Acho que tudo o que acreditei a vida toda nunca passou do que eu poderia ver por detrás destas lentes; em minha mente, só consigo visualizar o que está na minha frente.

    Nós, Homo sapiens, nos sentimos o centro de tudo, acima de tudo e de todos. Acredito que nossa estupidez seja o nosso maior presente, pois, se todos soubessem o que agora eu sei,

    todos estariam queimando ou enlouquecendo.

    Meu nome é Kevin Smith. Estudo Medicina na antiga Universidade Fiskenic, em St. Beaumont, Yharnam.

    Sempre fui um aluno exemplar. Fiz amizades duradouras como a de Harry Carter e participei de projetos que orgulhariam qualquer professor. Desenvolvi, por exemplo, uma pistola de eletricidade capaz de abater qualquer ser vivo com um único disparo em milissegundos de forma indolor.

    Também participei de trabalhos dos quais não me orgulho. Os terríveis experimentos conduzidos por Karl West ainda visitam meus sonhos feito um enxame de moscas.

    No dia 11 de fevereiro de 1976, meu tio Michael Fahery morreu de uma causa rara. Tão rara que não havia registro de um único caso há mais de três anos.

    Combustão Humana Espontânea.

    A medicina trata o fenômeno com ceticismo. Alguns o atribuem a demônios. Outros a punições divinas. Os mais racionais defendem o chamado “efeito pavio”: um cigarro aceso, tecidos inflamáveis, um descuido fatal.

    Até poucas semanas atrás, eu concordava com os céticos. Para mim, eram suicídios, acidentes ou crimes cuidadosamente ocultos. Contudo, agora tenho uma resposta definitiva para isso e descobri graças a meu tio.

    Anjos.

    Quando pensamos em anjos, a primeira imagem que nos vem à mente é a de crianças de bochechas rosadas, auréolas na cabeça e asas celestiais. Mas não. Eles não se parecem nem um pouco com isso, pode acreditar. Na verdade, vemos um anjo todos os dias, ainda que apenas na forma que nossa mente é capaz de suportar sem derreter.

    Eu era o parente mais próximo de meu tio, fui eu quem recebeu sua herança. Ele não tinha muita coisa de valor além de um Elgin dos anos 60. Para mim, porém, o que realmente importava em tudo que deixava era sua pesquisa sobre o espaço.

    Meu tio era um fanático pelo cosmos. Não no sentido romântico, e sim no sentido obsessivo. Passou anos estudando sistemas estelares, planetas, mapas celestes e corpos que ele jurava não constarem em catálogo algum, sempre movido pela mesma convicção incômoda: a de que os maiores segredos da história não estavam sob a terra, porém acima dela.

    No momento em que as caixas com os pertences de meu tio finalmente chegaram à minha casa, não desperdicei tempo com o luto. Eu mal conhecia Michael Fahery; não éramos próximos, e sua morte, embora trágica, não me atingiu com força suficiente para me desestabilizar.

    Decidi que a melhor forma de honrar seu nome seria através do que ele realmente deixou para trás: seus artigos acredito que isso seja o certo.

    Antes mesmo de mergulhar nesses artigos, algo inesperado capturou minha atenção: o diário de meu tio. Segundo os legistas, aquele caderno de capa preta foi encontrado em seu bolso no momento da perícia. Isso, por si só, já era estranho. Michael Fahery foi queimado até quase virar cinzas; ainda assim, o diário permaneceu completamente intacto.

    Achei aquilo tão incomum que decidi ler ao menos algumas páginas. Pensei que meu tio talvez tivesse sido assassinado; que o assassino o queimou vivo e, depois, colocaram o diário em seu bolso para fabricar falsas pistas. Meu instinto de detetive, cuja existência eu desconhecia até então, despertou de súbito e me obrigou a abrir aquele caderno.

    Esperei encontrar anotações banais: datas, cálculos, nomes de estrelas, talvez delírios de um homem que passara tempo demais sozinho, tentava arrancar respostas do céu. O que encontrei, porém, foi algo muito pior.


