Podridão Pálida

Sou professor de biologia na Universidade Fiskenic. Passei toda a minha vida tentando compreender os mecanismos do nosso mundo. Acreditava piamente que toda criatura do planeta estava inserida em um equilíbrio perfeito, um ciclo natural de morte e renascimento.
Mas o cosmos não se importa com as nossas regras.
Um meteorito caiu nos arredores da floresta Ulthar. A maior parte dos residentes da universidade não achou nada incomum. Contudo, este era diferente. Quando os cientistas o investigaram, descobriram algo impossível.
Vida. Encontraram algo vivo nele. Pela primeira vez na história humana, a vida fora da terra deixou de ser teoria e tornou-se fato.
Nos primeiros dias, a comunidade científica mergulhou no caos. Respeitados homens da ciência comportavam-se feito crianças diante de um brinquedo novo.
Todos queriam um exemplar dessa forma alienígena para realizar os mais diversos estudos. Felizmente, os diretores da universidade tomaram toda a forma de vida para si, permitindo que apenas seus cientistas realizassem pesquisas.
Fui, para meu infortúnio disfarçado de privilégio, um dos poucos a contemplar tal entidade.
À medida que me aproximava do ponto de impacto, notei as primeiras alterações: a terra empalidecia, adquirindo um tom doentio e quase cadavérico.
As árvores surgiam carbonizadas. O chão, coberto por folhas mortas, rangia sob meus passos, enquanto os arbustos se reduziam a esqueletos vegetais, cinzentos e quebradiços. Então, de forma lenta e inquietante, uma coloração lívida começava a se expandir pelas plantas.
Estruturas fúngicas emanavam esporos esbranquiçados que tornavam o ar denso e opressivo, parecia que uma névoa estava lentamente se formando, pronta para invadir os pulmões de qualquer infeliz que ousasse respirar.
Mas não era apenas o cenário que se corrompia. A vida também estava sendo infectada.
À medida que avançava, comecei a notar os primeiros sinais nos pequenos habitantes da região. Pássaros pousavam com movimentos rígidos, seus corpos adornados por excrescências fúngicas que brotavam de suas costas.
Esquilos rastejavam pelo solo, sem a agilidade natural de sua espécie, mas em movimentos erráticos, quase mecânicos; de suas peles rompiam dedos opalinos e pulsantes.
E então, por fim, eu o vi.
O meteorito era uma amálgama pálido e poroso, um organismo colossal que se contraía e se expandia parecido com um coração.
Aqueles apêndices hediondos cobertos por uma resina pestilenta, moviam-se com uma intenção indecifrável. Perguntei-me: Como algo assim poderia existir?
Se tal coisa é possível, então as criaturas descritas pelo insano Bartholomeu, em seu terrível manuscrito, deixam de ser delírio e passam a possuir lugar legítimo na realidade.
Após alguns minutos paralisado pelo horror, obriguei-me a ordenar meus pensamentos. Como um dos biólogos mais experientes da equipe, iniciei o processo de catalogação nomeando, descrevendo e classificando.
Mas meu corpo traía cada tentativa de lucidez.
Meus dedos tremiam incessantemente, tornando a escrita irregular; minha visão turvava-se em intervalos imprevisíveis; e minha narina ardia intensamente, castigada pelos esporos que inalava.
Abandonei qualquer pretensão de compreensão imediata para preservar minha mente e voltei a realizar inúmeros testes. Se não pudéssemos compreendê-lo, ao menos poderíamos testar seus limites.
Formulei hipóteses simples: como reagiria ao contato com fungos terrestres? Haveria competição? Destruição mútua?
Iniciei o experimento acreditando que já havia testemunhado o limite daquilo que minha mente poderia suportar.
Imaginei que o fungo que havia trazido seria rapidamente destruído, dissolvido ou consumido, mas o que ocorreu foi indescritivelmente pior.
O Fungo foi substituído.
A coloração do fungo terrestre começou a empalidecer gradualmente, sua própria identidade estava sendo drenada. Suas estruturas microscópicas tornaram-se instáveis, imprecisas até desaparecerem por completo.
Em seu lugar, emergiu algo novo, uma nova coloração cadavérica começou a surgir.
Esse amálgama desbotado não se limita a infectar organismos, alterando suas funções e comportamentos. Ele reestrutura-os a seu bel prazer.
Organismos biologicamente semelhantes não são apenas dominados, são transformados em extensões dele próprio.
