais louco quando visse do inferno…

    “Mesmo um demônio ainda valoriza algo, e você sabe o quê.”

    — O quê? Não posso… Isso já é demais.

    Em minhas memórias, eu vi aquele homem sorrir apenas uma vez, quando estava ao lado de uma garotinha de longos cabelos loiros e olhos azuis brilhantes. Na verdade, aquela criança era amada por todos naquela fábrica; mesmo seu pai sendo tão odiado, sua filha era tão pura e dócil que todos a adoravam.

    — Ele não merece isso… é apenas uma criança.

    TRAC!

    — Eu não posso fazer isso…

    “Do que está falando?”

    Não importa o que o pai dessa criança fez; ela não merece ser punida por seus pecados. Ela é um ser diferente de seu progenitor. Não estamos na Bíblia, onde toda a família é punida pelo erro de apenas um familiar.

    “Não tô entendendo…”

    BANG!

    — Hã?

    Na minha frente havia uma garotinha de, no máximo, 7 anos, de longos cabelos loiros e olhos azuis, agora sem vida. Seu braço estava claramente dividido ao meio, como se um elefante tivesse pisado nele, e, em sua testa, havia um buraco de onde escorria sangue.

    — O quê?

    “O quê, o quê?”

    A voz debochou dentro de mim, como se eu fosse um palhaço que esqueceu a própria fala.

    Eu não consegui respirar. Minha garganta fechou, e o ar entrou aos solavancos, como se o peito tivesse desaprendido a função mais básica do corpo. Meus olhos tentaram negar aquilo, escorregar para qualquer canto do cômodo, para o chão, para a parede, para o teto. Para longe.

    Mas tudo ali parecia apontar para a mesma verdade impossível.

    — Eu… eu não… — tentei dizer, e a frase morreu antes de nascer.

    Essa sensação… esse sentimento de déjà vu, de que algo assim já aconteceu comigo antes.

    Essa sensação de que minha mente apagou, mas meu corpo continuou andando.

    “Vamos, ainda não acabou.”

    Essa voz na minha cabeça…

    Não sou eu…

    “Caramba, você percebeu rápido, hein.”

    — Não…

    O que está acontecendo?

    O que é isso na minha cabeça?

    “Sou apenas a sua ira, garoto.”

    — O que você me fez fazer?

    “Do que está falando? Eu não fiz nada demais. Não botei uma arma na sua cabeça e obriguei você a matar.”

    “Apenas ajudei você a fazer o que sempre quis.”

    — Não… não… eu não queria fazer isso… — lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.

    “Ah, você quis. Você desejou isso e sabe disso.”

    Era difícil aceitar, mas é verdade.

    Eu quis matar aquele homem e, no fundo, queria que sofresse muito. Provavelmente desejei… fazer aquilo com ela.

    Mas era apenas um pensamento intrusivo; qualquer um poderia pensar nisso…

    — Eu não posso mais fazer isso… não dá.

    “E quem disse que pode parar?”

    Novamente minha mente apagou, e um novo corpo apareceu à minha frente: agora era um senhor de idade.

    — Não…

    De novo, uma mulher grávida.

    — Não…

    De novo, um jovem com uma bicicleta.

    — Não…

    — Por favor, só para…

    “Parar o quê? Eu não fiz nada.”

    — Por que está usando meu corpo?

    “Não estou usando seu corpo. Apenas retirei suas travas para assistir aos seus desejos sendo realizados de camarote.”

    — O que é você?

    A voz não respondeu de imediato. Ela pausou por um segundo e começou a rir.

    “Em cada lugar que já morei antes, eles me chamam de Rei do Sangue.”

    — — —

    Hoje dia 30/06/1989 Arthur Smith, conhecido como o Carniceiro de Yharnam, foi morto a tiros na madrugada desta sexta-feira durante uma troca de tiros com a polícia, após ser localizado em um galpão na zona industrial.

    Segundo as autoridades, Smith tentou fugir ao perceber a aproximação das viaturas e reagiu à abordagem. O suspeito chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.

    A polícia informou que a investigação segue em andamento para confirmar o número total de vítimas e apurar possíveis conexões com outros crimes na região.

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