    11 de fevereiro de 1976

    Sinto que já enlouqueci desde que os contemplei. Fui olhado de volta e agraciado com algo perigoso: o conhecimento. Com ele, veio o discernimento de muitas coisas e, como consequência, a visão de outras que os olhos humanos não suportam sem que a mente se debruce, lenta e irremediavelmente, sobre um abismo de loucura.

    Tudo começou assim que mergulhei numa depressão profunda. Passei anos estudando o espaço, sondava com os olhos e com cálculos cada porção que me era possível alcançar, e ainda assim nada encontrei que me saciasse. Quanto mais eu via, menos compreendia. Quanto mais compreendia, maior se tornava a fome.

    Certa noite, enquanto bebia gim à velha mesa de um bar próximo à universidade, um velho sentou-se ao meu lado e começou a falar. A princípio, não lhe dei atenção. Presumi que quisesse apenas que eu lhe pagasse uma bebida. Ainda assim, havia algo em sua voz, ou talvez na calma absurda com que mentia, que me prendeu.

    Contou-me histórias absurdas demais para terem nascido da embriaguez comum: um cacto de carne que respondia perguntas apagando conceitos da existência; e um rei de um povo invisível, condenado a enxergar apenas a própria solidão.

    Nada disso, porém, me perturbou tanto quanto a menção a uma espécie alienígena de seres feitos de pura luz, a quem ele chamou de anjos.

    Segundo o velho, anjos não eram seres alados, contudo criaturas de pura luz. Um exército criado por algo muito além da compreensão humana, destinado a guardar alguma coisa contra forças vindas de fora do universo.

    Perguntei-lhe, então, o que poderia existir fora do universo, já que, por definição, tudo o que existe deveria estar contido nele.

    Ele riu:

    — Nossa capacidade cerebral é incapaz de processar qualquer coisa além do universo sem virar sopa de massa cinzenta. Todavia, se deseja saber um pouco mais, vá ao topo da Montanha Hemwick. Algo divino morreu lá, há muito tempo, e desde então aquele lugar concede aos que o alcançam uma visão que o homem não deveria possuir.

    Depois disso, conversamos mais um pouco. Lembro-me do cheiro do gim, da madeira úmida, da fumaça. Lembro-me da mão dele, manchada de tinta preta, pousada sobre a mesa. Lembro-me de piscar.

    No momento em que abri os olhos, o velho havia sumido.

    De início pensei que ele tivesse roubado algo. Apalpei os bolsos, verifiquei a carteira, o relógio, os papéis. Tudo estava onde deveria. Tudo, exceto um pequeno pedaço de papel, com uma coordenada escrita à mão.

    Alguns dias depois, eu me vi escalando a Montanha Hemwick.

    E foi ali que o susto verdadeiro veio.

    Não por causa da altura, nem do frio, nem da névoa grossa que tornava as pedras escorregadias. O susto veio porque eu não conseguia me lembrar de ter decidido ir até lá.

    Parecia que os últimos dias foram arrancados da minha memória, deixando apenas o resultado.

    Escalei a grande Montanha Hemwick até seu topo. O ar ali era rarefeito, hostil aos pulmões. Ainda hoje não compreendo porquê não tombei morto no meio da subida, vencido pelo cansaço ou pela falta de ar. Havia em mim uma força que não reconheço como minha, algo que me impelia para cima com uma insistência quase cruel.

    Assim que alcancei o topo da grande Montanha Hemwick, encontrei algo que não deveria existir ali: uma plataforma de madeira, estranhamente estável, parecia ter sido montado a poucos dias. Não havia nela o desgaste de séculos, nem a podridão que se espera da chuva e do vento.

    No centro dessa plataforma erguia-se um instrumento apoiado sobre três pernas finas de madeira. Um tubo comprido, forrado de lentes, voltado para o céu.

    Sim, era um telescópio.