Foi então que um pensamento se impôs, contra minha vontade:
E se aquilo não estivesse apenas parasitando a vida, mas remodelando todo o ecossistema para refletir sua própria estrutura?
A simples concepção dessa ideia quase me destruiu.
Por alguns instantes, minhas faculdades cederam completamente, como se minha mente tivesse alcançado um limite que jamais deveria ter sido tocado. Senti-me à beira de abandonar tudo, de me enclausurar no mais profundo dos quartos da Casa de Sunflower.
Mas nem mesmo essa hipótese me preparava para o que veio em seguida.
Naquele instante, eu olhava para Harry Carter, um dos astrofísicos mais brilhantes que já conheci. Um homem cuja compreensão do universo beirava o incompreensível, alguém que, em outras circunstâncias, talvez tivesse mudado o destino da humanidade.
Claro se ele não tivesse sido infectado por esse ser nefasto.
De seu olho esquerdo emergia um horripilante fungo opalino, exalando esporos doentios que tornavam sua pele escura em um tom doentio. Ele me observava, confuso, incapaz de compreender a razão do horror estampado em meu rosto.
Instintivamente, apalpei meu próprio olho, temendo ter o mesmo destino que ele. Carter, repetiu o gesto; porém, ao fazê-lo, sua confusão foi substituída por um terror quase animalesco.
Ele suplicava para que retirássemos aquele tumor de seu olho. Eu e meus colegas estávamos petrificados, olhando para ele, o que intensificou ainda mais sua agonia.
Em um ato de desespero, ele pegou um bisturi usado para dissecação e o enfiou em seu próprio olho, cortando parte do fungo; contudo, ele não estava preso superficialmente mas estava profundamente enraizado.
Finalmente, alguém teve coragem e começou a imobilizar Carter, o que incentivou os outros a fazer o mesmo. Logo, ele foi posto em uma cama de ferro hospitalar. Ele ainda se debatia, mesmo estando amarrado; seu terror parecia não ter fim. Por conta disso, não tivemos escolha a não ser dar um desfecho em seu sofrimento.
Foi então que comecei a dissecá-lo. Comecei abrindo seu olho, e, mesmo após retirar o fungo, aquela massa esbranquiçada, semelhante a um tumor, parecia já ter tomado todo o corpo do pobre Carter. Todo o seu interior estava esbranquiçado; seu cérebro era inteiramente composto daquela matéria fétida, e o mesmo ocorria com seu coração e outros órgãos vitais.
Foi nesse momento que minha hipótese se mostrou uma terrível verdade: aquela criatura não apenas infectava outros corpos e controlava seu comportamento, mas também remodelava suas células para torná-los mais próximos daquele ser apodrecido.
Dias após esse incidente, novos casos começaram a surgir.
Se Carter ainda preservava fragmentos de sua humanidade, os novos infectados não demonstravam qualquer vestígio dela. Seus comportamentos eram erráticos e grotescos. Todos guiados por uma única intenção aparente: propagar a infecção.
Presenciei um deles avançar sobre Madeline White. Ele a imobilizou e, inclinando-se sobre ela, regurgitou um líquido leitoso e pútrido diretamente em sua boca, transformando a pobre mulher em uma nova espécie de infectada, desta vez sem o fungo aparente, mas completamente interna.
Mas, mesmo diante de tudo aquilo… mesmo após testemunhar a degradação de Carter, a transformação de Madeline e a completa perda de qualquer traço humano nos infectados, algo ainda conseguiu me assustar mais do que todos eles.
O chiado do rádio, algo que há muitos dias já não ouvíamos, retornou. Contudo, o que veio em seguida foi suficiente para romper o que restava da minha sanidade.
“Senhoras e senhores… minhas próximas palavras podem ser difíceis de digerir. Eu mesmo ainda não consigo acreditar. Ainda assim, devo informá-los: novos meteoritos caíram na Terra. Todos apresentam as mesmas características de Palidukardia.”
O silêncio que se seguiu foi tão aterrador quanto a notícia recém-ouvida. Creio que todos nós ficamos mais brancos do que o fungo que tanto temíamos.
Agora, cá estou, registrando este relato trágico, enquanto os dedos de minhas mãos tornam-se cada vez mais lívidos.
Acho que farei o que meu grande amigo Kevin Smith fez há alguns anos… farei isso antes que minha mente também se torne pálida.

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