    Contudo, porque haveria um telescópio no topo de uma montanha? Quem o pôs ali? Foi aquele velho? Se não foi ele, seria alguém que o colocou séculos atrás? Mas como isso seria possível, se essa tecnologia só foi criada no século XVII e vendida décadas depois?

    Essas e muitas outras perguntas encheram minha cabeça; contudo, sei que nunca saberei as respostas.

    O universo que vi não era o mesmo que aprendemos a nomear.

    As cores eram mais vivas do que qualquer palavra permitia. Vi galáxias que nenhum astrônomo registrara, buracos negros que devoravam o espaço ao redor feito bocas abertas na carne da realidade, nebulosas de uma beleza colossal, povoadas por sistemas inteiros, tão singulares e maravilhosos quanto qualquer planeta que dediquei anos a estudar.

    Porém as estrelas…

    As estrelas estavam erradas.

    Foi nesse momento que senti meus olhos arderem, como se a própria visão me queimasse por dentro. Ainda assim, não consegui desviar. Havia naquela cena uma grandeza tão sublime quanto intolerável.

    Em cada estrela, vi uma forma.

    Não uma chama. Não um astro.

    Rodas imensas, uma dentro da outra, girando em silêncio, cravejadas de olhos. Olhos humanos, olhos de aves, de anfíbios, de felinos, olhos de criaturas que jamais vi e, ainda assim, reconheci com um terror primitivo.

    Essas rodas orbitavam um cérebro dourado, vasto, fulgurante. Seus neurônios faiscavam feito raios de sol azulados e dourados, e havia neles uma impressão de inteligência tão completa que a palavra “conhecimento” se tornava pobre.

    Aqueles olhos moviam com precisão impossível, examinavam cada centímetro do universo por um propósito que jamais serei capaz de compreender.

    Porém, em determinado momento, eles pararam e se moveram em uníssono para um única coordenada no universo, examinando um velho imbecil em uma galáxia distante.

    Senti meu cérebro liquefazer-se enquanto era estudado por aquelas entidades cósmicas. Parecia estar diante de um tribunal impossível, composto por inúmeras inteligências ao mesmo tempo.

    Elas percorriam cada milissegundo da minha existência, avaliava cada pensamento, cada gesto, cada erro miserável decidindo, com frieza absoluta, se eu merecia continuar existindo.

    Logo que consegui afastar-me da lente, minha mente extinguiu-se semelhante a uma lamparina sem óleo.

    Quando despertei, já estava neste quarto de hotel, onde agora escrevo estas linhas. Minha pele arde com um calor feroz.

    Em meu peito sinto uma faísca. Pequena. Quase imperceptível.

    No entanto temo, com um pavor que mal consigo expressar, que essa faísca cresça um dia… até tornar-se uma chama capaz de reduzir-me a cinzas.


    Assim que terminei de ler, senti a mente estalar dentro do crânio. Entendi, enfim, por que meu tio queimou vivo. Entendi também mistérios demais, mais do que um homem deveria suportar sem pagar um preço.

    Fechei portas e janelas, tapei com fitas escuras cada fresta por onde pudesse entrar luz do sol. A simples ideia daquelas criaturas celestiais, mesmo sem vê-las diretamente, bastou para me encher de um terror que não encontro palavras para descrever.

    Passei dias trancado em casa, sem tocar a luz do mundo. Enfraquece-me depressa há momentos em que me sinto tão quebradiço que o empurrão de uma criança bastaria para me pôr no chão.

    Ainda assim, não sairei.

    Não.

    Eles me observam. Tenho certeza. Aquelas criaturas de pura luz me vigiam do cosmos. Não serei tolo como meu tio. Não tornarei a observá-las. Se for necessário, passarei o resto da vida neste apartamento velho, cercado de sombra, semelhante a um rato num porão.

    Ainda assim, sinto que, a qualquer momento, eles encontrarão uma fresta. Não importa o que eu faça. Mais cedo ou mais tarde, virão.

    O que farei?

    Não importa.

    Se alguma luz se aproximar, minha pistola de eletricidade bastará para pôr fim a isto.

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